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Borja Cid, bisneto do fundador da Casa Cid, escreve (ou escrevia) sempre, à mão, o menu do dia

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Borja Cid, bisneto do fundador da Casa Cid, escreve (ou escrevia) sempre, à mão, o menu do dia

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O adeus à Casa Cid: 107 anos de histórias, personagens e torresmos /premium

É uma das mais castiças e tradicionais tascas lisboetas e está na mesma família de galegos há mais de um século. O Observador passou uma manhã com os protagonistas da história que acaba este sábado.

“Bom dia Borja! Queres um cafézinho?”
“Bom dia! Pode ser, sim. Muito obrigado!”

Já passam uns minutos das nove da manhã quando uma senhora muito despachada, com uns sacos na mão, entra pela porta da Casa Cid, centenária tasca lisboeta que fecha portas ao público este sábado, 22 de fevereiro. O Observador já estava com este Borja Cid, bisneto do fundador da casa, pelo menos há uma hora e pouco. Tinha acabado de regressar do Mercado da Ribeira, onde o acompanhou enquanto fazia as compras do dia.

“Estás a ver? Isto já não há em quase lado nenhum…”, atirou o espanhol de Madrid mas de raízes galegas. Alguma confusão: a senhora que tinha passado não era uma funcionária da casa que tinha acabado de pegar ao serviço e oferecido um café ao patrão? “Esta senhora é quem nos fornece os ovos, chega aqui, tira café para todos… É daquelas coisas que já não há”, esclarece. De facto, proximidade deste género, especialmente em grandes cidades, é coisa rara de ver.

No total, a Casa Cid soma 107 anos de funcionamento. Mais de um século de refeições que este fim de semana terminam de vez (será mesmo? já lá chegaremos) — o prédio foi vendido a um fundo de investimento que lhe deu ordem de despejo e nem programas camarários como o “Lojas Com História” conseguiram evitar esse desfecho. “Eu digo sempre: um fundo de investimento não tem coração, só quer ver o balanço do dinheiro e isso é normal. Não questiono isso. Agora, a Câmara? Eles não têm nada a dizer?”, questiona Borja enquanto vai limpando um monte de chocos frescos. Lisboa está a mudar, Portugal está a mudar, não há como negar (ou travar) isso. A injeção de “energia” trazida pelo turismo melhorou imensa coisa mas os danos colaterais, infelizmente, têm sido os sítios como esta Casa Cid, mais um nome para juntar à já extensa lista de casas históricas que foram ficando pelo caminho do “progresso”.

“As pessoas não percebem que mais que a decoração e o balcão antigo, há todo um património imaterial. As pessoas, a dinâmica dos sítios…”, ressalva. A “senhora que fornece os ovos” vai deixar de se poder servir de um café, oferecer outros ao pessoal da casa e “roubar” um torresmo pelo meio. Isso não significa, porém, que a história deste sítio que já alimentou tantos políticos, músicos, artistas, turistas e cidadãos de todo o tipo. As linhas que se seguem servem para garantir isso mesmo: mostrar a vida que existe no dia-a-dia desta Casa Cid e da longa história familiar que a fez aquilo que é hoje.

Borja Cid é o bisneto do galego que fundou a Casa Cid, é ele que gere o espaço desde 2017

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O galego “mais das letras” que viu uma oportunidade

“Oh Umbelina, o que é que está bom hoje?”, atira Borja, 38 anos, no seu sotaque claramente castelhano. Minutos antes tinha acabado de receber o Observador à porta da Casa Cid, espaço que sempre esteve na sua família e que assumiu em 2017. Lisboa ainda tirava as remelas dos olhos e este homem de cabelo e barba muito escura já andava para a frente e para trás, de avental vestido, a alternar trabalho com café e cigarros de enrolar. Umbelina é a peixeira com quem trabalha há muito tempo, é de lá que vem o peixe que serve, tanto a corvina e o carapau, como as sardas e a pescada, alguns dos bestsellers.

“Vamos decidindo os pratos do dia consoante aquilo que há. Na dúvida vou ao mercado e pergunto pelo aquilo que está melhor”, explica. Já com uns carapaus encomendados — “Olha, não ia levar peixe mas está ali bonito, o carapau…” — vai circulando pelo Mercado da Ribeira a passo acelerado. Não é possível falar da Casa Cid sem falar deste que em tempos foi o principal mercado abastecedor de Lisboa, que o diga Maria Benilde, peixeira que passou 52 dos seus 80 anos no sítio que Borja ia palmilhando e que, claro, sempre conheceu a Casa Cid. “Isto mudou muito, filho. Muito mesmo!”, desabafa. O nosso cicerone é da mesma opinião.

O dia começa sempre da mesma forma, com uma visita ao Mercado da Ribeira para se fazer as compras do dia

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Antigamente era outra coisa… Agora é tudo mais industrial, basta olhares as caixas [da fruta e legumes]… Antigamente vinham cá os produtores, diretamente, agora se olhares vês que o tomate vem da Holanda, a laranja da Espanha… Não tem nada a ver”, atira. Sem perder um minuto a mais do que é suposto despacha as compras num instante, compra quase tudo no mesmo sítio, trata os donos e funcionários por tu e todos eles acabam por lhe ir levar as compras ao restaurante — as iscas, as febras, o bacalhau, os torresmos, as batatas… Com as gaivotas como barulho de fundo conta: “Lembro-me de quando isto ainda era tudo casas como a nossa, sítios pequenos que iam diretamente ao fornecedor.” Falemos de outros tempos, então.

“Este senhor, o meu bisavô, chegou a Lisboa em 1885, mais coisa menos coisa. Veio da Galiza para trabalhar num escritório por aqui algures. Depois foi para Angola e Moçambique, onde ficou bastantes anos.” Na parede do restaurante está um apanhado de fotografias antigas que pintam o retrato de outros tempos. Borja conta isto enquanto aponta para a imagem de um senhor de bigode, Manuel Cid Nunez. “Isto antigamente era uma carvoaria, também de uns galegos, e ele comprou-a. O Mercado abriu algures em 1890 ou algo assim. Houve um incêndio muito grande e foi durante a reconstrução que abriu aqui a casa. Isto estava tudo a crescer muito, o mercado da Praça da Figueira já tinha fechado e por isso este ganhou mais importância e afluência. Ele viu nisso uma oportunidade.” E viu muito bem.

"Ele foi criado na Galiza mas assentou aqui em definitivo em 38. Tinha 13 anos e ficou a controlar o restaurante"
Borja Cid sobre o seu bisavô, fundador da Casa Cid, Manuel Cid Nunez

Sem nunca ter trabalhado em qualquer coisa minimamente ligada à hotelaria ou restauração — “Ele era mais de letras e escritórios”, explica Borja –, Manuel Cid fez um investimento, em todo o sentido da palavra. Não estava lá todos os dias mas sim um encarregado “também galego, de Ourense”. Em vez de assumir a liderança da casa que passou a levar o seu nome preferiu regressar à Galiza para casar. Foi lá que nasceram quatro dos seus cinco filhos, o quinto, Eduardo, nasceu em Lisboa.

“Ele foi criado na Galiza mas assentou aqui em definitivo em 38. Tinha 13 anos e ficou a controlar o restaurante”, explica Borja. O adolescente mudou-se com o irmão, António, por causa da Guerra Civil Espanhola — “havia muita fome” –, que estoirou em 36, e rapidamente passaram a gerir o espaço. Foi viver para a casa que a família já tinha (Eduardo nasceu lá, curiosamente, assim como a sua filha, a mãe de Borja, mais tarde) e que hoje é o lar de Vítor da Costa, cozinheiro da Casa Cid que aqui passou 30 dos seus 52 anos.

A conversa ia fluindo, apesar de haver sempre uma sensação de “pressa”. Ocasionalmente, também, surgiam algumas interrupções. O cozinheiro Vítor, por exemplo, quis mostrar os torresmos que faz todos os dias de manhã, “a primeira coisa a ser tratada” para garantir o padrão de qualidade deste ex libris da casa: “É aquele torresmo das tripas, demora quase duas horas a ferver, ferver… Até largar a gordura toda. As pessoas depois dizem ‘Ah isto faz mal por causa da gordura’. Nada disso, ela saiu toda. Temos um casal que vem cá quase todos os dias e pede sempre a mesma coisa: quatro pires de torresmos, dois ovos cozidos e seis ou sete imperiais. Eles devem ter uns 50 ou 60 anos [risos].” As encomendas feitas no mercado também vão chegado, sempre trazidas por um conhecido ou amigo que acaba sempre por trocar uns dedos de conversa ou petiscar qualquer coisa. “Metade dos torresmos vão sendo roubados pelo pessoal da praça”, diz Borja na brincadeira. Aí está, o tal património imaterial. Sigamos, então.

O homem de bigode, à direita, é o bisavô de Borja, Manuel. O rapaz na esquerda, com a mão em cima da mesa, é o seu avô Eduardo

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Grande parte da hotelaria em Portugal foi sendo feita por galegos, até o primeiro sindicato de hotelaria foi feito por galegos. Este senhor [aponta para uma foto], o Abelardo, estava responsável pelo armazém de vinhos. O tio António, o irmão do meu avô, também estava mais por lá mas acabou por ir viver para os EUA”, continua o cozinheiro madrileno. A Casa Cid é um sítio de aspeto patusco. À porta fica logo a estação das bifanas, do outro lado de um balcão em inox que percorre todo o lado esquerdo do restaurante. À direita, as várias mesas e cadeiras. A cozinha fica ao fundo, mais encostada ao lado esquerdo da casa, e só se percebe que ela existe porque há um rasgão que serve de passagem para os pratos cheios que saem e os vazios que entram. A decoração segue todos os cánones da típica tasca portuguesa: logótipos de  marcas de cerveja, toalhas de papel, muito inox e azulejo, garrafas de vinho e outras bebidas a compor as prateleiras e algum bric-à-brac aleatório como o relógio de corda que lá mora desde os primeiros dias do restaurante, o corno onde Borja escreveu “não é meu” à mão e alguns potes decorativos quase mais velhos que as pessoas que aqui trabalham (ao todo são sete, já agora. Entre turno da manhã e da noite). Nem sempre, porém, era isto que encontrava dentro destas quatro paredes.

“O meu avô teve aqui umas máquinas de flippers e de música. Lembro-me perfeitamente das últimas grandes obras. O balcão era no lado oposto, todo em fórmica… Horrível. Foi numas grandes obras, em 87, que se mudou isso, puseram aqueles painéis de azulejo, mudaram também a cozinha… Lembro-me de chegar aqui e ficar maluco com as coisas todas brilhantes, uma luz branca horrível…”, conta Borja. “Mas ali o senhor Alberto é que se deve lembrar bem disso, não é senhor Alberto?” Um homem muito alto, de cabelo e bigode branco, tinha acabado de entrar. Adão Alberto Santos chegara e assentiu que sim com a cabeça à afirmação de Borja. Tem 64 anos, trabalha na Casa Cid há 46 e é o sócio de Borja (começou por ser do seu avô).

"Quando vim para cá ainda vinham ai vender tipos em carroças. Só vendiam tomates quando era na altura deles. Os fornecedores de laranjas vinham do Algarve de propósito!"
Alberto Santos

21 horas de trabalho? Para o “senhor Alberto” isso não é nada

Alberto é tão ou mais irrequieto que Borja. Mal chegou começou logo a preparar as mesas, a limpar os talheres, a abrir o toldo e um outro sem fim de tarefas. “Quando vim para cá ainda vinham aí tipos vender em carroças. Só vendiam tomates quando era na altura deles. Os fornecedores de laranjas vinham do Algarve de propósito!”, começa logo por dizer. Também dono de um característico sotaque — beirão, neste caso –, Alberto Começou a trabalhar na Casa Cid em janeiro de 1974, quase quatro meses antes da Revolução dos Cravos. “Oh, no 25 de abril não aconteceu por aqui nada de especial. Apareceu aí alguém a dizer que estava a haver um golpe de estado e nós fechámos a porta e fomos para casa do cozinheiro. Éramos quatro rapazes e vivíamos todos no mesmo sítio, ficámos lá a jogar às cartas e só saímos no dia a seguir”, recorda.

Com uma aparente indiferença que quase parece só servir para disfarçar o saudosismo diz que antes de cá chegar só trabalhou em dois sítios, “uma casa na Avenida 24 de Julho, a Central da Rocha” e outro estabelecimento no Intendente que era de um senhor da sua terra, São Pedro do Sul. “Trabalhei sempre nas mesas mas agora estou mais ao balcão. Nessa altura [em 74] éramos quatro rapazes, o cozinheiro e o avô desse senhor [aponta para Borja]. O avô dele era uma pessoa que percebia muito disto, que sabia o que queria e o que fazia. Se nos esquecêssemos de pôr alguma coisa na conta ele notava sempre”, conta.  Ainda se lembra de uma vez em que se esqueceu de incluir dois pêssegos — “parece que estou agora a vê-los, bonitos, bonitos!” — e Eduardo topou logo. “Nós naquele tempo fazíamos as contas todas de cabeça e arredondávamos muito. Havia alturas complicadas, especialmente à noite, em que havia zaragata, muito movimento, pessoal a sair sem pagar…”

Alberto Santos (que está a abrir um toldo) é um dos sócios da casa; Vítor da Costa (com os polvos) é o cozinheiro há 30 anos

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Nesse “seu” tempo uma posta de bacalhau com grão custava 35 escudos, dose inteira. Uma dose de dobrada? 30 escudos, 25 se fosse meia dose — “nunca era bem metade, era sempre um bocadinho mais”. Nunca havia um momento morto e prova disso era os 30 litros de café de saco que vendiam todos os dias, as 700 carcaças que voavam à velocidade do vento, cada uma custando quatro tostões. “Da primeira vez que fizemos dez contos [50 euros] só num sábado ficámos todos contentes!”, recorda. Alberto, como todas as pessoas com quem o Observador falou nessa manhã/tarde, não se cansa de repetir que a vida naquele canto de Lisboa mudou muito. “Veja lá: antigamente havia aqui 39 talhos… Hoje sobram três!”, desabafa.

Longe vão os tempos em que podia “entrar numa sexta às quatro da manhã” sair “à uma de sábado e às quatro e meia” já lá estar outra vez. Não era incomum trabalhar  21 horas seguidas, realidade que muitas vezes era impossível de evitar, já que a casa funcionava quase sem parar. Nem mesmo quando teve de fazer a tropa deixou de ajudar em tudo o que podia — “Andava na tropa mas ia trabalhar às quatro da manhã, saia às nove e ficava até às onze e meia lá [no quartel. Vinha ajudar nos almoços, e depois às duas e meia voltava para lá. Às cinco e tal, quando fechávamos, vinha para os jantares. Tudo isto e nunca precisei de relógio para me despertar e só me atrasei uma vez, dez minutos.”

Alberto e Eduardo geriram a casa em conjunto pelo menos ate 2005, ano em que morreu o avô de Borja, filho de Manuel, o fundador da Casa Cid. Daí até 2017 (ano em que o descendente da família Cid se mudou para Lisboa) foi ele que tratou de tudo e, talvez por isso, também se tornou numa imagem de marca do restaurante, enquanto o senhor de bigode que estava sempre ou nas bifanas (é ele que faz o molho mas não revela muito sobre a sua composição, só que tem um bocadinho de sal, alhos, louro, colorau e banha) ou a servir cafés e bebidas. Diz que continua sem lhe fazer confusão ficar muitas horas de pé, que aguenta sem problema estar “das sete às sete”. Quando questionado sobre o que fará depois de 22 de fevereiro responde de forma simples: “Não me apetece fazer muito mas também, para ficar na cama a dormir e a pensar que já tenho 64 anos e que daqui a pouco vou para o cangalheiro… Preciso de um entretém. Eu na terra tenho com que me entreter, mas saí de lá com 15 anos, agora é que ia para lá armado em parvo? Nã… Antes prefiro ficar cá a passear de autocarro, os passes até são baratos, agora!”

"Chegava aqui às sete, ainda meio a dormir, e isto já era um mundo! Muito barulho... O meu avô estava sempre ali, nas bifanas, ou no canto, a contar dinheiro."
Borja Cid

Da química ao cheiro a “Ribeira”

Enquanto Alberto falava, Borja continuava na sua fona. Tirou do forno uma tarte de limão de aspeto incrível que tinha começado a fazer antes do Observador ter chegado. “Ainda me falta o bolo de bolacha”, remata enquanto começa a descascar batatas. “Olha que já trabalhei em muitas cozinhas e já comi em alguns dos melhores restaurantes do mundo mas não há batatas cozidas como as nossas. São deliciosas! Descasco-as todos os dias… Podíamos comprar já sem pele, eles vendem ali no mercado, mas não era a mesma coisa”, atira. Mas quem é, afinal, este misterioso espanhol que aterrou do nada num dos últimos bastiões da comida tradicional portuguesa em Lisboa?

“O avô Eduardo foi levando a casa para a frente. Só teve um filho, que morreu com 3 anos, mas depois teve duas filhas. Nessa altura, ter mulheres neste ambiente era mal visto e ele sempre disse que queria que elas estudassem, fossem para a universidade. A minha mãe e a minha tia, aos 18 anos, foram para a universidade em Santiago de Compostela, e quem ficou cá com ele foi o senhor Alberto. Lembro-me de o ver sempre aqui. “, conta. Foi depois da abertura do Time Out Market que a mudança nesta zona se assentou ainda mais e, conta Borja de batata e descascador na mão, foi então também que se deu a sua mudança para Portugal. “A minha mãe e a minha tia pediram-me para vir para cá atualizar um pouco as coisas. Começaram a aparecer mais turistas, eu falo quatro línguas… Isto foi em 2017.”

O regresso foi muito curioso. Apesar de ter nascido e vivido em Madrid, Borja costumava sempre vir passar férias com a família a Lisboa, no verão. “Vínhamos visitar o avô? Por acaso era mais para ir à praia…”, diz a sorrir. Algumas vezes trabalhava para ajudar no restaurante, mas este destino era sempre para ele poiso balnear. “Era a mulher do senhor Alberto que nos levava à praia, por acaso. Vínhamos aqui tomar o pequeno almoço e daqui é que seguíamos para a praia. Tomávamos nós o pequeno almoço e já havia que estivesse a comer mão de vaca e coisas assim. A malta que descarregava coisas no mercado estava de pé logo às quatro da manhã, pelas sete já estavam cheios de fome”, recorda. “Chegava aqui às sete, ainda meio a dormir, e isto já era um mundo! Muito barulho… O meu avô estava sempre ali, nas bifanas, ou no canto, a contar dinheiro.”

Borja Cid é cozinheiro há 13 anos e trabalhou com grandes chefs espanhóis como Eneko Atxa e Paco Roncero

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O avô de Borja contava-lhe que muitas vezes, a fila de carros de produtores chegava até Santos e que os saloios é que vinham ao mercado deixar a mercadoria. “Depois de descarregarem, sei lá, uma tonelada de batatas, precisavam de uma mão de vaca, de uma dobrada…”, afirma, entre risos. Este era o grande motor do sucesso da Casa Cid, a quantidade de pessoas que pelo mercado tinham de passar diariamente e as exigências físicas do trabalho que faziam. Isso até justifica o facto de terem trabalhado durante tanto tempo quase sem fechar, estando abertos até altas horas da manhã. O mercado perdeu vida, os agricultores passaram a vender ao MARL em vez de diretamente às pessoas, os clientes foram desaparecendo e toda a dinâmica desta parte da cidade foi-se dissipando. “Fui criado com o bacalhau da aqui da Ribeira que era enviado para minha casa, em Madrid. Quando vínhamos cá, regressávamos com o carro cheinho de coisas!” diz Borja. São estas memórias que, admite o próprio, lançaram o caminho que acabou por seguir.

“Ui… A vida dá muitas voltas”, atira o espanhol quando questionado sobre a sua carreira. “Eu primeiro estudei química e só depois fui para a escola de cozinha, em parte por causa deste sítio e das memórias que tinha dele, sem dúvida. Sempre gostei muito da restauração e ela sempre foi uma realidade muito próxima”, conta. Primeiro trabalhou em Madrid: no luxuoso hotel Villa Magna, no restaurante que o famosíssimo e estralado chef Eneko Atxa lá teve; e no gastrobar Estado Puro, de outro cozinheiro espanhol cheio de reconhecimento Michelin, Paco Roncero. Depois disso? Lançou-se para um hotel nas Filipina e por lá esteve até regressar a Lisboa.

“Quando regressei mudei muita coisa mas acho que consegui manter o espírito. O cheiro da casa, por exemplo, é exatamente igual ao que era quando era miúdo. Não consigo descrever… É o cheiro a ‘Ribeira’. Já a praça cheira muito melhor agora! Antigamente era um nojo! [risos]”, afirma. Há quem o acuse de ter aumentado os preço, mas isso, segundo ele, tem uma explicação: “Os meus preços, para uma tasca, são caros. A refeição completa, dependendo do prato do dia, pode ficar à volta dos 14 euros. Mas também, para uma casa vender meias doses a cinco euros ou refeições completas a oito euros e isso ser sustentável não pode estar a pagar Segurança Social, IVA… As pessoas pagam um pouco mais porque os produtos que usamos são mesmo bons e fazemos tudo direitinho.”

A Casa Cid fecha portas em definitivo a 22 de fevereiro de 2020

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

O fim… E o recomeço?

“O último dia de atividade vai ser 22 de fevereiro, no sábado. Vamos fazer um convívio com o pessoal da praça, família, amigos, clientes… Depois disso começámos a arrumar tudo para que dia um de março seja só entregar a chave”, conta Borja. Nesse dia um de março a Casa Cid faz 108 anos. O herdeiro do seu fundador pediu aos novos donos do prédio, seus senhorios, para o deixarem estender o prazo da saída até essa data, o fim de um ciclo de negociações e advogados que terá começado, segundo Borja, “algures entre 2013 e 2014 “.

“O prédio foi de uma velhota durante muitos anos, depois passou para a Caixa Geral e então daí passou para as mãos deste fundo de investimento, o Sete Colinas”, começa por explicar. Borja conta que em 2015 a renda foi aumentada para o “dobro ou triplo”, apesar de ainda ser aceitável. “O que aconteceu é que aceitámos uma nova renda e, ao fazê-lo, na letra pequenita dizia que o contrato transitava para um novo, este já segundo a chamada Lei Cristas.” Ora a lei a que Borja se refere ficou para sempre associada à sua grande impulsionadora, Assunção Cristas, que em 2012, no tempo da troika, lançou esta medida para evitar que no mesmo prédio houvesse pessoas a pagar 40€ de renda e outras 400€. A partir daí passou a ser mais fácil aumentar o preço dos contratos antigos e, qualquer contrato de arrendamento que não estipulasse o tempo de duração do mesmo seria válido apenas por dois anos. Mais tarde tudo isto foi alterado outra vez, mas nessa altura já não havia nada a fazer.

"Acho que nós somos um bom exemplo da especulação porque foram deixando o prédio degradar-se para depois poderem comprar barato. Deixar morrer as Baixas e os centros das cidades para poder comprar a metade do preço"

“Foi asneira da nossa parte… Em 2017, eu já estava cá quando eles vieram chegaram com a ordem de despejo. Foi aí que nós, através de uma advogada, começamos a lidar com as ‘Lojas com História’ e tentámos alternativas para evitar esse desfecho”, explica. Borja conta ainda que certo dia “chegaram duas senhoras” e “numa manhã, deram uma olhada, tiraram umas fotos e não voltaram mais.” Mais tarde, chegou uma carta pelo correio “que dizia que a casa tinha ficado descaracterizada e por isso não podia entrar para o programa. Pedimos uma reavaliação, apelámos que mais do que a decoração do espaço tínhamos todo um património imaterial, mas não. Ficámos a meio ponto ou a um ponto de conseguir a avaliação favorável.”

A situação foi ficando cada vez mais impossível de resolver até que chegou uma altura em que os tribunais se viram envolvidos. Em pouco tempo, a advogada que escolheram para representar os interesses da Casa Cid aconselhou-o a não resistir mais: “Ela disse que a decisão era sempre nossa mas aconselhou-nos a aceitar, para que ainda conseguíssemos ganhar algum dinheiro, no meio de tudo.” Borja disse que teve de pensar nas pessoas que trabalhavam com eles — “nós tínhamos de pagar aos empregados, o Vítor [cozinheiro] está cá há 30 anos…  Acabámos por chegar a acordo…”

Até há pouco tempo, num dia movimentado, a Casa Cid servia quase cem refeições

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Este fundo Sete Colinas, que é gerido pela Silvip – Sociedade Gestora De Fundos De Investimento Imobiliário, S.A. e também está associado ao polémico projeto da fábrica da Portugália na Avenida Almirante Reis, confirmou em agosto de 2019 ao jornal Público que existia um “processo judicial” em que “a arrendatária Cid & Gonzalez, Lda.” pedia “uma indemnização pelo fim do contrato” e que o senhorio solicitava “a entrega do espaço ocupado pelo restaurante uma vez que o prazo do contrato de arrendamento em causa” tinha terminado “a 31 de Maio de 2019, sem que a sociedade arrendatária o tivesse restituído voluntariamente”. Ou seja, o senhorio recusou renovar o contrato. Confirmaram também a existência de um projeto para transformar o prédio onde mora a Casa Cid num hotel, estando “pendente um processo de licenciamento nos serviços municipais”. O Observador procurou esclarecimentos junto da Silvip mas não conseguiu obter resposta a tempo da publicação deste artigo.

“Acho que nós somos um bom exemplo da especulação porque foram deixando o prédio degradar-se para depois poderem comprar barato. Deixar morrer as Baixas e os centros das cidades para poder comprar a metade do preço”, afirma. Contudo, o futuro  é terreno da esperança e Borja já está de olho nele.

“A minha ideia é que se abrir noutro lugar, vou recriar quase tudo. Os painéis de azulejos, os balcões, as prateleiras… A ideia seria aproveitar toda a bagagem da casa, a experiência, e fazer algo baseado no mesmo mas valorizando os produtos, a tradição e as receitas”, afirma. O tempo tinha passado rápido, provou-se chanfana às nove da manhã (era o prato do dia) e claro, torresmos também. Por volta ds 12h30 o sol já brilhava, as mesas estavam todas postas e os primeiros clientes iam aparecendo.

A Dona Irene é do talho que vende os torresmos à Casa Cid. É uma das várias personagens que vão deixar de poder surripiar um torresmo ainda quente

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Por volta das 11h, como Borja tinha avisado, o marido da peixeira já tinha vindo “tomar tacinha”. A mulher, que muitas vezes também o segue e pica uns caracóis ou uns torresmos não o acompanhou desta vez. O senhor António, que veio de Monção com 13 anos e fez na Casa Cid a sua primeira refeição em Lisboa, também não apareceu — é um dos clientes mais antigos, visita-os quase diariamente “há 40 ou 50 anos”. Plácido, antigo cortador no mercado, esteve igualmente ausente mas só costuma aparecer mais tarde. A dona Irene, do talho que fornece os torresmos, lá surge, muito sorridente. Todas estas e muitas outras pessoas compõem o tal “património imaterial” que Borja diz não ter sido valorizado. Os poucos resistentes de uma Lisboa que já não existe, aquelas pessoas que ficam com uma cópia da nossa casa para o caso de acontecer qualquer coisa na nossa ausência — sim, a Casa Cid tem uma pessoa assim, um vizinho do prédio do lado, um dos seus últimos moradores — ainda fazem a diferença numa terra com cada vez mais hambúrgueres, abacates e negócios genéricos. Que haja sempre um pires de torresmos e um “copito” para que não nos esqueçamos de onde viemos. “É uma pena porque tínhamos aqui um cantinho porreiro”, conclui Borja.

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