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Por muito que o Ministério da Educação queira que todas as aulas sejam presenciais, como tem insistido o ministro Tiago Brandão Rodrigues, os diretores têm de fazer opções

AFP via Getty Images

Por muito que o Ministério da Educação queira que todas as aulas sejam presenciais, como tem insistido o ministro Tiago Brandão Rodrigues, os diretores têm de fazer opções

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Cores no chão, cadeiras numeradas e muitas bolhas e turnos. É assim que as escolas vão viver no mundo Covid /premium

Há aulas presenciais e à distância, horários concentrados de manhã e professores atrás de acrílicos. Maioria das mudanças são para os mais velhos e o mais difícil será evitar contágios nas cantinas.

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Há uma linha vermelha no chão da qual o professor não se pode desviar. É ela que lhe diz por onde pode entrar na sala de aula e para onde deve seguir, e que lhe garante que, depois de chegar à sua secretária, está sempre a dois metros de distância dos alunos. A máscara tem de estar sempre posta. Não há exceções. Por saber o quanto é importante para os estudantes ver a expressão de quem os ensina — e o quão cansativo é andar sempre de máscara — Barbara Lancastre, CEO da Park International School, tinha uma outra ideia, mas que não foi aceite pela Direção Geral de Saúde.

“Cheguei a pensar em construir uma espécie de casinha de acrílico para o professor, mas não permitiram. Tudo o que foi feito foi com o conhecimento e a colaboração do delegado de saúde da Amadora e depende muito do delegado que está a trabalhar connosco aceitar ou não certas soluções”, conta a responsável da escola internacional, com dois colégios em Lisboa, um em Alfragide e outro em Cascais. E porque não desiste da importância de o sorriso do professor estar à vista dos alunos, agora anda à procura de máscaras transparentes (com a devida certificação) vindas dos Estados Unidos.

Se a casinha de acrílico não foi aceite, há outras soluções com o mesmo material que estão a ser usadas em várias escolas do país para evitar que o vírus da Covid-19 leve ao encerramento total dos estabelecimentos de ensino se houver contágios. António Costa deixou o aviso na rentrée do PS: o início de aulas não será como o último período do ano letivo passado. “As escolas não podem encerrar todas, nem podemos ter o nível de ensino à distância que tivemos no ano passado.”

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Os diretores têm isso em mente e o acrílico é uma ajuda. Na Escola Artística de Música do Conservatório Nacional, onde haverá turnos para a orquestra, há uma barreira que separa professor e aluno nas aulas individuais de instrumento. Na Marinha Grande Poente, onde a temperatura será medida à entrada das escolas, o acrílico divide carteiras a meio. As soluções seguem as orientações já conhecidas, mas, de escola para escola, variam muito, apesar de haver uma base comum: salas sempre para a mesma turma, máscaras, distanciamento. Em Sintra, no Colégio de São José, até os alunos do 1.º ciclo serão encorajados a usar proteção individual, mesmo que não haja uma diretriz vinculativa para os mais novos.

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Há também agrupamentos que cortaram na oferta de escola para compactar horários, como acontece em Faro, há quem avance já para os sistemas mistos, como no agrupamento Carlos da Maia, e um pouco por todo o país há uma grande aposta nos turnos e horários desfasados, para evitar que os alunos se encontrem todos ao mesmo tempo nos recreios, na cantina ou até mesmo à entrada da escola. Em Alcanena, o sentimento de pertença à turma vai ser trabalhado, já que, mais do que nunca, os alunos estarão confinados aos colegas de sala. De resto, é nos refeitórios, quando todos estarão sem máscara, que os diretores ouvidos pelo Observador sabem que haverá mais hipótese de contágios.

Todas estas inovações afetam especialmente os mais velhos. Para os alunos do 1.º ciclo e do pré-escolar pouco ou nada irá mudar, como o ministro da Educação pediu que acontecesse. Os diretores sabem que, se as escolas não tivessem oferta e as portas abrissem em horário reduzido, muitos pais ficariam sem soluções e impedidos de ir trabalhar.

epaselect epa08600706 Children stand in their social distancing squares after arriving at school while wearing protective clothing in the form of masks and face shields as part of their safety due to the Covid-19 coronavirus pandemic, in Johannesburg, South Africa, 13 August 2020. The Street Light School primary school in downtown Johannesburg has continued to operate during the pandemic with care of the students and strict preventive measures at the school including feet and hand sterilization, compulsory face masks and shields and sterilization of all surfaces in the school. The school has been build almost entirely from reusable materials.  EPA/KIM LUDBROOK

Percursos desenhados no chão são uma solução seguida por várias escolas. Nos colégios Park International, até os professores têm as suas linhas vermelhas

KIM LUDBROOK/EPA

Os híbridos. Aulas na escola, aulas em casa (se houver computadores)

Por muito que o Ministério da Educação queira que todas as aulas sejam presenciais, como tem insistido o ministro Tiago Brandão Rodrigues, os diretores têm de fazer opções. Quando espaço e professores não chegam, algo tem de ser sacrificado. No Agrupamento de Escolas Manuel da Maia, em Lisboa, a decisão está tomada: uma parte das aulas será dada à distância a partir de 14 de setembro, primeiro dia do ano letivo.

“Vamos ter um sistema misto”, explica o diretor Luís Mocho. “Os alunos, a partir do 5.º ano, vão ter 80% das aulas presenciais e as que sobram serão em casa.”

No seu agrupamento, que não tem ensino secundário, as mudanças serão sentidas na escola sede. Nas restantes três, escolas básicas com jardim de infância, tudo ficará na mesma. “Os alunos do 1.º ciclo e do ensino pré-escolar têm menos autonomia e não podem ficar sozinhos enquanto os pais vão trabalhar. Se não mantivesse os horários iguais, teria de aumentar as horas de CAF (componente de apoio à família) e acabava por dar no mesmo”, esclarece.

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Nas escolas públicas, os serviços de CAF garantem que os alunos estão acompanhados antes do início e após o término das aulas, cumprindo a lógica de escola a tempo inteiro. Embora existam diferenças de agrupamento para agrupamento, grosso modo as portas estão abertas das 8h00 às 19h00.

Na Manuel da Maia, para além do sistema misto, Luís Mocho também teve de criar turnos. “A maioria das turmas têm aulas só de manhã e saem às 13h15. Nesse caso, as disciplinas que teriam à tarde serão dadas à distância. Nas turmas que vêm só à tarde, é ao contrário.” A forma de lecionar essa parte do currículo é que ainda não é absolutamente clara, explica.

“Poderão ser aulas síncronas, mas vai depender de muita coisa, por exemplo, das condições que a turma tiver para estar online e daquilo que o Ministério da Educação der aos alunos em termos de equipamento informático”, detalha o diretor. O primeiro-ministro prometeu, na altura em o ensino presencial estava vedado, computadores e acesso à internet para todos os alunos no início deste ano letivo. A promessa, que não irá ser cumprida, acabaria por ser refeita, com novos contornos e muitas limitações.

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Também no Colégio de São José — Ramalhão o ano começa com algum ensino à distância. “Apesar de globalmente ter corrido de uma forma positiva, a experiência do ano passado mostrou-nos que manter o ensino à distância como única solução é empobrecedor”, sublinha o diretor Miguel Abranches Pinto que reconhece que teve alunos que até melhoraram as suas aprendizagens durante a quarentena.

“Quando olhamos para os horários temos sempre limitações e sabemos que os alunos já passam demasiado tempo na escola. O que vamos fazer é criar condições para que algumas disciplinas de enriquecimento curricular possam ser assistidas a partir de casa”, conta. Um dos exemplos é Latim, que fazia parte do currículo da escola católica de Sintra e que agora sofrerá uma “transformação digital”, estando previsto que em cada período letivo haja uma semana de aulas presenciais no colégio.

Cortar nos intervalos? Não, obrigado

Fazer caber o Rossio na Rua da Betesga é um problema para os diretores. Se os horários são, todos os anos, um puzzle difícil de encaixar, este ano tudo se complica, até porque é preciso garantir que as turmas têm aulas sempre na mesma sala. Assim, não há soluções ótimas, e algumas são mesmo más. Cesário Silva, diretor do agrupamento de Escolas Marinha Grande Poente, recusa a ideia de cortar nos intervalos para conseguir ter os alunos menos tempo na escola.

“Sou muito avesso a não dar intervalos. Com isso transforma-se a escola numa prisão, e cerceia a nossa capacidade de pensar. Acabar com o espaço de intervalo, um momento que os alunos precisam para descansar, é retirar a essência da aula seguinte que se tornaria numa súmula de intervalos, com alunos pouco concentrados a pedir para ir à casa de banho ou a precisar de beber água”, defende o diretor, sublinhando a importância de os estudantes fazerem pausas entre as matérias. No seu agrupamento, há 11 estabelecimentos de ensino, com oferta do jardim de infância ao secundário, o que obrigou a pensar em soluções diferentes.

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Tal como no agrupamento Manuel da Maia, também na Marinha Grande Poente, os alunos da educação pré-escolar e do 1.º ciclo não vão sentir muitas diferenças. “Não mexemos nas horas de início e do fim, só desencontrámos as horas de refeição e os intervalos. Para os mais novos, tivemos uma grande preocupação de manter o apoio às famílias que precisam de ir trabalhar e dependem, nesse aspecto, das escolas”, explica.

Para os alunos do 2.º ciclo, Cesário Silva concentrou as aulas ou de manhã ou de tarde, solução decalcada para o 3.º ciclo e o secundário. Apesar de fazer o impossível, não conseguiu milagres. “Não é possível encaixar a mancha horária só de manhã ou só de tarde, e os alunos acabam sempre por ter de vir duas tardes à escola. A solução foi pôr nestes dias as aulas de natureza mais específica como as expressões — visual, tecnológica e física.”

Assim, de manhã têm as turmas de 5.º, 7.º, 9.º e 11.º ano. À tarde, 6.º, 7.º, 8.º e 12.º ano. A hora de entrada de cada turno é a mesma, já que os alunos chegam nos mesmos transportes públicos, diz o diretor. Atrasar a entrada de uns, serviria apenas para que ficassem à porta da escola, à espera para entrar.

"Sou muito avesso a não dar intervalos. Com isso transforma-se a escola numa prisão, e cerceia a nossa capacidade de pensar. Acabar com o espaço de intervalo, um momento que os alunos precisam para descansar, é retirar a essência da aula seguinte que se tornaria numa súmula de intervalos, com alunos a pedir para ir à casa banho, a precisar de beber água e pouco concentrados”. 
Cesário Silva, diretor do agrupamento de escolas de Marinha Grande Poente

Ainda assim, Cesário Silva acabou a fazer coisas que normalmente seriam impensáveis como pôr uma turma a ter seis tempos seguidos de manhã, das 8h30 às 13h20. Cortar qualquer tipo de oferta está para já fora de questão. “Tomamos como norma que o presencial é mesmo presencial e o currículo é tal e qual o que era. De outra forma, estávamos a entrar num regime misto. Se isso for necessário, temos a máquina pronta para fazê-lo”, conta.

Quanto às salas de aula, num agrupamento que há muito tinha adotado formas de trabalho colaborativas com mesas em ilhas, voltou tudo “a estar sentado como nos autocarros”, ironiza Cesário Silva. Para os alunos do secundário, com carteiras individuais, consegue garantir uma distância de cerca de um metro entre o ponto médio de cada mesa. “Do 5.º ao 8.º ano estamos a adaptar o mobiliário e a criar divisórias de acrílico.” Quem paga? A escola, claro.

No Conservatório, há uma barreira (quase) invisível entre alunos e professores

O delegado de saúde andou com Lilian Kopke a ver a parte que lhe cabe gerir na Escola Secundária Marquês de Pombal. São ali, em Lisboa, as instalações provisórias da Escola Artística de Música do Conservatório Nacional, de que é diretora, e as classes de conjunto — como o coro e a orquestra — obrigaram a mudanças de peso.

“Felizmente tudo teve luz verde”, conta. “Temos um ensino muito específico e acabamos por ter de criar as nossas próprias regras para que estar na escola seja o mais seguro possível.” As Orientações para a organização do ano letivo da DGEste são generalista q.b., mais ainda quando se trata da formação de músicos profissionais.

Nas aulas teóricas, o Conservatório não tem mais do que 20 alunos por sala o que facilita a manutenção do distanciamento social. Já nas aulas individuais, como acontece com as de instrumento, há soluções diferentes conforme o que está a ser estudado.

“Construímos 30 painéis de acrílico para separar o aluno do professor. Os adultos usam máscara e viseira, mas no caso dos alunos depende do instrumento. Se os de cordas podem usar máscaras, os cantores, ou quem toca instrumentos de sopro, já não podem. E aí, há as barreiras de acrílico para evitar contágios”, explica Lilian Kopke.

Para os coros e orquestras também há novas soluções. “Não podemos ter 60 pessoas numa sala, então vamos trabalhar por naipes, pelo menos durante este primeiro trimestre. Para além disso, vamos tentar reuni-los a todos, num espaço aberto. O som não fica bom, mas mantém-se a experiência. Também já pedimos licença à escola para poder usar o ginásio”, conta a diretora.

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Manter os alunos sempre na mesma sala e garantir o maior distanciamento entre carteiras são medidas comuns a todas as escolas

AFP via Getty Images

As obras a estudar também irão sofrer alterações. “Em vez de trabalhar uma sinfonia de Mozart, vamos antes para um octeto de Handel que só tem oito músicos. Se vamos trabalhar por turnos, temos de trabalhar coisas específicas e que façam sentido quando estamos só com um naipe de sopro, por exemplo”, clarifica Lilian Kopke.

Para garanti-lo, a diretora da escola não teve de contratar mais professores. “A orquestra tem quatro tempos, um deles para ensaio de naipe, e o professor terá de dividir esses quatro tempos pelos diferentes alunos.”

Só com corte e costura se consegue criar turnos

Em Faro, Francisco Soares garante que no agrupamento de Escolas Pinheiro e Rosa tem tudo em número suficiente para recomeçar as aulas em segurança e cumprir “escrupulosamente” as regras da DGS: “Professores, assistentes operacionais e salas” e a promessa da câmara municipal de reforçar o número de funcionários.

“Temos um plano de contingência para tudo o que podemos prever que possa acontecer durante o ano letivo: um infetado, vários infetados… E temos medidas específicas para cada uma das nove escolas do agrupamento que vão do pré-escolar ao secundário, da escola urbana à escola rural”, conta o diretor. Fundamental, diz, é agir com prontidão, já que acredita que foi essa mesma prontidão que o impediu de ter um surto generalizado entre mãos quando em junho surgiu o primeiro caso na secundária, numa das funcionárias.

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No agrupamento que dirige, optou por criar turnos e cortar alguma oferta educativa para conseguir ter as turmas ou só de manhã ou só à tarde nas escolas. “O 2.º ciclo vem de manhã, o 3.º ciclo à tarde. O secundário tem aulas de manhã e o ensino profissional preferencialmente à tarde.” Para conseguir concentrar a mancha horário, o currículo emagreceu. “Há oferta de escola que suprimimos. O serviço educativo que não é central desapareceu”, explica.

Para o 1.º ciclo, a decisão tomada é semelhante à dos outros diretores ouvidos pelo Observador.  “No 1.º ciclo não há turnos porque os alunos têm autonomia reduzida e os pais não têm onde os deixar quando vão trabalhar. Temos de pensar na escola como estando integrada numa sociedade”, diz, para justificar a decisão. Nas escolas Pinheiro e Rosa, para os mais novos a aposta é nas medidas de distanciamento na sala de aula, no desfasamento de horários de entrada e de saída, dos intervalos e no refeitório.

“Está tudo feito e pronto para começar o ano letivo. Penso que o maior ganho para a segurança são os turnos. Se somarmos as máscaras e o desinfetante, a escola passa a ser o lugar mais seguro para as crianças. O maior risco de contágio será quando não usam a máscara, o que só acontece na cantina”, defende Francisco Soares. Também para esse problema, os turnos são solução: a maioria dos estudantes ou vai almoçar a casa ou chega à escola já almoçado.

Cantinas, o sítio mais desejável para o vírus

Nos colégios da Park International School, também os refeitórios deram algumas dores de cabeça a Barbara Lancastre. “É o sítio mais difícil de evitar contágios, porque é onde todos tiram a máscara. A solução que encontramos, sempre discutida com o delegado de saúde, permite-nos conseguir saber, se houver um infetado, quem estava mais próximo de quem.” Como? Com um circuito fechado de lugares numerados.

O espaço está organizado com uma cadeira de distância entre cada pessoa. Os lugares estão marcados e há um plano de assentos em que cada cadeira corresponde a um número. “Cada aluno e cada adulto sentam-se sempre no mesmo sítio, ou seja, se o meu número for o 5 é sempre nessa cadeira marcada que me vou sentar”, explica Barbara Lancastre. A vantagem é que é fácil olhar para o mapa e ver quem está mais próximo de quem em caso de infeção.

No Ramalhão, em Sintra, a esplanada onde os alunos do secundário se habituaram a almoçar quando retomaram as aulas presenciais foi alargada. Surgiu como uma solução naquela altura, que o colégio manteve. Agora, o diretor pretende aproveitar ao máximo o espaço de quinta que tem para atividades ao ar livre.

“Com o clima de Sintra, não será uma solução definitiva, mas mesmo nos dias mais frios, os alunos preferiam estar lá fora, a almoçar de casaco. Só não iam se chovesse. Agora, para o regresso, a esplanada vai ser ainda maior”, explica Miguel Abranches Pinto. Outra solução, para garantir o distanciamento nos dois refeitórios do colégio, foi alargar ainda mais os horários de almoço. Os cerca de 600 alunos terão de almoçar em turnos de 20 minutos, divididos por um total de duas horas.

O diretor do colégio não tem grandes dúvidas que, mais cedo ou mais tarde, terá pessoas na escola infetadas com o vírus da Covid-19. “O nosso principal foco é salvaguardar a aprendizagem e fazer de tudo para que o colégio possa funcionar presencialmente. Estamos a organizar o funcionamento do colégio para se houver — e haverá com certeza — situações de contágio não termos de fechar o colégio todo”, argumenta.

Num momento em que uso de máscaras em crianças abaixo dos 10 anos ainda está sob análise, Abranches Pinto diz pretender que os seus alunos a usem. “No pré-escolar a máscara é claramente dispensável, mas a partir do 1.º ano, mesmo que não sejam dadas diretrizes vinculativas nesse sentido, vamos sugerir que os alunos as usem.”

Mas, por muito que faça, restringindo os espaços a certos grupos de alunos, sabe que é uma missão quase impossível, já que só pode controlar os movimentos de forma e num espaço limitados.

“Posso ter dois grupos de alunos, cada um com o espaço delimitado. Mas se houver dois irmãos, cada um no seu grupo, não se cruzam no colégio, mas cruzam-se em casa”, argumenta, de pouco valendo a distância na escola. Nesta equação entram também as amizades mais próximas e os namoros entre alunos mais velhos.

Bolhas, escritos no chão e câmaras 360º

O sistema de bolhas, uma das soluções defendidas para as escolas pelo ministro da Educação, é o que vai vigorar nos colégios Park International School. Por ser escola internacional, terá até 8 de setembro todas as aulas a funcionar.

“Até ao 4.º ano, os alunos vão andar sem máscara e cada turma vai funcionar como uma bolha, não interagindo com outras bolhas. Tudo estará identificado no chão, com diferentes cores: o espaço no recreio, os circuitos para ir para o refeitório, as casas de banho. E haverá desfasamento de entradas para que não cheguem todos ao mesmo tempo”, explica Barbara Lancastre. O que deixa de existir é prolongamento de horário e os colégios fecham às 18h00, já que a partir dessa hora a escola não conseguiria garantir que não houvesse contaminação entre circuitos.

Para os alunos mais velhos, que terão de usar máscaras, o sistema já é diferente. A bolha passa a ser o 5.º ano, o 6.º ano e por aí fora, com cada ano de escolaridade a funcionar num piso diferente. Os professores ficam fora desse circuito. Como não há apenas um titular por turma, como nos primeiros anos de ensino, os docentes dão aulas a diferentes grupos de estudantes. Para evitar contágios, criou-se a linha vermelha.

“Os professores andam sempre de máscara e são os últimos a entrar na sala de aula. Quando chegam ao seu lugar, há uma marca física, vermelha, que assinala os 2 metros de distância que têm de manter dos alunos”, explica. Todo o percurso do professor está também assinalado por essa linha vermelha, para evitar qualquer proximidade com os alunos.

Para as poucas aulas que terão fora da sua sala habitual, haverá, nesse espaço, 25 kits de limpeza. O objetivo? Cada aluno terá de limpar a sua mesa e cadeira antes de sair, a solução mais rápida para garantir que o espaço fica desinfetado. Ao professor, o último a abandonar o espaço, caberá desinfetar a maçaneta da porta.

"Vamos apostar muito em incutir regras aos alunos e o primeiro dia de aulas vai ser dedicado a isso. Também vamos trabalhar o sentimento de pertença à turma porque os alunos agora vão passar muito mais tempo só com os colegas do que aquele que passavam antes."  
Ana Cláudia Cohen, diretora do agrupamento de escolas de Alcanena

As exceções às regras são difíceis de controlar e nelas cabe Educação Física, uma disciplina que não permitirá aos alunos o uso de máscara. No Ramalhão, Miguel Abranches Pinto conta que optou por vedar o uso dos balneários, onde a contenção do vírus seria mais problemática. “As aulas passaram a ser sempre ao final do dia, de modo a que não seja preciso usar balneários e a troca de roupa já será feita em casa.”

Outra exceção, são os alunos de risco que não poderão assistir às aulas presenciais. As soluções são semelhantes nos dois colégios, com a hipótese de a aulas serem seguidas à distância, através de transmissão vídeo.

“Fizemos um investimento grande, equipámos todas salas com câmaras 360º graus e microfones para que os alunos possam acompanhar em casa, com uma gravação de qualidade”, explica a CEO da Park. O sistema não se perderá, mesmo num mundo pós-Covid. “Há sempre alunos que ficam doentes, que têm de se ausentar da escola, e esta será uma solução para manter”, conclui Barbara Lancastre.

O lado psicológico: trabalhar o sentimento de pertença

No agrupamento de escolas de Alcanena, há soluções parecidas com as de outras escolas: desfasar horários, uma sala por turma, um aluno por carteira, e manter um trabalho contínuo com as plataformas usadas durante o tempo em que o ensino foi totalmente à distância. Mas a grande diferença no agrupamento dirigido por Ana Cláudia Cohen vai para o trabalho de reforço psicológico e de desenvolvimento pessoal que será feito junto dos alunos.

“Vamos apostar muito em incutir regras. Vamos dar-lhes tempo para perceberem a sala, as limitações que têm, que há formas de precaver e evitar o contágio”, explica a diretora. “E queremos que eles percebam que não estão sozinhos, que o distanciamento é físico, mas não tem de ser social.”

Para isso terão um programa de mentorias  entre pares, que passam por quatro aposta principais: alunos inibidos, recuperação de aprendizagens, conhecimento digital e projetos interdisciplinares.

“Vamos criar redes, vamos ensinar-lhes regras que possam levar com eles para todo o lado, para poderem ter uma nova forma de estar nesta realidade”, argumenta Ana Cláudia Cohen. Assim, o primeiro dia do ano letivo será passado só com o diretor de turma, a discutir regras, e haverá um segundo dia só com assembleias de turma para que os alunos se possam envolver e tomar decisões.

“Queremos também trabalhar o sentimento de pertença na turma. Com as novas regras, os alunos vão passar muito tempo só com as suas turmas. Antes da pandemia, nos intervalos, na cantina, muitas vezes não estavam com os seus colegas. Agora teremos de recuperar o valor do que é estar integrado naquela turma, naquele grupo, com quem os alunos vão passar mais tempo do que com qualquer outra pessoa”, conclui Ana Cláudia Cohen. Por isso, sentir que estão num espaço seguro será mais importante do que nunca. E é isso que em Alcanena se vai trabalhar.

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