Quando as portas de uma das carrinhas da produção se abrem, revela-se uma gaveta com um nome inscrito: “Álvaro Cunhal”. No Estabelecimento Prisional de Caxias, no Reduto Sul, que entrou em funcionamento em 1995, voltamos atrás no tempo. Figura histórica da política portuguesa e do Partido Comunista Português em particular, um dos principais opositores ao Estado Novo, Álvaro Cunhal foi detido a 25 de março de 1949 pela PIDE. Esteve onze anos preso, foi torturado e acabou por fugir do forte de Peniche em janeiro de 1960. Voltando à carrinha: é uma de várias, de onde a equipa de produção e o realizador Sérgio Graciano vão saindo e onde voltam a entrar ao sabor de cada cena de Homens de Honra, série de oito episódios da RTP, com produção da Skydreams, sem data de estreia marcada, a caminho das comemorações do 50.º aniversário do 25 de abril.

De criança para jovem adulto e depois para homem da política, Álvaro Cunhal não está só nesta série. Também estará presente Mário Soares, outra das figuras fundamentais da história da democracia portuguesa. A série vai apresentar versões distintas de cada um, em períodos diferentes: as suas infâncias e juventudes, os discursos no 1º de Maio,  o Verão Quente, o famoso e épico debate de 1976, ente Cunhal e Soares, que originou aquela que ainda é uma das mais icónicas frases políticas de Portugal: “Olhe que não, olhe que não”. Ou a “paulada” na Marinha Grande em 1986 que virou as presidenciais a favor do socialista. Visitámos as gravações de Homens de Honra, cumprindo o sigilo exigido: há informações que ainda não podem ser reveladas.

No meio de tamanho peso histórico e político e tendo em conta que as personagens que protagonizam a história continuam, de alguma forma, a fazer parte do presente do país, o maior desafio de Homens de Honra foi o de criar uma ficção que não mimetizasse literalmente aqueles anos de transição democrática. Mas que conseguisse basear a narrativa na evolução de dois homens que combateram a ditadura e que, depois, dentro do espaço democrático, se combateram entre si. Quando encontramos o ator Vítor d’Andrade, não o vemos fardado ou com aspeto de quem está prestes a entrar na cela de uma prisão. À porta do edifício branco e velho que dá entrada para aquela parte do Estabelecimento Prisional de Caxias, o ator afirma que se tornou num viciado na vida e obra de Álvaro Cunhal. “Já parei de filmar e continuo a ler. No outro dia, encontrei num alfarrabista um livro com um discurso dele de 1976 no qual falava sobre a possibilidade do Partido Comunista se aliar aos outros partidos de esquerda, criticando os ‘esquerdistas’ do PS. Ou seja, fala da ideia de uma geringonça”, diz-nos. Os paralelismos com os dias de hoje não se ficam por aqui. Afinal, o país está prestes a ir novamente a eleições.

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