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Renad a cozinhar em Gaza, quando ainda tinha um teto para cozinhar e ingredientes para fazer um bolo
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▲Renad a cozinhar em Gaza, quando ainda tinha um teto para cozinhar e ingredientes para fazer um bolo

@renadfromgaza Instagram

▲Renad a cozinhar em Gaza, quando ainda tinha um teto para cozinhar e ingredientes para fazer um bolo

@renadfromgaza Instagram

De Gaza aos Países Baixos. Como Renad, a minichef viral no Instagram, fugiu da guerra e da fome para um dia cozinhar "à moda de Gaza"

Menina de 11 anos ficou conhecida em todo o mundo pelas receitas improvisadas em cenário de guerra. A minichef já deixou Gaza, mas não foi só a sua terra que ficou para trás: mãe e 4 irmãos também.

Um post com fundo negro com a curta mensagem de “adeus” fez com que os seguidores de Renad Attallah no Instagram — ao todo um milhão e 600 mil pessoas — ficassem preocupados. “O quê? Renad, estás bem?”, perguntou uma utilizadora nos comentários do post partilhado a 27 de agosto. Houve quem deixasse mensagens de despedida, outros desejaram que estivesse em segurança e muitos anteciparam que a menina palestiniana de 11 anos podia ter finalmente conseguido sair de Gaza.

Desde março de 2024 que Renad publicava vídeos gravados em território palestiniano e foi graças a eles que pessoas de todas as partes do mundo se juntaram na sua página para seguir a sua jornada num cenário de guerra e escassez de bens essenciais. Com o agravamento do conflito israelo-palestiniano, Renad desembalava os alimentos da ajuda humanitária que ela e a sua família recebiam e cozinhava depois com os ingredientes que tinha ao seu dispor.

Nos primeiros tempos a publicar, Renad confecionava de tudo um pouco, desde lasanha, a hambúrgueres e fazia até bolos e doces com os ingredientes de que precisava a surgirem de caixas da ajuda humanitária ou de alguns mercados que ainda permaneciam abertos. No espaço de meses, começou a ter pouco com que trabalhar na cozinha improvisada no abrigo em que passou a viver após a guerra se intensificar — deixou de ter acesso a carne, produtos frescos e outros ingredientes essenciais em muitas receitas, como açúcar, farinha ou ovos.

As receitas “à moda de Gaza” que confecionava para mostrar o que faltava em Gaza

Com a falta de alimentos, o mote que a minichef seguiu foi o de improvisar. As conservas substituíam a carne e o peixe, o pão era feito em casa com a pouca farinha que tinha ao seu dispor e os pratos que mostrava aos seguidores tinham muitas vezes um twist em relação à versão tradicional.

Renad chamava-lhes receitas “à moda de Gaza”. Insistiu em continuar: fez “douradinhos à moda de Gaza”, “café gelado à moda de Gaza”, “bolo da caneca à moda de Gaza”. Tudo o que uma criança de 11 anos quer comer e que Renad arranjava forma de fazer, movida a necessidade e criatividade.

Depois começou a deixar de ter ingredientes para sequer improvisar e só se conseguia filmar-se de tempos a tempo devido às falhas de Internet e rede móvel provocados pelos constantes bombardeamentos. No dia 29 de junho, gravou-se a preparar a primeira refeição do dia com o sol já baixo: macarrão apenas. Visivelmente mais magra, mostrava como geria a fome que sentia e que aumentava de dia para dia e contava há quanto tempo não comia nada fresco ou saudável.

Do outro lado do ecrã estiveram sempre dezenas de milhares de pessoas a seguir, em direto, as dificuldades que passava para se alimentar e manter em segurança. A Human Concern International, uma ONG a operar em Gaza, associou-se a Renad, com a menina a fazer apelos diários para que os seguidores fizessem donativos e pressionassem governos de todo o mundo a garantirem a entrada de ajuda humanitária em Gaza.

Nessa altura, os relatos de fome extrema não paravam de chegar do território palestiniano, com o número de mortes provocadas pela desnutrição a aumentar de dia para dia. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a desnutrição na Faixa de Gaza foi “marcada por um pico de mortes em julho”. No relatório mais recente da organização sobre a situação de Saúde Pública em Gaza, datado de 10 de setembro, morreram 361 palestinianos devido à subnutrição desde 5 de setembro, incluindo 130 crianças. Isto no espaço de cinco dias.

“Após 22 meses de conflito implacável, mais de meio milhão de pessoas na Faixa de Gaza estão a enfrentar condições catastróficas caracterizadas pela fome, a miséria e a morte”, nota ainda a organização.

Nas últimas semanas em Gaza, Renad conseguiu alimentar-se com a ajuda que chegava dos céus. No início de agosto, a Jordânia e os Emirados Árabes Unidos começaram a lançar alimentos e bens essenciais através de pára-quedas — seguiram-se a Alemanha, França e Espanha.

Agora a rapariga de 11 anos, famosa pelos vídeos de culinária, já não cozinha em Gaza e já não depende das caixas com os alimentos que lhe calhavam na sorte. Está nos Países Baixos, em segurança. Muitos utilizadores rejubilaram com a notícia da saída em segurança da zona de guerra. E há os que questionam: como conseguiu finalmente sair?

O sentimento agridoce: Renad saiu com os irmãos mas teve de deixar a mãe para trás

“Este é o sentimento mais estranho que já vivi. É uma coisa boa e má ao mesmo tempo”. Num vídeo publicado esta quarta-feira, já em terras neerlandesas, Renad mostra uma gravação sua, com as lágrimas a travarem-lhe a fala quando ainda não tinha terminado a longa jornada de saída de Gaza para chegar aos Países Baixos, que a acolheram.

A menina de 11 anos afirma que é uma coisa boa estar a “viver finalmente em paz como as outras crianças”, mas aponta a coisa má: “Ser forçada a deixar a minha família para trás“. O vídeo mostra a despedida emotiva da mãe e dos irmãos que ficaram em Gaza, com Renad a admitir que a meio da viagem para a Europa já se sentia consumida pelas saudades dos que ficaram.

Gravou-se em pelo menos três carrinhas e autocarros diferentes, primeiro a deixar Gaza em destroços para trás, depois a percorrer quilómetros e mais quilómetros de caminho por via terrestre, até chegar finalmente a um aeroporto na Jordânia. Foi neste país que recolheu o visto holandês que mostra no vídeo e que lhe foi atribuído porque a sua irmã mais velha conseguiu uma bolsa para estudar numa universidade nos Países Baixos.

A irmã pediu a custódia de Renad e do seu irmão gémeo e os três conseguiram sair graças ao visto de estudante que a familiar mais velha tinha conseguido: o bilhete dourado para a fuga da guerra para alguns palestinianos.

Para trás ficou o resto da família, quatro irmãos e a mãe de Renad, que a menina diz ser “a pessoa mais querida” do seu coração. “Fugimos, na esperança de encontrar segurança, escola e comida“, disse no Instagram, plataforma em que teve de esclarecer que não tinha tirado o lugar de saída a ninguém que estivesse doente, especulação que começou a ser propagada antes de explicar por que via tinha deixado o território palestiniano.

“Mesmo assim… não sinto que tenha sobrevivido. Não existe tal coisa como sobreviver sozinho. Ou somos todos nós, ou nenhum”, escreveu ainda numa publicação.

Alimentada e pronta para alimentar o seu sonho, Renad pode agora — finalmente em segurança — estudar e trilhar caminho para abrir um restaurante de assinatura quando for mais velha, como tantas vezes disse nos seus vídeos no Instagram. O espaço até já tem nome e localização. A mini cozinheira quer abrir o “Chef Renad” na Faixa de Gaza.

Como são as saídas de Gaza para estudantes, que Israel tem de autorizar

Os dados sobre as evacuações médicas a partir da Faixa de Gaza são dispersos, sabendo-se que existiu um esforço humanitário que se manteve relativamente constante desde outubro de 2023 para fazer sair de Gaza algumas centenas de doentes e feridos de guerra para receberem cuidados médicos.

Ainda mais dispersos são os dados sobre saídas do território palestiniano por jovens estudantes através de bolsas de estudo em universidades. São conhecidos os casos de sucesso geralmente através dos países de acolhimento antes de os refugiados palestinianos lá chegarem, ou quando já estão a caminho.

A Irlanda, por exemplo, recebeu neste início de setembro 52 palestinianos para prosseguirem estudos em instituições de ensino superior do país. O anúncio da chegada dos jovens palestinianos foi feito pelo ministro dos Negócios Estrangeiros irlandês, Simon Harris.

"Não sinto que tenha sobrevivido, não existe tal coisa como sobreviver sozinho. Ou somos todos nós, ou nenhum"
Renad Attallah

E não se pense que é de somenos o papel do país de acolhimento para uma saída de Gaza com visto de estudante. Ao Observador, Inês Franco, do Grupo de Apoio a Refugiados Palestinianos em Portugal (GARP), descreve todo o processo, que começa sempre pela candidatura do jovem palestiniano que quer sair a uma bolsa de estudo no estrangeiro.

Se a resposta for afirmativa, “os estudantes contactam as embaixadas do país em que ficam inscritos na Jordânia e no Egito”.”São esses países [que acolhem] a puxar os cordelinhos que há para mexer para tirar essas pessoas de Gaza”, explica.

Inês Franco nota que estes jovens não podem sair de Gaza autonomamente. Precisam de ONG’S — como a Cruz Vermelha, as Nações Unidas ou os Médicos Sem Fronteiras — para percorrer os corredores humanitários. Tal como aconteceu com Renad, que saiu por via da irmã bolseira, a maioria destes estudantes saem pela Jordânia, mas há também quem o faça pelo Egito.

Nos pontos fronteiriços conseguem que o visto seja emitido, mas até lá chegar é preciso que tudo esteja organizado para que a viagem decorra com segurança. “Israel tem sempre que aceitar que estas pessoas saiam, mas os países que recebem os estudantes, a partir do momento que se disponibilizam, têm que se pôr em contacto com as entidades israelitas e acordar a saída deles”, esclarece a representante do GARP.

Irlanda recebeu neste início de setembro 52 palestinianos para prosseguirem estudos em instituições de ensino superior do país, garantindo a sua chegada segura.

Inês Franco crítica Portugal por não fazer o mesmo em relação a Tarek Al-Farra, de 23 anos, que está inscrito num mestrado na FCSH da Universidade NOVA de Lisboa e que até já pagou parte das propinas, mas não consegue ir buscar o visto para estudar em Portugal devido à guerra. Tal como Renad, ficou também popular no Instagram — que neste momento não se encontra disponível — por publicar o dia-a-dia a viver no meio de um conflito armado.

“Foi contactado o MNE, foi feito um agendamento, tendo o Governo disponibilizado-se para passar um visto ao Tarek, tendo ele de se deslocar até à Cisjordânia ou ao Cairo, no Egito, na embaixada portuguesa para levantar o visto”, recorda, notando que o jovem não tem como se deslocar em segurança até lá sem apoio do Estado português.

Os Países Baixos tiveram de encetar todos os esforços, junto de Israel, para garantir que Renad, o irmão gémeo e a irmã bolseira chegavam em segurança à Jordânia, depois disso terá sido também a cargo do país que ficaram as despesas de chegada dos irmãos a território holandês.

▲ Tarek Al-Farra, de 23 anos, partilha conteúdo sobre a guerra no Instagram tal como Renad

@Tarek Al-Farra

“Deram-lhe uma semana para sair da Faixa de Gaza, mas sem ter qualquer ajuda de logística de apoio”, diz Inês Franco sobre Tarek. E acrescenta: “Não se sai da Faixa de Gaza sozinho, não se bate com o portão e as pessoas saem. Isso não acontece.”

Se conseguisse sair, Tarek chegaria provavelmente sozinho. Inês Franco nota que quase sempre as famílias são separadas quando há saídas de Gaza por motivos médicos e que no caso de bolseiros é muito raro haver acompanhantes.

Renad é exceção na saída, mas não o é na separação. Começa agora uma vida nova, a muitos quilómetros de casa, e da mãe, na esperança de voltar quando chegar a paz e o sonho de abrir o “Chef Renad” puder ser concretizado.

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