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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Menor institucionalizada exposta sexualmente a centenas de homens. Operação de “risco mínimo” terminou com dois inspetores da PJ baleados

Uma menor institucionalizada terá sido violada depois de ser exposta sexualmente a centenas de homens. PJ fez várias buscas, apreendeu material informático e dois inspetores foram baleados.

O caso que fez com que dois inspetores da Polícia Judiciária (PJ) fossem baleados esta terça-feira surgiu nas redes sociais e remonta a 2024. A vítima é uma jovem institucionalizada de 15 anos, que vendia conteúdos e oferecia os seus serviços sexuais aos seguidores. Esta atividade despertou o interesse de centenas de pessoas — maioritariamente homens, mas também mulheres — e terá resultado em pelo menos duas alegadas violações. Da larga população de potenciais envolvidos, a PJ conseguiu identificar uma amostra de dez e, às primeiras horas da manhã desta terça-feira, partiu para o terreno em vários concelhos da zona Norte.

Em nove locais, nenhum desses nove suspeitos ofereceu resistência e “as buscas correram de forma absolutamente pacífica” sem nada de anormal a registar, como relatou o Diretor da PJ de Braga, José Monteiro, aos jornalistas. Mas houve uma exceção nas buscas realizadas na localidade de Duas Igrejas, em Paredes. Aí, numa moradia de três andares, os inspetores identificaram-se e tentaram entrar na casa, mas foram recebidos com insultos.

O autor dos “impropérios” era também o alvo da ação da PJ. Não só não abriu a porta, como ainda agrediu o primeiro inspetor que entrou na casa pelas traseiras. Os confrontos arrastaram-se para o quarto do pai do suspeito, que tentou terminar a contenda disparando na direção dos agentes da autoridade. Sem terem de recorrer à arma que carregavam, os inspetores conseguiram controlar a situação e controlar os dois agressores.

Antes de ser concluída a operação no terreno, os dois inspetores — um baleado no ombro e outro “de forma superficial” na cabeça — foram levados para o Hospital Padre Américo, em Penafiel, “onde foram submetidos a exames complementares”. “Na investigação criminal, como todos saberão, o imprevisto é sempre uma possibilidade e nós temos sempre que contar com essas possibilidades”, acrescentou José Monteiro.

Caso não tivesse acontecido este incidente, o Diretor da PJ de Braga não tem dúvidas de que esta “seria uma operação tranquila”, como as tantas “dezenas ou centenas” realizadas todas as semanas. “Não era de prever minimamente este tipo de reação”. Agora, e com a operação tornada pública antes do previsto, as autoridades correm contra o tempo para responder a várias questões sobre o caso desta jovem brasileira, agora maior de idade, que estava institucionalizada numa instituição de Barcelos. Qual a real dimensão deste caso? Quantas pessoas contactaram com esta menor? Caso tenha sido violada, quem são os suspeitos? Como foi tudo isto possível? Para já, seguem as pistas encontradas nos vários dispositivos eletrónicos apreendidos nas buscas.

Segundo Miguel Belo Marques, estavam a realizar buscas na Junta de Freguesia elementos da Polícia Judiciária Mário Cruz/LUSA

Cinco inspetores deslocaram-se a casa do suspeito em Paredes. Dois acabaram baleados

A denúncia não chegou através da única vítima conhecida (a PJ não descarta que haja mais). “Inicialmente”, a jovem “não se mostrou muito colaborante” com a investigação que começou no ano passado, explicou o Diretor da PJ de Braga. Mas foi possível chegar a dez suspeitos, incluindo o homem de 43 anos que vive com o pai em Paredes, e os investigadores decidiram avançar para as buscas para, além de tentarem confirmar o envolvimento destes homens, chegarem a ainda mais pessoas envolvidas.

“Fizemos uma dezena de buscas na região Norte, em vários concelhos. Aconteceu que num deles, nomeadamente em Paredes, houve uma situação inusitada porque se tratava de uma operação de risco mínimo. Não haveria um perigo considerável”. Assim, a PJ deslocou-se a esta casa com uma equipa de cinco elementos, “como é habitual nestas situações”.

As buscas deveriam ter tido início pelas 7h, mas quando os inspetores, seguindo o protocolo, anunciaram aos moradores a intenção de realizarem as buscas, foram recebidos com insultos por parte do suspeito, que se manteve do lado de dentro da casa, sem abrir a porta, apesar de ter ouvido a identificação da PJ, como conta José Monteiro.

Sem conseguirem entrar, os inspetores tiveram que procurar alternativas para não frustrar um plano que estava a ser executado em várias localidades do Norte do País, desde Fafe a Aveiro — em concreto, nos concelhos do Porto, Matosinhos, Vila Nova de Famalicão, Fafe, Arouca, Alijó, Aveiro e Paredes. Um dos inspetores apercebeu-se então de uma porta aberta nas traseiras.

Entrou, “devidamente identificado com os símbolos da PJ e gritando essa mesma qualidade em voz alta”, e foi “imediatamente” intercetado pelo suspeito que se “engalfinhou” com o inspetor. “Entretanto, há mais um inspetor nosso que acorre pelo mesmo espaço e, na tentativa de dominar o alvo principal num corredor da casa”, os confrontos estendem-se a outro quarto da habitação, quando os três intervenientes caíram para essa divisão.

Dentro desse quarto estava um idoso de 77 anos, pai do suspeito, que rapidamente se apodera de uma pistola calibre 6.35 mm e dispara três vezes na direção dos inspetores. “Até que vem outro inspetor, outro elemento da equipa, o terceiro, que conseguiu manietar o idoso”, acrescenta o diretor da PJ. Pouco antes, o homem de 43 anos tentou “apossar-se” da arma para disparar, novamente, contra os inspetores. “É nesse entretanto que surge um quarto disparo que acabou por atingir outro inspetor”.

Inspetores "souberam usar de forma profissional e adequada" as pistolas, porque "não houve um único disparo da parte dos nossos inspetores", que mesmo "diante de uma ameaça deste nível", conseguiram dominar a situação "sem maiores danos, inclusivamente para terceiros".
José Monteiro, Diretor da PJ de Braga

“Na investigação criminal, como todos saberão, o imprevisto é sempre uma possibilidade e nós temos sempre que contar com essas possibilidades e dessa forma procuramos ajustar os meios humanos e materiais adequados à situação. Neste caso, os inspetores estavam devidamente não só identificados, com os símbolos da PJ, como também estavam na posse das suas armas de fogo profissionais”. José Monteiro salienta que todos os inspetores “souberam usar de forma profissional e adequada” as pistolas, porque “não houve um único disparo da parte dos nossos inspetores”, que mesmo “diante de uma ameaça deste nível”, conseguiram dominar a situação “sem maiores danos, inclusivamente para terceiros”.

Depois de terem controlado a situação, detendo pai e filho, dois inspetores foram assistidos, inicialmente, no local. Um foi atingido “na zona da cabeça de forma muito superficial” e o outro ficou com o projétil alojado no ombro, “mas muito à superfície”. “Terão alta” em breve, acredita o Diretor da PJ de Braga.

“É uma operação relacionada com a investigação de criminalidade sexual, não era de prever minimamente este tipo de resistência”, até porque não são conhecidos antecedentes criminais, “muito menos por criminalidade violenta” que pudessem “sugerir este tipo de reação”. No total das dez buscas, os inspetores recolheram “eventuais elementos de prova” que podem relacionar os suspeitos com os factos em investigação, sobretudo materiais digitais como CD’s, computadores e telemóveis.

Menor poderá ter sido exposta a “quase um milhar” de pessoas com perfis diferentes, incluindo um antigo professor

“Esta investigação tem a ver, essencialmente, com pornografia de menores e com a exploração sexual de menores”. José Monteiro assumiu perante os jornalistas, numa conferência de imprensa realizada esta terça-feira em Braga, que as autoridades têm conhecimento de “pelo menos uma vítima”. A jovem, que quando se iniciaram os factos tinha apenas 15 anos, “anunciava a sua disponibilidade para práticas sexuais em determinadas redes sociais”.

Esse comportamento despertou o interesse de centenas de homens, mas também mulheres — “há situações onde há uma atuação de casais à procura da disponibilidade da vítima”. A exposição incontrolável das redes sociais aumenta exponencialmente a rede de contactos que pode ter sido estabelecida pela menor e, por isso, aumenta também consideravelmente a lista de eventuais suspeitos.

"Ela tinha manifestado disponibilidade para práticas sexuais, mas em duas ou três situações os factos foram muito além daquilo que ela previa. Portanto, ela terá sido violada são essas as circunstâncias que nós também procuramos esclarecer no desenvolvimento da investigação".
José Monteiro, Diretor da PJ de Braga

O agressor de Paredes será, alegadamente, um dos homens que se relacionou com a menor que estava institucionalizada numa instituição em Barcelos — e que hoje, maior de idade, já vive com a mãe. Segundo a PJ, a vítima afirmou ter sido “violada algumas vezes”. “Ela tinha manifestado disponibilidade para práticas sexuais, mas em duas ou três situações os factos foram muito além daquilo que ela previa, foram para além do que ela inicialmente supôs. Portanto, ela terá sido violada. São essas as circunstâncias que nós também procuramos esclarecer no desenvolvimento da investigação”.

Entre os dez suspeitos que a PJ já identificou, “há indivíduos com vários perfis”, inclusive um homem que terá sido professor da menor. “Presume-se que este contacto terá começado depois de ela ter usado as redes sociais para se mostrar disponível. Ela produzia alguns conteúdos e partilhava-os e cobrava dinheiro por isso”. Esta partilha foi sucedendo rapidamente e a vítima “chegou quase a um milhar de contactos diferentes”. Por isso, conclui a PJ, “é fácil perceber que haverá aí indivíduos com perfis muito variáveis”.

Os inspetores ainda realizam perícias para compreender o que estará em causa, mas já foi possível perceber que entre os computadores e telemóveis apreendidos há “conteúdos pornográficos”. “Para além disso, destacar que foram apreendidas, não só a pistola 6.35mm que foi utilizada para atingir os nossos inspetores, [mas] também duas caçadeiras. Todas estas três armas em situação absolutamente ilegal”.

A investigação, naturalmente, está ainda no início, num arranque atribulado marcado pelos disparos contra os inspetores. Para já, as únicas detenções (de pai e filho em Paredes) não se relacionam com a investigação: devem-se aos indícios de coação e resistência a funcionário e homicídios na forma tentada. O pai do homem de 43 anos não está sob suspeita de crimes sexuais. Por isso, a PJ assume que estas “dez buscas retiradas de um universo de centenas de indivíduos com ligação à mesma pessoa” poderão, no futuro, suscitar outras diligências da mesma natureza. O decorrer da operação poderá ditar a constituição de arguidos. “Muito do material que foi recolhido vai ser sujeito a análise pericial e talvez só a partir daí é que consigamos efetivamente estabelecer a relação com estes suspeitos, porque constavam da relação de contactos da vitima”, conclui José Monteiro.

A instituição de Barcelos que chegou a acompanhar a vítima, até esta atingir a maioridade, denunciou outro caso à PJ, por “temas da mesma natureza” e que deu origem a outro inquérito que decorre paralelamente. O Observador contactou a CPCJ de Barcelos, sem sucesso.

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