Índice
Índice
Em atualização
Dos mais velhos, que se recusaram a abandonar as casas de sempre, aos que quiseram apenas ficar os animais de estimação. Dos que entenderam lutar contra os devastadores fogos que continuam a alastrar em Los Angeles, até a um ator juvenil. Os incêndios que deflagraram no início da semana passada em Los Angeles já vitimaram pelo menos 24 pessoas, 16 no incêndio de Eaton e 8 do de Palisades.
Este é já considerado o fogo mais destrutivo da história da cidade, ainda que não seja o mais mortífero — essa lista é encabeçada pelos fogos de 2018, que causaram a morte a 85 pessoas. Contudo, as autoridades locais avisam que o número deverá aumentar nos próximos dias, numa altura em que a identificação das vítimas é em grande medida inviabilizada pelas condições difíceis criadas pelos focos ainda ativos.
Até domingo, as autoridades do condado de Los Angeles tinham identificado oficialmente duas das vítimas mortais, enquanto a imprensa norte-americana já avançou o nome de mais oito. Eis o que sabemos sobre elas:
Rory Sykes, 32 (Malibu)
Rory Sykes, 32, vítima dos fogos em Los Angeles
Rory Sykes nasceu cego e com paralisia cerebral. Foi submetido a várias cirurgias e tratamentos para conseguir começar a ver e aprender a andar, conta a mãe, Shelley Sykes, numa publicação nas redes sociais. Rory participou na série de televisão britânica KiddyKappers, em 1998, e tornou-se famoso por discursos e aparições públicas em que falava sobre como lidou com as deficiências com que nasceu.
It is with great sadness that I have to announce the death of my beautiful son @Rorysykes to the Malibu fires yesterday. I’m totally heart broken. British born Australian living in America, a wonderful son, a gift born on mine & his grandmas birthday 29 July 92, Rory Callum… pic.twitter.com/X77xyk83gx
— Shelley Sykes (@shelleysykes) January 9, 2025
Na quarta-feira passada, a propriedade de 17 hectares da família, em Malibu, foi consumida pelas chamas que têm lavrado vários pontos de Los Angeles. Rory tentava combater o fogo que tinha chegado ao telhado da casa, mas a falta de água criou-lhe dificuldades. “Ele disse: ‘Mãe, deixa-me’. Mas nenhuma mãe consegue deixar o seu filho. E eu tenho um braço partido, eu não conseguia levantá-lo, não o conseguia mover”, disse Shelley Sykes sobre os últimos momentos com Rory.
Erliene Kelley, 83 (Altadena)
Erliene Kelley, 83, vítima dos fogos em Los Angeles (ao centro)
No final dos anos 60, Erliene Kelley e o seu marido Howard compraram uma casa no bairro de Altadena, na zona este de Los Angeles, na base do Parque Florestal de Angeles. Foi nessa casa que o casal viu os filhos, netos e bisnetos crescer. Após Howard morrer, Briana Navarro, um das bisnetas do casal, mudou-se para a casa da bisavó com outros membros da família, contou ao LA Times.
Estavam todos em casa, na noite de terça-feira, dia 7 de janeiro, quando começaram a ver pela janela o fumo, aparecendo ainda à distância. Nesse noite, Navarro e o marido decidiram abandonar a casa, mas Erliene recusou-se a acompanhá-los. No dia seguinte, Navarro enviou uma mensagem em que perguntava à bisavó como se estava a aguentar sozinha em casa. “Na sala, olhando lá para fora”, respondeu Kelley. “Vou tirar uma foto”, escreveu.
Briana Navarro nunca chegou a receber a foto da bisavó. No dia 9, a polícia informou a família da vítima que tinha encontrado um corpo entre os escombros da casa.
[Já saiu o quarto episódio de “A Caça ao Estripador de Lisboa”, o novo Podcast Plus do Observador que conta a conturbada investigação ao assassino em série que há 30 anos aterrorizou o país e desafiou a PJ. Uma história de pistas falsas, escutas surpreendentes e armadilhas perigosas. Pode ouvir aqui, no Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube. E pode ouvir aqui o primeiro episódio, aqui o segundo e aqui o terceiro episódio]
Anthony Mitchell Sr., 68, e Justin Mitchell (Altadena)
Anthony Mitchell Sr., 68, e vários membros da sua família. Anthony e o filho Justin foram vítimas dos fogos em Los Angeles
Também no bairro de Altadena, cinco pessoas morreram num espaço de poucos quarteirões. Perto da casa de Erliene Kelley, morreram Anthony Mitchell Sr. e o filho Justin Mitchell. Anthony, 68 anos, era amputado e movimentava-se numa cadeira de rodas. Vivia com dois dos seus filhos numa casa de família, que tinha passado por várias gerações. Um deles, Jordan cuidava do pai e do irmão Justin, na casa dos 30 anos, nascido com paralisia cerebral.
No início da semana passada, Jordan tinha ido para o hospital devido a um problema de saúde, deixando o pai e o irmão sem o cuidador habitual . Na quarta-feira, Anthony Mitchell Sr. terá ligado a outro filho, informado-o que ele e Justin estavam à espera de serem retirados de casa. Às 20h desse dia, foram ambos encontrados mortos dentro da habitação.
Victor Shaw, 66 (Altadena)
Victor Shaw, 66, vítima do fogos de Los Angeles
Ainda no bairro de Altadena, na terça-feira, Shari Shaw fez uma visita ao irmão Victor, à casa que tinha sido outrora dos seus pais e onde este vivia. Shari conta que o irmão sofria de diabetes, doença crónica nos rins, problemas de respiração, de equilíbrio e de visão. Ainda assim, quando Shari começou a fazer malas com as coisas de Victor e a empacotá-las na sua carrinha, o irmão recusou-se a deixar a casa para trás.
Após muita insistência sem resultados, Shari decidiu entrar na carrinha e retirar-se do local onde as chamas estavam cada vez mais próximas. Pensou que pudesse morrer, se ficasse ali com o irmão. Durante toda a noite, as chamadas para o telemóvel de Victor ficaram por atender. Quando voltou ao bairro, encontrou o corpo inanimado do irmão agarrado a uma mangueira. Estava deitado no passeio em frente à casa, que ficou completamente consumida pelas chamas.
Rodney Nickerson, 82 (Altadena)
Rodney Nicerson, 82, vítima dos fogos de Los Angeles
Em 1968, Rodney Nickerson comprou a sua casa, também no bairro de Altadena, por apenas 5 dólares, contou a sua filha Kimiko, ao jornal norte-americano KCAL News. Mas trabalhou ao longo dos anos para a valorizar, construindo uma piscina no jardim. Foi ali onde criou os filhos e os netos.
Rodney era engenheiro aeroespacial e trabalhou para a empresa Lockheed Marin, durante 45 anos. Quando, em 1989, a firma se mudou de Burbank, a meia hora de Altadena, para Palmadale, cidade do outro lado da Floresta Nacional de Los Angeles, Nickerson passou a fazer quase 210 quilómetros diários, na ida e volta, de casa para o trabalho. Tudo para não ter de deixar para trás a sua casa.
Quando na terça-feira o incêndio de Eaton deflagrou a menos de cinco quilómetros da habitação, o neto com quem vivia preparou as coisas para ambos a abandonarem. “Se precisar, eu vou”, terá dito Rodney, ao neto, recusando, mais uma vez, mudar-se.
A família ficou em contacto com Rodney pelo telemóvel durante a noite, até este ir para a cama, conta a filha Kimiko. “Vai tudo correr bem”, disse-lhe, na noite de terça-feira, dia 7. “Eu estarei aqui quando voltarem”, acrescentou, naquela que seria a última conversa que tiveram. Quando lhes foi permitido retornar a casa, encontraram o corpo de Rodney sem vida.
Annette Rossilli (Pacific Palisades)
Arnette Rossilli, 80 anos
Annette Rossilli morreu na terça-feira dentro do seu carro, à porta da sua casa, no bairro de Pacific Palisades. Nesse mesmo dia, um funcionário da seguradora de saúde que Rossilli subscrevia, Fay Vahdani, foi à habitação para a que a octagenária fosse retirada da zona de perigo, numa altura em que o incêndio de Palisades se aproximava. Um outro cuidador particular de Rossilli, que na terça-deira estava de folgaao trabalho, também estabeleceu contacto com ela, oferecendo a sua casa como refúgio. O mesmo fizeram outros dois vizinhos.
Annette Rossilli terá recusado as ofertas de todos eles, afirmando que preferia ficar em casa com os seus animais domésticos: dois papagaios, um canário, uma tartaruga e um cão. “Nós podíamos facilmente tê-la levado connosco”, disse Vahdani. “O problema é que nunca se pode forçar ninguém a fazer nada. Foi a escolha dela”, acrescentou.
Vahdani conta como Rossilli, viúva, tinha dificuldade em andar. “Ela deve ter ficado tão frustrada que conseguiu descer as escadas e entrar no carro, mesmo já não sendo capaz de conduzir”, afirmou.
Randall Miod, 55 (Malibu)
Randall Miod, 55, vítima dos fogos de Los Angeles (à direita)
Há três décadas, Randy Miod mudou-se para Malibu, onde alugou um estúdio adjacente a um grande casa que parecia um celeiro, localizada perto da praia. Mais tarde, o senhorio ofereceu-lhe a oportunidade de se mudar para a residência principal e Miod aproveitou-a.
Na semana passada, quando se tornou seguro voltar às casas destruídas pelo fogo em Malibu, os restos mortais de Miod foram encontrados na habitação, segurando o seu gato, segundo o Malibu Times. A mãe da vítima, Carol Smith, disse à CNN que o filho “tinha passado e sobrevivido tantos fogos do género que pensou que o mesmo voltaria a acontecer”. “Agora, lembro-me de quantas memórias ele tinha naquela casa. Eu percebo porque é que ele não quis ir embora”, acrescentou.
Arthur Simoneau (Topanga)
Arthur Simoneau, vítima dos fogos de Los Angeles
Arthur Simoneau foi mais uma das vítimas que morreu a tentar salvar a sua habitação do grande incêndio de Palisades. Simoneau era uma referência na comunidade de asa delta na região. O filho Andre descreve o pai como alguém que mostrava aos outros como poderiam viver com o “entusiasmo de uma criança”. Numa angariação de fundos que criou online, Andre afirma que o pai morreu a proteger a sua casa em Topanga, “fazendo algo que apenas ele era suficientemente corajoso (ou louco) para fazer.”
Charles Mortimer, 84 (Palisades)
Charles Mortimor, 84, vítima dos fogos de Los Angeles
Uma das duas mortes oficialmente confirmadas no domingo pelo gabinete médico do condado de Los Angeles foi Charles Mortimer. Num comunicado à ABC, a sua sobrinha lamentou a morte no incêndio de Palisades, lembrando Charles como um viajante do mundo e uma amante de desporto.