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▲A reunião de Putin e Trump foi a sétima e a primeira desde 2019

AFP via Getty Images

▲A reunião de Putin e Trump foi a sétima e a primeira desde 2019

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Encontro entre Trump e Putin teve uma carpete vermelha, aplausos, piadas e conversas durante três horas. Mas terminou sem acordo

Putin levou do Alasca mais tempo e reconhecimento internacional, Trump a possibilidade de reuniões futuras. Mas, sem acordo, a tão desejada cimeira assemelhou-se a uma encenação de uma vitória maior.

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Os termómetros não passavam dos 15ºC quando o avião presidencial de Vladimir Putin aterrou no Alasca por volta das 11h locais (20h em Lisboa) desta sexta-feira. Mas o cenário que o aguardava na pista da base militar de Elmendorf-Richardson era bem mais caloroso. Os primeiros passos do Presidente russo em solo norte-americano em quase uma década foram dados numa carpete vermelha que tinha sido estendida em sua honra. No final da passadeira, era recebido, com aplausos e um sorriso pelo Presidente Donald Trump.

“Muito boa tarde, querido vizinho, é bom vê-lo e de boa saúde”, declarou ao homólogo norte-americano, segundo relatou o próprio horas mais tarde em conferência de imprensa. Contudo, os relatos de amizade entre dois chefes de Estado provaram não ser suficientes para aproximar Moscovo e Washington e a tão antecipada cimeira do Alasca terminou sem um acordo para pôr fim à guerra da Ucrânia. “Fizemos progressos ótimos (…), [mas] ainda não chegámos lá”, declarou Donald Trump aos jornalistas.

Apesar de regressar a Washington sem um acordo, Trump não admitiu um fracasso e preferiu salientar a discussão “produtiva” e encarar o encontro no Alasca como o “primeiro passo” para um acordo futuro. Contudo, notaram-se divergências sobre que futuro será esse. Trump, de olho no seu principal objetivo — um cessar-fogo na Ucrânia — definiu como prioridade telefonar aos homólogos da NATO e a Volodymyr Zelenksy, como prometeu que faria caso a reunião fosse bem-sucedida, para um encontro a três. Putin preferiu focar-se na cooperação bilateral e no facto de “Estados Unidos e Rússia terem tanto para oferecer um ao outro” e brincou com a possibilidade do próximo (e rápido) novo encontro em Moscovo.

Tudo somado, Putin parece ter saído com os bolsos mais cheios: adiou uma trégua que o obrigasse a travar os avanços no campo de batalha, foi bem-recebido e conseguiu colocar outros temas em cima da mesa. Mas, na prática, a cimeira do Alasca foi menos o encontro decisivo para pôr fim a uma guerra e mais uma encenação em três partes da relação de dois líderes que recusam ceder nas suas exigências.

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▲ Trump recebeu Vladimir Putin com aplausos

AFP via Getty Images

A receção: passadeira vermelha, aplausos e a “Fera”

Na pista da base Elmendorf-Richardson, a carpete vermelha foi o centro das atenções. Para os europeus, foi um gesto “difícil de engolir“, “dados os horrores que as forças de Putin estão a infligir diariamente na Ucrânia”, admitiu um diplomata europeu à CNN. Mas para os russos, a passadeira foi um símbolo do fim do “isolamento” da Rússia na esfera internacional, como salientou a porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Maria Zakharova.

Mas este não foi o único gesto — ou “adereço” como descreve o New York Times — que marcou a chegada de Putin ao Alasca. As interações entre os dois líderes não pareceram nada menos que afáveis. Depois dos aplausos, Trump e Putin trocaram apertos de mão e risos, enquanto caminhavam para um pequeno palco montado para tirarem fotografias. As imagens tiveram como pano de fundo um esquadrão de jatos F-22 que sobrevoaram o céu do Alasca.

O momento não foi apenas uma demonstração de força militar, mas também um gesto de respeito pelo Presidente russo, escreve o jornal norte-americano. Isto porque estes são os mesmos aviões que intercetam aparelhos russos que sobrevoam a costa do Alasca. O facto de terem sido utilizados para um voo simbólico e não numa missão é significativo.

Na pista, ainda houve tempo para outro momento simbólico, quando o Presidente norte-americano convidou Vladimir Putin e a deslocar-se consigo no seu veículo blindado, apelidado de “Fera”. A limusina do Presidente russo aguardava-o na pista, mas Putin escolheu viajar com Trump e sem um tradutor, segundo relata a imprensa norte-americana. É raro ver o Presidente norte-americano a viajar com outro chefe de Estado que não seja seu aliado num dos carros presidenciais — Trump já tinha feito o mesmo convite a Kim Jong-Un durante a sua primeira administração, mas o líder norte-coreano recusou.

epa12303633 US President Donald Trump (R) and Russian President Vladimir Putin pose on the podium on the tarmac after they arrived to attend a meeting at Joint Base Elmendorf-Richardson in Anchorage, Alaska, USA, 15 August 2025.  EPA/GAVRIIL GRIGOROV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL MANDATORY CREDIT

▲ Os dois líderes tiraram fotografias à chegada, sem responder a questões

GAVRIIL GRIGOROV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL/EPA

Putin aceitou e o momento tornou-se ainda mais importante, pois acabou por ser o único em que os dois Presidentes estiveram sozinhos, a conversar diretamente em inglês — língua em que Putin é fluente. Inicialmente, estava planeado que a primeira reunião fosse um encontro a dois, mas a Casa Branca anunciou, numa mudança de última hora, que o encontro passaria a ser a seis, entre Trump, Putin e dois membros de cada uma das delegações.

A lisonja de Trump a Putin terá sido uma escolha ponderada da Casa Branca, relatou um membros da administração à CNN, que defendeu que os russos precisavam de ser encorajados a negociar e não apenas forçados. “Os europeus não pensam em cenouras há anos”, criticou, referindo-se a formas de aliciar a outra parte a negociar.

A reunião: as três horas de diálogos que correram “incrivelmente bem”

Depois de uma breve viagem na “Fera”, Donald Trump e Vladimir Putin entraram na sala de reuniões. Atrás de Putin entrou o ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergey Lavrov, e o seu conselheiro, Yuri Ushakov. Passado pouco tempo, o secretário de Estado, Marco Rubio, que cumprimentou os três homens com sorrisos, apertos de mão e breves palavras. Depois dele, Steve Witkoff, enviado especial da Casa Branca.

Entre entradas e fotografias, Vladimir Putin voltou a ouvir dos jornalistas na sala as mesmas questões que já tinham sido gritadas enquanto tiravam fotografias na pista: “Presidente Putin, vai concordar com um cessar-fogo?”, “Presidente Putin, vai continuar a matar civis?“. Em ambas as ocasiões, o Presidente russo colocou uma expressão confusa e não respondeu às questões. Na sala de reuniões, gritou ainda algo impercetível na direção dos jornalistas. A correspondente do Washington Post na Rússia justificou a atitude com o facto de “nunca estar num ambiente assim”, uma vez que as “suas conferências de imprensa são muito coreografadas”.

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▲ Vladimir Putin falou na direção dos jornalistas

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“Desconfortável” ou não com as questões, os jornalistas rapidamente saíram da sala e deixaram os seis responsáveis (e dois tradutores) em negociações. Donald Trump tinha dito que precisava apenas de dois minutos para avaliar as verdadeiras intenções de Putin e ameaçou que, caso a reunião não estivesse a ser produtiva, não teria problemas em abandonar a sala. Já o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, tinha estimado que as negociações durassem, no mínimo, seis a sete horas.

Tendo em conta estas declarações, o facto de o encontro se ter estendido muito além do tempo das habituais conversas telefónicas entre os dois, que duram cerca de hora e meia, não foi surpreendente — pelo contrário, foi bem-recebido, pois isso queria dizer que o Presidente norte-americano não tinha sentido que o encontro “estava a dar para o torto”, nota a CNN.

O fim do encontro a seis foi anunciado pelo Kremlin e noticiado pelos media estatais russos ao fim de quase três horas. Às agências noticiosas russas, membros da delegação russa disseram estar de “excelente humor” e que as conversas tinham corrido “incrivelmente bem”. No entanto, a agenda voltou a sofrer alterações. Estava planeado que os líderes seguissem diretamente para um almoço de trabalho com as respetivas delegações completas. Em vez disso, foi anunciado que iria realizar-se uma conferência de imprensa.

Na sala da conferência de imprensa estava um novo sinal de esperança: dois púlpitos. Ao longo da semana, Trump chegou a dizer que, caso a reunião corresse mal, não excluía falar sozinho aos jornalistas. A existência de dois púlpitos e dois microfones e a presença de parte da delegação russa na sala consolidou a possibilidade de que a reunião teria sido bem-sucedida e os dois Presidentes poderiam estar prestes a fazer um anúncio.

epa12303622 US President Donald Trump (R) and Russian President Vladimir Putin attend a meeting at Joint Base Elmendorf-Richardson in Anchorage, Alaska, USA, 15 August 2025.  EPA/SERGEY BOBYLEV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL MANDATORY CREDIT

▲ O encontro durou quase três horas

SERGEY BOBYLEV/SPUTNIK/KREMLIN POOL / POOL/EPA

As declarações: elogios mútuos, promessas futuras, detalhes não apresentados

É preciso recuar a 2018 e ao encontro entre Putin e Trump em Helsínquia para encontrar a última vez que o Presidente da Rússia e dos Estados Unidos realizaram uma conferência de imprensa em conjunto. À data, os dois Presidente falaram e responderam a questões durante cerca de 45 minutos.

Esta sexta-feira, as declarações duraram menos de 15 minutos e não houve espaço para perguntas dos jornalistas. Mais: numa quebra do protocolo habitual, foi o chefe de Estado convidado que falou primeiro e não o anfitrião. Numa narrativa que utiliza frequentemente, Vladimir Putin falou sobre a História da Rússia e os pontos onde se cruza com a dos Estados Unidos, numa relação que diz ter estar “no ponto mais baixo” deste século.

“Mais tarde ou mais cedo tínhamos de emendar a situação e passar da confrontação para o diálogo. Um encontro entre os dois chefes de Estado era há muito tempo aguardado”, declarou. Só depois se debruçou sobre o tema que o levou ao Alasca: a guerra na Ucrânia. Também neste tópico, repetiu um guião habitual, declarando que é preciso endereçar “as raízes do problema” para assegurar a segurança da Ucrânia. Putin deixou ainda um elogio a Trump, ao concordar que, com ele na Casa Branca, a guerra não teria começado.

Quando chegou a vez de Donald Trump falar, o Presidente norte-americano — visivelmente menos animado do que se mostrado na pista horas antes — foi direto ao assunto: a reunião tinha sido produtiva, mas não havia um acordo de cessar-fogo para assinar. “Não há acordo até haver acordo. Fizemos mesmo progressos ótimos. Concordámos em muitos pontos”, começou por dizer, declarando que existem apenas um ou dois tópicos que parecem inconciliáveis. “Temos uma ótima chance de chegar lá, [mas] ainda não chegámos”, continuou. Horas depois, no programa de Sean Hannity, na Fox News, foi questionado diretamente sobre que pontos de discórdia foram estes, mas recusou responder. Além disso, voltou a desdobrar-se em elogios a Putin e considerou que a cimeira merecia nota 10.

▲ Apesar de não terem apresentado resultados concretos, Trump e Putin consideraram o encontro "produtivo"

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Um acordo de cessar-fogo era o principal objetivo de Trump para esta sexta-feira e esse não foi cumprido. No entanto, o Presidente também declarou que, agora, “tem telefonemas a fazer“, nomeadamente com os líderes da NATO e Volodymyr Zelensky, contactos que disse que apenas faria se a reunião fosse bem-sucedida.

A cimeira acabou sem relatos que o almoço de trabalho tenha chegado a acontecer e com um rápido regresso de Putin e Trump aos respetivos aviões presidenciais. Putin levou consigo uma receção calorosa que ajuda a suportar a ideia de que a Rússia continua uma potência e não um Estado isolado pela ordem internacional. Trump falhou o objetivo central, mas não saiu de mãos a abanar — afinal, conseguiu o encontro presencial com Putin, que desejava desde janeiro, e continua a alimentar a possibilidade de um encontro a três.

No cair do pano, a cimeira do Alasca foi apenas um passo tímido, que precisa de passos seguintes, na forma de mais encontros, e ambos os Presidentes reconheceram isso. De tal forma que as últimas palavras que trocaram em público — e em inglês — foram uma piada animada nesse sentido. “Da próxima vez é em Moscovo”, atirou Putin. “Não sei, eu ia ter de arcar com as críticas”, retorquiu Trump.

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