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epa12016871 (L-R) US President Donald Trump with Vice President JD Vance and Secretary of State Marco Rubio meet with Prime Minister Benjamin Netanyahu (not pictured) of Israel in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 07 April 2025.  EPA/YURI GRIPAS / POOL
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YURI GRIPAS / POOL/EPA

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"Falcões" de um lado, "pombas" do outro. Guerra Irão-Israel divide aliados de Trump, que pressionam decisão final do Presidente

Trump partilha posições com os isolacionistas, mas não pode alienar os outros republicanos sem pôr em risco as suas medidas. A administração Trump segue a sua linha enquanto Vance tenta fazer a ponte.

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No passado dia 8 de junho, a administração norte-americana reuniu-se no retiro presidencial de Camp David. Ao longo de duas horas e meia, responsáveis dos serviços secretos e das Forças Armadas norte-americanas explicaram ao Presidente Donald Trump que Israel planeava atacar o Irão, mesmo sem o apoio dos Estados Unidos, e apresentaram uma lista de diferentes posições e medidas que Washington podia assumir. Trump não se comprometeu com nenhuma opção. No dia seguinte, recebeu um telefonema do primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, que confirmou o plano. “Acho que vamos ter de o ajudar“, declarou o Presidente, quando desligou a chamada.

A apresentação de Camp David, detalhada por duas pessoas com conhecimento da mesma ao New York Times, foi preparada durante várias semanas pelos conselheiros e funcionários da administração. Durante esse período de tempo, Washington continuou a apostar numa abordagem diplomática para fazer frente ao escalar de tensões no Médio Oriente: fez várias rondas de negociações com o Irão à procura de um acordo nuclear e chegou a travar uma tentativa de Israel de atacar Teerão. No entanto, desde o telefonema de Netanyahu no dia 9 de junho, a postura de Donald Trump tornou-se menos clara — uma falta de clareza que continua a marcar a abordagem de Washington nos dias que a guerra já leva.

Por um lado, a administração norte-americana continua a definir como prioridade a proteção das tropas estacionadas no Médio Oriente e não participou nos primeiros ataques lançados por Israel. Por outro lado, o Presidente endureceu a sua posição com o Irão, tendo exigido, na terça-feira, a sua “RENDIÇÃO INCONDICIONAL“. Segundo relataram fontes próximas da Casa Branca ao New York Times, no início desta semana Donald Trump ainda estava indeciso sobre se os Estados Unidos devem apoiar a ofensiva israelita. De notar que as forças norte-americanas já entraram em ação, mas apenas para ajudar a defesa anti-aérea israelita. Uma entrada de Washington ao ataque iria gerar “danos irreparáveis“, ameaçou esta quarta-feira o ayatollah Ali Khamenei, Líder Supremo do Irão.

▲ Desde o último encontro com Netanyahu, Trump mantém-se indeciso sobre o nível de apoio a dar

Getty Images

Esta situação revelou uma divisão profunda dentro da administração norte-americana, o Partido Republicano e os apoiantes do movimento MAGA sobre o caminho a tomar. De um lado da barricada estão os “falcões“, expressão utilizada para se referir a uma postura agressiva na política externa, neste caso, face ao Irão. Este grupo defende o apoio a Israel e o ataque ao Irão, seja pelo perigo que o seu programa nuclear representa, seja com o objetivo de uma mudança de regime. Do outro lado, por oposição, estão as “pombas“, ou seja, as pessoas que criticam uma intervenção militar norte-americana, defensoras que uma postura isolacionista e que cumpra a bandeira de Trump de pôr a “América primeiro”.

Nos últimos dias, as duas fações entraram em guerra aberta, com apoiantes de cada posição a trocarem insultos e críticas e a tentarem pressionar Donald Trump a tomar o seu lado. O contributo direto do Presidente para este debate fez-se apenas com uma publicação na Truth Social, em que acusou o jornalista e antigo apresentador da Fox News, Tucker Carlson, de ser “tresloucado” por ter assumido uma postura firmemente contra a entrada em cena das tropas norte-americanas.

Mas a luta entre figuras mediáticas e políticos republicanos deverá ter pouco peso na decisão final do Presidente, declarou um antigo responsável norte-americano, próximo da atual administração à The Atlantic. “O que Trump disse foi: ‘É a minha decisão’“, relatou. E, como habitualmente, a sua decisão mantém-se imprevisível. Nas palavras do próprio Trump esta quarta-feira: “Posso fazê-lo, posso não o fazer”.

Defesa das tropas norte-americanas e foco nos problemas internos. Os argumentos das “pombas”

“Vamos restaurar a estabilidade no Médio Oriente rapidamente. E vamos restaurar a paz no mundo”. A declaração foi proferida por Donald Trump durante a campanha eleitoral do ano passado e trata-se de uma bandeira que herdou da sua primeira administração: a de um Presidente que acabou com guerras, firmou a paz e não se envolveu em intervenções externas.

Esta linha de política externa — definida como “América Primeiro” — é a principal arma dos republicanos isolacionistas para tentar convencer Trump a não atacar o Irão. Acima de tudo, esta fação defende que a prioridade deve ser defender os interesses norte-americanos, o que pode assumir duas formas. Por um lado, a proteção das tropas e do pessoal dos Estados Unidos no Médio Oriente para que não se tornem alvos de ataques iranianos.

"Se formos arrastados para esta guerra (...), [isso] vai frustrar o mais importante, que é a deportação dos imigrantes ilegais que estão aqui." 
Steve Bannon, antigo conselheiro da primeira administração Trump

Esta é a postura que predomina entre os congressistas republicanos desta ala. “Esta não é a nossa guerra“, resumiu o representante republicano Thomas Massie, que apresentou uma projeto de lei para proibir o Presidente de envolver os Estados Unidos na guerra entre Irão e Israel, uma vez que Washington nunca fez uma declaração de guerra contra Teerão — segundo a Constituição, apenas o Congresso tem esse poder.

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Por outro lado, a proteção dos interesses norte-americanos também pode ser visível no foco na resolução dos problemas internos, defendem. “Se formos arrastados para esta guerra (…), [isso] vai frustrar o mais importante, que é a deportação dos imigrantes ilegais que estão aqui”, declarou Steve Bannon. O antigo conselheiro da primeira administração Trump defendeu esta posição no podcast de Tucker Carlson, em que ambos deixaram duras críticas à possibilidade de os Estados Unidos atacarem o Irão.

Carlson, alinhado com a administração Trump na maior parte dos temas, tem-se destacado como uma das vozes mais sonantes desta fação. Em vez de deixar críticas diretamente ao Presidente, o apresentador atacou vários antigos colegas da Fox News, entre os quais Mark Levin, que, numa reunião com o Presidente o terá incentivado a avançar com uma ofensiva contra o Irão.

“Quem são os belicistas? Isso inclui qualquer pessoa que está a ligar a Donald Trump a exigir ataques aéreos e outros envolvimentos diretos na guerra com o Irão”, criticou numa publicação nas redes sociais, no dia em que a guerra começou. Na sequência das várias publicações de Carlson, Trump atacou-o diretamente. “Alguém explique por favor ao tresloucado do Tucker Carlson que O IRÃO NÃO PODE TER UMA ARMA NUCLEAR!”.

Quem saiu em defesa do antigo jornalista da Fox News foi um nome improvável: a representante Marjorie Taylor Greene, conhecida por ser uma das congressistas mais fervorosas no apoio a Donald Trump. Taylor Greene declarou as intervenções externas dos Estados Unidos só contribuem para conduzir o país à falência e à destruição. “Isso não é tresloucado. Isso é aquilo em que milhões de americanos votaram. Isso é o que nós acreditamos que é a América Primeiro”, pode ler-se numa publicação nas redes sociais. A congressista da Geórgia declarou ainda que as prioridades deviam ser o “combustível, compras, contas e habitação baratas” e não “entrar noutra guerra estrangeira”.

epaselect epa10100951 (L-R) Republican Congresswoman Majorie Taylor Greene of Georgia, Fox News television personality Tucker Carlson, and former US President Donald J. Trump watch the third round of the LIV Golf Bedminster invitational, part of the new LIV Golf Invitational Series, at the Trump National Golf Club in Bedminster, New Jersey, USA, 31 July 2022.  EPA/JUSTIN LANE

▲ Trump ao lado de Marjorie Taylor Green e Tucker Carlson em 2022

JUSTIN LANE/EPA

Este lado da barricada inclui ainda outros congressistas que apoiaram a proposta de Thomas Massie e outras personalidades que lideram o movimento MAGA nos espaços online, como Charlie Kirk, que reúne milhares de apoiantes entre as margens mais novas dos eleitores (e futuros eleitores).

“Paz pela força” e apoio a Israel. Os argumentos dos “falcões”

Apesar da promessa eleitoral de Trump sobre a política externa — de alcançar a paz — parecer relativamente direta, o caminho para cumprir a promessa revelou a diversidade de interpretações. Uma dessas formas foi mencionada por Donald Trump múltiplas vezes: “Paz através da força“. E é precisamente esta a expressão que o apresentador da Fox News Mark Levin utiliza para justificar o seu apoio a uma ofensiva norte-americana contra o Irão.

A “força” neste caso seria uma intervenção norte-americana, que apoiasse os objetivos de guerra israelitas: uma destruição total do programa nuclear do Irão, sem pôr de lado uma possível mudança no regime da República Islâmica. Neste sentido, esta postura agressiva caracteriza-se pela sua proximidade com a política externa israelita — os “falcões do Irão” são, na sua esmagadora maioria, políticos pró-Israel.

Esta fação inclui nomes como o senador da Florida Ted Cruz — que foi acusado por Tucker Carlson, durante uma entrevista, de não “saber nada sobre o país que procura derrubar” — ou o senador da Carolina do Sul Lindsey Graham, muito alinhado com Trump e cujas declarações ilustram a partilha de ideias desta fação com Telavive. “O número de republicanos que não veem o Irão com armas nucleares como uma ameaça para Israel e o mundo é muito pequeno. A esmagadora maioria dos republicanos apoiam o uso de força militar por parte de Israel para castrar a ameaça nuclear iraniana”, declarou.

Donald Trump está totalmente alinhado com esta fação num aspeto — o facto de não aceitar que o Irão continue a desenvolver o seu programa nuclear, algo que defende desde a sua primeira candidatura à Casa Branca. Contudo, durante o mesmo período, o então candidato classificou a invasão norte-americana do Iraque, em 2003, que tinha como propósito declarado destruir armamento de destruição massiva como um “erro enorme“.

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▲ Lindsey Graham é um dos republicanos que mais apoia Trump

AFP via Getty Images

Independentemente da extensão do seu alinhamento com esta posição, o Presidente não pretende alienar os “falcões”, precisamente pelas razões que Graham destacou: a sua preponderância no Congresso. “Trump sabe que não ter sucesso entre eles pode complicar tudo o resto na sua agenda, desde isenções fiscais à aplicação da lei da imigração, à regulamentação das criptomoedas e às suas adoradas tarifas”, realça a TIME.

Para além do peso dentro do Partido Republicano, a postura dos falcões também tem muito mais visibilidade dentro dos media tradicionais, onde é defendida não só por Mark Levin mas pelo restante elenco de apresentadores da Fox News. E mesmo nos círculos online, onde os isolacionistas do movimento MAGA parecem ter mais tração, há vozes relevantes que defendem uma atitude agressiva, como a controversa conselheira de Trump, Laura Loomer.

Apesar dos nomes importantes que compõem esta fação, o falcão mais conhecido no Congresso norte-americano durante os últimos anos foi outro: Marco Rubio. Agora, a partir do Departamento de Estado, a sua postura é mais próxima da do Presidente Trump, com declarações vagas e poucos compromissos. Aliás, esta parece ser a posição da maior parte da sua administração.

A subordinação de Gabbard e a ponte de JD Vance

Na passada terça-feira, ao longo de 30 minutos, a porta-voz do Departamento de Estado, Tammy Bruce, fez o seu habitual briefing aos jornalistas. Questionada de diversas formas sobre a natureza da intervenção norte-americana na guerra entre Irão e Israel, a porta-voz de Marco Rubio contornou as questões uma e outra vez. E por mais que uma vez declarou que não fala pelo Presidente em matérias que cabem à Casa Branca.

A natureza das declarações reflete a posição que todos os membros da administração assumiram nos últimos dias e que ajudam a explicar a mudança de posição de Marco Rubio. Afinal, tal como declarou um antigo responsável à The Atlantic, a decisão final é do Presidente e será cumprida. O mesmo oficial acrescentou que atual cisão é antes “uma batalha de apresentadores de podcast“, que terá pouco impacto na decisão final do Presidente.

"O Presidente Trump estava a dizer a mesma coisa que eu disse na minha avaliação anual de ameaças em março."
Tulsi Gabbard, depois de Trump ter dito que "não queria saber" da sua avaliação

No entanto, não é claro se o mesmo se pode dizer dos membros da sua administração. Por um lado, é improvável que os seus conselheiros o contrariem, relata o New York Times, baseado em entrevistas com vários responsáveis norte-americanos. Na primeira administração Trump havia múltiplos membros que procuraram domar os instintos mais agressivos do Presidente. Desde aí, muitos tornaram-se seus críticos, pelo que, no regresso à Casa Branca, o círculo interno do Presidente foi escolhido com base na sua lealdade e não na sua experiência, descreve o jornal norte-americano.

Um exemplo desta subordinação ao Presidente é o caso de Tulsi Gabbard, diretora dos serviços de informação, antiga militar e famosa defensora da política isolacionista, apontando o Exército como “o último recurso”. Em março deste ano, testemunhou perante o Congresso que “o Irão não está a construir uma arma nuclear” ou que o programa de armas nucleares tenha sido sequer restaurado desde que foi suspenso em 2003.

A análise era feita com base em relatórios de informação apresentados pelas 18 agências de serviços secretos que coordena e ia ao encontro das conclusões dos inspetores da Agência Internacional de Energia Atómica. No entanto, os serviços secretos israelitas dizem ter informações bastante diferentes. Segundo as suas informações, Teerão estava muito próximo de desenvolver armas nucleares e essa proximidade foi utilizada para justificar os “ataques preventivos” que desencadearam a guerra.

Esta terça-feira, a bordo do avião presidencial, Donald Trump declarou que “não queria saber do que [Gabbard] disse”. “Eu acho que [os iranianos] estavam muito próximos de a ter”, contrariou. A oposição direta ao testemunho de Gabbard foi, contudo, desvalorizada pela própria. “O Presidente Trump estava a dizer a mesma coisa que eu disse na minha avaliação anual de ameaças em março”, considerou, em declarações aos jornalistas no Capitólio.

A exceção a esta postura parece estar no braço direito de Donald Trump, o seu vice-presidente, JD Vance. Tal como muitos outros membros da administração, Vance é um antigo crítico do republicano. Mas há uma questão em que sempre concordaram: um ataque não provocado contra o Irão é uma “escalada significativa” que deve ser evitada. Esta terça-feira, enquanto Trump recorria à Truth Social para ameaçar o ayatollah Khamenei e exigir a rendição iraniana, Vance fez uma longa publicação no X, em que garantia que as prioridades norte-americanas sobre o Irão continuavam a ser as mesmas: proteger as tropas norte-americanas e evitar que o Irão desenvolva um programa nuclear, de preferência pela via diplomática, mas sem excluir “a outra forma”, ou seja, pela força.

epa11941455 US President Donald Trump (C) addresses a joint session of the United States Congress at the US Capitol in Washington, DC, USA, 04 March 2025. Also pictured are US Vice President JD Vance (L) and US Speaker of the House Mike Johnson.  EPA/WIN MCNAMEE / POOL

▲ Vance tem estimulado o diálogo dentro da administração Trump

WIN MCNAMEE / POOL/EPA

A publicação de Vance não clarificou se os Estados Unidos vão integrar a ofensiva israelita contra o Irão, mas os seus argumentos fazem claramente uma ponte entre as preocupações de ambas as fações que apoiam Trump. Na verdade, descreve o New York Times com base nos testemunhos recolhidos, Vance tem sido um dos promotores do diálogo dentro da administração Trump e tem renovado alertas sobre o perigo de uma escalada com o Irão, tendo vindo a assumir esta posição de ponte há várias semanas.

O diálogo entre as várias posições dentro dos congressistas e apoiantes republicanos não é relevante apenas para apresentar a Donald Trump uma opção unânime sobre a intervenção norte-americana na guerra. Como notou Steve Bannon, no podcast de Tucker Carlson, a cisão pode “destruir a coligação”, ou seja, o grupo diverso de apoiantes MAGA, republicanos tradicionais (maioritariamente falcões) e norte-americanos preocupados com o estado do país que colocaram Donald Trump na Casa Branca. Desta forma, uma decisão errada sobre este tema pode pôr em causa a base de apoio — quer popular, quer no Congresso — e dificultar os três anos e meio que lhe restam na presidência.

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