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Se tem conta no Facebook ou no Twitter é provável que, depois das notícias dos atentados de sexta-feira em Paris, tenha colocado um filtro temporário com as cores da bandeira francesa na sua foto de perfil, que tenha utilizado as hashtag #prayforparis ou #prayforpeace nas publicações ou que, através de texto, vídeo ou fotografia, tenha aproveitado as contas para dizer aquilo que pensa ou sente. Não é o único.

Se há coisa que as redes sociais permitem é que cada um diga hoje, para 500, 1.000 ou 10.000 pessoas, aquilo que há uns anos ficava confinado a uma mesa de café. E esta é apenas uma das mais-valias da tecnologia. Logo na noite de sexta-feira, qualquer pessoa que tivesse amigos ou familiares em Paris, começou a receber notificações do Facebook a avisar quem estava “marcado como seguro”. Para muitos isso permitiu respirar de alívio. 

Quase em cima do acontecimento, a rede social liderada por Mark Zuckerberg ativou o “Safety Check”, um comando que permitia a quem estava na região informar se estava em segurança. A rede social tratava de avisar os amigos. Conta o jornal francês Les Echos que o comando foi utilizado por 5,4 milhões de pessoas durante o fim de semana e que mais de 120 milhões de pessoas terão exprimido a sua solidariedade com Paris através do Twitter. 

Se por um lado, tragédias como a de sexta-feira permitem que as redes sociais divulguem rapidamente tudo o que se passa a milhares de quilómetros de distância, a verdade é que também mostram as fragilidades das mesmas, como a dificuldade em controlar os conteúdos partilhados. Em janeiro, logo depois do atentado à redação do Charlie Hebdo, Monika Bickert, responsável pela política de conteúdos do Facebook, dizia que era “muito difícil dar uma resposta tecnológica online à violência”. 

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“Algumas pessoas podem publicar uma foto de um grupo terrorista para apelar e apoiar as suas ações e outras podem utilizar a mesma foto para condenar. No primeiro caso, a foto é retirada, mas no segundo caso não há motivo para o fazer”, referiu ao Les Echos. 

Um vídeo mais antigo que mostrava dois terroristas a apelar à morte passou de 7 milhões de visualizações no Facebook a 15 milhões, no fim de semana. Aqueles que tentaram avisar a rede social dizendo que o vídeo continha conteúdo ofensivo, não tiveram sucesso. O Facebook respondeu-lhes que aquele vídeo não violava “os padrões da comunidade” – isto antes de o vídeo ter ficado inacessível em França, mas permanecendo ativo noutros países. 

Como a Google ou a Apple podem ajudar

A discussão parece estar lançada: até que ponto estes conteúdos devem estar ou não acessíveis nas redes sociais? Em janeiro, vai haver lugar para um debate entre as autoridades e as redes sociais e o objetivo é que possam encontrar a melhor forma de colaborarem nas investigações sobre as redes terroristas. Conta o Les Echos que os pedidos de informação requisitados pelas autoridades francesas ao Twitter mais que duplicaram nos últimos seis meses. E os pedidos ao Facebook cresceram 20% em igual período. 

Nos Estados Unidos, o procurador nova-iorquino Cyrus Vance Jr. pediu aos gigantes da tecnologia, Apple e Google, para ajudarem os investigadores a aceder aos telefones. “A linha que protege o público não deve ser desenhada por duas empresas que produzem smartphones”, disse Vance, referindo que tem no seu gabinete 111 casos onde a tecnologia de encriptação (o processo de transformar informação através de um algoritmo, que impossibilite a sua leitura a quem não esteja autorizado) impossibilita os investigadores de acederem aos dados dos telefones.

As declarações foram feitas durante uma conferência sobre cibersegurança, em Nova Iorque, onde foi discutida a necessidade de estar um passo à frente dos terroristas, que podem usar a encriptação para encobrir ataques como os de Paris. O procurador pediu para que fossem criadas leis que permitam um acesso mais fácil aos dados, como mensagens (SMS) ou emails guardados nos dispositivos móveis, conta a Bloomberg. 

Vance pediu à Apple, ao Google e ao Twitter para cooperarem com os investigadores não só em casos de terrorismo como noutras áreas da investigação criminal. 

A Justiça e as autoridades policiais puseram em marcha procedimentos mais simples para capturarem rapidamente “os gigantes da internet”, conta a publicação francesa. “O diálogo dos últimos meses fez-nos ganhar tempo nas últimas horas”, disse fonte das autoridades ao Les Echos. 

As redes sociais estão acessíveis a toda as pessoas com ligação à internet, revolucionaram a forma como o mundo comunica e aceleraram a informação. Mas são ferramentas que – tal como todas as outras – dependem de quem está por detrás do computador ou do smartphone. Quem tem a última palavra?

*Artigo atualizado às 16h com informação sobre o procurador nova-iorquino