“Para setembro temos de continuar a preparar todos os cenários.” Foi assim que o ministro da Educação respondeu quando questionado sobre se as escolas poderão receber todos os alunos no arranque do próximo ano letivo. Em entrevista à Rádio Observador, Tiago Brandão Rodrigues não arrisca assumir que, daqui a quatro meses, será possível regressar à normalidade que existia antes da pandemia de Covid-19. E diz que fechar escolas foi “uma decisão muito difícil”.

Esta segunda-feira, Tiago Brandão Rodrigues visitou a Escola Secundária de Santa Maria, do Agrupamento de Escolas do Monte da Lua, para acompanhar a reabertura dos estabelecimentos de ensino aos alunos do secundário, e o Observador acompanhou o ministro da Educação durante a viagem de Lisboa a Sintra.

[Oiça aqui a entrevista ao ministro da Educação]

Ministro da Educação garante máscaras para todos os alunos

“Temos de assumir que temos de ter respostas para todas as eventualidades”, sublinha o governante, apontando como ponto positivo o tempo que separa a data atual — e que marca o regresso dos alunos do 11.º e do 12.º ano ao ensino presencial — até ao arranque do próximo ano letivo. “Temos algum tempo de preparação”, diz Brandão Rodrigues, o que é uma vantagem, já que “não houve um aviso prévio” de que o mundo teria de lidar com uma pandemia. O fecho das escolas em março, com passagem total para o ensino à distância, teve de ser preparado em pouco dias. Por isso, diz “estar orgulhoso com a resposta do sistema educativo”.

“Quando falamos em setembro não falamos necessariamente em outubro ou novembro”, diz o ministro, lembrando que a pandemia pode piorar e levar o Governo a tomar outras decisões.

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Haverá máscaras cirúrgicas para os alunos, garante o ministro

O ministro, que diz “compreender” a decisão dos encarregados de educação que não permitiram o regresso dos seus filhos às escolas, deixa claro que haverá máscaras gratuitas para todos, não havendo necessidade de levar o equipamento de proteção individual de casa. O governante explica ainda que a decisão foi a de optar por máscaras cirúrgicas, e não pelas chamadas máscaras comunitárias, já que quando a tutela tomou a decisão esta segunda oferta não estava ainda generalizada.

Para tranquilizar as famílias, a tutela tem estado a trabalhar no “binómio segurança e confiança”.

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No entanto, apesar de as faltas dos alunos estarem justificadas, aqueles que não comparecerem às aulas presenciais correm o risco de não terem acesso ao ensino à distância e essa decisão poderá ter influência na sua avaliação final.

Sobre este assunto, o ministro da Educação argumenta que se metade dos alunos não regressasse às escolas, seria preciso o dobro dos trabalhadores para garantir que as duas modalidades de ensino, presencial e à distância, chegavam a todos. “Esses jovens têm direito à educação, não são os jovens em risco”, diz Brandão Rodrigues que considera haver uma novidade em relação ao que é habitual no que toca à assiduidade dos jovens.

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“Há ainda mais uma inovação. Quando temos um aluno que faz parte de um grupo de risco [numa situação de normalidade] não há justificação para ficar em casa”, acrescenta, dando como exemplo um estudante em que toda a família tenha uma propensão genética para ter cancro. Neste momento, justifica, os alunos que tenham problemas de saúde não têm de ir às escolas. “Agora, os alunos que são de risco podem ficar em casa.”

Computadores para todos? “Estamos a trabalhar na universalização”

Lembrando a promessa do primeiro-ministro de que no arranque do próximo ano letivo, todos os alunos terão equipamento informático e acesso à internet, o Observador questionou o ministro sobre se considera viável cumprir-se esta medida. “O que digo é que o Governo vai trabalhar para aumentar a universalização” do equipamento informático para todos os estudantes.

Confrontado com a dificuldade de se produzir e adquirir computadores em tempo útil para o arranque do próximo ano letivo, o ministro lembra que ele próprio, como o Observador escreveu, fez esse alerta. “Há uma grande pressão em muitos setores”, diz, mas “temos de perceber que estamos a fazer este trabalho em prol das nossas crianças”.

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O ministro da Educação lembra que quando as escolas encerraram, “houve um grande clamor a dizer que seria impossível fazer o que quer que seja”, o que, na sua opinião não se veio a verificar, tendo a escola pública sabido responder às necessidades dos alunos.

Ainda sobre o regresso em setembro, e sobre a hipótese de haver um sistema misto de ensino, Tiago Brandão Rodrigues diz que há, e terá de haver, “diversificação das ferramentas”. Agora, diz, o clamor é outro: “Chegámos a um momento em que há um clamor generalizado de que o ensino à distância é a panaceia absoluta” para tudo e para alguns poderia ser a solução “até 2029”, quando “esta pandemia e toda as outras desaparecessem”.

O problema, é que “o ensino à distância agudiza as diferenças sócio-económicas” e, afirma o ministro, “só dentro da sala de aula podemos sonhar minimizar essas diferenças”.

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