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“Ó avó, que é isso? Que barulho é esse?”. A pergunta — um quase presságio — da neta de Donzília não a deixou em maior sobressalto do que aquele em que já estava. Passou-lhe de tal forma despercebida que só agora, dias depois daquela noite de sábado, parece recordar a aflição da sua “menina que trabalha em Lisboa”, ao telefone. Ela já pressentiria que alguma coisa grave estava para acontecer, mas Donzília tinha a cabeça noutro lugar.

O marido tinha ido para a Nazaré buscar o filho que “anda nos barcos”. Entre cortes nas chamadas — o vento já soprava com muita força –, Donzília ia tentando perceber onde estavam. Não pregava olho. Tinha percebido que, pouco depois das 22h00 da noite, os dois estavam em Montereal, a meia-hora de casa. O caminho avizinhava-se um labirinto de árvores caídas. “Eu já estava preocupada”, diz ao levar as mãos ao peito — talvez a tentar imitar o desespero que sentiu naquela noite, talvez a tentar esconder aquele que ainda sente.

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