Marcelo e Montenegro estão alinhados relativamente aos custos de Defesa e transmitiram ao secretário-geral da NATO nas reuniões privadas que até podem antecipar a meta dos 2%, mas que o país não está disponível para cortar na área social para ir ao encontro da exigência de Trump (que pede gastos em Defesa aos parceiros de 5% do PIB). Mark Rutte, numa conversa que Marcelo classificou como “fácil”, também não fez pressão para um aumento. Belém acredita que esta posição de Portugal de não passar dos 2% do PIB vai continuar no mandato do próximo Presidente — mesmo que o futuro chefe de Estado tenha opinião diferente — porque “quem governa, é Governo“.
O secretário-geral da NATO foi alarmista nas declarações públicas que fez após os encontros na segunda-feira e chegou a dizer que os bombardeiros russos “ameaçam a costa portuguesa”. Mas em privado foi diferente. Mark Rutte compreendeu a perspetiva europeia (“até porque é europeu”, lembra fonte de Belém) , foi “muito menos dramático” do que tinha sido perante o Parlamento Europeu e adotou uma postura tranquila. Além disso, Rutte terá secundado a perspetiva de Marcelo de que Trump “atira para o ar” (como aconteceu com os 5%) para conseguir um esforço maior dos parceiros, mas na verdade só quer mais compromisso. Ou seja: publicamente faz uma exigência colada a uma ameaça, mas na prática não a concretiza.
Marcelo lembrou até que, ainda em 2021, tinha garantido a Donald Trump, ainda no primeiro mandato, que o país estava comprometido com a meta de 2%, mas não mais do que isso. Nesse encontro com o Presidente português, Rutte não terá contraposto nem com os 5% de Trump nem com qualquer outra meta intermédia. O mesmo terá acontecido na conversa Luís Montenegro, como Marcelo acabou por confessar publicamente já esta terça-feira: “Correu muitíssimo bem, comigo e com o senhor primeiro-ministro, que sei que foi o mesmo tipo de conversa.”
Governo avisa que não passa dos 2% como é vontade de Trump (e do almirante)
Luís Montenegro teve a posição que Marcelo define como sendo de “bom senso”: fará esforços para antecipar a meta de 2%, mas tendo como prioridade o rigor das contas públicas e sem sacrificar o Estado social. O primeiro-ministro fez questão de dizer a Mark Rutte que ele próprio “sabe, como poucos, reconhecer o esforço que Portugal realizou nos últimos anos para estarmos hoje numa situação financeira de grande estabilidade e sustentabilidade”. Montenegro lembrava assim o Governo holandês liderado por Rutte que, ao lado da Alemanha e da Áustria, chegou a defender sanções a Portugal. O chefe do governo português admite “caminhar para reforçar o seu investimento em Defesa”, mas avisa que o fará sempre “sem colocar minimamente em causa o seu equilíbrio financeiro“. O primeiro-ministro português já tinha dito, aliás, há duas semanas que 5% do PIB em Defesa não era “exequível”
Marcelo confirmou esta terça-feira que o primeiro-ministro transmitiu ao secretário-geral da NATO a ideia de que é preciso “compatibilizar” os gastos em Defesa com a “gestão orçamental” sem deixar de “atender às necessidades sociais da sociedade portuguesa.” Até porque a posição portuguesa, lembra Marcelo, é a de que “reforça a NATO o facto de haver crescimento económico e justiça social. Se não houver essa paz social, aumenta os radicalismos e a contestação à NATO”.
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Com pouco mais de um ano de mandato e um horizonte que, no calendário mais lento, vai até 2029 — embora haja a promessa de acelerar —, a posição de Belém e de São Bento é que se as pressões externas não vão mudar a posição portuguesa, as internas também não. Neste momento, o candidato presidencial favorito nas sondagens, Henrique Gouveia e Melo, defende que é necessário aumentar em mais 1 ou 1,5 pontos a percentagem do PIB em gastos de Defesa — o que tendo em conta o atual gasto de Portugal (1,48%), atiraria os gastos com Defesa para perto dos 3% do PIB. Esta posição pode levar a uma rutura ou, no mínimo, uma dessintonia entre a Presidente e governo nesta matéria, caso Gouveia e Melo seja eleito e tome posse em março de 2026. Mas fonte de Belém lembra ao Observador que “quem governa é o Governo“. Ou seja: o magistério de influência do eventual Presidente Gouveia e Melo não terá efeitos na posição portuguesa.
Ainda assim, a mesma fonte de Belém diz que o próprio almirante “ainda como Chefe do Estado-Maior da Armada já tinha vindo a ter uma posição mais moderada” e que “já nem queria mais submarinos”, apostando em drones marinhos como forma mais eficaz (e menos dispendiosa) de fazer a defesa da costa portuguesa.
O posicionamento de Marcelo e Montenegro vai, aliás, ao encontro do de Marques Mendes no último ataque direto ao almirante. Num evento com autarcas do PSD, onde foi novamente elogiado por Montenegro, o ex-líder do PSD lembrou que “alguns cá dentro e lá fora começam a alimentar a ideia de que mais verbas para a segurança, para a Defesa e para as Forças Armadas deve ser feito à custa do Estado social. Pois penso exatamente o contrário por uma questão de equilíbrio, de prioridades e de sensibilidade social”. Era uma resposta a Gouveia e Melo que 24 horas antes tinha dito no Expresso da Manhã: “O que interessa termos despesas sociais se não tivermos país? Ou se tivermos de obedecer a uma autoridade exterior, ainda por cima ditatorial?”
Portugal é peça-chave em África (onde Trump pode desinvestir)
Marcelo Rebelo de Sousa e Luís Montenegro também transmitiram o posicionamento de Portugal relativamente à realidade geopolítica. Desde logo a posição de apoio à Ucrânia é inegociável, mas também conversaram sobre a presença da NATO em África, que acontece por via da AFRICOM. Depois do crescimento galopante da Rússia em África, através de mercenários como o Grupo Wagner, a administração Biden decidiu correr atrás do prejuízo e voltar a olhar para o continente africano.
Washington chegou a pedir a Portugal ajuda para não sair da República Centro Africana para combater o Grupo Wagner. Uma das últimas visitas de Joe Biden foi a Angola, país com o qual Portugal tem obviamente relações privilegiadas. No entanto, uma das primeiras medidas de Donald Trump foi dissolver o Conselho para a Diáspora Africana, que tinha como objetivo “melhorar as ligações culturais, sociais, políticas e económicas entre a comunidades africanas, a diáspora de África e os Estados Unidos”, além de “fazer recomendações sobre política externa.”
A prioridade dos EUA deixou de ser África e isso muda também a perspetiva da NATO. Trump “está muito mais preocupado com a China do que com a Rússia”, diz uma alta fonte diplomática ao Observador. “Com isso o investimento em Defesa provavelmente vai ser mais prioritário no Pacífico do que no Atlântico”, acrescenta a mesma fonte.