“Advogada da Favela/Chamem-me Eva Mandela/Fecharam a porta do futuro/Nós entramos pela janela.” É assim que Eva Cruzeiro, candidata socialista a deputada que ocupa o oitavo lugar da lista para o círculo de Lisboa, se apresentou no single “Favela”, lançado em 2019. A ativista e investigadora luso-angolana, que tem como nome artístico Eva Rap Diva, não tem experiência na política partidária. Mas, nas redes sociais, não esconde a sua afinidade com PS. Na próxima legislatura, independentemente do resultado que o partido venha a alcançar, terá oportunidade de o defender a partir da Assembleia da República.
A inclusão de Eva Cruzeiro foi mesmo a grande surpresa da lista de candidatos apresentada pelo PS. Na redes sociais, onde é particularmente ativa (no Instagram, tem um milhão e meio de seguidores), explicou que aceitou o convite por entender que não podia continuar “indiferente” perante os “tempos difíceis” que o país, a Europa e o Mundo vivem.
“Vivemos tempos difíceis, marcados por incerteza, desigualdade e ataques cada vez mais frequentes aos nossos direitos fundamentais. Perante isto, não podemos ficar indiferentes. A minha candidatura é, também, um grito de alerta e um apelo à mobilização. Temos que agir! Temos que nos unir! Temos que lutar pelos direitos que já conquistámos, pelos que ainda queremos conquistar e contra tudo o que nos quer silenciar“, justificou a rapper e ativista.
Entretanto, e já depois da publicação deste artigo, foi partilhado nas redes sociais um vídeo publicado em 2022 de Eva Rap Diva a rimar sobre a guerra na Ucrânia, tomando uma posição muito diferente da que tem sido defendida pelo PS. “Eu sou africana, tou-me a cagar para a guerra na Ucrânia. Esses gajos que se matem como nós nos matamos. Eles não se importam connosco, então, nós não nos importamos. Eu sei que isso se cair na net, muitos vão começar a falar mal, mas não me compete agradar a toda a gente.”
Este vídeo está a ser muito partilhado nas redes sociais, do PSD e de outros partidos. A rapper, que é conhecida pelas posições políticas que expressa nas músicas, cresceu na Arrentela, bairro do concelho do Seixal, filha de pais angolanos. Despertou para o rap por influência de um primo e começaria a ganhar o reconhecimento do meio altamente competitivo do hip-hop quando, já depois de se ter mudado para a Amadora, na outra margem do Rio Tejo, experimentou improviso — ou o freestyle.
Apesar da forte influência do hip-hop português no seu crescimento enquanto artista, o primeiro álbum de estúdio foi lançado em Angola — e foi esse disco que a catapultou na cena musical lusófona. O título do disco “A Rainha Ginga do Rap”, pelo qual a candidata do PS também ficou conhecida, é uma referência a Njinga Mbande, uma chefe militar e rainha do Reino do Ndongo, e uma referência da luta angolana contra o colonialismo português.
As causas feminista e anticolonialista que explora nas suas músicas foram acompanhando Eva noutras dimensões da sua vida. Foi apresentadora de um programa de rádio em Angola e, mais recentemente, criou e produziu o podcast Poptudoo, onde abordava diversos temas, desde entretenimento à política. Tem licenciatura em Ciência Política e Relações Internacionais, na Universidade Lusófona, e uma pós-graduação em Gestão Financeira no Instituto Superior de Gestão, em Lisboa.
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Mudou-se depois para Londres para prosseguir os estudos. Na capital britânica, onde vive atualmente, frequentou o mestrado de Desenvolvimento Global na School of Oriental and African Studies (SOAS) da University of London. Esta quinta-feira, horas depois de ter sido apresentada como candidata do PS, Eva anunciou que continuará os estudos na mesma área, tendo-se sido admitida para um doutoramento na Universidade de Lisboa.
Ainda que não seja militante do PS, a ativista não é desconhecida do universo político português. No verão passado, moderou um debate com jovens sobre o futuro da União Europeia, na Fundação Calouste Gulbenkian, onde participou também o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel. No mesmo ano, esteve, no Parlamento Europeu a convite da antiga comissária europeia para a Coesão e Reformas, Elisa Ferreira.
“A minha entrada na política institucional não representa uma mudança de caminho, mas sim um novo capítulo da mesma luta. Uma luta que sempre travámos juntos com arte, com coragem, com consciência e com o coração. Uma extensão natural de uma caminhada feita de ativismo e compromisso com a justiça social”, concluiu Eva na publicação em que anuncia a sua candidatura ao Parlamento.
A rapper-militante que soma prémios e pressões
Em 2018, a RTP contou parte do percurso de Eva Cruzeiro que se foi fazendo entre Arrentela – Amadora – Lisboa e Angola. Nessa altura, a própria recusava ser resumida a uma única circunstância. Não sou de Arrentela, não sou de Luanda, do Lobito, de Benguela ou de Lisboa. Sou uma artista do mundo”, dizia, admitindo, ainda assim, a forte influência da cena musical portuguesa. “Fui parida e nascida pelo hip-hop tuga como artista.”
A primeira vez que foi exposta a uma audiência um pouco mais vasta aconteceu em 2006, quando um vídeo de uma sessão de improviso na casa de Sam The Kid, um dos nomes maiores do hip-hop português, foi parar à Internet. E foi esse momento deu-lhe reconhecimento na comunidade do rap português.
Três anos depois, em 2009, trocou a Amadora por Angola por motivos alheios à música. Mas foi lá que surgiram as oportunidades para se profissionalizar no rap. A alcunha Eva Rap Diva foi adotada então, quando a rapper já era a voz do programa Beatbox, que apresentaria na rádio nacional angolana, durante 12 anos. Depois de uma participação de sucesso na remistura de Fuba, um tema da famosa banda angolana Gingas de Maculusso, Eva desistiu do seu emprego em Luanda e fez um grande investimento financeiro na gravação e promoção do disco “A Rainha Ginga do Rap”. Deu frutos.
O risco compensou e Eva Rap Diva começou a atuar no circuito de espetáculos do país, com concertos em vários palcos, desde discotecas a estádios, em festivais. Em Portugal, Eva integrou o cartaz de festivais de renome como o Meo Sudoeste, em 2018, ou o Vodafone Mexefest, em 2017. Ainda assim, numa entrevista à NiT, em 2022, admitiu que tem encontrado “barreiras” ao nível musical no seu país natal: “Eu sou portuguesa, alfacinha de gema, mas cá sou tida como rapper angolana”.
Eva defendeu que essa dificuldade em afirmar-se junto do público português acontece “por incrível que pareça”, em parte, devido ao facto de ser mulher. A ativista acredita que, de forma geral, Portugal está mais avançado que Angola ao nível da igualdade de género, mas considera que o mercado musical é uma exceção à regra e mostra-se inconformada: “Dizem que sou a maior rapper do continente africano, estou muito satisfeita com isso. Mas gostava de ter mais espaço em Portugal porque é um país com o qual me identifico, desde o hino nacional à cultura e sociedade”.
Por outro lado, em Angola, encontrou outro tipo de barreiras. Eva Rap Diva partilhou, na mesma entrevista, que devido a coisas “que disse e defendeu” tinha sido censurada no canal de televisão angolano ZAP e noutros meios de comunicação daquele país. A reportagem da RTP de 2018 captou o momento em que, num concerto, a rapper contou à audiência as pressões de que foi alvo devido à da música “Um assobio meu”, que lhe rendeu três prémios na edição de 2017 dos Angola HipHop Awards e das mais populares do seu canal do Youtube: “Esta é uma das melhores músicas da minha carreira, ganhei muitos prémios com ela em Angola, mas também tive muitos problemas porque ela fala da realidade do país que infelizmente não é das melhores”.
Essa “censura” levou-a a querer preparar melhor os posicionamentos políticos que assumia não só nas músicas, mas também em entrevistas e nas redes sociais. “Foi por isso que decidi estudar Ciência Política, para entender como é que através da política poderia fazer mais pelo país [Angola]. Porque às vezes estamos a dar opiniões mas não temos a noção do que realmente acontece na política — não só angolana, mas global”, acrescentou. Agora, a ativista vai poder perceber por dentro como funciona a política em Portugal.