Pode ver como foi o debate ao minuto no nosso artigo em direto sobre as Presidenciais 2026
A discussão aqueceu quando se falou de Saúde. E ficou ainda mais quentinha quando o tema foi imigração. Foram esses os dois momentos em que o tom de voz de António José Seguro se aproximou do de André Ventura neste único debate da segunda volta das eleições Presidenciais. Chegaram a ficar a falar a dois, sem intervenção de qualquer moderador, com o candidato apoiado pelo PS quase a entrevistar o homem que é também líder do Chega, numa troca de acusações mútua, mais moderada de um dos lados, sempre mais agressiva do outro, mas sem a gritaria que já se ouviu.
No essencial, António José Seguro conseguiu manter um registo baixo e calmo, evitando comprometer-se e afastando grandes polémicas nos temas mais difíceis, ao mesmo tempo que capitalizava notícias que lhe são favoráveis. Falou de uma segunda volta em que estará em causa “escolher ou eliminar”, mostrou orgulho em ter “apoios de todos os quadrantes, mesmo fora dos partidos”, e garantiu que será o “Presidente da união”. Já André Ventura esteve sempre em modo ataque, ou tentativa de, alguns decibéis acima do adversário, começando logo por uma sequência de soundbites: “As pessoas não vão votar Seguro, vão votar contra mim”; “Será uma luta de elites contra o povo”; “Seguro está capturado pelo sistema”. Depois, apontou o dedo a dois apoiantes do socialista. Sobre Cavaco Silva, afirmou: “Falou dele como alguém medroso e inseguro. Podia ser Seguro ou outro qualquer”. E lançou a provocação sobre Paulo Portas: “O que pensaria o antigo Paulo Portas do novo Paulo Portas?”.
Seguro ainda respondeu, invocando os “um milhão e 700 mil votos dos portugueses”, garantiu que não faria “discriminação” nem olharia a “ideologias”, sublinhou que não era “capturável” e insistiu que seria “Presidente de todos os portugueses”. Chegou mesmo a defender Cavaco Silva: “Toda a gente tem direito a mudar de opinião.” Depois partiu para outras questões. Justificou porque não tinha aceite mais debates e viu Ventura ser novamente crítico, falou do seu perfil presidencial, e ouviu novamente a expressão de “Melhoral” do adversário, que o colou mesmo a Vara e Sócrates.
O candidato apoiado pelo Chega insistiu nas “generalidades” de Seguro, acusando-o de não apresentar propostas concretas para a Saúde, Justiça ou pensões, e de não esclarecer se quer ou não rever a Constituição. Lançou ainda alertas como: “Se é para agradar a todos, votem em António José Seguro”; ou “querem uma espécie de rainha de Inglaterra”.
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E o tom de ambos manteve-se quando se falou de leis laborais, poderes presidenciais, de corrupção e enriquecimento ilícito e até de nomeação do PGR. Depois veio a palavra do costume, “bandalheira”, quando o candidato apoiado pelo Chega quis colar ao PS que apoia Seguro o estado a que a saúde chegou. Seguro respondeu acusando-o de estar a fazer “umas primárias à direita”, de praticar “a política do empadão, em que começa numa coisa e depois fala de tudo”, e ainda rematando com uma frase final: “O Ventura é pago para falar, eu sou pago para trabalhar.” Antes de encerrar, ainda o associou a Trump, já na reta final do debate sobre a situação política internacional.
Um painel de avaliadores do Observador deu notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos e avaliou em texto o próprio debate (como tinha feito nos 28 frente a frente televisivos, no debate a oito nas rádios e no a onze na RTP).
António José Seguro, 15,25-André Ventura, 11
Luís Rosa — Foi um debate entre um candidato que vai ser eleito Presidente da República. E outro candidato que está noutra corrida: quer ser o líder da direita e ambiciona ser primeiro-ministro. É tudo tão claro para os eleitores que nem vale a pena escrever os nomes.
O debate mostrou um António José Seguro bem preparado, tranquilo, assertivo e muito confiante — tão confiante que arriscou várias vezes uma tática ousada num debate em direto: interpelou diretamente Ventura, fazendo-lhe perguntas para o apanhar em falso (ou em contradição). Foi bem sucedido. Já André Ventura pareceu cansado, muito menos truculento e que só aos 45 minutos de debate fez barulho como é habitual, marcando alguns pontos na parte final do debate. Seja como for, Seguro ganhou por goleada.
Ao contrário do debate da primeira volta, em que Ventura foi eficaz em muitos ataques a Seguro, neste debate aconteceu precisamente o contrário. Seguro respondeu muito bem a praticamente todos os ataques de Ventura, contra-atacou com sucesso e marcou o debate em diversos momentos. Exemplos? Na Saúde, o ex-líder revelou um conhecimento profundo sobre o funcionamento do sistema e apresentou soluções para problemas concretos que qualquer cidadão percebe — o exemplo dos milhares de doentes que têm alta clínica mas que ainda estão hospitalizadas por não terem uma família, uma casa ou até um lar foi muito impactante.
André Ventura tentou colar o ex-líder do PS à governação de Sócrates e de Costa mas nem foi preciso Seguro recordar que sempre esteve longe de Sócrates e de Costa. Bastou-lhe dizer várias vezes duas ideias simples: “estive 11 anos fora da vida política a trabalhar na minha vida privada” e a “minha candidatura é de todos os portugueses (…) incluindo dos seus eleitores”, referindo-se ao Chega. Aliás, a confiança de Seguro é tal que tentou várias vezes apelar diretamente ao eleitorado do Chega para ganhar votos.
Seguro igualmente eficaz na forma como roubou a bandeira tradicional da luta contra a corrupção de André Ventura. Não só recordou as propostas que apresentou como deputado do PS a favor do enriquecimento injustificado (que foi então chumbado), como lembrou o voto isolado contra a lei que permitiu mais dinheiro vivo nas campanhas eleitorais e rematou com chave de ouro: poderia ter recebido cerca de 300 mil euros de subvenções vitalícias mas recusou e foi à sua vida ganhar dinheiro no setor privado. Um discurso que seduz um eleitorado de centro-direita. Ventura ouviu calmamente e nem os ataques a Armando Vara fizeram mossa em Seguro. Pior: o grau de impreparação (e desmotivação) de Ventura revelou-se em todo o seu esplendor neste tema porque nem sequer recordou a Seguro que o enriquecimento injustificado que ele propôs já existe na lei (por proposta da Associação Sindical de Juízes) e que o PCP (que recomenda o voto em Seguro) foi um dos partidos que beneficiou com a lei que permite dinheiro vivo nos partidos por causa da Festa do Avante.
Seguro também desarmou bem Ventura noutra bandeira estrutural do Chega: a imigração. É verdade que Ventura marcou um ponto para o seu eleitorado quando atacou a “regularização extraordinária” admitida por Seguro, mas, em termos estruturais, o ex-líder do PS explicou bem por que razão o país precisa de imigrantes: temos 1,5 milhões de trabalhadores de origem estrangeira e pleno emprego, o que demonstra que os imigrantes são necessários por razões económicas. Logo, não bastaria pagar melhor aos que cá estão, como argumenta Ventura na sua “política de empadão”.
É verdade que Seguro foi muito redondo na questão internacional. E que Ventura marcou alguns pontos na parte final — em que parecia mais espevitado — quando recordou no seu estilo habitual que “Seguro não tem responsabilidade sobre nada! Parece que aterrou agora aqui!”. O problema é que pareceu mais um grito de frustração face ao debate eficaz de Seguro do que um verdadeiro ataque político.
Na prática, os eleitores ficaram a perceber ao vivo e a cores por que razão Seguro tem uma média de 70% de indicação de voto nas sondagens e André Ventura ainda não chegou ao seu principal objetivo: ter mais de 1,9 milhões de votos (o valor atingido pela AD liderada por Luís Montenegro) e auto-proclamar-se líder da direita. Seguro sintetizou muito bem a situação política de Ventura quando disse que é um líder partidário que “está a fazer umas primárias à direita em concorrência com o primeiro-ministro [Luís Montenegro]. O senhor está na eleição errada. Esta é uma eleição presidencial.” E Seguro é o candidato que já ganhou. O que pode não impedir que Ventura também cante vitória na noite das eleições, mesmo clamorosamente derrotado.
Pedro Jorge Castro — Já ganharam os dois, cada um na sua corrida. Seguro não se limitou a sobreviver ao último duelo. Apesar de estar há 11 anos fora da política, mostrou que a política não saiu dele e conseguiu três feitos importantes: não se descontrolou à frente de Ventura; amestrou o adversário para o pôr a responder a perguntas de sim e não na parte do enriquecimento ilícito; e ainda mostrou aqui e ali um certo porte presidencial — a tentar manter elevação, a impor respeitinho, a evitar peixeiradas e a deixar claro que os dois vão ter de se relacionar institucionalmente depois destas eleições.
Ventura mostrou que não dá para Presidente (nem quer), mas reforçou-se como líder da oposição e vai conseguir desvirginar politicamente mais uns quantos portugueses que votarão pela primeira vez em si, na esperança de que repitam nas próximas legislativas e nas que se seguirem, até ser eventualmente o líder do partido mais votado.
O líder do Chega começou ao ataque, com as críticas antigas de Cavaco e Soares ao ex-líder do PS, mas Seguro arrumou-as com grande subtileza, valorizando o direito de Cavaco Silva a mudar de opinião, e também com frieza, sublinhando o “embaraço” de Ventura por ter apelado ao voto da direita e vê-la a declarar apoio ao socialista. No resto, Ventura inovou pouco: não foi muito além de criticar o facto de Seguro não ter planos nem soluções e só dizer generalidades.
Seguro aproveitou o debate para adiantar as primeiras tarefas do mandato, ao convocar em direto para março o primeiro conselho de Estado sobre Defesa e Segurança, e a prometer marcação cerrada à sucessora ou sucessor da ministra da Saúde no seu primeiro ano em Belém. O líder da oposição terá emocionado a claque, converteu mais alguns indecisos, mas precisaria sempre de algo mais dramático para conseguir reduzir a sua taxa de rejeição e ameaçar a previsível vitória do adversário.
Miguel Santos Carrapatoso — Quem esperava berraria, enganou-se redondamente. Debate elevado, muito durinho mas civilizado, com bons momentos e argumentos de parte a parte. André Ventura arrancou muito bem, confrontado António José Seguro com tudo aquilo que Aníbal Cavaco Silva e Mário Soares disseram (de mal) sobre o socialista. Seguro foi depois equilibrando o duelo e teve o mérito de nunca escorregar nas armadilhas do líder do Chega.
Até porque, e essa foi mesmo a grande dificuldade de André Ventura neste debate, por muitas voltas que se dê, e por muito que o líder do Chega tenha tentado, é de facto muito difícil colar António José Seguro a José Sócrates e a António Costa, os belzebus da direita e, em particular, dos eleitores do Chega. É verdade que partilharam o mesmo balneário, é verdade que equiparam com as mesmas cores e é verdade que percorreram os mesmos corredores. Mas, para todos os efeitos, Seguro não pertenceu aos governos do primeiro e foi rival do segundo. No limite, embora a história seja bem mais complexa do que isso, a perceção que existe é de que Seguro foi vítima política de ambos.
Existe, por isso, um cordão sanitário, competentemente traçado por Seguro, que é muito difícil de romper. E isso tende a esvaziar grande parte da narrativa de Ventura sobre o PS e sobre o ‘socialismo’. Ninguém com menos de 30 ou 40 anos se lembra do cadastro político de Seguro. O socialista, ele próprio, só faz questão de recordar as coisas boas que fez no passado — um passado suficientemente longínquo para que torne mais difícil um contraditório imediato. E isso é e tem sido um desafio enorme para Ventura nesta campanha.
Aliás, ironia do destino, António José Seguro conseguiu usar a cartada (demagógica) do sistema contra o líder do Chega, ao lembrar que está há 11 anos a trabalhar para pagar as contas e que André Ventura está há seis anos a receber como deputado para se sustentar. Poucos figuras na política estarão em condições de dizer tal coisa ao líder do Chega e sair a rir.
Nota final para dois erros de palmatória que ambos cometeram: ouvir Ventura defender que a melhor forma de garantir a independência do Procurador-Geral da República é entregar a nomeação do mesmo à corporação do Ministério Público é de bradar aos céus; ver António José Seguro mostrar compreensão por aquilo que está a ser feito em Espanha em matéria de regulação de imigração é de fazer arrepiar os eleitores de direita que estarão dipostos a votar nele.
Nesse aspeto, de facto, André Ventura foi muito mais competente do que António José Seguro a defender as suas ideias — e isso pode fazer a diferença junto daqueles que, sendo eleitores da AD e da IL, podem ainda estar indecisos ou dispostos a mudar de sentido de voto. Nestas coisas, já se sabe: nem sempre é como começa, é como acaba. E Ventura pode ter somado pontos importantes na reta final.
Rui Pedro Antunes — António José Seguro tinha uma missão neste debate: não cometer erros de monta. E conseguiu fazê-lo. Já André Ventura tinha a missão impossível de tentar virar o jogo e ser criativo na forma como o fazia. Não conseguiu. Seguro foi eficaz, desde logo, ao impor a ideia de que ele era, dos dois, o que tinha melhor perfil para Presidente da República. Não perdeu a oportunidade de chamar “senhor deputado” ou lembrar que Ventura era “líder partidário”, não se importando de normalizar o papel do Chega no espectro partidário. “Conto consigo”; “Respeito democraticamente o seu partido”, chegou a dizer.
O ex-líder do PS também deixou o presidente do Chega sem chão quando registou o “embaraço” que era a direita preferi-lo a ele, o alegado socialista, como Presidente. André Ventura só conseguiu dizer que a motivação do voto em Seguro era “cancelarem-no a ele”, numa tese que é curta porque, na primeira volta (que não promovia voto por rejeição), o socialista ficou claramente à frente.
Seguro foi ainda eficaz a bloquear os ataques de Ventura. Sobre as subvenções vitalícias, teve o seu momento Ramalho Eanes, quando lembrou que abdicou dessa subvenção e que podia ter ganho, imagine-se, 300 mil euros. E até usou dos truques de Ventura, numa linguagem mais populista, com frases como: “Enquanto tiver mãozinhas para trabalhar”; “Fui investir no meu pequeno concelho”; “Fui dar aulas”.
O ataque sobre Sócrates também foi facilmente anulado, uma vez que Seguro era o maior anti-Sócrates quando todos o adoravam. Essa não cola. “É do ridículo”, como registou seguro.
André Ventura só foi eficaz a provar que é mais proativo e enérgico que o adversário, o que podia ser uma mais-valia em tempos que se antecipam complicados e exigem firmeza no contexto internacional. Mas Seguro está longe de ser apático como, por exemplo, foi Joe Biden no debate que afastou o ex-Presidente dos EUA da corrida em 2024. Não tem garra, mas mostrou uma serenidade contida, a tal estabilidade e frieza que os eleitores podem preferir em caso de uma invasão dos Açores ou de guerra nuclear.
Ventura também mostrou que não leva a sério esta eleição quando insistiu em falar na tese neonazi da grande substituição (a que eufemisticamente chamou de “substituição populacional”). Teve, porém, uma pequena vitória: o provável futuro Presidente da República considera-o como um importante líder partidário. Até porque podem vir um dia a ter de reunir às quintas-feiras. E essa pode vir a transformar-se na grande vitória: a eleição presidencial para Ventura é um meio, não é um fim. Porque o fim que continua a desejar é São Bento.
Este foi a última vez que se cruzaram. E até no tema da fuga aos debates, Seguro foi eficaz: ajudou a tornar o debate tão aborrecido, que é possível que muitos tenham chegado ao fim a desejar que não haja outro.