A acusação Tutti-Frutti atingiu o coração do PSD e pode atrapalhar um dos seus maiores objetivos eleitorais: vencer a câmara de Lisboa. De uma só vez, o líder da concelhia (Luís Newton) e o líder da distrital de Lisboa (Ângelo Pereira) foram formalmente acusados pelo Ministério Público num caso de corrupção a meses das autárquicas. Carlos Moedas até pode não ser próximo daqueles que controlam as estruturas do PSD/Lisboa há muitos anos, mas como nunca os conseguiu vencer — juntou-se a eles.
Mesmo Luís Montenegro e Hugo Soares — distantes do rioísta de primeira água Carlos Eduardo Reis , o outro deputado do PSD acusado neste processo — acabam por levar com os estilhaços do Tutti-Frutti: um dos deputados e o vereador já suspenderam funções.
Moedas não os conseguiu vencer e juntou-se a eles (até ver)
Pouco depois de ter sido escolhido por Rui Rio, Carlos Moedas percebeu que dificilmente conseguiria ser eleito se não tivesse ao seu lado figuras já então suspeitas no processo Tutti-Frutti, como Luís Newton ou Ângelo Pereira. Engolidos os sapos, Moedas venceu as eleições. Meses depois da vitória eleitoral viriam os primeiros problemas com a bancada na AML, controlada por Newton, a travar uma decisão vinda do Executivo do PSD. Era PSD contra PSD. Agastado com a afronta, o presidente da autarquia decidiu arriscar e medir forças contra Newton (que foi mantendo a aliança com o amigo e vereador de Moedas Ângelo Pereira) e, na sombra, apoiou um candidato contra Newton à concelhia.
O moedista Alexandre Simões concorreu então contra Newton na concelhia com o apoio de tudo o que eram figuras próximas de Carlos Moedas a apoiarem o challenger contra o presidente concelhio em funções. Simões tinha o presidente de câmara, mas Newton tinha os votos e anos e anos de know how de cacique alfacinha. Como seria de esperar, a lista apoiada por Moedas nos bastidores perdeu com estrondo contra Newton, que venceu com 70,5%. Era mais uma prova de que, sempre que quis avançar contra Newton e os seus aliados, Moedas perdeu. Empenhado na reeleição em 2025 (um tabu em que só o próprio acredita), o atual presidente de câmara não tem tido outra alternativa senão estar alinhado com Newton.
E se é assim na concelhia, não melhora na distrital. Embora Ângelo Pereira não seja tão temido como Newton, os dois fazem política juntos. Há uma relação de lealdade e de conveniência que é reconhecida por todos os políticos de Lisboa do partido: Ângelo não chegaria a líder distrital se não fosse apoiado por Newton.
Carlos Moedas acabou, mesmo que involuntariamente, por estreitar o caminho de Ângelo Pereira na autarquia. Quando suspendeu o mandato do vereador Diogo Moura por este ter sido acusado pelo MP (entretanto voltou, pois foi arquivado o processo), definiu uma bitola a que dificilmente o vereador Ângelo Pereira sobreviveria. Esta terça-feira o PSD jogou mesmo por antecipação.
Ângelo Pereira pediu logo a suspensão do mandato e destacou que era apenas acusado por ter feito uma viagem à China (no chamado Huaweigate), quando a esmagadora maioria dos outros acusados responde por factos (e crimes) aparentemente mais graves. Moedas aproveitou estes detalhes para contra-atacar o PS: “Espero que os outros partidos sigam o mesmo exemplo“. Isto porque a líder dos vereadores socialistas na autarquia, Inês Drummond, é acusada de quatro crimes de prevaricação. O presidente da câmara de Lisboa tentou assim beneficiar com a situação de duas formas: a acusação de Ângelo Pereira é menos grave e o PS teria de afastar a sua mais importante vereadora.
O problema para Carlos Moedas é que, para ser reeleito, é importante ter ao seu lado a concelhia, a distrital e era uma vantagem a experiência e o conhecimento que Newton e Ângelo Pereira têm da cidade. Apesar de os três presidentes de junta (Vasco Morgado, Fernando Braancamp e Luís Newton) estarem em fim de mandato, o facto de estarem acusados retira-lhes margem para preparar a sucessão de forma harmoniosa e garantir que não perdem as juntas de Santo António, Areeiro e Estrela para o PS. Segurar as juntas e contar com os sindicatos de voto destas personalidades do PSD é fundamental para a reeleição do incumbente.
Além disso, ainda há dúvidas sobre o que será feito nos cargos em que não houve auto-suspensões. Tanto Luís Newton — que é acusado de 10 crimes —, como Ângelo Pereira suspenderam agora os mandatos como deputado e vereador, respetivamente, mas não disseram o que farão relativamente aos cargos que ocupam na estrutura. Um antigo dirigente do PSD/Lisboa registava precisamente essa realidade já após a anunciada suspensão de Newton de deputado: “É impercetível como é que o Newton suspende o mandato de deputado e mantém o de presidente de junta e de líder da bancada do PSD na AML, onde alegadamente terá cometido os crimes de que é acusado”.
Numa altura em que Carlos Moedas começava a preparar a caminhada para a Câmara de Lisboa contra a já conhecida adversária Alexandra Leitão, tem aqui um revés. Por muito que corte o mal pela raiz, o PSD será obrigado a rever a estratégia se quer continuar a liderar a maior autarquia do País.
Os danos na bancada e no partido
O caso das malas, protagonizado por Miguel Arruda, deu uma ajuda ao PSD na trajetória de conquistar espaço ao Chega. Mas com dois deputados acusados neste processo (além de Newton, Carlos Eduardo Reis também o foi), o líder parlamentar e secretário-geral Hugo Soares terá de carregar o peso de ter problemas graves com a justiça na própria bancada.
Luís Montenegro e Hugo Soares sabiam de todos os problemas de Luís Newton quando o escolheram em lugar elegível nas listas de deputados em Lisboa, mas para ir a umas eleições que sabiam que só ganhariam de forma tangencial não quiseram comprar uma guerra com uma das maiores concelhias (e distritais) do partido. Agora, pagam o preço dessa escolha.
O líder do PSD chegou a abrir um inquérito interno a Newton, Carlos Eduardo Reis e Margarida Saavedra (ilibada pelo MP), mas Carlos Costa Neves não encontrou nada passível de ação disciplinar. Com o objeto definido por Montenegro — “apreciação da comissão política distrital de Lisboa em funções aquando da aprovação das listas de candidatura às eleições autárquicas de 2017, na vertente respeitante à escolha do 1.º membro da lista à assembleia de freguesia (e, consequentemente, candidato a presidente da junta de freguesia”) era difícil encontrar. Ao PSD não interessou investigar sobre pagamento de quotas ou favorecimento com base em relações partidárias ou o aproveitamento que os eleitos faziam do cargo, mas “apenas” sobre o alegado conluio com o PS. Ou seja: nada encontrou, mas também foi pouco o que procurou.
Mas se Luís Newton ainda apoiou Montenegro nas diretas (foi o mandatário distrital), Carlos Eduardo Reis está longe de ser um montenegrista. O deputado de Barcelos — que ainda não suspendeu o mandato — tornou a concelhia local numa das mais poderosas do PSD e foi muito importante na vitória de Rui Rio contra Paulo Rangel. Era um rioista dos sete costados e foi com o anterior líder que ganhou poder no partido. Depois disso foi mesmo diretor de campanha de Jorge Moreira da Silva, adversário de Luís Montenegro.
Ainda assim, pela força que tem no distrito de Braga, Hugo Soares e Montenegro decidiram manter Carlos Eduardo Reis em lugar elegível como deputado. O deputado era dos mais desalinhados com a direção, mas também nunca fez uma oposição clara à atual direção — pelo menos publicamente. Ainda hoje há outros deputados que devem o lugar de deputado às negociações e ao poder de Carlos Eduardo Reis, que mantém uma importante rede de influências no partido.
Carlos Eduardo Reis é uma herança de Rio que Montenegro — por escolha própria — tem de gerir. Esta quarta-feira, no debate quinzenal, o primeiro-ministro e líder do PSD vai ter de responder por todos estes acusados no processo Tutti-Frutti. Não será fácil.
O Observador tem escrito nos últimos anos vários artigos sobre a rede que esta tríade — Sérgio Azevedo, Luís Newton e Ângelo Pereira — foi criando nos últimos anos.
Amigos e sem negócios à parte. Como os protagonistas da Tutti Frutti controlaram o aparelho laranja
Os três amigos sem negócios à parte (e um Ventura amigo, mas ilibado)
A figura central desta operação é Sérgio Azevedo, ex-deputado do PSD – ou “Serginho”, como é conhecido no partido. Era presidente da Associação de Estudantes da Escola Secundária de Algés quando Ângelo Pereira, atual líder da distrital do PSD/Lisboa e vereador de Carlos Moedas, o fez militante. Aos 19 anos, já era líder da distrital da JSD/Lisboa e chegou rapidamente à cúpula da ‘jota’ laranja pela mão de Pedro Duarte, agora presidente do Conselho Estratégico Nacional (CEN) do partido. Luís Newton, o ainda presidente da junta de freguesia da Estrela e presidente da concelhia do PSD/Lisboa, chegou a pertencer à equipa de Azevedo na JSD/Lisboa – os dois conhecem-se há mais de duas décadas.
Mais a Norte, a partir da muito poderosa estrutura de Barcelos – é uma das concelhias sociais-democratas com mais militantes –, Carlos Eduardo Reis foi fazendo o seu caminho político, alcançando a liderança da JSD/Braga. Chegado o momento, tentou dar o salto para o palco nacional e foi a votos contra Duarte Marques pela liderança da jota. Falhou e acabou derrotado. Mas nem por isso desistiu de consolidar a sua influência política na JSD e no partido.
Passada a febre da ‘jota’, os três foram trabalhando para se manterem no mapa partidário. Nos anos que se seguiram, em vários Congressos do PSD, apresentaram conjuntamente listas ao Conselho Nacional do partido, órgão máximo entre congressos e uma espécie de assembleia do PSD. Em 2016, por exemplo, Carlos Reis encabeçava a lista C, que tinha como número dois Sérgio Azevedo e como número oito Luís Newton (a lista elegeu sete conselheiros, sendo que é o primeiro suplente quando algum dos sete primeiros falta ao CN).
O objetivo desta “Lista Geracional” era, além de garantir alguma influência no partido, ir promovendo jovens quadros do PSD que, no futuro, pudessem ser instrumentais nas batalhas internas do partido, no controlo de estruturas locais e distritais ou, por exemplo, na elaboração da lista de deputados. Foi à boleia dessa estratégia que despontou uma figura que acabaria por se afirmar noutro partido – André Ventura.
Ventura era um perfeito desconhecido para a maioria dos militantes do PSD e irrelevante na vida interna social-democrata. Foi uma criatura política do antigo deputado Sérgio Azevedo que, quando procurava ganhar a JSD/Lisboa, viu naquele jovem de Algueirão uma oportunidade para quebrar a adversária Ana Sofia Bettencourt, influente no aparelho do partido em Sintra.
Pouco depois, André Ventura desapareceu do mapa partidário. Saiu para Erasmus, voltou, concluiu o curso, ingressou na carreira académica e apostou as fichas todas no comentário televisivo, sobre futebol e crime. Os dois, Sérgio Azevedo e Ventura, encontrar-se-iam anos mais tarde, em ambiente académico. Ventura pediu-lhe para voltar à vida do PSD e Sérgio Azevedo fez-lhe a vontade: no mesmo congresso de 2016, Ventura juntou-se à tal lista ao Conselho Nacional que tinha Carlos Eduardo Reis, Newton e o próprio Sérgio Azevedo.
Em 2018, o gabinete do atual de líder do Chega foi alvo de buscas no âmbito da Operação Tutti-Frutti. Na sequência dessas buscas, André Ventura também acabou por ser investigado nesta operação, mas as suspeitas foram arquivadas. Em causa estava a contratação de dois assessores que se suspeitava de serem contratos-fantasma. No entanto, a investigação concluiu que os assessores nunca trabalharam na câmara de Loures com o vereador André Ventura, mas também nunca receberam dinheiro. Na verdade foram nomeados, mas logo exonerados. Perante os factos, o MP arquivou as suspeitas que recaiam sobre Ventura.
Já esta terça-feira o líder do Chega exigiu que os políticos que ocupam cargos renunciem aos seus mandatos, mas em nenhum momento falou sobre a relação de amizade que tem com o principal arguido, Sérgio Azevedo. No livro que vai lançar na próxima quinta-feira, o fundador do Chega, Nuno Afonso, fala da amizade entre o “Serginho” e Ventura e até publica uma foto entre ambos. Além disso, lembra Nuno Afonso, um dos amigos presentes no lançamento do livro de Ventura em abril de 2016 (“50 razões para mudar para o Sport Lisboa e Benfica“, escrito em coautoria com a taróloga Maya) era, precisamente, Sérgio Azevedo.
O caminho até ao topo
Os três – Azevedo, Newton e Carlos Eduardo Reis – foram fazendo o seu caminho até ao topo. “Serginho” chegou a vice-presidente da bancada parlamentar pela mão de Luís Montenegro, era Pedro Passos Coelho o líder do partido. Depois, começou o processo de fade out: Sérgio Azevedo esteve com Pedro Santana Lopes contra Rui Rio e acabou derrotado; em 2019, três anos depois das primeiras notícias sobre a Tutti-Frutti, já não constava da lista de candidatos a deputados; daí em diante, tem-se mantido fora da vida partidária. Pelo menos, publicamente.
O percurso de Luís Newton tem sido diferente. Em 2013, foi eleito presidente da Junta de Freguesia da Estrela. Em 2017, apesar de ter repetido a façanha sendo já suspeito na Tutti-Frutti, seria notícia por outros motivos: conseguiu organizar as suas tropas e impedir que José Eduardo Martins, que se candidatou nessas eleições à presidência da Assembleia Municipal de Lisboa ao lado da candidata Teresa Leal Coelho, assumisse a bancada social-democrata – na altura, o antigo secretário de Estado denunciou ter sido vítima de um “golpezito de aparelho” que visava a “manutenção do status quo que nos trouxe a esta desgraça que tivemos em Lisboa”. O que José Eduardo Martins sugeria na altura era que havia uma rede de interesses instalados que vivia à custa da distribuição de favores.
Newton seguiu indiferente a isso. Em 2020, conquistou pela primeira vez a concelhia do PSD/Lisboa, peça importante no controlo do partido até a nível nacional. Em 2021, quando Carlos Moedas pôs a funcionar a sua máquina eleitoral, tentou (com a bênção da direção de Rui Rio) esvaziar a influência de Newton – sem grande sucesso, uma vez que o líder da concelhia acabou por ter um papel importante nas negociações com o CDS para lista de candidatos às Juntas de Freguesia. Em julho de 2022, deu-se o momento insólito: Newton, na qualidade de líder da bancada municipal do PSD, votou contra uma proposta do próprio executivo de Moedas, para embaraço geral do PSD.
Carlos Eduardo Reis, filho de um ex-autarca e de um antigo barão social-democrata nos idos do barrosismo, afirmou-se de outra forma, fugindo sempre da primeira linha da frente do combate político – ao ponto de ser conhecido como o “homem dos corredores”. A sua aposta do Conselho Estratégico deu frutos em 2019, quando Luís Montenegro tentou apear Rui Rio pela primeira vez. As suas tropas foram instrumentais para travar o impeachment organizado por Montenegro nesse Conselho Nacional. A partir daí, Carlos Eduardo Reis tornou-se um dos generais de Rio, desempenhando a partir da concelhia de Barcelos e do distrito de Braga papéis importantes nas vitórias de Rio contra Montenegro (diretas de 2020) e com Paulo Rangel (2021).
Nas autárquicas desse ano, conseguiu impor o nome de Mário Constantino como candidato contra a vontade expressa de Paulo Cunha, antigo presidente da Câmara de Famalicão, líder da distrital do PSD/Braga e atual vice-presidente de Luís Montenegro. A aposta voltou a revelar-se acertada: Constantino ganhou e Carlos Eduardo Reis saiu ainda mais reforçado politicamente.
A derrota de Rui Rio nas legislativas de 2022 precipitou a mudança de ciclo entre os generais. Desta vez, no entanto, Carlos Eduardo Reis decidiu ir para a linha da frente e assumiu o cargo de diretor de campanha de Jorge Moreira da Silva. O ex-ministro seria derrotado copiosamente por Luís Montenegro, mas Carlos Eduardo Reis deu mais uma prova do seu peso político: apesar de Montenegro ter vencido essas diretas por mais de 70% dos votos, Moreira da Silva conseguiu vencer a concelhia de Barcelos — bastião de Carlos Eduardo Reis.
Já com estatuto de peso pesado confirmado e confirmado, Carlos Eduardo Reis manteve-se como deputado, foi atirado para a última fila da bancada – onde se costumam sentar os proscritos quando há alternância nas lideranças – e, até ver, tem-se mantido discreto. A exceção foi a declaração de voto que assinou com André Coelho Lima, outro antigo general de Rio, em que arrasou a abstenção de Montenegro na moção de censura apresentada contra Costa.
Ambigold: a empresa contratada por Newton e com uma versão moçambicana com o sócio Sérgio
A ligação partidária cruzou-se, então com ligações empresariais. Newton contratou a empresa de Carlos Eduardo Reis e este chegou a ser sócio de Sérgio Azevedo numa empresa com o mesmo nome criada em Moçambique.
Em 2014, Luís Newton contratou a Ambigold, empresa detida por Carlos Eduardo Reis e sediada a quase 400 quilómetros da Estrela: foram 162 mil euros (132 mil mais IVA) para reabilitação dos espaços verdes. O contrato só seria publicitado no site Base.gov três anos depois (em 2017), três dias depois das primeiras perguntas do Observador sobre o assunto. O presidente da junta de freguesia Estrela admitia então ao Observador conhecer “pessoalmente” Carlos Eduardo Reis, mas destacava que “esse facto não pesou nos processos de contratação da junta” e acrescentava que “se tal pesasse então não teriam sido preteridos para outras empresas com propostas mais vantajosas para a Junta de Freguesia em anos posteriores.”
Carlos Eduardo Reis e Sérgio Azevedo – aliado político de Newton no PSD/Lisboa – também tinham uma ligação empresarial evidente: tinham criado a Ambigold InvestMoz, Limitad, em Moçambique. Sérgio Azevedo desvalorizava na altura, em declarações ao Observador, esta ligação: “Fiz uma viagem com o Carlos [Eduardo Reis] a Moçambique porque tínhamos um projeto social que consistia na criação de um campo de jogos desportivo para jovens carenciados na Praça dos Continuadores, em Moçambique, e para isso criámos uma empresa, numa espécie de simplex para empresas que existe em Moçambique.”
No entanto, garantia ao Observador Sérgio Azevedo, o projeto acabou por nunca se concretizar: “Era necessário ter parceiros desportivos que financiassem o projeto. Cheguei a apresentá-lo na Benfica TV, mas não arranjámos parceiros e o projeto nunca foi avante. A empresa está aberta, mas nunca teve atividade e declarei-a no meu registo de interesses como deputado. Assim que cheguei a Portugal declarei logo esse interesse, lembro-me que até fazia parte do Grupo de Trabalho de Registo de Interesses da Assembleia da República”. Já Carlos Eduardo Reis reiterava que se tratava de um projeto social, embora admitisse que havia “objetivos empresariais” na ida para Moçambique, já que “significava a entrada no mercado lusófono.”
Carlos Reis afirmava na altura ao Observador que a maior parte dos clientes da sua empresa não eram autarquias, mas sim “clubes e empresas privadas”, destacando que em Lisboa a Ambigold “também trabalha com juntas de freguesia do PS como Benfica ou São Domingos de Benfica”. Hoje, as suspeitas não se centram apenas nos contratos com o próprio partido, estando a ser investigados, precisamente, alegados acordos entre o Bloco Central.
Uma viagem que foi um negócio da China
Uma das polémicas a envolver este grupo de amigos foi uma viagem à China paga pela gigante de telecomunicações chinesa, Huawei. Luís Newton, Sérgio Azevedo e Ângelo Pereira fizeram a viagem em fevereiro de 2015, com uma duração de cinco dias, em que a estadia e os voos foram pagos pela empresa de telecomunicações. Os três confirmaram então ao Observador não só que tinham feito a viagem, como admitiram que foi a empresa chinesa a pagar. Ângelo Pereira é agora precisamente acusado de recebimento indevido de vantagem na sequência deste caso.
O epicentro da história reside na junta de freguesia da Estrela, em Lisboa. Luís Newton — que preside ao executivo daquela junta desde 2013 — tinha como uma das suas bandeiras o Geoestrela, um serviço que permite aos habitantes reportarem problemas que identifiquem nas ruas (como buracos na estrada, por exemplo). Quando decidiu arrancar com o projeto, revelava então Sérgio Azevedo ao Observador, Luís Newton “procurava um parceiro tecnológico que o pudesse ajudar”. E acrescentava: “Eu conhecia o Henrique Muacho e sabia que trabalhava nessa área, das novas tecnologias, e apresentei o Henrique ao Luís”.
Henrique Muacho ficou então de arranjar parceiros para o Geoestrela (o que não se terá concretizado), mas estabeleceu a ponte com a Huawei . A empresa chinesa convidou então Newton a ir fazer uma apresentação à China, que o próprio autarca confirmou ao Observador: “Na sequência dos projetos digitais que a junta de freguesia estava a desenvolver, fui contactado pela Huawei, que me convidou a fazer uma apresentação na China a técnicos da empresa”. E admitiu: “Foi a Huawei que suportou os encargos da minha estadia”. Newton não só não via qualquer problema ético nessa deslocação, como enaltecia o facto de a junta não ter pago um tostão: “O erário público não gastou um euro com esta viagem”.
Mais um pormenor da história, ainda que lateral: nos dois dias em que houve plenário da Assembleia da República enquanto estava na China (12 e 13 de fevereiro de 2015), Sérgio Azevedo (que o próprio definiu como uma viagem para “dar força a um amigo”) justificou as faltas com motivo de “força maior”.
A ligação de Luís Newton a Henrique Muacho, também ele militante do PSD, já existia antes desta viagem à China. De acordo com uma listagem de contratação administrativa da junta de Freguesia da Estrela de 2015, à qual o Observador teve na altura acesso (quando o mesmo não estava publicitado no Base.gov), a empresa Informantem, cujo presidente do Conselho de Administração era Henrique Muacho, foi contratada a 1 de maio de 2014 para serviços de “aluguer informático”: um contrato com um valor inicial de 2.178 euros. É depois registado um primeiro pagamento de 26.146 euros, aos quais se juntam 14.786,02 euros registados como “trabalhos a mais”. Assim, em 2015, ano da viagem, a junta terá pago 40.932 euros à empresa presidida por Henrique Muacho.
As polémicas de Newton
Se Sérgio Azevedo é a figura central, foi sempre mais discreto que Luís Newton. O atual presidente da junta da Estrela tem estado envolvido em polémicas praticamente desde que está na vida politico-partidária. Ainda antes de ser presidente de junta, houve sempre confusão quanto às suas qualificações. A 17 de abril de 2013, o Jornal de Negócios noticiava que era feita uma retificação no Diário da República para estabelecer que assessor do PSD não era licenciado. Meses depois do escândalo de Miguel Relvas, era assim publicado em DRE a indicação que onde se lia “licenciado Luís Pedro Alves Caetano Newton Parreira – (…) nomeado para a categoria de assessor do grupo parlamentar do PSD”, devia ler-se “Luís Pedro Alves Caetano Newton Parreira – (…)”. Ou seja: para retirar a palavra licenciado.
Esta não era, de resto, a primeira vez que Newton teve problemas com títulos. Em março de 2007, numa subdelegação de competências dada pelo vereador Paulo Moreira, era apresentado como “Eng. Luís Pedro Alves Caetano Newton Parreira” num despacho publicado em Boletim Municipal. Ora, se não era licenciado em 2013, muito menos era engenheiro em 2007.
Em julho de 2017, quando as eleições do PSD/Lisboa se tornaram num grande ato de cacicagem, Luís Newton foi um dos apanhados na angariação de votos. O próprio Luís Newton reconhecia então, em declarações ao Observador, que dirigentes próximos de si tinham listas “a fazer contagens”. E justificava: “Há mobilização e mobilização. Há cacique e cacique. O cacique normal é falar com as pessoas para as levar a votar. Ir buscá-las não. Há momentos em que temos de traçar uma linha. Isso só deve ser válido quando há uma dificuldade de mobilidade ou quando não têm forma de ir votar”.
O presidente da junta da Estrela fazia uma distinção entre “cacique saudável” e “cacique não saudável”: “Pegar no telefone é uma forma saudável de ver se estão interessados ou não em participar. O outro tipo de cacique, que não é saudável, é quando há operações financeiras envolvidas. Essa troca de participação política por dinheiro é uma coisa que me revolta e que repudio”. No entanto, Newton deixava a suspeição no ar sem ir ao ponto de acusar os adversários de pagarem pelos votos.
Após as autárquicas de 2017, houve o caso já relatado com José Eduardo Martins. Também já mais perto das legislativas de 2019, uma intervenção de Luís Newton a propósito das indicações para lista de deputados levou à demissão do então presidente da concelhia, Paulo Ribeiro. O incumbente queria enviar uma lista com vários nomes (para a nacional escolher) e Newton queria apenas dois: Rogério Jóia e Joana Monteiro.
Dois dias depois da notícia do Observador, deu-se mais um episódio caricato: a própria Joana Monteiro desconhecia que tinha sido apontada por Newton e — num email enviado à distrital, à qual o Observador teve acesso — negou ter autorizado que o seu nome fosse indicado para uma lista à Assembleia da República e disse desconhecer a pessoa que indicou o seu nome. Joana Monteiro dizia que além de não autorizar que utilizassem o seu nome foi também “motivo de surpresa (…) o facto de o meu nome ter sido proposto pelo dr. Carlos Martins, que não conheço, ou secundado pelo dr. Luís Newton, que também não conheço”.
À hora de fecho deste artigo, houve duas suspensões de mandato, mas Luís Newton continua a ser presidente da junta de freguesia da Estrela e líder da bancada do PSD na AML — apesar de ser deputado suspenso. Ângelo Pereira continua a ser líder distrital do PSD/Lisboa — apesar de já não ser vereador. E Carlos Eduardo Reis ainda não terá suspendido o mandato.