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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Os vencedores, os vencidos e o agitador de um longo dia parlamentar

Montenegro tentou controlar narrativa com anúncios, Seguro teve razões para sorrir e Rui Rocha impôs-se. Neves sofreu e Carneiro foi atropelado pelas circunstâncias. Ventura foi protagonista

Os vencedores

Luís Montenegro

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

Venceu a batalha. Resta saber se vai vencer a guerra. De manhã, Luís Montenegro conseguiu que Luís Neves tivesse uma prestação que, pelo menos, não piorasse a situação já muito delicada em que se encontra. À tarde, conseguiu que todos os partidos à exceção do Chega votassem contra a moção de censura. Pelo meio, sacou um bónus para os pensionistas e mais uma descida do IRS da cartola. Espera agora que estas duas medidas permitam recentrar o foco político-mediático e reverter a queda pronunciada nas sondagens. Veremos se chega para conter a contestação — é que as sondagens não matam, mas moem. E veremos o que reservam as investigações em curso, se e como avança a comissão parlamentar de inquérito e o que dirá (finalmente) António José Seguro. Os problemas de Montenegro não acabaram hoje. Mas sempre deu para vir à tona.

António José Seguro

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O Presidente da República apresentou como a sua principal bandeira, desde a primeira hora, a estabilidade. António José Seguro tem igualmente insistido num “chão comum” para pactos de regime que ajudem a economia a crescer e o País a ter melhores serviços. Uma moção de censura com o ambiente político crispado vai contra o ambiente político que o chefe de Estado deseja. Ainda assim, o chumbo da moção de censura permite a continuidade da legislatura – que o Presidente quer que chegue ao fim. Apesar da abstenção do PS, toda a narrativa de José Luís Carneiro foi no sentido de viabilizar também o Orçamento do Estado para 2027. Enquanto esta estabilidade durar, o Governo vai ganhando tempo. E o Presidente poupando em chatices.

Joaquim Miranda Sarmento

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Se Luís Montenegro pôde fazer esta tarde o brilharete no IRS e nas pensões, bem pode agradecer ao seu ministro das Finanças. Em março, Joaquim Miranda Sarmento dizia que ia ser muito difícil repetir a graça. Em maio, dizia que, se as contas públicas o permitissem, seria a grande prioridade do Governo. Em setembro, finalmente, a novidade: 400 milhões para os contribuintes, 400 milhões para os pensionistas, o mal dividido pelas aldeias. Os mais cínicos dirão que governar assim não revela grande visão para o país. Os mais céticos dirão que os eleitores costumam ser ingratos e que ligam pouco a estas prebendas circunstanciais quando a vida aperta de verdade. Os mais realistas farão as contas e perceberão que não vão levar assim tanto para casa. Mas, enfim, mais vale a mais do que a menos. Sarmento deu um jeitaço a Montenegro.

Rui Rocha

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Desde o makeover eleitoral Rui Rocha, não voltou a usar óculos, mas continua a ser um dos falcões da IL. Predador e carnívoro (ou não-herbívoro, num conceito definido em tempos pelo Presidente Marcelo), o liberal foi o que mais conseguiu incomodar Luís Neves na audição matinal. Disse ao ministro da Administração Interna que não sabia se este se tinha deslocado para a AR no “Golf dos Xuxas”, acusou-o de mentir e ainda o deixou meio atrapalhado quando lhe perguntou ao ministro se ele era da maçonaria. O mesmo Rui Rocha que se impôs pela presença de manhã, conseguiu impor-se pela ausência à tarde. O ex-presidente da IL não votou contra a moção de censura ao Governo, optando por não estar na sala no momento da votação — o que sugere que pode não estar confortável com a posição do partido. O mesmo até foi notado por André Ventura que associou a ausência da sala de Rocha a uma rutura do liberal com o sentido de voto definido pela IL ainda antes da votação. O que é certo é que Rocha não apareceu. Mas provou que se destaca muito mais inter pares do que como líder.

Os vencidos

Luís Neves

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

O ministro da Administração Interna tem uma tese e dali não sai: “Não há homens infalíveis e todos cometem erros”. Hoje, vá lá, substituiu o estilo de xerife e repetiu, como mantra, “humildade”, “modéstia” e “mea culpa”. Conseguiu sair da audição parlamentar sem cavar mais fundo. Mas os factos são conhecidos e não há forma de os maquilhar: não há papelada que enquadre a retirada do atrelado; não há uma explicação razoável para não ter cumprido a obrigação legal de entregar a declaração de rendimentos; e há pouca gente que ache normal que um diretor da PJ pague 5 mil euros de obras em dinheiro vivo. E é tudo isto que explica o porquê de ter passado de um dos ministros mais populares a um dos menos apreciados em meia dúzia de meses. No debate da moção de censura, à exceção dos comprometidos deputados do CDS e do PSD, não houve uma alminha que dissesse: “Sim senhor, Luís Neves tem todas as condições para continuar”. Montenegro não o deixou cair e cobriu-o de rasgados elogios, mas de votos de confiança antes da guilhotina está a política cheia. Neves é um dead man walking. Se as investigações em curso lhe correrem mal, se a comissão de inquérito for feia, se Montenegro se convencer que o ministro é um ativo tóxico, se o Presidente da República perder a paciência… São tantos os “ses” que podem ditar a queda de Neves que é quase um milagre que venha a sobreviver politicamente a esta jornada. Mas a política portuguesa já nos habituou a grandes surpresas.

José Luís Carneiro

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

José Luís Carneiro fez bem o trabalho de casa e filmou-se junto a bombas de combustível em Espanha (onde os preços são significativamente mais baixos do que em Portugal) nas vésperas da moção de censura. A estratégia de atirar a subida do custo de vida contra o Governo era, teoricamente, a correta. Mas, como o Governo tem o poder de gerir os tempos, Luís Montenegro fez dois anúncios para duas importantes franjas do eleitorado (os pensionistas e a classe média), que acabaram por condicionar o debate e impor a narrativa. O secretário-geral socialista levou ainda com um antigo ministro da Educação do PS, João Costa, a dizer numa rádio, durante o debate, que a responsabilidade dos maus resultados no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) eram culpa do Governo socialista. O PS também continuou sem lidar bem com o binómio Neves-bom/Neves-mau, com muitas críticas de várias figuras ao ministro, mas com o secretário-geral a acabar de dizer “não pede demissões de ministros”.

O agitador

André Ventura

INÊS LACERDA/OBSERVADOR

André Ventura pode não ganhar, mas nunca perde. O agitador-mor do reino apenas conseguiu os votos da sua bancada a favor da moção de censura que apresentou, mas conseguiu ser o protagonista do dia. Abriu e encerrou um debate parlamentar, gozou de mais tempo, contribui para o desgaste do Governo e, em particular, do ministro da Administração Interna. Foi tão vocal que até apelou às forças divinas e invocou o nome de Deus para pedir a saída de Neves. Viu o primeiro-ministro fazer dois anúncios que quase lhe travavam os golpes e lhe roubavam o espaço mediático, mas conseguiria voltar a pegar nas rédeas da sessão quando — à margem das regras (onde não se importa de andar) – colocou toda a sua bancada a pedir a “DE-MIS-SÃO” de Neves com um cadência e um volume sonoro que deixaria muitas claques envergonhadas. Tudo isto perante um Governo que permanecia, inerte, a assistir a sessenta deputados aos gritos contra um dos ministros. Indignado, Aguiar-Branco sugeriu que os eleitores saberão fazer o seu juízo. Mas, no fim do dia, foi Ventura a marcar a sessão mesmo depois duma derrota nos votos. Quando as regras não lhe servem, Ventura muda as regras. E tem-se dado bem com isso.

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