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O dia em que Trump desistiu da "derrota total" do Irão

Depois de várias ameaças, Trump aceitou cessar-fogo de duas semanas e negoceia agora plano apresentado por Teerão. Pressionado pela China, Irão aceita abrir temporariamente o Estreito de Ormuz.

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O dia começou com ameaças do “fim da civilização” persa e acabou com a notícia de um cessar-fogo de duas semanas, condicionado pela abertura do Estreito de Ormuz. O Presidente norte-americano alterou o discurso e não avançou com o ataque devastador contra as infraestruturas elétricas no Irão prometido para esta terça-feira à noite. Donald Trump voltou atrás e admitiu até aceitar o acordo de dez pontos iraniano, que será uma “base que pode ser viável” para o fim total das hostilidades.

Nos bastidores, o Paquistão desempenhou um papel fundamental em aproximar as duas partes nas últimas horas, juntamente com o Egipto, a Turquia e até a China. A quatro horas do fim do prazo dado pelo líder norte-americano, o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, pediu “encarecidamente ao Presidente Trump” que estendesse “o prazo por duas semanas”. Terá sido o ponto de partida para que Teerão e Washington chegassem a acordo para um cessar-fogo temporário, após ameaças e avisos de parte a parte que se prolongaram na última semana.

Donald Trump parece ter cedido em vários pontos e terá deixado de parte a exigência de uma “derrota total” do regime iraniano, que incluía o desmantelamento das instalações nucleares e a entrega de todo o urânio enriquecido. O Presidente norte-americano concordou em “suspender os bombardeamentos e ataques ao Irão por um período de duas semanas”, alegadamente apenas em troca da reabertura do Estreito de Ormuz. “Este será um cessar-fogo bilateral”, lembrou o líder norte-americano, que garantiu que os norte-americanos cumpriram e superaram “todos os objetivos militares” no Irão.

Num conflito que se estava a prolongar e que estava a desagradar a muitos norte-americanos, incluindo republicanos, o Presidente dos Estados Unidos tentou vender a ideia de que o “problema de longo prazo” no Médio Oriente “está perto da resolução”, acrescentando as típicas hipérboles em redor dos sucessos militares norte-americanos. Não é claro quais serão as condições que Washington vai impor a Teerão na que será a primeira ronda de negociações (ainda não confirmada oficialmente pela Casa Branca) que deverá começar esta sexta-feira em Islamabade, a capital paquistanesa.

Por sua vez, o regime iraniano declarou vitória e celebrou o que vê como um êxito militar. “O inimigo, na sua guerra injusta, ilegal e criminosa contra a nação iraniana, sofreu uma derrota inegável, histórica e esmagadora”, declarou o Conselho Nacional Supremo de Segurança. Mesmo que a dimensão da vitória não seja assim tão avassaladora, Teerão tentou vender a ideia de que vai numa posição reforçada para a mesa das negociações. Tanto assim é que a base que será trabalhada consistirá no acordo de dez pontos que foi elaborado pelo Irão e que deixa o país numa situação vantajosa.

Trump encontra rampa para acabar com guerra impopular dentro de fronteiras

O Presidente norte-americano avançou com a ofensiva contra o Irão a 28 de fevereiro, ao lado de Israel, num clima de confiança, embalado pelo êxito que obtivera na Venezuela com a captura de Nicolás Maduro. Esperava uma vitória relativamente rápida e, na melhor das hipóteses, conseguiria liquidar o regime iraniano. No entanto, o Irão teve a capacidade de resistir, atacando os países do Golfo aliados dos Estados Unidos e condicionando o Estreito de Ormuz, por onde passam milhões de barris de petróleo por ano.

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▲ Trump a assistir aos primeiros ataques iranianos

White House via Getty Images

Ao longo das últimas semanas, Donald Trump foi sempre apresentando várias vitórias em várias aparições públicas — por exemplo, insistiu que a Marinha e Força Aérea do Irão tinham sido praticamente dizimadas. Ainda assim, o regime iraniano continuava quer a atacar os países do Golfo, quer a colocar minas no Estreito de Ormuz. O Presidente norte-americano também foi baixando as exigências apresentadas inicialmente, assinalando que já tinha havido mudança de regime com a morte de Ali Khamenei e de vários altos quadros do regime.

O chefe de Estado dava sinais de querer terminar o conflito nos últimos dias e reiterou que os objetivos militares estavam praticamente alcançados. Apesar do apoio inicial da base eleitoral, somavam-se os críticos entre os republicanos desagradados com a duração do conflito, que Donald Trump estimou que duraria entre quatro a seis semanas. Em ano de eleições intercalares em que o Partido Republicano quer manter o domínio no Congresso, a guerra no Irão aumentou o custo de vida (em particular dos combustíveis) — o que desagradou a muitos norte-americanos.

A decisão desta terça-feira — a apenas uma hora e meia de terminar o prazo que tinha dado para o Irão abrir o Estreito de Ormuz — insere-se numa conjuntura interna cada vez mais agreste e desfavorável para a Casa Branca. Grande parte dos norte-americanos nunca apoiaram o conflito, segundo mostram as sondagens publicadas na imprensa norte-americana. Muitos temiam um aumento ainda mais considerável do custo de vida.

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▲ Protestos contra a guerra em Washignton DC

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O pedido do primeiro-ministro paquistanês, com quem Donald Trump mantém boas relações, terá sido a forma que o Presidente norte-americano arranjou de voltar atrás com a ameaça de destruição de infraestruturas civis iranianas. O Irão avisou que retaliaria de forma recíproca (atacando infraestruturas energéticas e petrolíferas nos países do Golfo), o que poderia causar um conflito de grandes proporções no Médio Oriente e repercussões em todo o mundo, especialmente na subida do preço do petróleo.

Donald Trump já vinha preparando terreno para o momento em que largava a posição mais dura — que foi abandonada depois da promessa de reabertura do Estreito de Ormuz, que o Paquistão descreveu como um “gesto de boa vontade” do Irão. O Presidente norte-americano adiantou que Washington recebeu “uma proposta de dez pontos do Irão”: “Acredito que será uma base com que podemos trabalhar e negociar”. “Quase todos os pontos de contenda foram acordados entre os Estados Unidos e o Irão, mas o período de duas semanas vai permitir que o acordo seja finalizado e consumado.”

Os Estados Unidos parecem ter cedido nas propostas iranianas do fim do enriquecimento de urânio e até do abandono total das instalações nucleares — nada indicia o contrário até ao momento. No entanto, só com as negociações em Islamabade é que serão tiradas todas as dúvidas sobre estes detalhes do acordo de paz final. O vice-presidente norte-americano, JD Vance, deverá integrar a delegação norte-americana.

"Quase todos os pontos de contenda foram concordados entre os Estados Unidos e o Irão, mas o período de duas semanas vai permitir que o acordo seja finalizado e consumado."
Donald Trump, Presidente dos Estados Unidos da América

Ao que tudo indica, segundo adiantou a CNN Internacional, Israel terá concordado com este cessar-fogo temporário, se bem que persistam algumas preocupações no país. Ao contrário dos Estados Unidos, o Estado judaico sempre manteve uma retórica muito dura contra o Irão, que tem sido o seu maior rival geopolítico nas últimas décadas. É bastante provável que o Governo israelita, nos bastidores, faça algumas exigências — e não deverá permitir que o regime iraniano saia mais forte desta guerra.

Além do Irão, Israel tem uma ofensiva em curso no sul do Líbano, com o objetivo de diminuir a ameaça que a milícia xiita pró-Irão Hezbollah representa para os israelitas. Sobre este ponto, o primeiro-ministro paquistanês anunciou que Estados Unidos e Irão “concordaram num cessar-fogo imediato em todo o lado, incluindo no Líbano“. Shehbaz Sharif também se deveria estar a referir aos Houthis do Iémen, que entraram no conflito nos últimos dias.

[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódio, aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]

Para Israel, esta guerra poderia representar o fim do Eixo da Resistência iraniano perto das suas fronteiras, que tem atormentado a segurança interna israelita há décadas. Mas se o Hezbollah mantiver alguma força após o cessar-fogo, Telavive poderá perder a médio prazo a concretização deste objetivo estratégico. Em qualquer caso, o Governo israelita deverá acompanhar a posição de Donald Trump e não deverá entrar em rota de colisão com o seu maior aliado.

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▲ Donald Trump e Benjamin Netanyahu terão concordado com cessar-fogo

POOL/AFP via Getty Images

[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódio, aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]

Irão obtém vitória e vê regime a sobreviver

Como é típico do regime iraniano, o Irão manteve sempre uma postura dura e inflexível nos últimos dias, assim como uma retórica inflamada, mesmo com os riscos que poderia correr se os ataques norte-americanos de larga escala se confirmassem. Diplomaticamente e nos canais não-oficiais, a situação era diferente. Teerão mostrava alguma vontade de suspender as hostilidades: viu mesmo com “bons olhos” o cessar-fogo temporário.

A China — aliada do Irão — terá tido um papel fundamental em convencer a Guarda Revolucionária a aceitar este cessar-fogo temporário de duas semanas. Segundo adiantou o New York Times, que ouviu três fontes iranianas, Pequim terá persuadido Teerão a “demonstrar flexibilidade”, tal como fez o executivo paquistanês. O regime chinês terá interesse em normalizar a situação no Médio Oriente e garantir a estabilidade no sistema financeiro internacional.

Como tal, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, anunciou no X que o Irão concordou com o cessar-fogo e que o Irão iria “suspender a sua operação defensiva”. O chefe da diplomacia salientou que, “durante um período de duas semanas, será possível ter passagem segura pelo Estreito de Ormuz”, mas fez uma exigência — os navios só podem transitar se existir “coordenação com as Forças Armadas do Irão”.

A Guarda Revolucionária adotou um tom bastante confiante quando o cessar-fogo foi anunciado: “O Irão alcançou uma grande vitória e obrigou a criminosa América a aceitar o seu plano de 10 pontos”. “Anunciamos agora à grande nação iraniana que praticamente todos os objetivos da guerra foram alcançados e que os vossos valentes filhos arrastaram o inimigo a uma impotência histórica e a uma derrota duradoura.”

Este cessar-fogo foi apresentado pelo Irão como um sucesso retumbante. A realidade não é assim tão linear. O regime iraniano enfrenta vários desafios com o fim da guerra. À cabeça, não é bem claro quem comanda o país. O novo Líder Supremo, Mojtaba Khamenei, está em paradeiro desconhecido. O Irão pode também sair militarmente mais fraco desta guerra e o Eixo da Resistência parece estar mais débil, principalmente o Hezbollah no Líbano.

A grande vitória iraniana desta terça-feira foi o facto de Donald Trump ter reconhecido que o acordo de dez pontos iraniano é a base para chegar à conclusão das hostilidades. Segundo o documento, o Irão passa a controlar o Estreito de Ormuz e ficaria com tarifas resultantes da passagem de navios pelo canal marítimo, assim como Omã. Ao mesmo tempo, os norte-americanos levantariam todas as sanções e garantiriam que o Irão não seria mais atacado — algo que seria estendido ao Eixo da Resistência.

Os 10 pontos do plano iraniano

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  1. Garantia de que o Irão não voltará a ser atacado
  2. Fim permanente da guerra e não apenas um cessar‑fogo
  3. Fim dos ataques israelitas no Líbano
  4. Levantamento de todas as sanções dos EUA contra o Irão
  5. Fim de todos os combates na região contra os aliados do Irão
  6. O Irão reabriria o estreito de Ormuz
  7. O Irão imporia uma taxa de 2 milhões de dólares por navio que transite o estreito de Ormuz
  8.  O Irão dividiria essas receitas com o Omã
  9.  O Irão estabeleceria regras para a passagem segura pelo estreito de Ormuz
  10. O Irão utilizaria as receitas de Ormuz para a reconstrução, em vez de indemnizações financeiras

O Presidente norte-americano apresentou este documento apenas como uma base de trabalho. Caso os Estados Unidos aceitassem na íntegra todas as condições iranianas, seria uma vitória em toda a linha para Teerão. Porém, como Donald Trump já reconheceu, haverá pontos que os dois países terão de discutir com mais pormenor nas eventuais negociações em Islamabade.

Na mesa das negociações, o líder norte-americano deverá extrair concessões do regime iraniano. Contudo, o Conselho Nacional Supremo de Segurança exigiu esta terça-feira que todos os pontos do acordo sejam aceites para pôr fim ao conflito. “O Irão só aceitará a cessação das hostilidades com a concordância dos princípios definidos pelo Irão no plano de 10 pontos”, enfatizou o regime iraniano, lembrando: “A guerra ainda não terminou”.

Nos circuitos diplomáticos privados, é possível que o Irão já tenha concordado em fazer algumas concessões em alguns pontos, a não ser que os Estados Unidos tenham mesmo cedido totalmente ao regime iraniano — uma opção que parece improvável. Para consumo interno, ainda assim, Teerão assegurou que a sua versão vingou, ainda que isso possa não corresponder à realidade.

"O Irão alcançou uma grande vitória e obrigou a criminosa América a aceitar o seu plano de 10 pontos."
Guarda Revolucionária Iraniana

Nos próximos tempos, o Irão e os Estados Unidos vão tentar vender a imagem de que ganharam este conflito. Os norte-americanos deverão insistir na ideia que dizimaram militarmente a Guarda Revolucionária, enquanto os iranianos vão transmitir a mensagem de que vergaram e obrigaram a maior potência global a ceder. Entre estas duas posturas maximalistas, os dois vão tentar chegar a um acordo que agrade às duas partes, provavelmente com bluff, intimidações e ameaças à mistura.

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