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epa11885993 Iranians burn a structure with a poster of US President Donald Trump next to an Etemad missile during a rally marking the 46th anniversary of the Islamic Revolution in Tehran, Iran, 10 February 2025. Iran celebrates the 46th anniversary of the 1979 Islamic Revolution, in which the monarchy system was toppled and replaced by the Islamic Republic of Iran, with Ayatollah Ruhollah Khomeini serving as its first Supreme Leader.  EPA/ABEDIN TAHERKENAREH
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ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

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Mísseis balísticos. O trunfo militar do Irão que já furou a defesa aérea israelita, mas que não é infinito

Irão tem mais tropas, mas uma Marinha e Força Aérea antiquada e uma cúpula militar destruída por Israel que, por sua vez, precisa dos EUA para assegurar a sua defesa, perante a sobrecarga do sistema.

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Ao fim de uma semana de guerra entre Irão e Israel, uma das partes sentou-se pela primeira vez à mesa das negociações para discutir a situação regional e o programa nuclear de Teerão, que desencadeou o primeiro ataque israelita. Foi com estes temas em mente que o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araqchi, se deslocou a Genebra para um encontro com três seus homólogos europeus. No entanto, Araqchi afirmou claramente que Teerão não tinha margem negocial sobre outros temas, principalmente sobre o seu programa de mísseis balísticos.

A preocupação de Teerão com os seus mísseis balísticos não é surpreendente, dado que estes são identificados pelos analistas como o ponto forte do poder militar iraniano. Esta preponderância tem sido refletida nos ataques do Irão contra o território israelita. Logo na sexta-feira, em resposta ao primeiro ataque de Telavive, Teerão respondeu com uma vaga de 200 mísseis. A dimensão desta resposta foi sensivelmente a mesma do último ataque que o Irão tinha lançado contra território israelita, em outubro do ano passado.

Para além de mísseis, a ofensiva iraniana tem contado com centenas de drones e os resultados têm sido visíveis: o Irão conseguiu atingir o quartel-general das forças israelitas em Telavive, um centro dos serviços secretos e um centro de planeamento da Mossad. Além disso, os ataques também atingiram zonas residenciais no centro de Israel e um hospital no sul do país, matando pelo menos 24 pessoas. Os danos dos ataques israelitas no Irão são muito mais extensos: 240 mortos, incluindo dezenas de crianças, vários comandantes militares e cientistas nucleares mortos, instalações militares atingidas e instalações nucleares danificadas.

Utilizámos apenas 30% das nossas capacidades e não utilizámos as nossas capacidades na terra e no mar, não utilizámos o petróleo e o estreito de Ormuz. Não utilizámos o apoio dos nossos amigos nos países ao redor dos territórios ocupados [Israel].
Mohsen Rezaei, antigo comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana

No entanto, o simples facto de o Irão ter conseguido atingir alguns dos seus alvos é surpreendente, pois isso significa que conseguiu furar o complexo sistema de defesa aérea israelita. Um oficial israelita adiantou à Reuters que este sistema multi-níveis teve uma “taxa de sucesso de 80% a 90%” na interceção dos ataques iranianos. No entanto, esta taxa de sucesso pode não ser sustentável numa guerra de atrito prolongada uma vez que os stocks de intercetores utilizados para contrariar mísseis balísticos “estão a esgotar-se”, revelou um oficial norte-americano ao Wall Street Journal.

Em Teerão, uma guerra de atrito nestes moldes também não parece ser possível. Depois da resposta inicial em massa, a dimensão dos ataques iranianos contra Israel diminuiu substancialmente: no espaço de uma semana foram lançados tantos mísseis como na primeira resposta. Ou seja, ao todo, o Irão terá lançado cerca de 400 mísseis, mas em vagas cada vez mais pequenas — que por vezes se limitam a uma mão cheia de mísseis.

Esta quinta-feira, um antigo comandante do Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) declarou que o Irão tem muitas outras capacidades militares para mobilizar. “Utilizámos apenas 30% das nossas capacidades e não utilizámos as nossas capacidades na terra e no mar, não utilizámos o petróleo e o estreito de Ormuz. Não utilizámos o apoio dos nossos amigos nos países ao redor dos territórios ocupados [Israel]”, elencou Mohsen Rezaei, em declarações à agência Fars. Mas a eficácia de todos estes meios, quando comparados com os mísseis balísticos, é questionável.

Tropas, Marinha e Força Aérea. As fragilidades do poder iraniano

A diferença e a semelhança mais óbvias entre o poder militar do Irão e de Israel encontram-se ambas nas Forças Armadas. A diferença está na dimensão: o Irão tem 90 milhões de habitantes e 800 mil soldados no ativo. Israel, que não passa dos 10 milhões de habitantes, tem 170 mil soldados no ativo (aos quais se somam outros 400 mil na reserva), contabiliza a Associated Press. A semelhança está na experiência de combate: tanto as forças iranianas como israelitas têm experiência de combate devido à intervenção em múltiplos conflitos regionais ao longo das últimas décadas.

Olhando para as Forças Armadas de Teerão, estas são comandadas pelo Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei, e  estão divididas em dois grandes grupos, detalha o Institute for the Study of War. O primeiro grupo são as forças ditas regulares, chamadas Artesh. Estas forças, compostas por 600 mil homens, são a herança do Exército do Xá, pré-Revolução de 1979 e encarregam-se das tarefas convencionais, como proteção da soberania nacional e missões pontuais no estrangeiro — como a intervenção na guerra civil na Síria. As Artesh têm quatro divisões: os tradicionais Exército, Marinha e Força Aérea e ainda a Força Aérea de Defesa, estabelecida em 2019. Esta última divisão, responsável pela defesa aérea do Irão, é a que foi mais afetada pelos ataques aéreos israelitas, que começaram ainda no ano passado e têm como objetivo controlar o espaço aéreo iraniano.

Guarda Revolucionária Irão

▲ A Guard Revolucionária são as tropas de elite das Forças Armadas iranianas

ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

Mas a parte mais poderosa das Forças Armadas iranianas é o Corpo da Guarda Revolucionária Iraniana, uma força paralela à Artesh estabelecida pela República Islâmica. Com 200 mil homens, a Guarda Revolucionária tem um pendor ideológico e o seu principal objetivo é defender o regime de ameaças tanto externas como internas. A IRGC está dividida em vários ramos, com tarefas específicas, como os serviços secretos ou a força aeroespacial. Entre estas várias divisões destaca-se, contudo, a Força Quds, o grupo responsável pelo apoio, promoção e coordenação do chamado “Eixo da Resistência”, ou seja, os grupos regionais alinhados com o Irão, “os amigos” que o antigo comandante Mohsen Rezaei mencionou.

No entanto, existem duas questões sobre o poder da Guarda Revolucionária. Por um lado, a maior parte dos seus líderes de topo foram mortos nos ataques israelitas da última semana. Os lugares foram rapidamente ocupados, mas isso não apaga o facto de este ter sido um duro golpe na cúpula militar do regime. Por outro lado, o Eixo da Resistência — que apesar do apoio iraniano, é formado por grupos autónomos — não mostrou, até agora, qualquer interesse em envolver-se diretamente no conflito, exceção feita aos Houthis do Iémen. Os dois grupos que se têm envolvido diretamente com as forças israelitas — Hezbollah, no Líbano, e Hamas, em Gaza — estão ambos demasiado fragilizados da ofensiva israelita e sem liderança militar para isso.

Passando das tropas para os equipamentos militares iranianos, a AP define-os como “uma miscelânea“. Por um lado, muitas das capacidades da Marinha e da Força Aérea são herdadas do Império do Xá. Isto inclui equipamentos entregues quer pelos Estados Unidos, quer pela União Soviética que são, neste momento, bastante antiquados. Por outro lado, muitas das capacidades de defesa aérea foram adquiridas junto da Rússia, nos últimos anos, e servem para equipar a Força Aérea de Defesa, sublinha o ISW. Nenhuma destas capacidades, ainda que existentes, seria particularmente útil para travar a presente guerra com Israel.

A ameaça do comandante Mohsen Rezaei ao “petróleo e ao estreio de Ormuz” poderia ser concretizada pela Marinha da Guarda Revolucionária, através da disrupção do fluxo comercial e da exploração de recursos tanto no estreito como no Golfo Pérsico. Mas esta poderá ser uma ameaça vazia. Como nota a BBC, essa vertente de ação implicaria um alastrar do conflito à região, o que não é “sábio”. Não só pela escalada que esse ataque representaria em si mesmo, mas porque isso se iria repercutir na já fragilizada economia iraniana. O grande trunfo do regime iraniano para a guerra com Israel é outro.

Mísseis balísticos. Quantidade, modernização e apoio internacional

“O programa de mísseis balísticos do Irão tem o maior inventário da região e Teerão está a enfatizar a melhoria da precisão, letalidade e fiabilidade dos seus mísseis.” Esta é uma das conclusões do relatório anual de avaliação de ameaças, elaborado pelo direção dos Serviços Secretos nacionais dos Estados Unidos em 2024 — ao todo as autoridades norte-americanos estimam que o Irão tenha 3 mil destes mísseis.

O Irão investiu nos seu programa de mísseis balísticos, um legado de ter sido vítimas desta armas na guerra com o Iraque e algo que vê como uma dissuasão fiável contra Israel.
Think tank Crisis Group

O arsenal iraniano tem vindo a crescer nos últimos anos, crescimento que Teerão justifica com uma necessidade defensiva, de proteção contra Israel. “O Irão investiu nos seu programa de mísseis balísticos, um legado de ter sido vítimas desta armas na guerra com o Iraque e algo que vê como uma dissuasão fiável contra Israel”, escrevia o think tank Crisis Group, já em 2018.

Desde aí, a aposta não abrandou. Em 2023, o Irão desenvolveu o seu primeiro míssil balístico hipersónico — o Fattah —, relatou a agência noticiosa estatal IRNA, citada pela Sky News. Um míssil balístico é um tipo de munição que é projetado para fora da atmosfera por um lançador e quanto atinge o pico da sua trajetória se dirige para a Terra. Um míssil hipersónico é uma evolução desta munição, que se pode deslocar muito mais rápido, por vezes até cinco vezes mais rápido que a velocidade do som. Além disso, alguns mísseis balísticos estão equipados com planadores, que permitem mais velocidade e manobrabilidade em direção ao alvo, explica o editor de Defesa da Al Jazeera, Alex Gatopoulos. Lançados a partir do Irão, estes mísseis conseguem atingir Israel em cerca de dez minutos.

O Projeto de Defesa de Mísseis do think tank Center for Strategic and International Studies, citado pela AP, relata que muitos dos mísseis desenvolvidos ao abrigo deste programa nos últimos anos são muito semelhantes aos desenhos de mísseis norte-coreanos e russos.

Os mísseis Fattah foram utilizados pela primeira vez em outubro do ano passado, no ataque contra Israel, revelou a agência noticiosa Mehr. A dimensão deste ataque surpreendeu os analistas ouvidos à data pelo Washington Post, que não acreditavam que o Irão tivesse lançadores suficientes para uma vaga de várias centenas de mísseis. “Esta é uma melhoria significativa para os iranianos”, declarou Jeremy Binnie, analista do Médio Oriente numa empresa de serviços de informação, ao jornal norte-americano.

No entanto, desde outubro, o fator surpresa dissipou-se. “Continua a haver sempre uma hipótese de surpresa. Mas basicamente, acho que já nos mostraram o melhor que têm”, argumentou John Krzyzaniak, um investigador dos programas militares do Irão na organização Wisconsin Project on Nuclear Arms Control. Mais: a forças israelitas dizem ter destruído um terço dos lançadores terra-terra do arsenal iraniano nos seus ataques, o que prejudica a capacidade de ataque do Irão.

epa11616807 Trucks carry Iranian long-range missiles Fatah during the annual military parade marking the Iraqi invasion in 1980, which led to an eight-year-long war (1980-1988); in Tehran, Iran, 21 September 2024. According to IRNA newes agency, Iranian president Masoud Pezeshkian said 'our defense system power is on that level that no enemy even dares to think to attack against Iran, and we will continue to develop our defense system in any aspects.'  EPA/ABEDIN TAHERKENAREH

▲ Mísseis Fatah exibidos durante uma parada militar

ABEDIN TAHERKENAREH/EPA

Mesmo assim, os mísseis balísticos continuam a ser o ponto forte das forças iranianas, pela quantidade e precisão, que os distingue dos modelos mais antigos de mísseis balísticos. Além disso a sua eficácia é ainda maior por ser combinada com outras armas e munições. Apesar de ser o seu foco, a indústria militar iraniana não se esgota na produção de mísseis modernos. O arsenal inclui ainda mísseis de curto e médio alcance, mísseis cruzeiro, artilharia, mísseis anti-navios e mísseis para lançamento de satélites. Aos mísseis, soma-se a produção em massa de drones. O mais conhecido destes equipamentos são os drones Shahed, que Teerão tem enviado para a Rússia, para utilização na guerra na Ucrânia.

A soma de todas estes equipamentos permite entender como é que o Irão conseguiu ultrapassar o moderno e complexo sistema de defesa aérea israelita.

“Cúpula de Ferro”, “Flecha” e “Funda de David”. Como funciona o sistema que protege Israel de ataques aéreos

Como conseguiram contornar as defesas israelitas?

“Cúpula de Ferro“, “Funda de David” e “Flecha“. Cada um destes conceitos é o nome de um nível do sistema de defesa aérea de Israel. O mais conhecido é o primeiro, utilizado de forma quase diária para intercetar ataques com rockets do Hezbollah e do Hamas. Trata-se de um sistema de defesa para mísseis de curto alcance.

Seguindo esta lógica, é fácil compreender o objetivo dos dois níveis seguintes: a “Funda de David” interceta mísseis de médio alcance, enquanto a “Flecha” trabalha com ameaças de longo alcance. Tendo em conta os mil quilómetros de distância que separam Israel e Irão, este é o sistema que é ativado de cada vez que o Irão ataca territórios israelitas. Na verdade, os sistemas trabalham de forma semelhante, com um radar que identifica ameaças e um intercetor que dispara mísseis com o objetivo de destruir os mísseis inimigos. Mesmo em casos de interceções com uma taxa de sucesso de 100%, o sistema faz soar sirenes, tendo em conta as explosões causadas pela interceção e os detritos que resultam dessa explosão.

As principais diferenças estão no custo da utilização dos sistemas: enquanto um intercetor da “Cúpula de Ferro” custa cerca de 80 mil dólares, um intercetor da “Flecha” chega aos 3 milhões de dólares, relata o Washington Post. Por questões de segurança, Israel não revela o seu arsenal de defesa, mas segundo o oficial norte-americano avançou ao Wall Street Journal, este poderá estar a esgotar-se. Para colmatar esta deficiência, os Estados Unidos deslocaram mais capacidades de defesa para região, de forma a ajudar na interceção dos ataques iranianos.

Ainda assim, o Irão foi capaz de contornar as defesas israelitas e atingir alguns dos seus alvos. Ainda que não haja uma explicação oficial para este sucesso, a Al Jazeera sugere três estratégias iranianas que podem ajudar a explicar.

epa12182449 The Iron Dome, the Israeli air defense system, intercepts missiles fired from Iran, over Tel Aviv, Israel, 17 June 2025. Israel and Iran have been exchanging fire since Israel attacked Iran on 13 June 2025 as part of operation 'Rising Lion'.  EPA/ABIR SULTAN

▲ As defesas israelitas em ação para intercetar ataques iranianos

ABIR SULTAN/EPA

A primeira é através da sobrecarga dos sistemas de defesa. Hipoteticamente, se Israel tiver 200 intercetores e o Irão lançar 250 mísseis, os sistemas israelitas não terão forma de se defender de uma dezena de mísseis. Claro que não é possível fazer este cálculo de forma exata, mas a dimensão das primeiras vagas iranianas pode explicar o sucesso das mesmas. “Não se pode atingir mais mísseis se houver um número limite de intercetores”, resume Marina Miron, investigadora na King’s College em Londres.

A segunda explicação é a utilização de mísseis hipersónicos. Para além de serem muito mais rápidos e poderem escapar aos intercetores, os mísseis equipados com planadores conseguem contornar as defesas. Na prática, um intercetor funciona prevendo a trajetória do míssil e um míssil hipersónico faz um percurso até ao seu alvo com ziguezagues e guinadas súbitas — se o percurso não é linear, os intercetores não funcionam. Assim se percebe que os mísseis hipersónicos sejam o equipamentos mais útil do arsenal iraniano.

Por último, os mísseis cruzeiro, ainda que muito mais lentos, também podem ter este comportamento imprevisível. O facto de não serem tão rápidos faz com que sejam menos úteis que os hipersónicos, mas, quando combinados com a sobrecarga, também têm a sua utilidade.

Porém, a questão que se coloca ao sucesso de ambas as estratégias é a mesma: têm capacidades para manter esta guerra de atrito? Afshon Ostovar, professor de segurança nacional na Escola Naval na Califórnia acredita que o Irão “não pode ganhar esta luta com mísseis balísticos contra Israel”, pois enquanto Teerão lança dezenas de mísseis para atingir um alvo, Telavive pode entregar a sua defesa aos seus aliados norte-americanos e focar-se na ofensiva — onde a taxa de sucesso é mais elevada que a do Irão. “[Israel] pode disparar 10 armas e atingir o Irão mais eficazmente”, argumentou ao Washington Post.

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