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Christine Lagarde sucedeu a Mario Draghi na liderança do BCE.
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▲Christine Lagarde sucedeu a Mario Draghi na liderança do BCE.

Maria-Rita Quitadamo/ECB

▲Christine Lagarde sucedeu a Mario Draghi na liderança do BCE.

Maria-Rita Quitadamo/ECB

Lagarde acelera descida dos juros e mercados já veem BCE a ter de "salvar" a economia. Taxa pode cair para 1,5% até ao fim do ano

Tarifas de Trump criam "riscos descendentes" na economia, com impacto incerto na inflação. BCE "pronto" para ativar "todos os instrumentos". Juros podem cair para 1,5% até fim do ano, dizem mercados.

Em seis semanas, tudo mudou. Se em 6 de março, quando houve a última reunião do BCE, ficou claro que a autoridade monetária estava a preparar-se para uma “pausa” na trajetória de descida dos juros, o dia a que Trump chamou de “Libertação” (e toda a turbulência que se gerou posteriormente) levou o BCE não só a baixar os juros na reunião desta quinta-feira como a “debater” a hipótese de um corte mais agressivo, de 50 pontos-base (meio ponto percentual). Christine Lagarde admite um impacto negativo na economia – as consequências para a inflação são “menos claras” – e os mercados financeiros já veem o BCE a ter de colocar os juros num nível que estimule a atividade. E, até, a lançar programas extraordinários de intervenção na economia.

Enquanto Christine Lagarde justificava a decisão de cortar as taxas de juro pela sétima reunião consecutiva (sempre descidas de 25 pontos-base) os mercados de futuros de taxas de juro passaram a prever um número maior de descidas de taxas de juro até ao final do ano. Antes da publicação do comunicado do BCE (13h15 em Lisboa) havia uma previsão de 1,71% na taxa dos depósitos em dezembro e, enquanto Lagarde falava, essa previsão baixou para 1,57%.

Isto significa que, neste momento, os mercados – sempre voláteis na previsão dos futuros níveis de taxa de juro – estão a prever que o cenário mais provável é que a taxa de juro do BCE termine o ano nos 1,5%. A confirmar-se que os juros vão cair para esse nível, isso irá significar que a taxa de juro do BCE entraria num nível já considerado “acomodatício” da atividade económica.

“Pico” deste ciclo da política monetária foi de 4%. Desde então, a taxa de juro desceu sete vezes. FONTE: BCE

O BCE tem mantido a taxa de juro em níveis que o próprio considera “restritivos” da atividade económica (porque são níveis de taxa de juro que reduzem a expansão do crédito). Só nesta quinta-feira, ao chegar ao nível atual (2,25%) é que o BCE abandonou essa qualificação – o que significa que se está agora num nível que se considera “neutral”, que nem estimula nem restringe a atividade económica.

Há poucas semanas, um estudo do BCE calculou que as taxas de juro estão num nível “neutral” quando se situam numa banda entre 1,75% e 2,25% – ou seja, 1,5%, sendo abaixo disso, já implicaria que o BCE estaria a ser obrigado a “puxar” pelo crescimento económico.

Christine Lagarde sublinhou, nesta quinta-feira, que o conceito de “taxa neutral” é um conceito que se aplica melhor a fases em que não existem “choques” – “e se alguém aqui na sala acha que estamos a viver sem choques”, da guerra na Ucrânia até às tarifas de Trump, “essa pessoa deve ir fazer um exame à cabeça”, afirmou Christine Lagarde, perante a plateia de jornalistas em Frankfurt.

Tarifas a anunciar esta quarta-feira por Trump vão “desestabilizar o mundo”

Ainda assim, mesmo com Christine Lagarde a desvalorizar o debate (académico e jornalístico) sobre o tema da “taxa neutral”, ficou claro que o BCE pode continuar a baixar as taxas de juro nas próximas reuniões.

“O que começou em junho do ano passado como uma tentativa muito comedida por parte do BCE de reduzir gradualmente o nível de restrição da política monetária transformou-se, agora, num esforço com algum sentido de urgência para evitar demasiada desinflação“, afirmou o banco holandês ING em nota de análise da reunião do BCE.

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BCE pode baixar juros e lançar programa de compra de dívida?

A presidente do BCE garantiu que “mais do que nunca“, a autoridade monetária terá de tomar decisões “reunião a reunião”, com base na melhor informação disponível em cada momento. Porém, todo o restante discurso da francesa foi no sentido de deixar a porta aberta para mais descidas da taxa de juro – e, até, outras medidas de política monetária que Lagarde não especificou mas que, garantiu, podem ser aplicadas com “prontidão” e “agilidade”.

“Estamos determinados a tomar quaisquer medidas que forem adequadas e recorrer a todos os instrumentos que sejam adequados” para garantir que a taxa de inflação prossegue a descida que tem sido registada e, declarou Christine Lagarde, tem dado ao Conselho do BCE cada vez maior confiança de que irá aproximar-se da meta de 2% “de forma sustentável”.

Os analistas do holandês Rabobank consideram que as decisões tomadas nesta quinta-feira, bem como a mensagem e o tom de Lagarde na conferência de imprensa, “colocam o BCE no caminho de fazer mais um corte da taxa de juro em junho” – que, a confirmar-se, será o oitavo consecutivo. Mas “muita coisa pode, ainda, mudar entre agora e a próxima reunião” do BCE, no início de junho.

“Se vier a ser alcançado um acordo comercial entre a UE e os EUA, a inflação poderá ser ligeiramente inferior, permitindo cortes adicionais”, antecipa o banco. Porém, se isso acontecer, “o crescimento será maior”, o que reduz a necessidade de muitos mais cortes na taxa de juro.

No entanto, “se a guerra comercial se intensificar ainda mais, perspetivas de crescimento significativamente mais fracas poderão justificar cortes adicionais nas taxas”, para níveis mais baixos. Nesse cenário, “um cenário onde a taxa dos depósitos atingisse 1,25% ou 1,50% não é impossível“. No entanto, o Rabobank acredita que antes de chegar aí o BCE poderá recorrer a “outros instrumentos”, como um eventual programa de injeção de liquidez e de intervenção nos mercados através da compra de títulos de dívida.

Inspirando-se no programa que foi criado no início da pandemia de Covid-19 – o Pandemic Emergency Purchase Programme (PEPP) – o Rabobank acredita que pode ser lançado um Trade Emergency Purchase Programme (TEPP) ou um novo plano de empréstimos de longo prazo às empresas (como o programa TLTRO, que já terminou). Em conjunto com juros em níveis mais baixos, “esta combinação de políticas não só ajudaria a reduzir os riscos de estagflação, como também poderia resolver algumas das principais preocupações do Conselho do BCE, como as relacionadas com a restritividade potencialmente excessiva na concessão de crédito”.

Lagarde não deixou conferência de imprensa terminar sem lançar repto a líderes políticos europeus

Sem alguma vez se referir às tarifas lançadas por Donald Trump como “guerra comercial”, Christine Lagarde reconheceu que as perspetivas de crescimento na zona euro se deterioraram devido ao “aumento das tensões comerciais”. “O aumento da incerteza, provavelmente, irá reduzir a confiança entre as famílias e as empresas”, pressionando o consumo e o investimento. Por outro lado, a volatilidade nos mercados de financeiros, sensíveis a cada notícia sobre o conflito tarifário “provavelmente terá o impacto de tornar mais restritivas as condições de financiamento”, outro fator que o BCE poderá ter de contrariar com a sua política monetária.

Mas é antevendo o risco de que o BCE possa, uma vez mais, ser colocado sob grande pressão para, praticamente sozinho, segurar a economia, que Christine Lagarde não deixou a conferência de imprensa desta quinta-feira terminar sem lançar um repto aos outros responsáveis políticos europeus.

bce lagarde

▲ Lagarde não deixou conferência de imprensa terminar sem lançar repto a líderes políticos europeus.

Felix Schmitt for ECB

No final da conferência de imprensa, e quando o responsável de comunicação do BCE já estava a fazer as despedidas, Lagarde decidiu interrompê-lo para sublinhar um parágrafo da comunicação feita pelo BCE e que “refere especificamente a rápida implementação das reformas estruturais, a bússola da competitividade [criada a partir do Relatório Draghi], e a união de investimentos e poupanças“, cujo rosto é a comissária europeia Maria Luís Albuquerque. Além destes, Lagarde também salientou a negociação política com vista à eventual criação de um “euro digital”, um projeto no qual o BCE está a trabalhar há vários anos.

Lagarde salienta que, muitas vezes, esta mensagem é secundarizada pela imprensa – como algo que o BCE diz sempre, um pro forma – mas a presidente do BCE sublinhou que o momento atual é “o momento para os responsáveis políticos na Europa não apenas serem sólidos na execução dos seus mandatos (controlar a inflação, no caso do BCE) mas todas as instituições europeias devem pensar que oportunidades existem e o que devem fazer”, incluindo “acelerar” desenvolvimentos como nas áreas que a francesa citou.

De passagem, a presidente da autoridade monetária referiu que os planos de investimento europeus (em defesa) e, em particular, o alemão (em defesa e infraestruturas) irão ter um efeito “positivo” nas taxas de crescimento, capaz de compensar algum abrandamento induzido pela “guerra comercial”, pelo menos no médio prazo.

Lagarde sai em defesa do "estimado amigo" Jay Powell, muito criticado por Donald Trump

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Saindo em defesa de Jay Powell, criticado quase diariamente por Donald Trump, Christine Lagarde diz considerar o líder da Reserva Federal um “estimado amigo” e mostrou confiança de que a “sólida colaboração” que tem havido entre o BCE e a Fed irá continuar. Christine Lagarde salientou, também, noutro momento da conferência de imprensa, que a independência dos bancos centrais é algo “fundamental” nas economias modernas.

“Nunca mais chega” o fim do mandato de Jay Powell, afirmou há poucas horas Donald Trump sobre o líder da Reserva Federal que na quarta-feira salientou que as tarifas poderiam criar um “cenário desafiante” para o banco central por colocar em choque os seus dois principais objetivos — inflação estável e um mercado de trabalho saudável.

No que ao BCE diz respeito, Lagarde confessou ser incapaz, nesta altura, de antecipar os impactos que a “guerra comercial” irá ter – nem mesmo saber se ela irá ter como consequência impulsionar a inflação ou fazê-la recuar (possivelmente, recuar em demasia). “As perspetivas económicas estão enubladas por uma incerteza excecional”, escreveu o banco central no comunicado que emitiu no final da reunião desta quinta-feira.

A avaliação que o BCE irá fazer do impacto das tarifas irá depender daquilo que for realmente anunciado e efetivado, se há ou não retaliações, se há reorientação de comércio global e que tipo de respostas (orçamentais) dadas pelos governos – todos estes fatores podem ficar um pouco mais claros até à próxima reunião do BCE, em junho, embora a “pausa” de 90 dias de Trump só termine em meados de julho. Até lá, a maioria dos países e blocos visados pelas tarifas vão negociar uma eliminação ou redução das tarifas – embora, no caso da União Europeia, os primeiros sinais sobre a negociação em curso não sejam animadores.

UE prevê que tarifas dos EUA se mantenham. Comissário europeu do comércio não consegue perceber objetivos dos EUA

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