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Internista, sem experiência na gestão hospitalar e médico "capaz". Quem é o responsável do Garcia de Orta que a ministra nomeou há meio ano?

Pedro Azevedo foi nomeado em fevereiro, depois de a anterior administração ter sido afastada devido aos problemas na urgência de Obstetrícia. Não foi a primeira escolha da tutela.

Nos últimos dias, a ministra da Saúde tem estado debaixo de fogo por causa da situação nas urgências de Obstetrícia na Península de Setúbal. Depois de um fim de semana crítico, com as três urgências — Almada, Barreiro e Setúbal — encerradas, por falta de médicos, Ana Paula Martins atirou às “equipas” que a levaram a assumir “politicamente uma solução” que lhe foi “garantida” como sólida e que a ministra viu ruir “sem sequer perceber porquê”. O tiro foi direto a Pedro Azevedo, o presidente nomeado há meio ano, um médico descrito como “capaz”, mas que chegou a um cargo exigente sem qualquer experiência anterior na administração hospitalar.

Ana Paula Martins prometeu, ainda em julho, que a urgência obstétrica do Hospital Garcia de Orta, em Almada, iria funcionar de forma ininterrupta (“365 dias por ano, 24 horas por dia”) a partir de 1 de setembro — de forma a dar resposta às grávidas da populosa margem sul do Tejo —, mas a expectativa criada não se concretizou. No último fim de semana, aquela unidade hospital não conseguiu preencher as escalas na urgência obstétrica e viu-se obrigada a encerrar, o que, somado ao encerramento das urgências dos outros dois hospitais da região (Barreiro e Setúbal), obrigou o SNS a encaminhar as grávidas para Lisboa, com todos os riscos clínicos que tal decisão acarreta.

"Muitos dizem que já devia ter encontrado uma solução, que prometi uma mudança a partir de 1 de setembro. É verdade. Fi-lo porque acreditei no plano que me foi apresentado e porque aprendi a confiar nas equipas com quem trabalho [...]. É muito penalizador ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer perceber porquê."
Ministra da Saúde, Ana Paula Martins

Esta segunda-feira, a ministra da Saúde fez mea culpa pela quebra da promessa que fizera há pouco mais de dois meses, mas também apontou o dedo à administração da Unidade Local de Saúde Almada-Seixal, que integra o Garcia de Orta, por lhe ter garantido uma solução (o reforço do serviço com sete médicos vindos do privado) que acabou por não se concretizar em pleno — uma vez que o hospital ainda só conseguiu contratar quatro médicos (sendo que, desses, dois já lá prestavam serviço como tarefeiros).

Garcia de Orta ainda só contratou quatro dos sete obstetras anunciados por Ana Paula Martins. Ministra culpa administração do hospital

ULS Almada-Seixal prometeu um “plano”, mas plano falhou e ministra “nem sequer percebe porquê”

“Não me verão passar responsabilidades seja para quem for. São minhas e assumo-as”, disse Ana Paula Martins, para, logo a seguir, apontar o dedo à ULS. “Aprendi que nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer, acontece. Esta é exatamente a situação que vivemos hoje na Península de Setúbal, muito preocupante e que me cabe como ministra da Saúde. Muitos dizem que já devia ter encontrado uma solução, que prometi uma mudança a partir de 1 de setembro. É verdade. Fi-lo porque acreditei no plano que me foi apresentado e porque aprendi a confiar nas equipas com quem trabalho […] é muito penalizador para mim ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer perceber porquê”, disse a ministra da Saúde esta segunda-feira, numa cerimónia na Maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa.

Ou seja, quando Ana Paula Martins deu a entrevista à SIC, há dois meses, fê-lo com a informação de que a ULS tinha garantida a contratação de sete novos profissionais de saúde. Um reforço que asseguraria que em momento algum a Península de Setúbal se viria na situação em que acabou por ficar no último fim de semana: a de um total encerramento das urgências de Obstetrícia. Essas garantias terão sido dadas pela equipa liderada por Pedro Azevedo — mas acabariam por não se concretizar.

À frente do Conselho de Administração da ULS Almada-Seixal está, desde fevereiro de 2025, o especialista em Medicina Interna, e militante do PSD/Almada, Pedro Azevedo. Sem experiência prévia na área da gestão hospitalar, Pedro Azevedo, de 40 anos, era, à data da nomeação, o coordenador do serviço de Hospitalização Domiciliária dos hospitais do grupo CUF (um serviço pioneiro no setor privado, que o médico ajudou a fundar em plena pandemia).

Hospitais: de Gaia ao Algarve, 25% das administrações já foram afastadas. Novas lideranças têm ligações ao PSD

O médico foi nomeado depois de a ministra da Saúde ter decidido afastar a anterior administração da ULS, liderada pela farmacêutica Teresa Luciano, que já contava com uma larga experiência em gestão hospitalar antes de ter sido nomeada para o Garcia de Orta, em 2022. Teresa Luciano foi afastada sem que nunca tenha sido avançada publicamente qualquer justificação (num processo semelhante ao de várias outras ULS que mudaram de administração e que, em muitos casos, têm agora presidentes sem experiência anterior na área da gestão e ligados ao PSD).

Anterior administração foi afastada por causa das falhas na Obstetrícia, mas problemas mantêm-se

No entanto, como o Observador noticiou em 2024, a saída da anterior administração do Garcia de Orta foi originada pela incapacidade que o hospital demonstrou, no verão de 2024, em cumprir o esquema de rotatividade acordado entre as três urgências de Obstetrícia da Península de Setúbal, e que previa que um dos três serviços da região (nos hospitais Garcia de Orta, do Barreiro e de Setúbal) teria de estar aberto, à vez, para garantir a resposta às grávidas. Em julho e agosto, o Garcia de Orta não cumpriu o acordo, por falta de médicos obstetras para preencher as escalas, o que levou o Ministério da Saúde a determinar a saída.

Num processo conturbado, a anterior presidente chegou a dizer na Assembleia da República, onde foi ouvida na comissão de Saúde, que a decisão de afastamento tinha sido “tomada sem fundamentação, em praça pública e sem salvaguarda do bom nome” da equipa que liderava — tendo o afastamento sido comunicado num telefonema de “menos de três minutos” feito pelo anterior Diretor Executivo do SNS, António Gandra D’Almeida.

Mês e meio depois, administração do Hospital Garcia de Orta continua à espera de ser afastada e presidente diz que não se demite

Perante os deputados, Teresa Luciano justificou as dificuldades na urgência de Obstetrícia com os poucos médicos disponíveis: apenas dois, entre médicos com mais de 55 anos (dispensados de fazer urgência) e médicas de licença de maternidade.

A primeira escolha para presidente da ULS recaiu no ex-secretário de Estado da Energia Jorge Seguro Sanches, que já tinha liderado a Inspeção Geral das Atividades em Saúde. No entanto, já depois de ter aceitado o cargo, Seguro Sanches desistiu. Foi então convidado um profissional conhecedor da ‘casa’: o médico internista Pedro Azevedo — que acabou por assumir funções apenas em fevereiro deste ano, depois de os elementos da anterior administração terem recusado apresentar as demissões dos cargos (acabaram por sair porque, formalmente, o mandato não foi renovado).

Conhecedor do Garcia de Orta, médico Pedro Azevedo não tem experiência na gestão hospitalar

Com uma nova administração, o verão de 2025 no Garcia de Orta não foi muito diferente do de 2024. A falta de médicos nas escalas até se agravou (com a saída de sete especialistas só na primeira metade do ano. Em diversas ocasiões, o Garcia de Orta não conseguiu manter aberta a urgência obstétrica — o que, aliado à incapacidade dos hospitais vizinhos, determinou que a margem sul ficasse sem resposta nessa área. Ou seja, a mudança de administração não serviu para resolver um problema estrutural (a falta de obstetras), que se voltou a repetir praticamente nos mesmos termos no ano seguinte.

Pedro Azevedo, médico internista, teve um percurso profissional sempre ligado ao Garcia de Orta, um hospital que conhece bem. Foi lá que fez o internato da especialidade em Medicina Interna, de 2010 a 2015, tendo depois continuado já como médico especialista, na Unidade de Hospitalização Domiciliária — uma das primeiras do país e onde se manteve de 2015 a 2021. Nesse ano, foi convidado pelo grupo CUF para criar uma unidade semelhante no setor privado. Aceitou o desafio, tendo abandonado o Garcia de Orta.

Pedro Azevedo foi chamado a assumir liderança do Garcia da Orta depois de o ex-secretário de Estado Jorge Seguro Sanches ter desistido do cargo. Na altura, terá considerado que não estavam “reunidas as condições pessoais e profissionais”.

Pedro Azevedo esteve também sempre muito ligado à Sociedade Portuguesa de Medicina Interna (SPMI) ao longo dos últimos anos, tendo assumido, por exemplo, a presidência do Núcleo de Estudos de Medicina Obstétrica durante três anos, o que também terá pesado na decisão de Ana Paula Martins em chamá-lo para ajudar a reerguer o serviço de Obstetrícia do Garcia de Orta (um trabalho já iniciado, mas ainda não concluído). No entanto, não tem nenhuma experiência prévia conhecida na área da gestão hospitalar, um requisito que a Associação Portuguesa de Administradores Hospitalares considera ser essencial. “Temos defendido que as nomeações devem ser despolitizadas e as equipas constituídas por profissionais com formação, experiência e que apresentem resultados”, disse o presidente da APAH, Xavier Barreto, em janeiro, aquando da vaga de mudanças nas administrações dos hospitais.

Colegas consideram Pedro Azevedo “capaz”, mas apontam “problemas maiores” no SNS

Ao Observador, dois médicos que trabalharam de perto com o atual presidente do Garcia de Orta falam de um profissional “capaz” mas sublinham que os problemas no SNS, e particularmente na área da Obstetrícia, são demasiado complexas e difíceis de ultrapassar num curto prazo. “É uma pessoa muito bem preparada, tinha a certeza de que iria longe. É uma pessoa muito capaz, é capaz de liderar um processo e de levar as pessoas com ele“, diz o internista João Araújo Correia, do Hospital de Santo António, ressalvando, no entanto, que o SNS “se colocou numa posição de extrema dependência dos tarefeiros” da qual é difícil sair.

Também a médica internista Inês Palma dos Reis considera que Pedro Azevedo é “um médico capaz” e com capacidade para liderar um hospital, mas vinca que “os problemas na Obstetrícia são maiores do que as pessoas”, salientando que é necessário tempo para se apresentar resultados.

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