Bastou-lhes um resumo rápido das histórias dos grupos terroristas internacionais que atacaram Portugal em 1983 para os Linda Martini terem uma ideia daquilo que queriam fazer para o novo Podcast Plus do Observador — 1983: Portugal à Queima-Roupa tem narração de Victoria Guerra e banda sonora assinada pela banda de André Henriques, Cláudia Guerreiro, Hélio Morais e Rui Carvalho.
Para Rui, a parte apelativa prendeu-se com o facto de a banda sonora “não estar focada nos interesses da banda”. Cláudia acrescenta que nunca tiveram acesso aos guiões, mas que a introdução que lhes foi dada foi suficiente para saberem que precisavam de algo tenso.
Foram pesquisar notícias sobre os acontecimentos e perceberam que uma ideia que André tinha guardada há algum tempo se encaixaria. “Agora com os telemóveis é muito fácil, gravamos uma coisa qualquer em todo o lado. Esta ideia era uma coisa muito pequenina, que tinha surgido casualmente num ensaio”, conta ao Observador. “Trata-se de um ano quente, explosivo, e nós temos algumas dessas características na nossa música, portanto tentámos conciliar esses momentos de tensão com alguns mais catárticos, incoerentes até, a nível sonoro.”
André Henriques lembra-se vagamente de ter ouvido falar dos ataques, mas todos os membros dos Linda Martini eram demasiado novos em 1983 — Hélio, Cláudia e André nasceram em 1980, Rui nasceu um ano antes.
A infância foi passada em Queluz, na periferia de Lisboa, e foi lá que, mais tarde ou mais cedo, todos se cruzaram. Hélio e Rui conhecem-se desde miúdos e passavam os dias na rua. “Brincávamos com carrinhos, havia um campo de futebol e íamos para um aqueduto — o que não era lá grande ideia porque havia lá pessoas a drogarem-se e por vezes tínhamos de fugir”, recorda Rui Carvalho ao Observador.
A música é, obviamente, o ponto comum e era fomentada em casa, embora nunca como uma imposição. “Os meus pais são angolanos e a minha mãe estava sempre a ouvir kizomba e kuduro, mas o kuduro antigo. O meu pai ouvia Demis Roussos, Nana Mouskouri e Roberto Carlos”, recorda Hélio.
[o trailer de “1983: Portugal à Queima-Roupa”:]
O pai de André trabalhava numa loja de discos, portanto as paredes da sala lá de casa estavam praticamente todas cobertas de discos. “Até aos meus seis, sete anos, ouvia muita coisa, mas depois, como o meu pai passava o dia inteiro a ouvir música, deu-se ali um clique na cabeça dele e deixou de ouvir em casa. Por isso, começou a dar grande parte do espólio a amigos e hoje não tenho quase nada”, lamenta.
Rui cresceu com um pai músico, que tocava numa banda chamada Filarmónica Fraude. “Tinha uma carteira de músico que dizia ‘guitarrista’, lembro-me de ele tocar no Fontória [bar em Lisboa], em bandas de covers e com amigos, mas sempre como um hobby. Não o deixaram ser músico, que era provavelmente o que ele queria. Foi obrigado a ser economista porque o pai era economista, e acabou a trabalhar infeliz numa seguradora.”
Além disso, a irmã sete anos mais velha, ouvia tudo aquilo que ele odiava: “Madonna, aqueles hits dos anos 80. Eu, para quebrar, fui para o metal.”
Com os amigos, incluindo Hélio, começou uma banda de garagem aos 14 anos. Mais ou menos na mesma altura — e ainda antes de Rui e Cláudia se tornarem um casal, era em casa que ela cantava as modas alentejanas e os fadinhos. “O meu pai tocava e nós cantávamos. Todos os fins de semana eram assim passados, em família. Tínhamos um dossier com as letras todas.”
Desses tempos há uma memória que nunca a larga.”Lembro-me sempre de estarmos a passar num caminho qualquer para Belas, a ouvir o Golden Brown [de The Stranglers] no carro. Continua a ser das minhas músicas preferidas.”
Tentou ter aulas de guitarra, mas as pautas não eram para ela. Começou então a tocar flauta de forma autodidata e os colegas são peremptórios: “É a que tem o ouvido mais afinado.”
A primeira canção que o pai lhe ensinou na guitarra foi Coimbra Tem Mais Encanto. “Só não foi a Dunas [muitas vezes a mais fácil para quem começa] porque o meu pai não sabia essa. Descobri muito mais tarde que ele só me ensinou a tocar com duas cordas e o tema tem muito mais.”
Todos aprenderam com tentativa e erro e, sobretudo, passaram o que sabiam de uns para os outros. “Entrámos naquele caldeirão do punk e do hardcore e ver o outro estimulava-nos. Desenvolvemos a nossa música com tentativa e erro e o erro, muitas vezes, acaba por dar origem a uma canção que não estávamos à espera de fazer”, explica André Henriques.
Ele tinha uma banda ainda antes de saber tocar. “Brincava na escola com um grupo de amigos: hoje sou o baterista, tu és o guitarrista e tu o vocalista. No dia seguinte trocávamos, mas ninguém sabia tocar nada.”
Em casa, as raquetes de ténis viravam guitarras e, as almofadas, pratos de bateria. Aprendeu depois os primeiros acordes com uma colega que era escuteira e tocava guitarra. No Natal seguinte, ele e os amigos receberam guitarras baratas e a banda ganhou um nome, Bloqueio. “Lembro-me de, no primeiro ensaio, aquilo parecer uma cacofonia. O Bruno [um dos membros] parou tudo e disse: ‘Acho que me disseram que temos de ter as guitarras na mesma afinação’. ‘Acho’, disse ele, mostra bem quão pouco sabíamos. Afinamos de ouvido, porque nem sequer tínhamos afinador, e aquilo lá soou um bocadinho melhor.”
Hélio aprendeu a tocar bateria numa igreja protestante — “a bateria converteu-me”. “Um dia, achei que era boa ideia levar a banda a ensaiar lá e o pastor passou-se com o barulho, acabou o ensaio e tudo. Éramos uma banda de speed trash metal [da qual Rui também fazia parte], tocávamos Metallica essencialmente.”
Sem o espaço, ficaram também sem bateria durante algum tempo, mudando os ensaios para o escritório do pai de Rui. “Aí fartei-me de estragar caixas de papelão e os tupperwares da mãe do Rui. As revistas faziam de pratos”, conta Hélio. “Éramos péssimos, a minha avó pensava que estava lá o diabo quando nos ouvia”, acrescenta Rui.
Quando o ensino secundário chegou ao fim, todos seguiram caminhos distintos — e nenhum passou pela música. André estudou Recursos Humanos, Hélio optou por Engenharia Eletrotécnica e Rui por Arqueologia, Cláudia seguiu Belas Artes e Escultura.
[Meses depois de confessar o crime, o assassino de Sartawi é finalmente julgado. Mas, numa reviravolta, o terrorista do quarto 507 garante que é inocente. Como vai tudo acabar? “1983: Portugal à Queima-Roupa” é a história do ano em que dois grupos terroristas internacionais atacaram em Portugal. Ouça no site do Observador o sexto e último episódio deste Podcast Plus narrado pela atriz Victoria Guerra, com banda sonora original dos Linda Martini. Também o pode escutar na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E ouça o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto episódio aqui]
“Acabei o curso e fui logo trabalhar para uma consultora”, conta André”, “de fato e gravata, modelo muito corporativo”. Até 2015 esteve ligado à área apesar de, nessa altura, já os Linda Martini existirem há mais de uma década.
É preciso recuar até 2003 e juntar Hélio Morais e André Henriques na mesma banda. “Era uma coisa onde queríamos mostrar um lado mais emotivo e calmo”, recorda André. Fizeram uma canção onde acharam que ficaria bem uma harmónica e foi assim que se lembraram de Cláudia.
“Ela chegou para tocar harmónica, mas o Luís, que era o baixista que tínhamos na altura e se baldava muito, não estava lá e alguém disse à Cláudia para tocar qualquer coisa no baixo”, lembra Hélio. “Nós ficamos fascinados porque os baixistas de punk rock tocam quase todos com palheta, mas a Cláudia tocava com os dedos”, diz André.
Saiu Luís, entrou Cláudia, e ficou assim criado o núcleo de Linda Martini — ela (baixo e voz) juntou-se a Hélio (bateria), André (voz e guitarra) e Sérgio Lemos (guitarra). Depois surgiu Pedro Geraldes (guitarra e voz), “que entrou para usar samples e nunca usou, ficou também na guitarra”, conta Cláudia. Entretanto, Sérgio Lemos deixou a banda em 2009 e Pedro Geraldes saiu em 2022.
▲ Durante a atuação de 2023 no festival NOS Alive
FILIPE AMORIM/OBSERVADOR
O primeiro concerto, já com a banda devidamente formada, foi em 2005, no Hard Club, em Gaia. No final, a pessoa que devia pagar-lhes fugiu. “E o cachê eram uns 70 euros, nem sequer dava para a gasolina”, recorda Hélio.
Apesar de não se terem dedicado em exclusivo à música, com o primeiro disco no ano seguinte, Olhos de Mongol, perceberam que “afinal, não precisava de ser só enterrar dinheiro nisto”, diz Cláudia. “Podíamos pagar as contas e tirar uns 100 euros para cada.”
Depois de Olhos de Mongol (2006), editaram Casa Ocupada (2010), Turbo Lento (2013), Sirumba (2016), Linda Martini (2018), ERRÔR (2022) e Passa-montanhas (2025).
Além dos discos e dos concertos, paralelamente, os membros da banda foram tendo outras tarefas: Hélio fazia agenciamento de bandas; Cláudia trabalhava em animação e ilustração; e André era copywriter, já depois de ter largado os Recursos Humanos. Rui foi arqueólogo até 2009. Nesse ano, estava em tournée com uma banda que não dava dinheiro e o baterista sugeriu-lhe fazer um disco a solo. “Pensei que seria a última coisa que faria na vida, só de pensar nisso morria de ataque cardíaco.”
Mas foi exatamente o que fez, com o pretexto de precisar de seis meses de pausa na Arqueologia. “Só que os seis meses transformaram-se em mais 15 ou 16 anos e seis ou sete discos enquanto Filho da Mãe”.
Com a saída de Pedro Geraldes, ficou um espaço por preencher e Rui juntou-se aos amigos. “No início não entrei logo para a banda, substituí uma pessoa e estava sobretudo preocupado em que funcionasse ao vivo.”
Conhecia o resto da banda “há mil anos”, mas apesar da parte pessoal estar tratada, foi preciso arranjar espaço criativo enquanto membro novo dos Linda Martini. Passa-montanhas, o disco mais recente, já teve o contributo de Rui Carvalho.
Após sete discos de originais e mais de 20 anos de carreira, os Linda Martini descobriram ultimamente uma nova forma de criar, que lhes consome menos tempo e energia mental, mas os obriga a estarem completamente focados. “Com as vidas familiares, as obrigações, etc, temos mesmo de nos isolarmos para o nosso foco ser exclusivamente o disco. Desta vez fizemos uma residência artística, foram cinco dias e saímos de lá com o disco praticamente fechado. Obviamente que depois há um período de maturação, mas os esqueletos ficaram prontos”, diz André.
Quando tem uma letra por acabar, André fica obcecado e não consegue pensar em mais nada. “Muitos vizinhos da frente já me viram na cozinha, com as janelas abertas, a fazer movimentos com os dedos, parece que tenho um problema grave.”
Cláudia toca baixo quando está a dormir, palavra do marido, Rui. “O quê? Não toco nada. Nunca me disseste isso, dizes agora numa entrevista?” Ele reitera: “Já vi, sofres de ‘air guitar’ mas com o baixo”.
Os Linda Martini podem ser descritos como uma banda de culto, destacam-se pelos trechos instrumentais elaborados e pelas letras apaixonadas. Ainda assim, nunca deram o salto para o chamado mercado mainstream.
“O nosso primeiro disco ainda foi negociado com a Universal e o segundo com a Valentim de Carvalho, mas houve sempre qualquer coisa na engrenagem que falhou, e isso foi visto pelo público como uma coisa fixe, como se fossemos indie”, diz Hélio.
Apesar de toda a gente os conhecer, de terem muitos ouvintes, sempre foram uma banda de nicho — algo com que agora lidam perfeitamente, mas nem sempre foi assim. “Talvez eu fosse o mais chato com isso”, admite Hélio. “Fazíamos uma música como a Volta, mais calma, e achávamos que era um single que tinha de passar nas rádios comerciais, mas é óbvio que não, aquilo era muito mais barulhento do que qualquer outra coisa que passasse na rádio. Com esta distância vemos que, mesmo as mais soft, eram muito pesadas para uma rádio comercial.”
André, por outro lado, nunca teve grandes frustrações com o tema. “Percebi desde cedo uma coisa: se eu quero fazer este tipo de música, se é deste género que gosto, mas a rádio não me dá coisas parecidas, à partida não vou ter grandes hipóteses que passe a minha.”
Passados mais de 20 anos há algo que se mantém e que é, provavelmente, o segredo para o longevidade dos Linda Martini. “Ainda sentimos aquela coisa de miúdos quando surge uma primeira ideia. Partilhamos por mensagem e está toda a gente a opinar por cima. Esse deslumbramento continua a acontecer-nos. Para mim, é mesmo isso que me motiva a continuar a fazer canções”, garante André Henriques.