O debate entre os oito líderes dos partidos com assento parlamentar acabou por fugir ao padrão a que costuma obedecer este formato: em muitos momentos, não se confirmou a velha máxima “todos contra o incumbente”, nem tão pouco a divisão clássica entre os blocos esquerda-direita. Ao longo de mais de duas horas de discussão, Luís Montenegro e Pedro Nuno Santos travaram um duelo muito particular, bipolarizando o debate, mas também foram alvo de aliados naturais e, igualmente revelador, foram várias vezes metidos no mesmo saco, como responsáveis máximos pelas insuficiências do país em muitas matérias.

O único caso que uniu todos contra Luís Montenegro foi mesmo o caso Spinumviva, com o social-democrata a ser censurado pelos demais líderes partidários. No mais, à esquerda, Montenegro foi acusado de fazer campanha à custa dos imigrantes; à direita, Pedro Nuno Santos foi acusado de ter feito parte de um governo que contribuiu para a “balbúrdia”. Na Habitação, social-democrata e socialista foram descritos como gémeos siameses — ambos incapazes de dar respostas concretas. Na Saúde, idem,idem, aspas, aspas. E, na reta final do debate, os candidatos aproveitaram para fazer uma espécie de apelo ao voto musculado com a visão de cada um para o crescimento económico país.

[Recorde aqui o filme completo do debate a oito]

Spinumviva. Tiro a Montenegro, que só quis falar “aos portugueses”

Era de esperar que quando se abordasse o caso Spinumviva, que abriu o debate, Luís Montenegro fosse atacado por todos os lados, como aconteceu – durante os minutos iniciais, foi classificado como um “artista” ou um político “sem credibilidade, nem idoneidade”. Ainda assim, o primeiro-ministro e candidato da AD seguiu o guião de campanha: não entrou em pormenores nem deu mais esclarecimentos, não entrou em bate-boca – disse apenas ser vítima de adversários que nunca se darão por “esclarecidos” – e decidiu dirigir-se diretamente “aos portugueses”.

É essa a estratégia de uma AD convicta de que a população já está cansada do assunto; no debate, Montenegro lamentou ser alvo de ataques à sua “honestidade e honra” e concluiu que os adversários só querem fazer “luta política” – e, mais importante, que os portugueses “sabem disso”. Para a AD, a mensagem principal foi aquela que disse e repetiu, recusando dizer se mudaria alguma coisa na sua conduta a propósito deste caso: “Fiz tudo de boa fé”. Não foi “acusado” de nenhum crime, não favoreceu ninguém, resumiu. E recusou falar dos factos novos (os clientes da Spinumviva revelados na semana passada pelo Expresso).

Do lado da oposição, críticas quase em uníssono: Pedro Nuno Santos, que tentou não dedicar demasiado tempo ao caso, declarou que Montenegro “não tem credibilidade e idoneidade” para ser primeiro-ministro e fez “tudo ao seu alcance” para esconder as novas informações até às eleições; André Ventura acusou-o de “mandar o país para eleições para evitar o escrutínio”.

Rui Rocha, potencial aliado, aproveitou para puxar pela atitude de responsabilidade da Iniciativa Liberal durante a crise; Raimundo repetiu que Montenegro já se devia ter demitido; Mortágua classificou Montenegro como uma “vítima da falta de noção do que implica ser primeiro-ministro”; Rui Tavares acusou o primeiro-ministro de ter “enganado” os deputados e o país sobre a natureza da empresa; e Inês Sousa Real acusou Montenegro de ser “um grande artista” que “conseguiu tornar um problema pessoal num problema do país”.

Imigração aqueceu debate. Montenegro acusado de colagem ao Chega

A imigração subiu o tom do debate, com Luís Montenegro a ser acusado de estar a piscar o olho ao eleitorado do Chega. Em causa esteve a divulgação, por parte do Governo, da expulsão de imigrantes ilegais numa altura em que o tema marca a agenda de campanha. Pedro Nuno Santos não tem dúvidas de que a lei é para cumprir, mas explicou que as entidades competentes sempre levaram a cabo processos do género e que “nenhum primeiro-ministro fez gáudio ou revelou ter prazer em anunciar que há imigrantes expulsos”.

O secretário-geral do PS considerou que a diferença entre a expulsão e o anúncio está “na forma como um primeiro-ministro, de forma propagandística, quer apropriar-se do trabalho normal da entidade competente para fazer campanha política na disputa direta com o Chega”. Luís Montenegro atacou diretamente Pedro Nuno Santos, ao recordar uma série de posições assumidas pelo líder socialista nas últimas semanas para provar uma suposta incoerência de posições. “Zig, zag”, provocou o social-democrata. O socialista irritou-se e interrompeu: “Ensaiou no caminho para casa?”

André Ventura, naquele que tem vindo a ser o tema predileto nos debates, acusou Luís Montenegro de “eleitoralismo deplorável”, até usando o mesmo argumento de Pedro Nuno no que toca ao número de expulsões em anos anteriores, e criticou o primeiro-ministro por não viabilizar as propostas do Chega de um referendo sobre a imigração ou as quotas baseadas na necessidade da economia. Mais do que isso, posicionou-se contra a “Via Verde” e sublinhou que “quem está ilegal tem que sair”.

Rui Rocha ensaiou uma espécie de defesa de Luís Montenegro: “o timing e eleitoralismo são próprios destas situações”, justificou o liberal. O líder da IL tentou depois sintetizar a posição do partido: “Quem tem trabalho, entra, quem cumpre a lei, fica. Quem não cumpre a lei não pode permanecer”. Inês Sousa Real, lembrando o contributo positivo dos imigrantes para o país, diria o mesmo sobre deportações de ilegais: “A lei é para cumprir”.

Mariana Mortágua defendeu que, à direita, existem duas modas: “a vitimização e o ataque aos imigrante”. “Não aceitamos essa deriva nem esse arrastar que a extrema-direita conseguiu na política ao centro e em toda a política”, disparou, crente de que apenas a regularização permitirá conhecer quem entra e incluir as pessoas. No mesmo sentido, não poupou Montenegro de ter feito “propaganda” com o anúncio, concluindo que “arrastou toda a política para a direita com laivos de racismo e xenofobia”.

Para Paulo Raimundo, a leitura sobre o sucedido é idêntica, acusando Luís Montenegro uma “ação de campanha eleitoral do Governo” — o mesmo diria depois Rui Tavares, pedindo a Luís Montenegro que se deixe de truques. “Não brinque connosco, não nos tome por parvos.”

Habitação. Todos contra PS e PSD

Com alguma previsibilidade, o tema da Habitação acabou por deixar isolados Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro. O primeiro por ter tido responsabilidades próprias na área e por pertencer a um partido que governou oito dos últimos nove anos. O segundo por estar à frente de um Governo que continua com dificuldades em inverter a situação — os dados mais recentes da OCDE — do terceiro trimestre de 2024 — revelam que nunca foi tão difícil ter uma casa em Portugal.

André Ventura atirou diretamente a Pedro Nuno Santos, dizendo que o socialista é o “maior responsável pelo estado da Habitação em Portugal”. Rui Rocha, dizendo que o secretário-geral do PS não teve competência como ministro da área, focou as suas atenções no Governo, acusando a AD e Luís Montenegro de terem “piorado problema“. Mariana Mortágua lamentou a “desistência do PS” em matéria de Habitação, argumentando que as respostas da AD não vão resolver nada.

Ainda à esquerda, Paulo Raimundo argumentou que é urgente pôr a banca a contribuir para resolver a crise do mercado da Habitação, ao passo que Rui Tavares ter sugerido uma resposta em dois planos: arrefecer o mercado do luxo através de uma taxação que agrave esse tipo de compra e fomentar habitação para a classe média. Inês Sousa Real fez a síntese de todas as intervenções anteriores dizendo que PS e PSD  “prometem muito em campanha” e depois pouco fazem.

No duelo muito particular a dois, entre Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro, acabou por sobressair uma concordância de fundo: a solução para a crise na Habitação passa essencialmente pela construção. No entanto, o caminho para lá chegar (ou enquanto não se chega ao número de casas próximo do ideal) acabou por dividir os dois.

Pedro Nuno Santos, de resto, começou ao ataque. “As políticas que a AD adotou contribuíram para casas mais caras, a AD falhou totalmente e a maioria dos jovens ficou mais longe de comprar casa”, atirou o socialista. O socialista teve ainda o cuidado de criticar abertamente algumas das propostas do Bloco de Esquerda e do PCP nesta matéria, afastando-se da linha mais radical dos dois partidos nesta matéria.

Na resposta, Luís Montenegro voltou a acusar o adversário de andar aos ziguezagues, ora concordando com o Governo, ora criticando o Governo. Perante a nova rábula do “zig” e do “zag“, Pedro Nuno insurgiu-se e acusou Montenegro de não estar à altura do cargo. O social-democrata aconselhou calma ao adversário. “Está a ficar a alterado. Lembre-se da sua nova figura [uma referência à moderação de Pedro Nuno nos debates]. Hoje está particularmente nervoso.”

A seguir, Montenegro falou sobre as propostas do Governo do lado da oferta e da procura, antes de criticar novamente a herança deixada pelo PS — Pedro Nuno Santos já não era ministro — em matéria de Habitação, nomeadamente na questão do arrendamento coercivo, figura que acabou por ser revogada por este Governo. “Ninguém deu uma machadada maior no mercado de arrendamento.”

Saúde. O tiro ao alvo ao calcanhar de Aquiles de Montenegro 

A Saúde foi o tema que motivou um atirar geral de culpas a PS e PSD. Rui Rocha aproveitou o facto de o debate se realizar no primeiro domingo de maio para criticar as políticas dos partidos ao centro. “Hoje é o Dia da Mãe e o país tem tratado muito mal as mães e as grávidas. Isso tem acontecido com os governos do PS e do PSD. É inaceitável.”

O primeiro-ministro assumiu que “evidentemente não está tudo resolvido”, mas enlencou vários aspetos em que a saúde melhorou durante o último ano do qual faz um balanço “positivo”. Montenegro focou parte da sua intervenção na necessidade de profissionais de saúde sentida pelo SNS, assinalando que a valorização das carreiras aprovada pelo Governo já estar a atrair mais pessoas.

Pedro Nuno Santos acusou o presidente do PSD de estar “em negação” neste tema. “O Governo falhou porque há mais urgências encerradas, mais utentes sem médico de família, listas de espera a aumentar”, atirou. O líder do PS contrariou a ideia do Governo de que há um SNS em transformação, afirmando que, na verdade, “temos um SNS em privatização”.  Luís Montenegro não se ficou e tentou dividir responsabilidades com o secretário-geral socialista. “Ele próprio aprovou muitas destas políticas. Se é contra as PPP e as USF modelo B e C tem de dizer, foram criadas pelo PS”.

André Ventura, que já tinha confrontado Montenegro no frente a frente entre os dois, voltou a dizer que a Saúde é mesmo o “grande falhanço” do Governo da AD. Já Rui Rocha referiu os benefícios de um “sistema concorrencial” entre público, privado e setor social que possibilitam “liberdade de escolha dos portugueses”.

Ideia que seria contrariada pelo porta-voz do Livre que, por outro lado, pediu mais transparência aos operadores privados na saúde de modo a acabar com a “concorrência desleal”. Mais à esquerda, Paulo Raimundo defendeu que o SNS é o único prestador de serviços que “não pergunta quanto [o paciente] tem na conta, qual é a apólice do seguro, qual é a doença”.

De igual forma, Mariana Mortágua criticou o atual modelo — dependente de prestadores de serviços e de horas extraordinárias convencionadas com o setor privado — mas não deixou de recordar que o fim da ‘geringonça’ se deveu, essencialmente, às divergências de fundo entre o Bloco de Esquerda e o PS no que respeita ao Serviço Nacional de Saúde. Por sua vez, Inês Sousa Real disse que é preciso mais investimento no SNS, mas admitiu que é necessária “uma perspetiva de otimização de recursos”.

Programa económico. Pedro Nuno criticou política “impossível” do “otimista” Montenegro

Parece um déjà vu: há um ano, os socialistas acusavam a AD de apresentar um programa irresponsável e que criaria buracos nas contas públicas. Desta vez, confrontado com o cenário de incerteza internacional, Luís Montenegro voltou a mostrar-se o protagonista mais otimista quanto às previsões que faz para as contas públicas (e as medidas que promete, incluindo uma redução de 500 milhões em IRS no próximo ano), fazendo desde logo questão de corrigir o moderador, Carlos Daniel, por este ter falado em “contração” da economia.

Confrontado com a contração económica no último trimestre, Montenegro justificou que isto aconteceu porque o último trimestre de 2024 teve uma taxa de crescimento “muitíssimo elevada”, quase inédita, e criticou o “tremendismo” das restantes previsões: “Estamos num bom momento da economia portuguesa, com estabilidade económica e financeira”. A partir daí, tentou fazer um equilíbrio entre “prudência” e “ambição”, dizendo que mantém o seu otimismo apesar de estar “bem consciente das incertezas e ameaças” internacionais – que também levam a que o investimento em Defesa seja essencial para a “luta pela liberdade e segurança europeia”.

Ora, Pedro Nuno Santos partiu para o ataque: com ou sem comparações com 2024, a economia recuou, o primeiro trimestre é de queda e o programa da AD é “uma impossibilidade completa, uma mentira”. O programa do PS, por outro lado, será “mais realista” porque “custa metade do da AD”, defendeu, destacando medidas como o IVA Zero em bens essenciais e a redução do IVA da construção. Na avaliação do programa da AD, Ventura esteve alinhado com Pedro Nuno, classificando-o como “completamente ilusório” e não condizente com uma economia que “contraiu”.

Do lado dos liberais, Rui Rocha defendeu a necessidade de “acelerar” (o seu slogan de campanha) o crescimento – “A próxima legislatura tem de ser a legislatura do crescimento económico” – também para defender as gerações que podem não ter pensões asseguradas. Rui Tavares falou num modelo económico errado, baseado no “dinheiro fácil” e não no “verdadeiro enriquecimento”; Mariana Mortágua criticou a turistificação em massa do país, contrastante com os baixos salários.

Paulo Raimundo lançou o tema final para a esquerda, exigindo um cessar-fogo em Gaza e o reconhecimento do Estado da Palestina (com Rui Tavares a frisar imediatamente que qualquer solução de esquerda que venha a integrar tem de ter como pressuposto esse reconhecimento). Sousa Real focou a sua intervenção final, a fechar o debate, a fazer a defesa de uma economia mais verde e sustentável.