Num debate à esquerda, o único desta quarta-feira, relegado para o final da tarde, na SIC Notícias, Paulo Raimundo e Rui Tavares começaram pela Defesa e foi dos temas em que mais divergiram. O porta voz do Livre insinuou o fim da aliança atlântica, porque segundo ele já ninguém acredita na NATO com Trump, e a criação de uma comunidade europeia de Defesa, enquanto o secretário geral do PCP voltou a defender que a “Europa não precisa de se armar até aos dentes”. Tavares insistiu, em tom pessoal e quase paternalista, que não é possível ser “negacionista” das várias crises de segurança que se vivem na Europa e a lembrar Raimundo que Putin não é de confiança, obrigando o secretário geral comunista a ter de esclarecer que estão ambos contra o regime do presidente russo.

Os dois falaram ainda da União Europeia — e aqui o representante da CDU não defendeu para já a saída de Portugal, mas uma maior participação portuguesa, perante o conhecido europeísmo do Livre —, de impostos (como a proposta da herança Social de Rui Tavares) e de habitação. E o debate acabou com o tema do voto útil.

Tal como no ano passado, o Observador está a dar notas num “Vencedor é” — à semelhança do programa e podcast da Rádio Observador — dos debates, em que avalia quem ganhou. Assim, ao longo destes dias, um painel de avaliadores do Observador dará notas de 1 a 20 a cada um dos candidatos por cada um dos frente a frente. E explicará porquê. A média vai surgindo a cada dia, no gráfico inicial.

[Já saiu o quarto episódio de  “O Misterioso Engenheiro Jardim”, o novo PodcastPlus do Observador que conta a história de Jorge Jardim, o empresário que, na verdade, era um agente secreto que liderou missões perigosas em todo o mundo, tentou criar um país e deu início a um clã de mulheres aventureiras. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no YoutubeMusic. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]

Amanhã voltam os debates duplos. O primeiro será entre Pedro Nuno Santos (PS) e Rui Rocha (IL), às 21h00, na RTP e o segundo entre Mariana Mortágua (Bloco) e Inês Sousa Real (PAN), às 22h00), na CNN. Pode ver o calendário completo dos debates aqui. Os debates têm 30 minutos, com o tempo cronometrado para cada um, mais cinco minutos de tolerância. Cada candidato fará nove debates, sete frente a frente e dois debates a oito, um nas tv’s e outro nas rádios.

Paulo Raimundo (CDU)-Rui Tavares (Livre)

Alexandra Machado — Dois partidos de esquerda, uma visão diferente de integração europeia e um ataque cerrado de Rui Tavares a Putin a olhar para o seu interlocutor. “Só faltou irmos lá nós dois”, atirou Tavares, com Paulo Raimundo a acusar o tom. É o calcanhar de Aquiles do PCP e Raimundo não o consegue tratar. “Não percebo a veemência em relação ao Putin. Estamos perfeitamente de acordo. É um regime que combatemos na essência”. É uma divergência entre ambos, a da defesa e a integração na Europa. Rui Tavares é um europeísta. Paulo Raimundo não, reforçando a tónica da soberania de Portugal em relação à NATO e UE. Mas recusa um ato extemporâneo em relação à eventual saída da UE – o que não deixa de ser uma novidade. Em relação à NATO, foi a fragilidade de Rui Tavares no debate com André Ventura. Esta quarta-feira não foi apanhado de surpresa, e já traçou que no futuro a escolha será pela comunidade europeia da defesa, substituindo-se à NATO. E Paulo Raimundo não conseguiu explicar porque quer mais material e mais gente nas forças armadas em Portugal… Estas são as discordâncias. De resto, só faltou estarem de mãos dadas. Fiscalidade, apoios sociais, habitação, um debate quase de sentido único. A diferença? Rui Tavares responde: mais inovação do Livre nas medidas (não conseguiu ainda explicar totalmente a herança social, que peca por ser de longo prazo). Eu acrescento – pelo menos no nome das medidas e na sua apresentação.

Ana Sanlez — Um debate cordial entre dois “camaradas” que podem discordar aqui e ali mas, no essencial, estão de acordo em quase tudo, pelo menos nos princípios e valores. Arrancar o debate com o tema da defesa deixou Paulo Raimundo mais exposto, tendo em conta a fragilidade dos seus argumentos, e lembrar o papão da troika para rebaixar a União Europeia se calhar já não funciona, sobretudo se a CDU quer, como deveria querer, apelar a um eleitorado mais jovem que teima em fugir-lhe. Rui Tavares acabou por ser mais eficaz nesta amena cavaqueira de final de tarde porque, tal como em eleições anteriores, agarra em duas ou três medidas bandeira e explora-as de forma a que o eleitor, ao fim de algumas semanas, saiba exatamente que temas são associáveis ao Livre. A herança social de cinco mil euros é um desses temas (apesar de Rui Tavares ainda não ter explicado muito bem quem é que poderia ter acesso a ela). É uma proposta mais fácil de “colar” (como colou com o PS, que lhe baixou o valor) do que a ideia de Raimundo de pôr os lucros da banca a financiar a construção de habitação. No fim, dificilmente um ou outro terão conquistado votos novos com este debate.

Miguel Santos Carrapatoso — Há três coisas certas na vida: a morte, os impostos e o PCP sugerir que bastaria acabar com a NATO, libertar o país do espartilho da União Europeia e tratar Vladimir Putin com empatia para garantir a paz no mundo e a prosperidade para os povos. O debate entre Paulo Raimundo e Rui Tavares começou precisamente por aí e foi ver o líder comunista a dizer as coisas do costume — a determinada altura, chegou a sugerir que todos deviam fazer contactos para travar a escalada da guerra, incluindo ele próprio e Rui Tavares. Era este o nível de argumentário do líder comunista. Perante isto, o porta-voz do Livre passeava alegremente, apontado as falácias evidentes de Raimundo. Acontece que, quando o debate passou a ser sobre temas que dizem muito mais aos eleitores portugueses — a distribuição de riqueza, a carestia de vida, o acesso à habitação —, a correlação de forças inverteu-se. Se Rui Tavares falava dos “jovens da conservatória de Braga” cheios de sonhos e desse unicórnio chamado “herança social”, medida que continua sem conseguir explicar concretamente apesar de ter mais de um ano, Raimundo apontava aos jovens que levam para casa 774 de salário líquido; se Tavares falava da necessidade de acrescentar “dois D’s” aos “três D’s” da revolução, Raimundo falava do preço da bilha de gás. Se Tavares falava das casas em Lisboa que passaram de 500 mil para 2 milhões de euros, Raimundo servia mais uma dose de realidade. A determinada altura, vindo a despropósito e em algum desespero, Tavares lembrou a todos que o Livre está mais disponível para fazer acordos com o PS do que o PCP. Percebe-se porquê: ser o voto de quem não quer ou tem vergonha de votar no PS parece ser a grande (a única?) força de Tavares. Raimundo teve dois momentos particularmente bem conseguidos, quando disse: 1) “Herança Social? Parece-me uma medida interessante. Mas precisamos resolver os problemas de agora; e 2) “Ou tomamos medidas de coragem, ou andamos aqui a enrolar-nos uns aos outros”. Tavares derrotou os delírios geopolíticos do PCP. Raimundo evidenciou o realismo mágico em que vive o Livre. Nenhum deles foi brilhante. Mas era o comunista quem precisava de fidelizar eleitores e fazer uma prova de vida.

Rui Pedro Antunes — Os dois vizinhos pareciam estar na porta do prédio a mandar sugestões para o ar sobre o país. E, como tantas conversas junto às caixas de correio, esta não foi particularmente interessante. Ainda assim, Rui Tavares é aquele vizinho que fica a olhar pela janela à espera que o outro tire o carro para ficar com o lugar de estacionamento mais próximo de casa. Tem a manha e isso dá-lhe vantagem. Rui Tavares é uma espécie de lobo em pele de cordeiro. Na verdade, ele também quer o fim da NATO, como Raimundo, mas consegue fugir a dizê-lo as palavras todas (“Quem é que ainda acredita na NATO?”, foi o máximo que foi). Depois, como quem manda uma indireta sobre o condomínio, não deixou de atirar o passado contra o líder do PCP, ao levar Putin para cima da mesa. E de forma irónica-mordaz ainda atirou perante o naif Raimundo: “Se calhar faltou irmos lá os dois ao Kremlin”. Raimundo não conseguiu firmar nenhuma diferença para Rui Tavares que não fosse dizer que o cheque de 5 mil euros que quer dar aos bebés daqui a 18 anos não resolve os problemas do momento. Rui Tavares deu-se ao luxo de dizer que aprovava 96% das medidas do PCP, como se os partidos fossem quase iguais, mas apresentando o Livre como uma versão moderna e moderada. Daí que tenha firmado a diferença para os comunistas na Europa e também na formação de um futuro acordo parlamentar de esquerda. Como quem diz aos saudosistas da geringonça: querem a esquerda de volta, isso é com o Livre e não com os marxistas-leninistas. Voltando às metáforas, Paulo Raimundo é também o vizinho simpático que carrega a bilha pelas escadas, a dele e de outros se for preciso, mas no fim do dia as pessoas acabam por preferir Rui Tavares porque é ele que promete arranjar o elevador. Raimundo está melhor que em 2024, mas esgota-se em observações banais que ficam a anos-luz da graça popular de Jerónimo ou da pacatez informada de João Oliveira. Já Rui Tavares poderá ter conquistado votos entre quem estivesse indeciso entre PCP e Livre. No fim do dia, mesmo no mais desinteressante dos prédios, seria ele o eleito para gerir o condomínio.

Recorde aqui as notas dos debates:

Luís Montenegro-Paulo Raimundo e André Ventura-Inês Sousa Real

Pedro Nuno Santos-Mariana Mortágua e André Ventura-Rui Tavares