O discurso de Donald Trump
A Era Dourada da América começa agora. A partir de agora, o nosso país vai florescer e ser de novo respeitado por todo o mundo (…). Durante cada dia da administração Trump, vou muito simplesmente colocar sempre a América em primeiro lugar.“
Donald Trump não demorou a invocar um dos seus principais slogans de campanha neste discurso de tomada de posse, que em muitos momentos pareceu uma repetição das várias declarações feitas nos últimos meses em comícios de campanha. O anúncio de uma série de medidas em consonância com o seu programa eleitoral foram o miolo deste discurso, que arranca com a ideia de “America First”, parte do imaginário do movimento MAGA (“Make America Great Again“) fundado por Trump desde que se candidatou pela primeira vez à presidência, em 2016.
Aqueles que tentaram travar a nossa causa tentaram tirar-me a liberdade e até a minha vida. (…) Mas senti naquele momento, e hoje ainda acredito mais nisso, que a minha vida foi poupada por uma razão. Fui salvo por Deus para tornar a América grande de novo. Obrigado.”
Trump também não demorou a invocar a tentativa de assassinato de que foi alvo durante a campanha, em Butler (Pensilvânia), e a afirmar que crê ter sido “salvo por Deus” para aplicar a sua missão MAGA. O Presidente apresentou-se assim aos norte-americanos como um Messias perseguido — “tirar-me a liberdade” refere-se aos vários processos judiciais de que é alvo, tendo sido inclusivamente condenado num deles — com a missão de salvar a América.
Às comunidades negra e hispânica, quero agradecer-vos pela enorme demonstração de amor e confiança ao confiarem-me o vosso voto. (…) Hoje é o Dia de Martin Luther King e em honra dele iremos lutar juntos para tornar o sonho dele uma realidade. Vamos concretizar o sonho dele.”
Depois de ter afirmado que a sua eleição corrigiu uma “traição”, numa referência velada aos resultados das eleições de 2021 que deram a presidência a Joe Biden (e que Trump sempre contestou), o novo Presidente focou-se na campanha eleitoral mais recente e escolheu um tema que fere particularmente os democratas: os elevados índices de apoio que teve junto de parte das minorias étnicas. Aproveitando o facto de esta tomada de posse decorrer precisamente no feriado Dia de Martin Luther King, Trump garantiu que “o sonho” explanado há décadas pelo ativista pelos direitos civis, sobre uma igualdade plena, será concretizado consigo na presidência.
Irei declarar uma emergência nacional na fronteira sul. Qualquer entrada ilegal vai imediatamente ser travada e iremos iniciar o processo de devolver milhões e milhões de ilegais criminosos aos países de onde vieram.
Irei reinstituir a minha política de permanecerem no México. Irei acabar com a prática de catch and release. E irei enviar tropas para a fronteira sul para repelir a invasão desastrosa que está a acontecer ao nosso país.”
Relativamente a medidas concretas, Trump deixou claro que o seu foco na política de imigração mantém-se inalterada face à campanha eleitoral. Fala numa “emergência nacional na fronteira”, promete a voltar a aplicar a política de colaboração com o México para que contenha migrantes (embora não seja claro se o governo mexicano está disposto a isso, desta vez) e acabar com o catch and release, a prática em vigor de deixar em liberdade a aguardar audição judicial os imigrantes ilegais apanhados. É a aplicação de muitas das medidas sempre defendidas pelo seu conselheiro Stephen Miller, uma das poucas pessoas da sua anterior administração a transitar para esta equipa. Menos claro é qual será a ação de tropas nas fronteiras.
Hoje declaro também uma emergência nacional de energia. We drill, baby, drill.
Voltaremos a ser uma nação rica e é o ouro líquido debaixo dos nossos pés que ajudará a consegui-lo. Com as minhas ações, hoje, iremos acabar com o Green New Deal e iremos revogar o mandato dos veículos elétricos, salvando a nossa indústria automóvel e mantendo a minha promessa sagrada aos nossos grandes trabalhadores automóveis norte-americanos. Por outras palavras, poderão comprar o carro que preferirem.”
Mais uma promessa eleitoral cumprida, a fazer fé nesta discurso de tomada de posse, onde Trump voltou a usar a expressão “Drill, baby, drill” (que pode ser traduzida como “Perfura, querida, perfura”). O Presidente quer manter a aposta no desenvolvimento da indústria norte-americana e no recurso aos combustíveis fósseis, revertendo a política de “energia limpa” aplicada por Joe Biden (Green New Deal). O fim de apoios à compra de carros elétricos é uma medida que pode afetar um dos seus principais conselheiros, Elon Musk, dono da fabricante Tesla. Mas, para Trump, o apoio da sua base eleitoral de classe trabalhadora parece ser mais importante do que qualquer aliança com o multimilionário.
Vou terminar com a política governamental de tentar fazer uma engenharia social [que introduz] a raça e o género em cada aspeto da vida pública e privada. Vamos forjar uma sociedade que não olha a cores e que é baseada no mérito. A partir de hoje, a política oficial do governo dos Estados Unidos será a de que só existem dois géneros: masculino e feminino.”
Nunca usando a expressão “cultura woke“, certo é que era sobre ela que Trump falava quando disse esta parte do discurso. O foco concreto em que só possam ser usados como géneros o “masculino” e “feminino”, retirando de documentos dos cidadãos a possibilidade de se apresentarem como “não-binários” ou “interssexo”, é o primeiro sinal de que esta administração pretende ter uma postura muito diferente da anterior relativamente a questões de género, que podem ter repercussões nas medidas em vigor nas escolas, no desporto e até em instituições públicas como o Exército.
Iremos novamente construir o Exército mais forte que o mundo já viu. Iremos medir o sucesso não apenas pelas batalhas que vencemos, mas também pelas guerras que terminámos e, talvez mais importante, as guerras em que não nos metemos.
O legado de que terei mais orgulho será o de ser um fazedor da paz e um unificador, é isso que quero ser.”
Relativamente à política externa, Donald Trump acabou por reforçar as ideias da campanha: menor envolvimento possível em conflitos externos, o que pode indiciar o menor apoio à NATO e afetar conflitos em curso — ou até outros no futuro, como por exemplo um sobre Taiwan. Em concreto, a questão da guerra na Ucrânia é central: ao assumir-se como “fazedor da paz” e “unificador”, o Presidente indicia a sua vontade de mediar um possível acordo entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin.
Vamos mudar o nome do Golfo do México para Golfo da América.
(…) [O Canal do Panamá] foi estupidamente oferecido ao país do Panamá. (…) O propósito do nosso acordo, o espírito do nosso tratado, foi totalmente violado. Os navios americanos estão a ser gravemente sobretaxados e não estão a ser tratados de forma justa, de nenhuma forma. Isso inclui a Marinha dos EUA e, sobretudo, a China está a operar no Canal do Panamá e nós não o oferecemos à China. Oferecemos ao Panamá e vai-nos ser devolvido.”
A mudança de nome do Golfo do México chama a atenção, mas tem muito poucas implicações práticas. Já a promessa de garantir que o controlo do Canal do Panamá será devolvido aos EUA tem muito mais peso, apesar de ainda haver muitas dúvidas sobre como poderia ser concretizada. Em concreto, a referência no discurso à China mostra como a rivalidade com essa potência pode ser o principal motor da decisão. Mesmo não se querendo envolver militarmente, o novo Presidente vê claramente a China como principal adversária, que quer tentar combater pela via económica — inclusivamente pelas tarifas, que anunciou também neste discurso.
Iremos atrás do nosso destino manifesto em direção às estrelas, enviando astronautas norte-americanos para que plantem ‘as estrelas e as riscas’ no planeta Marte.”
Se Donald Trump tirou a Elon Musk com uma mão, na questão dos carros elétricos, parece ter dado algo com a outra. A promessa de ir a Marte e colocar a bandeira do país no “planeta vermelho” é uma das ambições do milionário e dono da Space X — que provavelmente espera que a sua empresa possa ser usada para alcançar esse feito.
Muita gente achava impossível eu conseguir um regresso político tão histórico. Mas, como veem hoje, aqui estou eu, o povo americano falou. O facto de eu estar aqui à vossa frente é a prova de que nunca devem acreditar que algo é impossível. (…) O futuro é nosso e a nossa Era Dourada começou mesmo agora. Deus abençoe a América.”
Mesmo no final do discurso, o Presidente dos Estados Unidos da América voltou a ligar o seu passado ao futuro do país. Os casos judiciais, as eleições (contestadas) de 2021, as sondagens que o desfavoreciam fazem Trump acreditar que tudo estava contra si; e, mesmo assim, voltou a candidatar-se e foi o vencedor claro da eleição. A sua história, afirma Trump, é a prova de que o “Sonho Americano” se concretiza. O Messias garante aos fiéis que, para eles, qualquer comeback é possível.