Facebook: 12 anos depois, o que vales?

09 Fevereiro 2016118

A maior rede social do mundo completou 12 anos de idade. Mais de uma década depois, o que vale o projeto de Mark Zuckerberg?

Em 2011, os pais de Mariana Soares, na época com 14 anos, chamaram-na à sala. Tinham de ter uma “conversa séria”: era uma autorização e uma lista de regras, direitos, deveres e responsabilidades. “O pai e a mãe dão-te permissão para fazer um Facebook”. Mariana começou a chorar. “Toda a gente na minha escola tinha Facebook, menos eu. Sentia que uma parte da minha vida social estava de certa forma posta de parte. A partir dali, isso iria deixar de acontecer”, contou a estudante de Gestão ao Observador.

Hoje tem 19 anos e uma nova conta na rede social que celebrou 12 anos de existência. Apagou a primeira ao fim de dois anos: “Estava cansada das publicações sem conteúdo nenhum que apareciam no meu feed de notícias. Às vezes sentia-me obrigada a aceitar uma ligação com pessoas que não me diziam nada, apenas por conveniência. Descobri o Twitter e deixei o Facebook de lado”. Mas, quando entrou na universidade, voltou a registar-se no Facebook.

A verdade é que, por lá, sei de algumas decisões sobre a turma, sobre testes e eventos mais depressa do que pelo email ou em conversa na escola. E não queria ficar para trás.

Quando Mariana regressou ao Facebook, já muita coisa tinha mudado. Haviam pequenos bonecos amarelos que muitos conheciam dos tempos do MSN para expressar sentimentos no mundo virtual (emojis ou emoticons). Os meios de comunicação social já tinham novos formatos para mostrar os artigos aos leitores, que agora acediam ao Facebook cada vez mais pelos smartphones em constante atualização e sempre ligados à internet. Os fãs tinham também uma nova janela para espreitar a vida das celebridades, graças aos vídeos em direto com os quais as figuras públicas podiam comunicar com o público ao vivo e a cores. Outras mudanças subtis ilustravam uma grande viragem social: nos ícones utilizados na página de Facebook, o símbolo feminino passou a aparecer à frente do símbolo masculino.

Qual o futuro do Facebook?

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Número de trabalhadores empregados pelo Facebook em 2015.

Statista

O que esperar, no futuro, de um projeto que nasceu numa sala desarrumada em Harvard e se espalhou pelo planeta inteiro (e até para fora dele, se pensarmos nos astronautas que constantemente nos mostram a Terra vista de cima a partir das redes sociais)? Eis as hipóteses da Forbes:

A realidade virtual. Em 2014, pouco depois de celebrar dez anos de existência, Mark Zuckerberg escreveu no Facebook que acabara de adquirir a Oculus VR, uma das empresas na frente do desenvolvimento de tecnologias de realidade virtual. “A nossa missão é tornar o mundo mais alargado e aberto. Neste ponto, sentimos que estamos numa posição em que podemos começar a focar-nos naquilo que as plataformas estão a seguir para permitir experiências ainda mais úteis, lúdicas e pessoais.”

Um dos produtos da Oculus que mais tem dado que falar é o “Oculus Rift”, um equipamento que permite ao utilizador mergulhar num mundo novo: seja num filme, num vídeo ou num jogo. Com isto, o Facebook pretende produzir conteúdos e interações com a lógica da realidade virtual em mente. E isso inclui paisagens a 360º e, claro, pagamento de honorários às entidades — utilizadores e empresas — que se dediquem à produção deste tipo de conteúdos.

oculus rift

“Oculus Rift”, os óculos para a realidade virtual que a empresa adquirida pelo Facebook há dois anos inventou. Créditos: Oculus Website

Os Instant Articles. Não são uma novidade: os Instant Articles já existem desde o ano passado. São “uma nova forma de os publishers criarem artigos rápidos e interativos no Facebook”, o que permite aos utilizadores acederem a conteúdos dez vezes mais depressa do que fariam num browser normal. Isto traz vantagens para os dois lados: os sites podem utilizar a rede de utilizadores do Facebook (chegando portanto a um público maior) e a marca de Zuckerberg continua na vanguarda da inovação, com as empresas de média cada vez mais agarradas à rede social que passa assim a dar as suas notícias de uma forma ainda mais rápida e global.

Facebook M. A Siri vai ter uma nova prima. A era das assistentes pessoais virtuais parece ter vindo para ficar e o Facebook não quer ficar para trás: depois da assistente da Apple e do nascimento de Cortana, pode estar para breve a chegada de Facebook M, uma funcionalidade de apoio de retaguarda que não é completamente digital: funciona com os mesmos algoritmos que a Siri, mas a natureza híbrida e proativa permite-lhe resolver questões mais complexas. Para quem não sabe, a Siri é a primeira e mais conhecida assistente pessoal digital da Apple. Uma (quase) qualquer pergunta e ela ajuda (e muito) na resposta.

A publicidade. É um mundo constantemente em mudança no universo Facebook. Depois de criar um novo um botão que permite ao utilizador entrar em contacto direto com a marca, a rede social de Mark Zuckerberg pode estar prestes a aumentar o volume de funções sociocomerciais dos conteúdos que inclui nos feeds dos utilizadores. E com uma gestão de publicidades reforçada. Uma nova plataforma de distribuição, que as marcas já não dispensam.

Serviço de cliente do Messenger. A menina dos olhos do Facebook tem sido a aplicação Messenger, que pode trazer vantagens ao negociantes. É por lá que as empresas podem encontrar novos públicos para darem a conhecer os seus produtos (e outros com quem se fidelizar). “Com a ênfase do Facebook a continuar firme, é quase certo que mais funções vão ser lançadas para o Messenger enquanto plataforma de serviço de cliente em 2016”, lê-se na Forbes. O Messenger, para quem possa ainda não ter usado, é o serviço de mensagens do Facebook, através das quais não só os utilizadores podem comunicar como receber várias mensagens, pessoais ou publicitárias.

Ênfase aos vídeos, em nome das visualizações. O Periscope, uma ferramenta de transmissão de vídeo em direto criada pelo concorrente Twitter, está um pouco por todo o lado e o Facebook não quer ficar para trás. Os conteúdos em vídeo estão a ganhar mais adeptos. Por isso é que já podemos passear no feed de notícias do Facebook e ver conteúdos animados a reproduzirem assim que nos chegam aos olhos. Mas o streaming ainda tem de crescer e “o Facebook tem de priorizar fortemente os conteúdos de vídeo” para “conseguir um aumento nas visualizações orgânicas”. Duas vantagens numa única funcionalidade, porque a Forbes avança que as visualizações orgânicas do Facebook têm diminuído a olhos vistos nos últimos anos e, por isso, o Facebook tem de redefinir a sua estratégia de marketing. É que se esta rede social insiste em investir na publicidade e nos Instant Articles, os vídeos também são um fator decisivo para as empresas interessadas em se associar ao Facebook. Prepare-se pois para o que aí vem.

Facebook, Facebook… como chegaste até aqui?

Em parte, o sucesso do Facebook explica-se com a natureza humana. Temos tendência para criar grupos. Não é novidade: está-nos no sangue. Por um lado, nós, humanos, somos seres sociais e precisamos de interagir com o próximo. Por outro, identificamo-nos com quem partilha os mesmos interesses que nós. Ora, o Facebook preenche essas necessidades. Permite-nos fazer amigos, ligarmo-nos a pessoas que já conhecemos, falar com a família quando estamos longe ou descobrir outras coisas (e outras pessoas) das quais gostamos e nem sabíamos. Ou com quem partilhamos afinidades. O sucesso do Facebook deve-se a isso mesmo: ser um elo de ligação entre todos, à escala global.

Um mapa com “todas as amizades formadas no Facebook em todo o mundo”, de acordo com Mark Zuckerberg. Créditos: Mark Zuckerberg/Facebook

O Facebook sacia-nos a sede de conteúdo, seja de entretenimento ou de informação. São milhares de milhões de vídeos, de jogos, de ligações para todos os cantos da internet. Tudo isto num único local, com uma apresentação clara e intuitiva. A Business Insider resumiu alguns “segredos” que tornaram a rede social naquilo que é hoje e, claro, a simplicidade é um deles: “A primeira versão” do Facebook “era muito simples. Fazia uma coisa, bem. Depois, Zuckerberg e a equipa foram-na melhorando com o tempo. E certificavam-se sempre de que o serviço continuava fácil de usar”. É possível que este fator explique ainda porque é que outras redes sociais nunca atingiram o mesmo nível de sucesso. Eram demasiado complicadas. E uma rede social quer-se simples. O mais simples possível.

Para o sucesso desta rede contribuiu ainda o efeito boca-a-boca: alguém descobre, entra… e conta ao próximo. Assim sucessivamente, como que uma epidemia. Hoje, o Facebook é conhecido por criar conteúdos virais, mas o certo é que o próprio Facebook foi — e é — viral, à medida que cada vez mais pessoas se juntam à teia. No último trimestre de 2015 eram já 1.591 milhões de utilizadores, de acordo com o site Statista. E o número não para de crescer.

Mas o ciclo não se fica por aqui. Ao verem os seus públicos reunidos no Facebook, as marcas começaram a bater à porta. Queriam entrar. E isso só foi possível cerca de três anos depois do lançamento: a 7 de novembro de 2007 anunciava-se o nascimento do Facebook Ads, “uma solução de publicidade totalmente nova no Facebook”. Entre as várias novidades apresentadas aos utilizadores estavam as páginas, “perfis distintos e personalizáveis voltados para os negócios, bandas, celebridades, entre outros”. O caso mudava de figura: o Facebook já não era só feito de particulares à procura de velhos ou novos amigos. Também era de empresas. De marcas.

Existem ainda outros fatores que nos prendem à rede social. Desde logo, o aparecimento automático de conteúdos supostamente baseado nos nossos interesses, com partilhas dos nossos amigos e das páginas com as quais escolhemos interagir; a possibilidade de se poder criar grupos de turma, de trabalho, de hobbies e de tudo e mais alguma coisa; o facto de o Facebook ser uma rede social multiplataforma e poder ser usada facilmente em qualquer aparelho (telemóvel, tablet ou computador); e o próprio voyeurismo da rede social, que nos permite olhar de relance, até certo ponto, para o quotidiano de alguém que nos provoque interesse. O Facebook acaba por ser uma ferramenta que, aos poucos, preenche a componente social das nossas vidas. Tudo isto à distância de um clique.

Em 2015, o Facebook passou a incluir pelo menos seis novas formas de reagir uma publicação, metendo um ponto final no monopólio do “Like”. Créditos: GERARD JULIEN/AFP/Getty Images

O nascimento

A criação de redes sociais não foi um talento escondido que, de um momento para o outro, se revelou em Mark Zuckerberg. Pelo contrário. O jovem programador já o tinha feito diversas vezes. Antes do projeto que lhe iria mudar a vida já tinha desenvolvido as redes sociais “Coursematch” e “Facemash” — esta última com uma propriedade curiosa: permitia que os utilizadores avaliassem quão atraentes eram as outras pessoas.

Nenhuma delas chegou aos calcanhares do Facebook, que Zuckerberg criou com apenas 19 anos. Foi numa quarta-feira à tarde, 4 de fevereiro de 2004. Nascia o “Thefacebook” — nome original –, em thefacebook.com. Do lado esquerdo do ecrã aparecia o rosto do ator norte-americano Al Pacino, pintado em tons de azul. Por cima, um código binário branco que se ia desvanecendo até surgir, à direita, ao nome do produto que viria a unir milhões por todo o mundo. O “Thefacebook” tinha funcionalidades semelhante às plataformas moodle que usam os institutos com ensino à distância, mas era muito mais que isso: era uma segunda dimensão da vida social entre estudantes.

Facebook

A página inicial do “Thefacebook”, em fevereiro de 2004. Fonte: Wayback Machine.

Quando foi lançado, nesse 4 de fevereiro de 2004, a página de Mark Zuckerberg estava disponível apenas para os estudantes da Universidade de Harvard. Permitia-lhes “procurar por pessoas na tua escola, descobrir quem está na tua turma, procurar amigos de amigos e visualizar da tua rede social”, como explicava a página inicial do site. Só mais tarde, em 2006, viria a ser aberto a todas as pessoas com mais de 13 anos, já apenas com o nome Facebook e o endereço — facebook.com — que conhecemos hoje, adquirido em 2005 por 200.000 dólares.

As reações da imprensa académica

O primeiro meio de comunicação social a escrever sobre o “Thefacebook” foi o The Harvard Crimson, um jornal dedicado aos estudantes daquela universidade norte-americana. Entrada da notícia: “Criador do Facemash procura nova reputação com novo projeto online”. O primeiro parágrafo conta como a rede social era o resultado da impaciência de Mark Zuckerberg perante o projeto de um livro de rostos da faculdade oficial e universal: “Decidiu tratar do assunto com as próprias mãos” e “redefinir o significado da amizade”.

Uma semana de trabalho terá bastado para que Zuckerberg pudesse programar e lançar o site. Em entrevista a Alan J. Tabak, Zuckerberg disse estar “muito feliz” com os números que havia alcançado. Em apenas cinco dias, o “Thefacebook” tinha mais de 650 estudantes registados num universo de cerca de 20 mil, 8% dos quais caloiros. Todos podiam atualizar as fotografias de perfil e colocar as suas informações académicas, “à semelhança do que acontecia com a Friendster”, uma rede social lançada em 2002 que veio a inspirar não só as funcionalidades do Facebook, mas também as de outros sites do género (como o MySpace ou o Hi5). A Universidade de Harvard viu em “Thefacebook” uma ferramenta que estava para além do que o departamento de informática precisava: uma plataforma com informação “que não pode ser facilmente compilada sem autorização”, explicou Kevin S. Davis, diretor do departamento de Computação Residencial, ao jornal académico.

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Mark Zuckerberg a editar o código do “Thefacebook”, meses depois do seu lançamento. Créditos: The Harvard Crimson.

Este não era o primeiro artigo que o The Harvard Crimson escrevia sobre o assunto. Dois meses antes do lançamento do “Thefacebook”, Mark Zuckerberg já merecia a atenção dos diretores da universidade. David Kaden escreveu que o “lado voyeurista ou meramente curioso” dos estudantes podia estar prestes a ser saciado com um livro de rostos online. E, uns parágrafos abaixo, Zuckerberg fazia notícia por ter estado um passo à frente de Harvard: havia lançado o “Facemash” no mês anterior que, como vimos, permitia que os utilizadores se avaliassem em termos de atratividade. O problema? Usava imagens conseguidas ilegalmente da base de dados da instituição, o que levantou questões sobre privacidade e direitos de imagem.

Desde então, Zuckerberg era assunto quase todos os meses no jornal da Universidade de Harvard. Em junho de 2004, saiu um balanço. O “Thefacebook” já tinha chegado a milhares de utilizadores — 160 mil, para sermos precisos — e “grandes empresas” faziam “de tudo” para o comprar. Quatro meses depois de a página ter sido lançada na internet, a mente por detrás de uma nova era da interação online era descrita pelo jornal como “um miúdo que se aborrece com muita facilidade” e a quem os “computadores empolgam”. Um miúdo para quem criar uma rede social que viria a recolher mais de mil milhões de contas pareceu uma brincadeira de crianças: “Metade das coisas que faço, não publico. Passei cinco horas a programar ontem à noite e fiz algo que até está porreiro, que mostrei a alguns amigos meus e que o resto da universidade nunca vai saber”.

"Vestindo uma t-shirt amarela, calças de ganga azuis e sandálias da Adidas abertas nos dedos, [Mark] Zuckerberg senta-se num sofá esfarrapado no meio de uma sala comum confusa em Kirkland House, rodeado de roupas espalhadas e boxers meio fechados. No meio desta miséria, sorri."
Michael Grynbaum, jornalista do The Harvard Crimson (10 de junho de 2004)

Em junho de 2004, qual era o futuro que Mark Zuckerberg, acabado de fazer 20 anos, imaginava para o “Thefacebook”? “Na verdade, não sei qual vai ser a próxima coisa em grande porque eu não gasto tempo a fazer coisas em grande. Passo-o a fazer pequenas coisas e depois, quando tiver que ser, junto-as a todas”. Acrescentou ainda: “Eu apenas gosto de fazer e saber que as coisas funcionam. Saber que as coisas são largamente bem-sucedidas é porreiro, acho eu, mas, quero dizer, não sei, esse não é o objetivo”.

Expande-se o Facebook, começa a guerra (universitária)

No final de fevereiro de 2004, o “Thefacebook” abriu as portas a outras instituições de ensino. Mas três das instituição incluídas na Ivy League — um grupo de oito universidades privadas dos Estados Unidos — não iam ter acesso aos serviços da página de Zuckerberg. Havia um problema: “Uma colónia recentemente formada está a tentar iniciar uma ciber-revolução contra a invasão do criador do site”. Ou seja, alguns alunos insurgiram-se contra Zuckerberg.

É que uma das instituições, a Universidade Columbia, já tinha um produto semelhante ao “Thefacebook”. Chamava-se “CU Community” e podia ficar em perigo de extinção se enfrentasse a força que o proto-Facebook já tinha no mercado. Isto mesmo foi o que explicou o Columbia Spectator em março de 2004, o mesmo mês em que começou a “CUCommunity-Facebook War”, um movimento que queria fazer renascer a rede da Universidade Columbia, cujos membros se diziam terem sido “esquecidos” pelos meios de comunicação académicos.

E como se travou esta guerra? Da mesma forma que se travam todas as guerras digitais: com ataques informáticos. Cody Hess era um estudante de Ciências Computacionais e de Escrita Criativa que conseguiu manipular os resultados das pesquisas no Google. Assim, sempre que alguém procurasse por “Thefacebook”, a pesquisa aparecia associada a expressões como “CU Community ripoff” ou “escola de segurança inútil”. O mesmo aconteceu com as pesquisas associadas ao jornal The Harvard Crimson e ao Columbia Spectator. Em entrevista ao jornal académico de Harvard, Hess afirmou que “é importante que as pessoas da [Universidade] Columbia saibam que são mais importantes que as pessoas das outras universidades” e que ele, enquanto criador de uma página semelhante ao “TheFacebook” (mas não igual, com medidas de segurança e privacidade diferentes e funcionalidades pouco relacionadas) tinha sido “assassinado pelo Google”.

O assunto ganhou uma dimensão tal que o The Harvard Crimson decidiu escrever um editorial sobre ele, dizendo que “o progresso tem sempre os seus detratores” e condenando os “atos ignorantes” dos alunos de Columbia que se fechavam à chegada do “Thefacebook”.

"Os estudantes de Harvard têm o dever de ajudar os que frequentam escolas inferiores a libertarem-se de uma vida social em lentidão (...). Esta ignorância cega sobre o modo como o mundo funciona é inaceitável."
The Harvard Crimson

Em abril, o Columbia Spectator publicou uma coluna onde o lançamento do “Thefacebook” é totalmente maldito: “Graças à CU Community, o nosso corpo em graduação está mais unido que nunca, mas claro que os cobardes de Harvard não podiam aceitar isto. Tinham de criar o thefacebook.com. Tinham de nos desafiar”. Numa verdadeira declaração de guerra, o texto terminava com um “pelo verão, a vitória voltará a ser nossa”, porque Zuckerberg “tinha disparado o primeiro tiro, mas o último” seria deles.

Depois, a 5 de março de 2004, foi a vez da Universidade de Stanford se revoltar: os jovens “faltam às aulas, o trabalho é ignorado, os estudantes estão a passar horas em frentes aos computadores em total fascinação”, lia-se no diário publicado pela instituição. Cinco dias depois, a 10 de março de 2004, o “Thefacebook” foi apelidado de “ciber-demónio”, capaz de “demolir todas as convenções sociais existentes”.

Pouco a pouco, as críticas vieram também das outras universidades da Ivy League. E isso já provava algo: o Facebook causava incómodo, mas vinha para ficar. E enquanto era criticado, aumentava em tamanho e funcionalidades.

Hoje, o que vale?

Há duas formas de responder a esta pergunta. A primeira é extremamente clara e objetiva: vale mais de 230 mil milhões de dólares (cerca de 206 mil milhões de euros), de acordo com a Forbes. Porém, nem tudo se resume aos números. A influência — pressão? — que o Facebook exerce sobre a sociedade é tremenda. Não se podia esperar outra coisa de uma plataforma acedida diariamente por milhares de milhões de pessoas. Assim, para se compreender o que vale hoje o Facebook, é também preciso espreitar para o outro lado da moeda.

Nos Estados Unidos, um terço de todos os pedidos de divórcio feitos em 2011 continham a palavra “Facebook”, avança a ABC News. E se quisermos ir ainda mais além, recordemos a trágica noite em que um norte-americano assassinou duas pessoas por terem removido a sua filha de 30 anos das listas de amigos no Facebook. Aconteceu em 2012, segundo o Gizmodo. Junte-se a isso o fenómeno da perseguição digital, visto até como uma das grandes tendências para 2016 (lembra-se da história do dentista que matou o leão Cecil?). Estes são apenas alguns exemplos de como o Facebook pode ser utilizado para um objetivo pelo qual, à partida, não foi criado.

No Facebook há também (muito) espaço para polémicas. Em 2015, um alemão mostrou ao mundo que o Facebook parece dar primazia à nudez sobre a xenofobia na hora de remover uma imagem que viola os termos pelos quais a rede social se rege. Recentemente, uma deputada dinamarquesa foi impedida de partilhar uma imagem de uma estátua de bronze da Pequena Sereia por ter “demasiada pele exposta ou [demasiada] conotação sexual”. E ainda esta semana, o primeiro-ministro António Costa foi satirizado no Facebook por ter arriscado dar dicas aos portugueses para sentirem menos o impacto da subida dos impostos. Todas estas situações podem parecer banais à primeira vista. Mas numa rede social como o Facebook, têm potencial para gerar centenas ou mesmo milhares de comentários de utilizadores indignados.

Porém, nem tudo é mau. Uma rede global como é hoje o Facebook abre um leque de novas possibilidades ao nível do serviço público. Por exemplo, a funcionalidade “Safety Check”, que nos permite avisar os nossos amigos de que estamos bem, tem-se revelado bastante útil em situações de calamidade. E terminamos com filantropia: em dezembro do ano passado, Mark Zuckerberg e a esposa, Priscillla Chan, prometeram doar 99% das ações da empresa Facebook para obras de caridade. O valor: 45 mil milhões de dólares (cerca de 42,3 mil milhões de euros). Uma fortuna que, de resto, não existiria se o jovem Mark, em 2004, não tivesse criado o Facebook.

Editado por Filomena Martins

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