Séries: o que andam a ver os nossos políticos?

Eles gostam de séries sobre política, como se o dia-a-dia não fosse suficiente. Fomos perceber quais são as preferidas dos políticos portugueses - e porque é que eles gostam tanto de as ver.

Birgitte Nyborg foi primeira-ministra da Dinamarca e tornou-se uma empresária de sucesso além-fronteiras. Dois anos depois, já com o seu partido fora do poder, regressou a Copenhaga para dar uma palestra sobre a crise política. No meio do discurso, puxou por uma fábula popular: “Durante esta crise, não podemos agir como os dois turistas que encontraram um leopardo. Um começou a calçar os ténis de corrida e o outro disse: ‘tu não consegues correr mais do que o leopardo’. ‘Não é preciso, só preciso de correr mais rápido do que tu'”. Mensagem recebida, a plateia aplaude e Birgitte sorri com o nariz franzido, como sempre faz.

Não, nada disto aconteceu na realidade: a ex-primeira-ministra dinamarquesa é, afinal, apenas a atriz Sidse Babett Knudsen, protagonista da série televisiva Borgen, transmitida na RTP2. Mas o facto é que a ficção chegou à cena no Parlamento português, pela voz da deputada e porta-voz do Bloco de Esquerda, Catarina Martins. Aconteceu num debate com o primeiro-ministro Pedro Passos Coelho, onde se discutia a Grécia, a Europa e a posição de Portugal entre os dois. “De repente veio-me à cabeça uma série de televisão ficcional, onde uma responsável política falando sobre a crise europeia dá um exemplo sobre o que não deve ser feito e está a ser feito”, disse a bloquista, para depois sacar da metáfora do leopardo.

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Se Birgitte Nyborg recebeu aplausos da plateia toda, Catarina Martins ficou-se pelos aplausos da sua bancada. Talvez Passos Coelho nem tivesse acompanhado a série televisiva (o episódio em questão tinha sido transmitido uns dias antes, naquele mês de fevereiro, na televisão portuguesa), mas percebeu certamente do que se tratava. “Não me vou envolver nessa aventura ficcional”, ripostou na altura em São Bento, bem longe do Borgen e do frio de Copenhaga.

É certo que a realidade política dinamarquesa é bastante diferente da que vivemos em Portugal: no frio de Borgen não há um governo de um partido só há 35 anos, mal existiram aliás no último século. No reino longínquo da Dinamarca as coligações governamentais não são vistas como um sinal de fraqueza política, antes como um forma de garantir a representatividade e o pluralismo. “It’s a way of life” (uma forma de vida), como descreveu Adam Price, autor de Borgen, num artigo que escreveu em maio deste ano no jornal britânico The Guardian – numa altura em que a série atingia picos de audiência no Reino Unido.

No pequeno ecrã, o Governo de Birgitte Nyborg é composto pelos Moderados, pequeno partido do centro-esquerda, junto com os os Trabalhistas e os Verdes. E ainda tem o apoio no Parlamento do partido da Solidariedade, mais à esquerda no espetro político. Sim, são quatro forças políticas – enquanto por cá os partidos seguem para eleições dizendo-se indisponíveis para juntar dois no mesmo barco. “Apesar de serem realidades diferentes – em todo o caso nós ainda somos uma democracia muito jovem -, dá para tirar muitas lições dali”, comenta ao Observador o deputado José Magalhães, que já fez parte de três governos socialistas e que admite ter acompanhado com atenção as três temporadas daquela série dinamarquesa. Que tipo de lições? Sobre os governos de coligação, por exemplo, “que não são mais do que casamentos forçados entre partidos diferentes, e que envolve um dilema diário que também nós estamos a viver em Portugal há mais de quatro anos”.

Borgen é o nome da série de televisão (2010-2013) mas é também o nome abreviado do Palácio de Christiansborg, edifício onde fica o Parlamento, o gabinete do primeiro-ministro e o Supremo Tribunal dinamarquês. A série é um drama político encabeçado por Birgitte Nyborg, que se torna a primeira mulher a chefiar um governo na Dinamarca e que luta, primeiro, por formar governo, e, depois, por se manter no poder. A trama envolve ainda a ligação com a imprensa, com o seu 'spin doctor' e o braço de ferro diário entre os princípios morais e a ambição.

José Magalhães confessa que começou a interessar-se por aquela produção televisiva dinamarquesa movido por uma “curiosidade fiscalizadora”. “Queria ver se havia proximidade ou não com a realidade”, diz ao Observador, acrescentando que não foi preciso ver muitos episódios para perceber que sim, que a proximidade era “enorme” e o “realismo” com que os corredores do Borgen e os bastidores dos gabinetes governamentais eram retratados podia mesmo funcionar como “um ensaio pedagógico sobre o processo de tomada de decisões políticas e o necessário reajustamento que os políticos têm de fazer em caso de insucesso”.

Para quem circula nos corredores do poder o reconhecimento é imediato. “O processo de tomada de decisão que vemos na figura da primeira-ministra é muito parecido com o real processo de tomada de decisão num Governo. As questões de caráter ético também. No fundo as dúvidas são as mesmas: devemos usar determinada informação que temos em nossa posse como arma de arremesso contra o nosso adversário político?”, questiona o deputado socialista que já foi secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares no governo de António Guterres e secretário de Estado da Administração Interna e da Justiça nos governos de José Sócrates. “Sobretudo quem já fez parte de cargos governativos revê-se muito nesse lado da série”, afirma. O lado das decisões difíceis de tomar.

Um género por explorar

Sendo tão próximo da realidade política de um país, o sucesso de Borgen enquanto série de entretenimento televisivo estaria longe de ser garantido. Muito longe. O dinamarquês Adam Price teve de ir a várias sessões de “pitch” para vender a ideia – e demorou até que a comprassem. Como explicou numa entrevista à televisão canadiana (a série também é um sucesso lá), nas primeiras vezes dizia algo como ‘Isto é uma série sobre as políticas de coligação da Dinamarca’, e o resultado não era o melhor. Só quando mudou a abordagem para algo como ‘Isto é uma série sobre o preço a pagar quando uma pessoa quer o trabalho mais difícil de todos. E quando essa pessoa é mulher, o preço é maior ainda‘ é que o caso mudou de figura.

O deputado do PSD Duarte Marques, que também vê frequentemente séries televisivas relacionadas direta ou indiretamente com o poder, a política e os dilemas morais da sociedade, arrisca uma explicação para o facto de este tipo de séries, que lida com temas aparentemente aborrecidos para o grande público, estar a ter um impacto positivo nas audiências: a humanização da política, que aproxima o político do cidadão comum. “A vida na política não é muito diferente da vida nas empresas e das pessoas em geral, com os mesmos defeitos e virtudes. Essa é a vantagem e o grande ensinamento: a política é feita por pessoas”, diz o deputado social-democrata ao Observador.

"A luta pelo poder, as dificuldades em comunicar e em passar uma mensagem aos eleitores, são tudo problemas que vemos ali na televisão e com que cá deste lado também temos de lidar todos os dias"
Michael Seufert, deputado do CDS

Também o deputado socialista João Galamba, adepto confesso de clássicos como The West Wing (Os Homens do Presidente), The Wire, Game of Thrones ou House of Cards e Borgen, sublinha que não é só quem está por dentro do ambiente parlamentar ou governamental que se interessa pelo género – “quem está de fora também se interessa porque acaba por ter acesso a uma dimensão mais complexa e humana da política, que assim surge aos olhos das pessoas de forma mais apetecível”, diz ao Observador.

Robert Thompson, professor de televisão e cultura popular na Universidade de Syracuse, Nova Iorque, arrisca ao Guardian um outro motivo: “É um género televisivo que ainda não está esgotado”, ao contrário das séries sobre polícias, advogados e médicos, que já foram exploradas até à exaustão. Para os políticos, os presidentes, os deputados, pelo contrário, ainda há muito terreno virgem para explorar.

Como passar uma mensagem

José Magalhães não hesita quando lhe é pedido para escolher o episódio daquela série que tenha sido para si mais marcante, aquele em que tenha encontrado mais parecenças com a realidade. Foi a cena em que Birgitte Nyborg perdeu as eleições, esteve rodeada dos seus e teve de aprender a lidar com a situação de perda do poder, sem dramas. “É muito realista, é assim mesmo que acontece. É a passagem súbita da posição dominante para uma posição fora do sistema – para o privado, há uma aprendizagem da resiliência. Apanhar porrada faz parte. Temos de lidar com isso”, diz ao Observador.

João Galamba não destaca um só episódio, preferindo antes destacar um dos desafios com que os políticos têm de lidar no dia a dia, que percorre quase todos os episódios das séries deste tipo: “A dificuldade que há em fazer passar uma mensagem à população”, “a relação com os media” e a “necessidade de ter de responder a emergências quando, lá está, a comunicação não saiu como queríamos e a mensagem foi mal interpretada”. Birgitte tinha Kasper Jull como spin doctor, que lhe dava os conselhos (acertados ou não) sobre o que dizer e o que fazer nessas situações; em Portugal há assessores e há equipas inteiras a trabalhar para isso – em tempos de campanha eleitoral, mas não só.

Também há diferenças, claro, e Magalhães lembra-se de uma desde já: as questões da vida privada, que em Portugal não aparecem tão “escarrapachadas nos jornais” como acontece na ficção, ou como acontece, de resto, em países como o Reino Unido, com os seus tabloides mais propícios a isso mesmo. Há a cena, por exemplo, em que a filha, menor, da chefe de Estado dinamarquesa (na ficção, não na realidade) é internada numa instituição psiquiátrica e a sua fotografia surge na primeira página do jornal. “Em Portugal isso não acontecia, o que é positivo”, atira o deputado e ex-governante socialista.

Além de Borgen, também a série norte-americana House of Cards, sobre a ascensão de um congressista (Kevin Spacey) à Presidência dos EUA, faz sucesso entre os políticos portugueses. Pedro Passos Coelho admitiu numa entrevista ao semanário Sol que, apesar de não ter tempo para acompanhar os episódios religiosamente, gostava de ver os bastidores da Casa Branca em House of Cards e também, noutro registo, gostava de ver as peripécias do médico Dr. House.

Acontece que House of Cards, a primeira série produzida em alta resolução pelo serviço de streaming Netflix, é um drama político tipicamente norte-americano e cinematográfico, com toda a carga ficcional que isso envolve. House of Cards é mais “circense”, “Borgen é um retrato mais bem feito do dia a dia da política”, defende João Galamba ao Observador, admitindo que se reviu mais nos episódios da série dinamarquesa por não ser “excessivamente novelesca”.

Pedro Passos Coelho já disse ser espectador mais ou menos assíduo de House of Cards, o drama político sobre os bastidores sombrios da Casa Branca protagonizado por Kevin Spacey

Sem comparações, as diferenças são de raiz. Enquanto a série de Washington D.C é protagonizada por um ambicioso Francis Underwood (Kevin Spacey), um anti-herói que tem a mestria de conquistar o coração dos espectadores apesar de não ter escrúpulos e de não olhar a meios para atingir o fim (de chegar ao topo da Casa Branca), a série de Copenhaga retrata precisamente o oposto: uma líder de um partido não muito grande que se vê inesperadamente no lugar de primeira-ministra e que, uma vez no topo, procura pôr o cargo ao serviço dos seus ideais e valores morais. Grande parte da tensão de Borgen reside precisamente aí, nos momentos em que a lógica do poder a obriga a relegar os seus princípios para segundo plano. Ou seja, exatamente o oposto do maquiavélico Frank Underwood.

Ao Observador, o social-democrata Duarte Marques vê nesse maquiavelismo uma desvantagem das séries sobre políticos. “Algumas destas séries prestam um mau serviço por exagerarem muito a realidade. É mais fácil retratar o lado negativo da política, a intriga e a negociata, do que os feitos e as conquistas positivas”. Por isso o deputado diz-se mais fã de séries como “24”, “porque criava um grande debate ético e moral sobre a sociedade em que vivemos”, ou Scandal, a série que vai agora para a sua quinta temporada e que gira em torno de uma antiga diretora de comunicação da Casa Branca que está à frente de uma empresa de gestão de crises e conflitos. “Gosto deste lado da comunicação, de atuar no fio da navalha e ter a capacidade e criatividade de planear, escolher as melhores palavras, conseguir mostrar o outro lado, minimizar danos e potenciar os efeitos”, explica. É um outro lado ativo da política, também real, que não acontece só nos filmes.

"Eu pensei, vamos tentar explorar o lado mais idealístico da política em vez do seu lado mais cínico. Vamos tentar contar uma história sobre democracia, onde prestemos um tributo às pessoas que se entregam de facto à política. Porque nem todas elas são más pessoas, são apenas pessoas que muitas vezes são forçadas a fazer escolhas muito, muito difíceis".
Adam Price, autor e argumentista de Borgen, em entrevista à CBC, Canadá

Michael Seufert, deputado do CDS nas duas últimas legislaturas, não viu as três temporadas de Borgen mas é, ao contrário de Duarte Marques, fã das peripécias de Frank e Claire Underwood (House of Cards volta em 2016 para a sua quarta temporada) no seu percurso rumo à Presidência dos EUA.

“A luta pelo poder, as dificuldades em comunicar e em passar uma mensagem aos eleitores, são tudo problemas que vemos ali na televisão e com que cá deste lado também temos de lidar todos os dias”, destaca ao Observador, sublinhando que a série norte-americana tem a ressalva de dizer respeito ao sistema político norte-americano, que, com os seus círculos uninominais, é bastante diferente do sistema político português. Ainda assim, há sempre analogias a fazer, como aqueles episódios em que Peter Russo, governador do Estado da Pensilvânia, teve de lidar com um problema parecido ao dos Estaleiros de Viana.

Ou aquele episódio da greve de professores, onde o Congresso se preparava para mudar uma lei de base sobre os professores e teve para isso de fazer um acordo com o sindicato. “As negociações foram duras, artigo a artigo, com o objetivo de fazer com que o outro ceda, e isso podia perfeitamente ter acontecido cá, é assim que se negoceia”, diz.

Eles, os verdadeiros, veem, reveem-se e são fãs

Se Passos já admitiu ser espectador mais ou menos assíduo de House of Cards, imagine-se Barack Obama, o próprio, que aparece na televisão na pele de Kevin Spacey.

É fã. Não perde um episódio, tal como em tempos não perdia um de Homeland (Segurança Nacional). Mas, para que ninguém cobice o seu lugar na Sala Oval, já fez questão de dizer, numa entrevista a Ellen DeGeneres, que “a vida em Washington é um pouco mais aborrecida do que aquilo que aparece no ecrã”. “A maior parte dos meus dias são passados em reuniões com homens de fato cinzento e falamos de assuntos que não funcionariam muito bem em televisão”.

Também a ex-primeira-ministra dinamarquesa, Helle Thorning-Schmidt, já falou várias vezes sobre a série Borgen que, ainda por cima, retrata precisamente a vida da primeira mulher a chefiar o Governo. Helle Thorning-Schmidt foi, de facto, a primeira mulher a fazê-lo, mas Birgitte Nyborg não é inspirada em si, já que as duas primeiras temporadas da série foram filmadas entre 2010 e 2011 e Throning-Schmidt foi apenas eleita em outubro de 2011. Uma feliz coincidência, portanto. Em todo o caso, a primeira-ministra, a verdadeira chegou a dizer que fez um esforço para não acompanhar de perto a série para “não ser influenciada por ela”. Ou seja, seria mais ou menos o inverso – a realidade a imitar a ficção.

Se House of Cards continua a ser a grande aposta da Netflix e continua a ser um sucesso de audiências, Borgen, a série europeia sobre políticos bem intencionados que tinha tudo para não dar certo, também não lhe ficou atrás e foi transmitida em 80 países diferentes. É ver, se ainda não viu. Ou rever, bem a propósito da campanha eleitoral que aí vem. Porque a política, como estas séries procuram mostrar, não tem de ser aborrecida para o grande público.

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