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Processo de seleção de candidatos autárquicos está mais idêntico com aquele que foi seguido nas legislativas
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▲Processo de seleção de candidatos autárquicos está mais idêntico com aquele que foi seguido nas legislativas

LUSA

▲Processo de seleção de candidatos autárquicos está mais idêntico com aquele que foi seguido nas legislativas

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Registo criminal e comprovativo de não dívida. Chega aperta critérios a candidatos autárquicos após casos embaraçosos

Apesar de casos "impossíveis de prever", no Chega assume-se que um processo de seleção mais apertado terá capacidade de evitar erros de casting do passado e contribuir para melhores candidatos.

Numa altura em que o Chega tem estado debaixo dos holofotes com casos embaraçosos e para evitar erros de casting que trouxeram dissabores nas últimas eleições locais, Ventura apertou os critérios de seleção para candidatos autárquicos, pediu comprovativos de não dívida e registos criminais, à semelhança do que já tinha feito nas legislativas. No partido garante-se que as escolhas já estavam a ser muito mais escrutinadas do que nas últimas autárquicas, porém assume-se que as notícias das últimas semanas aumentaram o nível de preocupação e levaram a apertar ainda mais a malha.

“Erros todos os partidos cometem, vamos cometer erros, como os outros já cometeram erros e vão continuar a cometer. Mas a seleção tem de ser ainda mais rigorosa com o que tem acontecido”, reconhece Pedro Pinto, secretário-geral do Chega e um dos responsáveis máximos pelos candidatos escolhidos para ir a votos pelo partido.

A Comissão Autárquica Nacional (CAN) do Chega optou por aplicar agora critérios idênticos aos que foram pedidos anteriormente para os candidatos às legislativas: registo criminal, declaração de compromisso de honra em como não tem processos a decorrer na justiça e declarações de não dívida às Finanças e Segurança Social. Fonte oficial da CAN explica ainda ao Observador que um candidato a candidato é obrigado a tirar o registo criminal, pedindo “acesso ao respetivo registo (art. 35 CR)”, não sendo suficiente aquele que habitualmente é tirado para candidaturas políticas específicas.

A somar aos documentos sem os quais não é possível ser candidato do Chega, e à nota biográfica que as estruturas locais têm de apresentar, o processo implica entrevistas pelo menos aos cabeças de lista de cada candidatura, sendo que fonte da CAN assegura que tem havido um escrutínio mais alargado e que engloba todas as pessoas que podem vir a ser não só eleitas, como representantes. “Se temos a possibilidade de eleger quatro, o nível de escrutínio tem de estar no mesmo nível até ao oitavo lugar”, justifica, designadamente por haver espaço para a substituição dos eleitos pelos suplentes nas assembleias de freguesia, o que levou o Chega a querer antecipar problemas.

O processo, apesar de agora ser mais rigoroso, segue os mesmos trâmites do passado: começa nas concelhias, passa pelas distritais, dá entrada na comissão responsável, num trabalho conjunto com os secretários-gerais do partido — Pedro Pinto e Rui Paulo Sousa —, e termina na direção, com o aval de André Ventura nos casos em que há essa necessidade. De resto, sobra a “boa-fé”, resume a mesma fonte da CAN em declarações ao Observador, admitindo que se não existe qualquer indício relativamente à integridade da pessoa é impossível antecipar problemas ou fazer futurologia sobre uma mancha no currículo ou um podre que alguém possa esconder.

"O processo autárquico envolve milhares de pessoas, vamos errar como todos os partidos vão errar."
Pedro Pinto, secretário-geral do Chega

Casos e casinhos apertam escrutínio do Chega

Pedro Pinto, secretário-geral do Chega, reconhece que os casos e casinhos que meteram o Chega no centro do furacão obrigaram a que “a seleção tenha de ser ainda mais rigorosa”. Ainda que explique que os processos já estavam em andamento e que não houve mais documentos solicitados do que os previstos, o líder parlamentar do Chega assumiu que “agora apertou-se ainda mais”. “O processo está a ser diferente porque passa mais diretrizes, é mais selecionado, até pelos casos que têm acontecido é normal que sejam mais escrutinadas”, argumentou.

Ciente de que os partidos políticos são “cada vez mais escrutinados”, Pedro Pinto não só considera que é preciso “primar pelas pessoas que se trazem para a política”, como entende que há uma “reciclagem feita pelas próprias pessoas”. E acrescenta: “Este tipo de casos afasta as pessoas que tiveram problemas porque sabem que vão ter exposição pública.” E o Chega sentiu-o, já que confirmou que vários protocandidatos acabaram por desistir a meio do processo.

Independentemente do processo, uma coisa é certa e o próprio dirigente nacional o admite: os erros não vão desaparecer. O objetivo, salienta, é “escolher as melhores pessoas” para cada lugar e para representar as cores do partido, mas “erros todos os partidos cometem”. “O processo autárquico envolve milhares de pessoas, vamos errar como todos os partidos vão errar”, salienta, justificando que os casos que vieram a público e que deixaram o Chega debaixo de todos os holofotes são “impossíveis de prever” por se tratar de “falhas humanas”.

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Aliás, num dos casos mais difíceis para o Chega pelo assunto em causa — quando Nuno Pardal, deputado municipal do Chega, foi acusado de dois crimes de prostituição de menores —, a argumentação de André Ventura assentou em duas premissas: o partido tem casos como todos têm e a diferença está na reação aos mesmos. “Há momentos da história em que temos de mostrar a massa de líderes de que somos feitos. Houve outros que protegeram Paulo Pedroso, Ferro Rodrigues e casos parecidos, eu não sou assim, vou exigir consequências desde o primeiro momento. (…) Um líder não escolhe os casos, mas escolhe a reação aquilo que acontece”, disse logo no dia em que a notícia foi tornada pública.

Nas últimas semanas o Chega tem revelado candidatos autárquicos por todo o país e não faltam nomes da bancada parlamentar do partido. Rita Matias em Sintra, Rui Paulo Sousa na Amadora, Rui Afonso por Gondomar, Bruno Nunes em Loures são alguns desses nomes.

Deputados chamados para evitar erros de casting

O afunilamento de possíveis candidatos pretende evitar os “erros de casting graves” assumidos pelo Chega no passado, justificados pelo facto de o partido, com apenas dois anos, ter estabelecido a meta de conseguir ter presença em todos os boletins de votos nas autárquicas de 2021. Em entrevista ao Observador, Nuno Afonso, que era coordenador autárquico na altura das escolhas, assumiu “responsabilidade” por “escolhas que possam ter sido menos boas”, mas assegurou que “isso fez parte de uma estratégia” que tinha um “risco assumido”.

Já Bruno Nunes, que foi sucessor de Nuno Afonso como coordenador autárquico, chegou a dizer ao Observador que nessa altura era preciso “correr o risco” e que, com a saída ou renúncia de deputados municipais e vereadores, houve uma “seleção natural que não foi possível fazer no início”. O deputado do Chega argumentou mesmo que a pressão para ir a todas as batalhas eleitorais pelo país permitiu a entrada de pessoas que tinham “objetivos pessoais” e que por isso, logo que puderam, “aceitaram pelouros” em câmaras.

Seja porque viraram as costas ao partido e se tornaram independentes, seja porque deixaram os lugares em rutura com estruturas locais ou até por questões pessoais, o Chega perdeu dezenas de autarcas nos últimos quatro anos. Agora, calejado pela quantidade de dissabores acumulados, o Chega procurou antecipar problemas e não foi só na seleção: a aposta em deputados, à partida, traz mais garantias a Ventura, que sabe com o que contar.

Deputados da bancada do Chega

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Nas últimas semanas o Chega tem revelado candidatos autárquicos por todo o país e não faltam nomes da bancada parlamentar do partido. Rita Matias em Sintra, Rui Paulo Sousa na Amadora, Rui Afonso por Gondomar, Bruno Nunes em Loures, José Barreira Soares em Vila Franca de Xira, João Tilly por Seia, Bernardo Pessanha em Viseu, Pedro Correia por Santarém, Manuela Tender por Chaves ou Nuno Gabriel a Sesimbra preenchem candidaturas a câmaras de todo o país, sendo que ainda há nomes por colocar em câmaras relevantes, desde logo na região de Lisboa.

As câmaras de Lisboa e Porto continuam por decidir, sendo que André Ventura tem a ambição de conseguir nomes que permitam ao partido fazer melhor do que há quatro anos, já que, apesar de ter chamado “dia da implantação” , o Chega não elegeu vereadores em quatro das câmaras mais relevantes do país: Lisboa, Porto, Setúbal e Braga. Seja como for, André Ventura tem o poder de decisão em autarquias com mais de 100 mil habitantes e com um orçamento superior a 100 milhões de euros. No fim do dia, todas as escolhas podem passar por si, mas nestes casos a direção está mandatada para escolher, independentemente da opinião das estruturas locais.

Numa altura em que o Chega tem sido posto à prova com casos e casinhos — alguns que tocam no coração das maiores bandeiras que defende —, e foi acusado por todos os partidos de estar a usar a moção de censura ao Governo como uma “manobra de diversão” para esconder o que tem estado a passar, André Ventura procura urgentemente uma vitória eleitoral palpável, que enterre finalmente o resultado das europeias e permita ao partido demonstrar que é mesmo capaz de “acabar com o bipartidarismo” — uma expressão muito usada por Ventura antes e depois da noite eleitoral onde conseguiu eleger 50 deputados. Com tudo isto, é nas autárquicas — em que o Chega acredita que vai conquistar, pela primeira vez, câmaras e juntas de freguesia — que está o foco do partido. Desta vez, esperam, com menos tropeções.

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