O Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) está a falhar o tempo de resposta para os doentes emergentes, ou seja, em situações críticas ou de risco de vida iminente, designados como P1. Segundo o novo modelo de priorização dos pedidos de socorro, implementado no início de 2026 — e que agora é avaliado pela primeira vez — estes doentes deveriam ser socorridos no período de oito minutos. No entanto, o tempo médio de resposta registado entre janeiro e maio de 2026 foi de 14,33 minutos nas ocorrências P1, revelam os dados enviados pelo INEM ao Observador.
O instituto sublinha que, no que diz respeito às ocorrências P1, o cumprimento dos tempos de referência “continua a revelar-se mais exigente, refletindo os desafios operacionais associados à mobilização dos meios mais diferenciados para as situações de maior urgência”.
Ao Observador, o presidente do INEM reconhece que há melhorias a fazer na resposta aos casos emergentes. “Temos como tempo de resposta-alvo os oito minutos e ainda há algum trabalho a fazer nos P1. Reconhecemos em que pé estamos e para onde queremos ir”, diz Luís Cabral, adiantando que, nos doentes emergentes, o tempo de resposta está “acima do que era expectável, por via de algumas insuficiências e como se tem visto por via de algumas notícias”. O presidente do INEM refere-se, por exemplo, ao caso da mulher de 73 anos que morreu em Santarém, no início de junho, vítima de paragem cardiorrespiratória, depois de ter estado mais de 30 minutos a aguardar a chegada de um meio de socorro do INEM.
INEM só cumpre tempo máximo de resposta para doentes emergentes em 60% dos casos
Reconhecendo que a média de tempo de resposta de cerca de 14 minutos (medida desde o acionamento dos meios nos Centros de Orientação de Doentes Urgentes até à chegada do meio ao local) esconde realidades díspares, Luís Cabral adianta que, no total de situações triadas como sendo de prioridade 1 (emergente) entre janeiro e maio, apenas em cerca de 60% dos casos foi cumprido o tempo máximo de oito minutos.
O presidente do Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH) sublinha que o facto de o INEM não estar a cumprir os tempos de resposta na prioridade 1 é uma realidade que o STEPH já antecipava que pudesse acontecer, e que tem sido pontuada por vários casos, que têm chegado ao conhecimento do sindicato, e que apontam para esperas superiores a uma hora. “Temos conhecimento de diversos casos P1 e P2 [doentes muito urgentes, que têm de ter resposta em até 18 minutos] que não estão a ter resposta no tempo que o presidente do INEM se comprometeu, e que só têm resposta mais de uma hora depois”, realça Rui Lázaro. “Não é admissível que se falhe, de todo”, vinca.
Em relação ao tempo de resposta a doentes P1, o INEM ressalva, no entanto, um dado positivo: nos primeiros meses de implementação do novo sistema de priorização dos pedidos de socorro, registou-se uma “evolução positiva, tendo-se registado uma redução de cerca de dois minutos no tempo médio de resposta para os P1, correspondente a uma melhoria aproximada de 8%” entre janeiro e maio.
▲ Cumprimento dos tempos de resposta a pedidos de socorro classificados como emergentes (P1) está nos 60%, abaixo dos 80% recomendados
DIOGO VENTURA/OBSERVADOR
“Tenho a certeza de que não vamos cumprir os 8 minutos em todos os P1”, adianta Luís Cabral, colocando como meta de referência a dos países europeus mais desenvolvidos, nos quais a taxa de cumprimento dos tempos de resposta se situa nos 80%. “Ou seja, se tivermos uma resposta em menos de 8 minutos, em 80% ou mais das nossas chamadas, estamos a fazer um bom serviço”, defende o presidente do INEM, sendo que, atualmente, a taxa de cumprimento está nos 60%.
Novo modelo de priorização dos pedidos de socorro tem cinco níveis
O novo modelo de priorização dos pedidos de emergência pré-hospitalar entrou em vigor a 2 de janeiro de 2026, introduzindo uma mudança na monitorização dos tempos de resposta. O modelo deixou de distinguir entre áreas urbanas e rurais (15 minutos para o socorro em áreas urbanas e 30 minutos para socorro em áreas rurais), passando a definir tempos de referência de chegada em função da prioridade clínica atribuída a cada ocorrência.
Assim, o novo modelo estabelece cinco níveis de prioridade, à semelhança do sistema usado na triagem dos hospitais:
- P1 – Emergente, situações associadas a risco de vida iminente, implicam uma resposta imediata em até 8 minutos;
- P2 – Muito urgente, situações com risco clínico elevado, que implicam uma resposta em até 18 minutos;
- P3 – Urgente, situações com risco de agravamento clínico, que implicam uma resposta em até 60 minutos;
- P4 – Pouco urgente, situações associadas a risco clínico baixo, em que está prevista uma chegada ao local de meio em até 120 minutos;
- P5 – Não urgente, situações que não implicam o envio de meios de emergência, sendo a chamada transferida para a linha SNS 24.
Enquanto na prioridade 1 (P1) os tempos de resposta não estão a ser cumpridos, nas restantes prioridades os tempos de resposta estão dentro dos limites definidos pelo INEM, e que seguem os padrões internacionais. No que diz respeito à prioridade 2, o tempo médio de resposta é de 14,61 minutos, sendo que o meio deve estar no local da emergência em 18 minutos. Quanto à prioridade 3, a média do tempo de espera situa-se nos 15,93 minutos (para um tempo de resposta máximo previsto de uma hora) e na prioridade 4 é 17,68 minutos, sendo que o meio deve chegar ao local em até duas horas. Nestas outras prioridades, Luís Cabral garante que “em mais de 80% dos casos os tempos de resposta estão a ser cumpridos”.
INEM ainda tem mais de 650 trabalhadores em falta, mas carência está a diminuir
Apesar das dificuldades na resposta aos doentes, o INEM faz uma avaliação “globalmente positiva” da implementação do novo modelo de prioridades, realçando uma “melhoria progressiva dos tempos de resposta”, uma “evolução que deverá ser reforçada com a conclusão das medidas tecnológicas e operacionais atualmente em curso, nomeadamente a implementação do novo sistema de geolocalização de meios, a modernização dos sistemas informáticos dos CODU, a disponibilização de tablets para registo operacional nos meios de emergência e socorro e a otimização e redistribuição dos recursos operacionais”.
Modernização do sistema informático nos CODU e tablets permitirão maior fiabilidade nos dados
Luís Cabral explica que os dados agora divulgados — referentes aos tempos de espera nas diferentes prioridades — são recolhidos com base em registos manuais das equipas e só englobam o desempenho de cerca de metade dos meios de socorro. “Estes dados são feitos com base nos registos clínicos das equipas, que os fazem manualmente. Não são medidos de forma automática, e em 50% dos meios não temos a aferição que gostaríamos“, reconhece o também médico anestesiologista, referindo que, para melhorar a recolha desses dados, é necessária uma “reformulação do sistema informático nos CODU”, que está em curso.
“Na semana passada, ao fim de cinco anos, os CODU receberam uma aplicação informática atualizada que nos vai permitir ter os tempos corretos dos meios”, realça Luís Cabral, explicando que os tablets “vão começar a ser entregues dentro de duas semanas”, permitindo começar também a monitorizar os tempos de resposta “com maior fiabilidade” ao longo do mês de junho.
No entanto, para o presidente do STEPH a mudança do modelo de priorização dos pedidos de emergência pré-hospitalar é “errada e foi mal implementada”. Rui Lázaro considera que a nova métrica utilizada pelo INEM de forma oficial (ou seja, a média dos tempos de resposta) não permite perceber as situações em que os meios não chegam dentro dos tempos definidos. “Pouco me interessa se responde a quatro mil pedidos, se não responder em mil”, diz Rui Lázaro, defendendo que a “taxa de resposta tem de estar muito acima de 90%”.