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No início de maio, poucos dias depois do apagão que afetou Portugal e Espanha, os espanhóis aproveitavam as redes sociais para vincar, com humor, a invencibilidade de Pedro Sánchez: sobreviveu à pandemia, à erupção vulcânica em La Palma, às inundações em Valência, duas guerras e, mais recentemente, ao apagão. Um mês depois, a brincadeira, partilhada até pelo ministro dos Transportes do governo espanhol, está desatualizada, uma vez que o líder do executivo enfrenta uma nova polémica.
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— Oscar Puente (@oscar_puente_) May 2, 2025
Após vários momentos complicados nos últimos anos — entre os quais figuram casos que envolvem a sua mulher, o seu irmão e figuras próximas no Partido Socialista espanhol —, o lugar de Sánchez está uma vez mais em risco, depois de ter sido divulgado um relatório da Guardia Civil que tem como protagonistas os dois últimos secretários de Organização do PSOE, José Luis Ábalos e Santos Cerdán.
Segundo o documento, são suspeitos de cobrar comissões elevadas em troca de adjudicações para obras públicas, como a construção de estradas ou de vias férreas. O esquema, conhecido após uma denúncia do Partido Popular (PP), pode ter ajudado os suspeitos a angariar mais de 600 mil euros.
Desde que se tornou pública esta nova polémica, Alberto Núñez Feijóo (líder do PP) tem apertado o cerco ao rival político, exigindo eleições antecipadas imediatas e organizando manifestações com milhares de pessoas.
Como em casos anteriores, Sánchez tem-se mantido agarrado ao poder e recusa ir às urnas antes do tempo. “Não haverá eleições até [à prevista] em 2027”, disse, acrescentando que conta candidatar-se nessa data. A confiança do socialista não é acompanhada pelos seus aliados da “geringonça” espanhola, que pedem um “reinício” para ultrapassar este caso complexo que começou de forma inusitada, envolve membros da liderança do PSOE, tem ligações a Portugal, pode englobar fraude eleitoral e coloca a Espanha numa crise política.
DANIEL GONZALEZ/EPA
O início: caso foi revelado pelo PP e ex-ministro de Sánchez denunciou colegas para fugir à prisão
Ao contrário do habitual nos casos judiciais mais mediáticos, esta investigação não teve origem em escutas, documentos confidenciais ou trocas de e-mails. Na génese de tudo está uma conversa, em março de 2022, entre a Procuradoria Anticorrupção espanhola e Alfonso Serrano, assessor de Isabel Díaz Ayuso, figura proeminente do PP e Presidente da Comunidade de Madrid.
O motivo, conta o ElDiario, centrava-se numa revelação que o irmão de Ayuso teria recebido comissões para intermediar vendas de máscaras com a Comunidade de Madrid. Para se defender desta investigação, entretanto arquivada, Serrano apontou baterias ao governo (já liderado por Sánchez). Munido de uma dúzia de contratos, o assessor entendia que parentes e pessoas próximas do Executivo socialista estavam a beneficiar irregularmente de contratos, subsídios ou empréstimos.
Se a maioria das acusações foram esquecidas pelo Ministério Público, uma delas levantou suspeitas; dizia respeito a mais de 40 milhões de euros em compras de máscaras no início da pandemia, com a maioria do dinheiro a ter como origem o Ministério dos Transportes, então liderado pelo já referido Ábalos. A empresa em questão não tinha atividade até fazer fortuna com estes negócios, muito menos experiência prévia na área.
Não demorou muito para o MP apresentar uma denúncia contra várias pessoas, entre as quais figuravam Koldo García (antigo assessor de Ábalos) e Victor de Aldama (empresário). A investigação procurava entender se as empresas ligadas a Aldama tinham informações privilegiadas sobre as necessidades do governo, permitindo garantir mais de 50 milhões de euros em contratos — o MP concluiu, através de e-mails e fotografias, que havia uma relação entre os dois.
Estas duas figuras centrais foram detidas em fevereiro de 2024, quando as autoridades já seguiam várias pessoas. O caso não demoraria a chegar a Ábalos — que foi afastado do governo e depois reincorporado nas listas eleitorais —, que foi expulso do grupo parlamentar por Sánchez.
Dada a proximidade de Koldo a Ábalos, o ex-ministro foi considerado uma peça central deste esquema liderado pelo seu assessor. O caso não demorou a voltar a ganhar contornos ainda mais polémicos, quando Ábalos, para fugir à prisão, confessou que o caso envolvia mais do que os contratos destas máscaras, referindo contratos de obras públicas com menções a várias pessoas da cúpula do PSOE.
Já com Ábalos fora da prisão preventiva, as autoridades judiciais procuraram perceber se era tudo verdade, o que as levou a Santos Cerdán, a terceira figura mais poderosa dentro do Partido Socialista espanhol que acabou por se demitir na quinta-feira, 12.
▲ Sánchez com Ábalos; Koldo; Aldama
Europa Press via Getty Images
Contratos públicos e fraude nas eleições do PSOE. O que está em causa desta vez?
O mais recente relatório da investigação policial revela que Santos Cerdán negociou comissões de pelo menos 520 mil euros na adjudicação de obras públicas. De acordo com o documento de 490 páginas da Guardia Civil, o secretário de Organização do PSOE atuava como responsável pelo pagamento de subornos.
Além dessas suspeitas de corrupção, surge outra revelação chocante que pode colocar em causa a legitimidade de Pedro Sánchez. Numa troca de mensagens, que constam do documento citado pela Onda Cero, surgem instruções específicas que Cerdán terá dado a Koldo para manipular o processo eleitoral das primárias do PSOE em 2014.
“Quando acabar, anotas como se esses dois que faltam tivessem votado, sem que ninguém veja, e metes os dois papéis”, escreveu Cerdán. “Já está”, respondeu Koldo.
???? INFORMACIÓN ONDA CERO
El informe de la UCO desvela instrucciones de Santos Cerdán a Koldo en las primarias que ganó Pedro Sánchez: "Mete dos papeletas"
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— Onda Cero (@OndaCero_es) June 12, 2025
O relatório da Guardia Civil aponta os homens visados como suspeitos de pertencerem a uma organização criminosa e corrupção passiva, além de identificarem o até ontem Secretário de Organização do PSOE como o “suspeito responsável por ordenar o pagamento de montantes” pela adjudicação de obras públicas a Ábalos e Koldo.
O documento diz que esta “organização criminosa” no seio do PSOE tirava partido da “conexão hierárquica” entre Koldo e Cerdán e detalha os valores recebidos por Koldo e Ábalos (e administrados pelo n.º 3 dos socialistas): 620 mil euros, mas, segundo o primeiro, 450 mil ainda estão pendentes.
Estes três envolvidos vão falar com as autoridades entre 24 e 25 de junho.
Europa Press via Getty Images
Quais as ligações do caso a Portugal?
Portugal foi mencionado, por intermédio de empresas com sede em Elvas e em Lisboa, neste processo de corrupção. O empresário, com ligações ao futebol, Aldama terá colocado bens móveis e imóveis dos quais é proprietário em nome de empresas constituídas em Portugal, para fugir ao fisco espanhol, revelou o Expresso em 2023.
Estas entidades portuguesas terão servido para o empresário ‘branquear’ os ganhos ilícitos e para comprar uma casa de dois milhões de euros em Madrid, além de um Ferrari F12, todos adquiridos “com parte dos fundos investigados”, lê-se no relatório judicial citado pelo semanário português.
Oposição espanhola exige eleições antecipadas e leva milhares à rua
O caso tem sido bastante aproveitado pela oposição, que não esquece que Pedro Sánchez chegou ao poder depois de usar uma moção de censura para expulsar do governo um PP afetado por casos de corrupção.
“Sr. Sánchez, renda-se à democracia. Convoque eleições imediatamente”, disse Feijóo, ao lado de figuras de peso do passado e presente do PP, como Ayuso ou Mariano Rajoy, a 8 de junho. Os conservadores insistem que não há condições para Sánchez resistir a mais uma polémica.
“A democracia não se defende sozinha, nem a podemos delegar em quem já desprezou o estado de direito. A responsabilidade de defender a democracia pertence-nos a todos. Espanha não precisa de vingança, mas de harmonia, uma revolução. Vamos liderá-la nas ruas, nas urnas. Ninguém votou para que [Sánchez] faça isto, nem os seus”, declarou o líder do PP perante milhares de apoiantes numa manifestação anunciada como “apartidária”.
▲ Manifestação em Madrid a 8 de junho
JAVIER LIZON/EPA
Sánchez pede desculpa aos espanhóis e revela mudanças no PSOE, mas não quer eleições
Os vários casos que têm surgido nos últimos tempos não parecem abalar a posição de Sánchez, o que não se alterou com estes recentes desenvolvimentos. Na passada quinta-feira, o chefe do governo espanhol reconheceu os “indícios muito graves” de corrupção, mas rejeitou marcar eleições antecipadas.
“Eleições não aconteceram antes de 2027. Não se trata de mim ou do PSOE, trata-se de um projeto político que está a fazer coisas boas pelo país. Defendemos um modelo necessário para o país. Não há nenhuma crise governamental, isto não está a afetar o governo”, defendeu, citado pelo El País, que descreve um Sánchez “com cara de enterro”.
O socialista pediu “desculpa e perdão” aos espanhóis, sobretudo os militantes e simpatizantes do PSOE, por ter confiado em Cerdán, como antes confiou em Ábalos. Anunciou uma “auditoria externa” ao partido, apesar dos “relatórios positivos” do Tribunal de Contas.
Corrupção no PSOE. Sánchez pede “perdão” aos espanhóis, mas não se demite do cargo
“Até hoje de manhã estava convencido da integridade de Santos Cerdán”, desabafou na quinta-feira, declarando uma “profunda tristeza” e uma “enorme deceção” pelo desenlace desta investigação. Além disso, anunciou uma reestruturação da direção do partido, que, ao contrário do governo espanhol, acredita que não foi afetada por esta crise.
“Os indícios [contra Cerdán] são graves, muito graves. Ao longo desta tarde, pedi a sua renúncia e quero pedir desculpa por isso. O PSOE e eu não deveríamos ter confiado nele. Infelizmente, neste mundo, não existe corrupção zero, mas sim tolerância zero”, argumentou.
“Não sou perfeito. Tenho pontos fortes e fracos. Mas sempre acreditei e trabalhei por uma política limpa. Sempre fui comprometido com a regeneração política. Causa-me enorme indignação e profunda tristeza ver que todo um projeto político no qual milhões de pessoas confiam possa ser afetado pela conduta de poucos. A contundência das minhas ações será proporcional à enorme deceção e indignação”, rematou.
Quanto às alegações de fraude eleitora, que envolvem as primárias em que foi eleito líder do PSOE, Sánchez lembrou que ganhou “por mais de 17 mil votos”, desvalorizando os dois votos que terão sido corrompidos.
Com a política a entrar no espaço da justiça, e vice-versa, Sánchez enfrenta uma nova polémica com a certeza, dada pelo próprio, que se recandidatará a chefe do governo nas próximas eleições, antecipadas ou não.