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FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

Explicador. As razões que levaram ao arquivamento do caso Spinumviva

Luís Montenego foi alvo de averiguação por suspeitas de recebimento indevido de vantagem. MP concluiu que "não há notícia da prática de ilícito criminal". O caso em 10 perguntas e respostas.

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Durante cerca de nove meses, Luís Montenegro viveu sob a sombra da averiguação preventiva ao caso Spinumviva. Pouco se soube sobre o conteúdo da averiguação do Departamento Central de Investigação e Ação Penal (DCIAP), coadjuvado pela Polícia Judiciária — a não ser a alegada falta de colaboração do primeiro-ministro em ceder a documentação solicitada — e a demora na conclusão levou a críticas dirigidas ao procurador-geral Amadeu Guerra.

No final, a decisão foi o arquivamento. Fonte oficial da Procuradoria-Geral da República fez questão de esclarecer o Observador de que Amadeu Guerra pediu escusa ainda antes da decisão da procuradora Inês Bonina.

O que levou a esta decisão? Que crime e o que foi investigado? Que tipo de documentos foram solicitados pelo DCIAP? E qual a razão para o procurador-geral pedir escusa? O Observador explica o caso Spinumviva em 10 perguntas e respostas.

Montenegro fica livre de suspeitas com decisão do DCIAP?

Qual foi decisão do DCIAP sobre a averiguação preventiva no caso Spinumviva?

O DCIAP anunciou esta quarta-feira o arquivamento da averiguação preventiva aberta contra o primeiro-ministro Luís Montenegro no âmbito do caso Spinumviva — a empresa familiar de Luís Montenegro à qual este ainda estava ligado quando tomou posse como primeiro-ministro.

Spinumviva. Averiguação preventiva contra Luís Montenegro foi arquivada

“O Ministério Público junto do DCIAP concluiu não existir notícia da prática de ilícito criminal, razão pela qual foi a averiguação preventiva arquivada”, lê-se no comunicado divulgado durante a tarde na página da Procuradoria-Geral da República, sustentando a decisão num “despacho fundamentado de arquivamento”.

Que matérias estiveram em análise na averiguação preventiva?

A nota publicada pelo DCIAP explicitou de forma clara a delimitação do objeto desta averiguação preventiva a Luís Montenegro e à empresa Spinumviva, complementando que a mesma se suportou em “alegações divulgadas pela comunicação social e reproduzidas em denúncias remetidas ao Ministério Público”. A denúncia feita por Ana Gomes foi dirigida à Procuradoria Europeia e igualmente arquivada.

Perante esses limites, o DCIAP e a Polícia Judiciária analisaram “os pagamentos à sociedade Spinumviva, de que Luís Montenegro havia sido sócio e que continuou na sua família”, e que se “mantiveram já enquanto este era primeiro-ministro e sem que lhe fossem devidos”. “Ou porque, não tendo a sociedade o benefício da sua atividade profissional, não poderia ter prestado quaisquer serviços que justificassem tais pagamentos; ou porque, sendo o valor pago superior aos de mercado para serviços idênticos, tais montantes não lhe seriam igualmente devidos”, explicou o DCIAP no seu comunicado.

O DCIAP e a Polícia Judiciária analisaram "os pagamentos à sociedade Spinumviva, de que Luís Montenegro havia sido sócio e que continuou na sua família", e que se "mantiveram já enquanto este era primeiro-ministro e sem que lhe fossem devidos".

Foram ainda analisadas novas denúncias que chegaram durante a vigência deste procedimento administrativo e que davam conta da compra de dois apartamentos em Lisboa pela família de Luís Montenegro, tendo essas denúncias sido sustentadas em notícias avançadas no último ano pela comunicação social.

Qual o crime alegadamente ligado às suspeitas sobre Luís Montenegro que foi agora afastado?

Sobre as diversas suspeitas suscitadas sobre o líder do Executivo nesta averiguação preventiva pairou, segundo o Ministério Público, sempre o mesmo crime: recebimento ou oferta indevidos de vantagem.

De acordo com o Código Penal, este crime — previsto no artigo 372.º — pode implicar uma pena máxima de cinco anos de prisão. “O funcionário que, no exercício das suas funções ou por causa delas, por si, ou por interposta pessoa, com o seu consentimento ou ratificação, solicitar ou aceitar, para si ou para terceiro, vantagem patrimonial ou não patrimonial, que não lhe seja devida, é punido com pena de prisão até cinco anos ou com pena de multa até 600 dias”, indica o Código Penal.

Procuradoria-Geral da República abre averiguação preventiva sobre Luís Montenegro e Spinumviva

Quanto tempo durou este procedimento? E porquê?

Cerca de nove meses. Conforme o DCIAP lembrou na nota publicada, a averiguação preventiva foi instaurada no dia 12 de março de 2025. A confirmação da abertura desse procedimento foi dada pelo próprio procurador-geral da República, um dia após a rejeição da moção de confiança que fez cair o primeiro executivo de Montenegro, e teve origem em três denúncias contra a empresa familiar do primeiro-ministro.

“Foi dada nota pública da sua instauração por razões de esclarecimento e interesse público devido à qualidade do visado (primeiro-ministro de Portugal). Pelas mesmas razões que estiveram na base da informação da abertura da averiguação preventiva, damos nota pública do despacho final proferido no dia de ontem” [terça-feira], acrescentou o DCIAP no comunicado. Portanto, a averiguação preventiva decorreu entre 12 de março e 16 de dezembro, ou seja, um total de 279 dias.

O procurador-geral da República foi questionado por várias vezes pela comunicação social sobre quando terminaria o procedimento, tendo Amadeu Guerra argumentado com o tempo de espera do envio de documentação dos visados e o elevado volume de informação recolhida. Ao que o Observador apurou, foram compiladas várias dezenas de volumes. “Tais elementos recolhidos conduziram à conclusão de não existir notícia do referido crime, nem perigo da sua prática estar a ocorrer; não foi igualmente colhida notícia de qualquer outro crime”, refere a nota do DCIAP.

Como foi recolhida a informação para sustentou o arquivamento?

É preciso ter em conta que a averiguação preventiva é um instrumento à disposição do MP muito distinto de um inquérito-crime formal. A averiguação preventiva é um processo administrativo que depende de fontes abertas ou da colaboração dos visados, não sendo possível recorrer a métodos mais intrusivos de investigação, como, por exemplo, buscas, quebra de segredo bancário ou escutas telefónicas. Na prática, funciona como um ‘pré-inquérito’.

Há consulta de provas? Interrogatórios? E pode levar a inquérito? O que é a “averiguação preventiva” que o MP abriu à Spinumviva

Nesse sentido, o DCIAP explicou no comunicado que a averiguação preventiva assentou no recurso a “fontes abertas e difundidas pela comunicação social” e informação das conservatórias do registo predial e comercial, da Comissão Nacional de Proteção de Dados e do Tribunal Constitucional.

Além destas entidades, foi recolhida informação junto do primeiro-ministro e dos seus filhos, Hugo e Diogo Montenegro, bem como da empresa familiar Spinumviva. Foi igualmente pedida informação aos clientes da sociedade, designadamente: Solverde, Rádio Popular, Ferpinta, Colégio Luso-Internacional do Porto, Lopes Barata, Consultoria e Gestão, Beetsteel, INETUM Holding Business Solutions Portugal, ITAU, Sogenave, Portugalenses Transportes, Lda., e Joaquim de Barros Rodrigues & Filhos.

Qual a participação de Luís Montenegro na averiguação preventiva?

O DCIAP revelou também que o primeiro-ministro prestou declarações no âmbito da averiguação preventiva, embora neste processo administrativo a cooperação dos visados seja meramente voluntária. Luís Montenegro tinha manifestado várias vezes a sua disponibilidade para prestar todos os esclarecimentos sobre o caso Spinumviva, desde que o mesmo foi conhecido no início deste ano, e esta noite detalhou ainda toda a colaboração prestada na averiguação.

“Foram analisados movimentos bancários e extratos bancários, meus, da minha mulher e dos meus filhos; foram demonstrados fluxos financeiros, aplicações financeiras e as origens dos fundos utilizados na aquisição de património dos próprios; foram demonstrados os serviços prestados, a identidade dos clientes, o valor cobrado, os prestadores concretos dos serviços, os balancetes, as demonstrações de resultados, as despesas e a totalidade dos extratos bancários da sociedade Spinumviva, desde a sua fundação até ao momento; foram aferidas as condições de independência, isenção e exclusividade do exercício de funções governativas”, explicou o primeiro-ministro.

"Foram analisados movimentos bancários e extratos bancários, meus, da minha mulher e dos meus filhos; foram demonstrados fluxos financeiros, aplicações financeiras e as origens dos fundos utilizados na aquisição de património dos próprios; foram demonstrados os serviços prestados, a identidade dos clientes, o valor cobrado, os prestadores concretos dos serviços (...) e a totalidade dos extratos bancários da sociedade Spinumviva; foram aferidas as condições de independência, isenção e exclusividade do exercício de funções governativas", explicou o primeiro-ministro.

Montenegro fez ainda questão de confirmar que “eu próprio me disponibilizei para ser ouvido, o que aconteceu também”.

O que disse o primeiro-ministro sobre o anúncio do arquivamento?

Luís Montenegro declarou ter esperado “com tranquilidade por este dia”, mas também assumiu ter sofrido com o sofrimento da família face à suspeição em torno desta situação. No entanto, realçou a sintonia de diversos organismos para o arquivamento de todas as suspeitas. “Depois da avaliação e pronúncia da Ordem dos Advogados, da Procuradoria Europeia, do Ministério Público e da Polícia Judiciária, todas estas instituições convergem na conclusão da inexistência de indícios de ilegalidade ou ilícitos criminais e todas arquivaram os respetivos procedimentos”, afirmou

Na declaração ao país, Montenegro garantiu ter exercido “sempre a função de primeiro-ministro em regime de exclusividade” e considerou que as denúncias e as notícias “assentaram em insinuações, suspeições e especulações” que tiveram uma adesão significativa mas sem fundamento. “Nunca fui avençado de ninguém desde que fui eleito presidente do PSD”, vincou.

A defesa da honra, o ataque à bolha e a demonstração de força. Montenegro enterra Spinumviva

Para o primeiro-ministro, o MP e a PJ levaram a cabo “um autêntico inquérito criminal, tal foi o alcance das diligências efetuadas e os elementos probatórios apreciados”. Recorrendo inclusivamente à sua experiência de advogado, Montenegro, defendeu que, “em certo sentido, se foi mais longe do que o normalmente admissível num inquérito, uma vez que os visados aceitaram uma total inversão do ónus da prova“.

A terminar, Luís Montenegro salientou que a política não é conduzida por “capas dos jornais” ou “despachos de abertura de inquéritos por denúncias infundadas” e acrescentou que o escrutínio — seja do jornalismo ou da justiça — também “devem funcionar com regras” para que não se caia em “expedientes” ou “conluios para exibir histórias mal contadas”.

Por que razão Amadeu Guerra pediu escusa?

Numa averiguação preventiva, o procurador titular — neste caso, a procuradora Inês Bonina — recolhe a informação necessária para a instrução desse processo administrativo e analisa a existência de possíveis indícios de matéria criminal nos factos que são conhecidos.

Se esses factos não são claros ou não validam indícios da prática de crimes, é proposto o arquivamento; se se concluir pela confirmação da existência de matéria criminal que justifica uma investigação mais aprofundada, é proposta à hierarquia — o diretor do DCIAP, Rui Cardoso, ou o procurador-geral da República — a conversão da averiguação preventiva num inquérito. E como aqui estava em causa o primeiro-ministro, tal inquérito estaria a cargo do Ministério Público junto do Supremo Tribunal de Justiça, devido ao foro especial conferido a este titular de cargo político.

"Face a comentários no espaço público que colocavam em causa a sua imparcialidade, o Procurador-Geral da República apresentou uma declaração de escusa em data anterior ao despacho final"
Fonte oficial da Procuradoria-Geral da República

Contudo, no arquivamento desta averiguação preventiva não houve qualquer tomada de posição formal de Amadeu Guerra, segundo esclareceu fonte oficial da PGR ao Observador. “Face a comentários no espaço público que colocavam em causa a sua imparcialidade, o procurador-geral da República apresentou uma declaração de escusa em data anterior ao despacho final”, explicou a PGR.

Subjacente a esta explicação estão algumas críticas a Amadeu Guerra em relação à conduta adotada sobre este caso. Uma dessas vozes foi a do secretário-geral do PS, José Luís Carneiro. “O que para mim é incompreensível é que não tenha sido aberto um inquérito”, afirmou em outubro o líder socialista.

Que outras suspeitas chegaram a ser levantadas sobre Luís Montenegro e a Spinumviva?

Em paralelo às suspeitas já descritas, Luís Montenegro e a Spinumviva chegaram a ser associados a suspeitas da prática do crime de procuradoria ilícita, bem como de um suposto favorecimento pela ligação à Solverde, uma das empresas que foi cliente da sua sociedade familiar e à qual pagou uma avença mensal quando Montenegro já estava no Governo. Esta última matéria foi exposta numa denúncia da ex-eurodeputada socialista Ana Gomes à Procuradoria Europeia.

Caso Spinumviva. PGR vai pedir documentos à empresa familiar de Luís Montenegro e aos seus clientes (uma das denúncias é de Ana Gomes)

Sobre a procuradoria ilícita, o bastonário da Ordem dos Advogados, João Massano, e o Conselho Geral da Ordem dos Advogados informaram no passado dia 20 de novembro sobre o arquivamento do procedimento de averiguações relativo à Spinumviva instaurado no Conselho Regional do Porto.

Tendo em conta que o crime de procuradoria ilícita é semipúblico, ou seja, depende de queixa da Ordem dos Advogados, o arquivamento do Conselho Regional do Porto inviabilizou qualquer inquérito sobre esse crime.  Jorge Barros Mendes, presidente do Conselho Regional do Porto, explicou então ao Observador que a principal razão para tal arquivamento se deveu à alteração da lei dos atos próprios de advogados (aprovada pelo Governo de António Costa), que passou a excluir determinados atos (como a consultadoria da proteção de dados) da prática exclusiva por advogados.

Já em relação à denúncia de Ana Gomes junto da Procuradoria Europeia, o organismo confirmou também esta quarta-feira que tinha sido arquivada no dia 27 de novembro.

“Após verificação rigorosa das suspeitas comunicadas à Procuradoria Europeia (em conformidade com o artigo 26.º do Regulamento da Procuradoria Europeia), foi decidido não abrir uma investigação”, adiantou a entidade comunitária em resposta à agência Lusa. Ana Gomes esclareceu que a não abertura de uma investigação foi justificada com o facto de os fundos europeus de que beneficiou o grupo Solverde terem sido atribuídos na vigência do Governo de António Costa.

Spinumviva. Despachos da PGR são sempre confidenciais?

É possível consultar ou contestar o arquivamento de uma averiguação preventiva?

Não. Por regra, as averiguações preventivas não são passíveis de consulta pública, por estarem em causa elementos de natureza pessoal. Porém, falta saber se o despacho da procuradora Inês Bonina e aquelas dezenas de volumes poderão ser consultados. Desde sempre que a Procuradoria-Geral da República impediu o acesso à informação das averiguações preventivas por serem confidenciais.

No final de novembro, a PGR divulgou até uma nota de esclarecimento sobre a diretiva relativa a ações de prevenção criminal, ao notar que o “dever absoluto de sigilo” é a prática prevista na legislação sobre estes processos administrativos. “Sigilo que se mantém em relação a toda a informação recolhida quando a averiguação preventiva é arquivada, sem prejuízo de poder ser ponderada a prestação de esclarecimentos com o fim de restabelecimento da verdade”, sustentou a PGR.

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