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Depois de as urnas terem estado abertas durante 15 horas para cerca de trinta milhões de ingleses, escoceses e galeses poderem votar, o primeiro resultado das eleições locais no Reino Unido e das eleições legislativas na Escócia e no País de Gales demorou duas horas e 29 minutos a ser publicado. Um minuto antes da meia-noite e meia desta sexta-feira, o primeiro lugar numa assembleia municipal, mais precisamente na assembleia de Brentwood, no Essex, foi para o Reform, de Nigel Farage.
A tendência consolidou-se durante todo o dia de sexta-feira, enquanto os votos foram sendo contados a diferentes velocidades por toda a Grã-Bretanha (alguns dos resultados só serão mesmo conhecidos este sábado): o partido de direita radical foi o grande vencedor, com mais de um milhar de lugares conquistados, que se traduziram no controlo de mais de uma dezena de autarquias. Mas se o lugar em Brentwood foi conquistado ao Partido Conservador, o verdadeiro derrotado das eleições britânicas foi outro. O Partido Trabalhista, do primeiro-ministro Keir Starmer, perdeu centenas de representantes e o controlo de mais de três dezenas de autarquias.
A transferência de votos não se fez exclusivamente para o Reform. Nas várias autarquias de Londres, o Labour perdeu centenas de lugares para os Verdes de Zack Polanski — que conquistaram mesmo a sua primeira Câmara Municipal — e, no País de Gales, sofreu uma derrota inédita para os nacionalistas de centro-esquerda do Plaid Cymru, que conquistaram uma vitória sem maioria. Keir Starmer não fugiu aos números. Às primeiras horas da manhã desta sexta-feira, o líder trabalhista admitiu que não havia como “dourar a pílula”.
▲ Starmer assumiu a derrota cedo, mas recusou demitir-se
NEIL HALL/EPA
Apesar de ter assumido a responsabilidade pelos resultados “muito duros”, o líder do Governo britânico recusou apresentar a demissão. “Não vou virar as costas e mergulhar o país no caos”, declarou aos jornalistas. Dias — ou mesmo horas — antes, a substituição de Starmer na liderança do Labour e do Executivo era certa para uma fatia do partido, que tinha até um nome na calha para assumir o lugar: Andy Burnham, o presidente da câmara de Grande Manchester.
Contudo, à medida que o dia evoluiu, a narrativa dos trabalhistas, em declarações públicas e anónimas à imprensa britânica, alterou-se. A derrota do Labour foi de tal forma pesada que a substituição de Starmer à revelia se tornou praticamente impossível de acontecer sem o partido arriscar novas perdas. O objetivo ainda é o mesmo — a saída de Starmer —, mas a estratégia alterou-se: a porta está aberta para o inquilino de Downing Street sair já. Caso contrário, a pressão vai continuar para o obrigar a entregar as chaves do número 10.
De Cardiff a Birmingham, “isto é culpa do Starmer”, não do Labour
A informação surgiu pouco antes das 14h. A primeira-ministra galesa, Eluned Morgan, do Labour, devia falhar a eleição para o Senedd, o Parlamento do País de Gales, avançava a BBC, citando fontes com conhecimento dos resultados. A confirmação da derrota acabou por chegar quase três horas depois, juntamente com um anúncio de demissão e uma declaração inequívoca. “Assumo a responsabilidade pelos resultados do Labour em Gales”, afirmou Morgan. Os resultados são históricos: pela primeira vez desde que o governo regional foi criado, os trabalhistas perderam a liderança, que passou para os nacionalistas de centro-esquerda do Plaid Cymru, que terão de governar sem maioria (conseguiram 43 lugares e precisavam de 49 para a maioria).
Mas a responsabilização da líder trabalhista em Gales não é partilhada por todos os membros do seu partido. “Toda a gente em Gales está a dizer que isto é culpa do Starmer”, afirmou uma figura de topo do Labour à estação pública. A mesma fonte dizia ainda que a recusa do primeiro-ministro em apresentar a demissão nessa mesma manhã “caiu muito, muito mal” em Cardiff.
Não foi só no País de Gales que os trabalhistas atiraram as culpas para Downing Street. Apesar de as eleições autárquicas serem guiadas tradicionalmente por problemas e figuras mais locais, vários líderes trabalhistas admitiram à Sky News ter “subestimado” o quanto a insatisfação nacional e a impopularidade do Governo de Starmer — num nível histórico mínimo — envenenaram as corridas locais. Um dos casos mais evidentes foi Birmingham, o maior círculo eleitoral do país, que caiu para o Reform ao fim de 14 anos de liderança trabalhista. “Digamos apenas que não vi ninguém que esteja sequer perto de estar feliz. O ambiente é pior do que mau, é deprimente”, retratou um trabalhista ao The Guardian, ainda antes de a derrota ter sido confirmada ao final da tarde.
Mesmo nos círculos que o Labour conseguiu manter, ficou marcada a dimensão impressionante da derrota. É o caso de Manchester, onde os trabalhistas tiveram os “piores resultados em 60 anos”, segundo o deputado eleito por um círculo da área de Manchester, Graham Stringer. “Isto é um problema criado no Parlamento por Keir Starmer e por um Governo que ignorou as preocupações do eleitor tradicional do Labour”, acusou.
O problema é identificado por múltiplas fontes do partido ouvidas pelo The Guardian: o eleitorado respondeu mal às ações de Starmer no que toca ao custo de vida (sobretudo as reformas na segurança social), à política externa (a ação britânica face à ofensiva israelita na Faixa de Gaza) e à política migratória (que se tornou mais restritiva). Contudo, face ao acumular de derrotas e críticas, há quem consiga ver um lado positivo. “A parte tranquilizadora é que as pessoas não odeiam o Labour… Odeiam-no a ele [Keir Starmer]”, simplifica à BBC um deputado trabalhista eleito por uma região que sofreu duras perdas para o Reform.
▲ Rayner e Burnham são, agora, os principais desafios à liderança de Starmer
Getty Images
Perigo de implosão ou da rotatividade: que lições da queda dos “tories“?
Os relatos, publicados pela imprensa britânica, impunham-se há várias semanas: vários nomes que estão ou já tinham estado no Executivo de Keir Starmer estariam a preparar um desafio interno ao líder do Partido Trabalhista. É o caso de Angela Reyner, antiga vice-primeira-ministra, e Wes Streeting, ministro da Saúde. Esta quinta-feira, em dia de eleições, o The Times citava duas fontes que afirmavam que Ed Miliband, ministro da Energia e um dos membros do círculo próximo de Starmer, teria sugerido ao primeiro-ministro que planeasse a sua saída e a sucessão, de forma a evitar uma “competição interna prejudicial”.
Esta sexta-feira de manhã, na conferência de imprensa em que reagiu aos resultados, o primeiro-ministro foi confrontado diretamente com os rumores. Questionado pela correspondente da Sky News sobre uma mensagem que tinha recebido de alguém da sua “cúpula”, dizendo que temia que a permanência de Starmer pusesse a sobrevivência do Labour em risco, o líder do Governo salientou a sua vitória em 2024 apesar de uma “herança terrível” e um “contexto internacional muito, muito difícil”. E deixou claro: “Fui eleito para um mandato de cinco anos. Tenciono cumpri-lo até ao fim”.
Na verdade, ninguém nega que o contexto atual é muito difícil — isso parece ser um dado adquirido. O que está a ser posto em causa é se “Keir Starmer tem as qualidades necessárias para guiar o país nestes tempos turbulentos e reconectar-se com um eleitorado desencantado”, como expôs o deputado trabalhista Dave Watts numa coluna de opinião em que apela a uma transição de poder coordenada entre Keir Starmer e Andy Burnham. A mesma solução era sugerida pelo antigo secretário do Partido, Ian Lavery, que disse temer que Starmer “mate o Partido Trabalhista”.
▲ O Labour tenta tirar lições dos erros do Partido Conservador em 2022
ITV via Getty Images
Ao longo do dia, contudo, membros do Executivo deixaram bem claro que a derrota pesada não tinha mudado a posição de Starmer e do seu círculo interno. As posições vincadas de ambas as partes parecem surgir de lições diferentes retiradas da queda a pique do Partido Conservador pós-2022, desde que Boris Johnson foi forçado a abandonar a liderança. Enquanto uns veem o perigo na saída forçada, outros veem o perigo na própria mudança de líder.
Seja qual for a análise, a verdade é que a origem do alerta é justificada. Dois anos depois da derrota pesada dos tories nas eleições legislativas que viram Starmer chegar a Downing Street, o partido agora liderado por Kemi Badenoch ainda está em queda. Esta sexta-feira, os conservadores perderam mais de meio milhar de lugares e pelo menos uma dezena de autarquias, incluindo Essex, reduto dos tories por onde a líder do Partido foi eleita para o Parlamento — não que a derrota tenha sido assumida por Badenoch, que declarou que os “ótimos resultados” (mantiveram algumas localidades que as sondagens mostravam que deviam cair para o Reform e recuperaram Westminster ao Labour) são a prova de que os conservadores “estão de volta”.
A aposta em virar à esquerda sem tentar “ganhar votos de volta ao Reform”
O que têm em comum o líder da direita radical Nigel Farage e o líder da esquerda Zack Polanski? Ambos celebraram resultados históricos que, argumentaram, puseram um ponto final ao sistema político tradicional britânico bipartidário, com uma divisão de poder entre o Partido Trabalhista e o Partido Conservador. “Não está apenas a morrer, está morto e enterrado”, garantiu Polanski na primeira reação aos resultados.
▲ Nigel Farage proclamou o fim do sistema político tradicional bipartidário
ANDY RAIN/EPA
Apesar de o crescimento dos Verdes ser muito mais tímido que o do Reform, Rob Ford, professor de ciência política na Universidade de Manchester, defende que a transferência de votos do Labour acontece de forma mais direta para os Verdes. “É muito claro nos resultados: o Labour perde *lugares* para o Reform, mas… O Labour perde *votos* para os Verdes. Os Verdes dividem os votos e o Ref[orm] sai a ganhar. Se o Labour reagir a este padrão dizendo ‘temos de ganhar votos de volta ao Reform’, arriscam-se a fazer um diagnóstico muito errado“, escreveu o especialista em duas publicações na plataforma Bluesky.
A análise académica não é surpreendente para a fação mais à esquerda do partido, que vê no discurso dos Verdes um caminho a replicar. As preocupações sobre o custo de vida e a política externa — que vários trabalhistas salientavam ao The Guardian como áreas de ação falhada por parte dos trabalhistas — tornaram-se centrais para os Verdes desde que Zack Polanski assumiu a liderança, mais ainda do que a tradicional agenda ambientalista.
Para quem está à esquerda do Labour, a solução para os maus resultados está, portanto, numa mudança de prioridades e não numa mera mudança de líder. “Não há como negar que os resultados destas eleições vão ser muito maus para o Labour. Sim, Keir Starmer é muito impopular. Mas são as suas políticas que motivam essa impopularidade. Simplesmente mudar o líder sem mudar as políticas não vai impedir um desastre em 2029”, escreveu nas redes sociais a deputada trabalhista Diane Abbot, que ocupou, sob a liderança de Jeremy Corbyn, o Ministério-sombra da Administração Interna.
Na mesma plataforma, John McDonnell, outro nome do Governo-sombra de Corbyn, com a pasta das Finanças, alertava para um perigo concreto de o Labour manter o mesmo rumo, em linha com a análise de Rob Ford. “Keir precisa de pôr o partido e o país em primeiro lugar e avaliar se está a arriscar abrir a porta a Farage”, escreveu. Pela primeira vez, o partido da direita radical ficou em primeiro lugar no voto popular, com mais de um terço dos votos — caso se repita o resultado em 2029, o sistema uninominal britânico pode permitir a sua chegada ao Governo. Ainda assim, McDonnell apela a que esta mudança de rumo seja feita através do diálogo e não de um “golpe”.
▲ Sob a liderança renovadora de Polanski, os Verdes conquistaram a sua primeira câmara municipal
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O encontro a meio termo e a busca por uma “transição ordeira de poder”
No início da semana, o The Times dava conta, citando fonte com conhecimento das movimentações e dos planos de Angela Reyner, Andy Burnham e West Streeting para “agir” assim que os resultados das eleições confirmassem o cenário “desastroso” para o Labour. Contudo, o que parecia estar desenhar-se como uma corrida agressiva por um lugar em Downing Street assumiu um tom diferente no dia decisivo. O primeiro dia de contagem de votos passou sem qualquer anúncio dos proto-candidatos — e até com um aparente passo atrás do favorito.
“Não podemos descer ao nível de uma competição interna irresponsável e atribulada”, declarou a deputada Louise Haigh à BBC, já depois de contabilizados mais de metade dos votos e consolidados os resultados. Haigh tem sido, durante os últimos meses, uma das vozes críticas de Starmer que se posicionou ao lado de Burnham, mas esta sexta-feira mudou o tom. “O primeiro-ministro está a fazer um trabalho excecional no plano internacional e é imperativo que seja bem-sucedido”, acrescentou, notando, ainda assim, que são precisas mudanças de política, não de liderança.
Em causa pode estar o novo obstáculo que surgiu a uma potencial candidatura de Burnham à liderança do Labour. É que o autarca não precisa de reunir apenas o apoio de 81 deputados trabalhistas em Westminster. Antes disso, precisa de chegar a Westminster e esse é um longo caminho. Primeiro, um deputado eleito teria de abdicar do seu lugar para criar um lugar a que Burnham pudesse concorrer. Alguns deputados de Manchester ter-se-ão oferecido para abdicar, avança a Sky News, citando um deputado trabalhista, mas queriam “a garantia de que [Burnham] podia ganhar e essas garantias não podem ser dadas”.
O cenário é agora ainda mais perigoso, dado o desempenho expressivo do Reform na região — uma eleição especial podia pôr em risco um lugar trabalhista no Parlamento. Depois, o mesmo risco aplica-se à corrida autárquica para substituir Burnham na liderança da área de Grande Manchester — estaria o Labour disposto a pôr em risco uma Câmara na terceira maior cidade do país?
O entusiasmo por uma queda rápida de Starmer parece ter esmorecido e, dentro do partido, desenham-se novas linhas. Esta quarta-feira, um grupo de deputados da red wall, o bastião do Labour no norte do país que foi agora abalado pelo Reform, vai reunir-se para discutir os próximos passos, avança a BBC. Este grupo específico de deputados não tem sido particularmente crítico de Starmer, mas também quer mudanças, na sequência dos resultados nos seus círculos. Com transformações de um lado e do outro, os diferentes espectros do Labour parecem concordar numa ideia: “Uma transição ordeira de poder.” Agora, começa o desafio de fazer Starmer concordar com ela.
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