A rua é íngreme e estreita o suficiente para que os carros que passam em sentidos contrários quase se toquem. É pouco movimentada, mas é praticamente a única ligação a Porto Brandão, localidade do concelho de Almada com vista privilegiada para Lisboa. Frederico Castela conhece de cor a paisagem que esta quarta-feira, fruto do nevoeiro, mal se vê. “Já vivo aqui há 58 anos, nasci aqui”. Mas, de olhos postos nas arribas, aponta o maior medo. “É possível que a minha casa seja afetada, da maneira que aquilo está lá em baixo, se agora vem mais uma chuvada, eu acho que isto vai tudo por aí abaixo, vai rebentar com isto tudo”.
A preocupação é legítima. De cigarro na boca e ao volante da carrinha, Frederico é barrado pela GNR, que impede a passagem até ao rio, para lá da bifurcação onde se esconde o edifício amarelo com um toldo que identifica o café Fonte Santa. “Estacione aí o carro”, ordena um militar. Depois de explicar que é morador e que tem medo do que pode acontecer se não desligar o gás, é aberta uma exceção e o homem consegue descer até casa, com a promessa de um rápido regresso.
Mesmo em frente à casa de Frederico, a presença de populares é estranhada pelos militares e pelos vários funcionários da câmara que olham para a derrocada que cobriu a estrada de terra, pedras e vegetação. “Não podem estar aqui”, avisam aos populares. Mas mostram-se surpreendidos ao saber que, apesar de terem cortado o acesso principal, há pelo menos uma outra rua que dá acesso ao local da derrocada que continua aberta.
Na impossibilidade de continuar a descer, Félix vê-se obrigado a subir, lentamente e apoiado numa muleta, a rua que segue desde o rio até atingir quase 100 metros de altitude. “Já não dá para passar”, lamenta. Nem para entrar, nem para sair de Porto Brandão. Por isso, a Proteção Civil e a autarquia tiveram que optar por tirar todos os moradores da localidade — a zona começou a ser evacuada há uma semana, quando foram retiradas 42 pessoas de casa; mas o alarme subiu e esta quarta-feira foram retiradas 250.
20% desses moradores tiveram que recorrer à alternativa criativa da autarquia. “48 pessoas, cinco animais de companhia e cinco veículos” foram transportados pelo rio, com apoio da Transtejo, para a Trafaria, confirmou a Câmara Municipal de Almada ao Observador. Se mais de metade dos deslocados não precisou de ser realojado pela autarquia, outros 118 foram distribuídos por hotéis e outros alojamentos onde têm pernoitado.
A passar dias complicados, que o levaram a faltar ao trabalho como motorista da Carris, Ailton agradece o apoio da câmara, mas lamenta a imprevisibilidade de uma natureza que, nos últimos dias, não tem sido meiga com os habitantes de Porto Brandão — nem com os portugueses. “Estamos bem tratados [no hotel]”. Mas, enquanto aproveita um curto espaço de tempo sem chuva para passear, acrescenta: “Não temos previsão para sair daqui… o que vão fazer connosco?”.
▲ As imagens no local onde houve uma derrocada, vistas a partir da casa de Frederico, um morador. Terra viria a ganhar mais metros à rua
Moradores saíram de casa à pressa, apenas com o que tinham no corpo. “Proteção Civil disse ‘vamos ter que sair agora’ e nós saímos”
Esta quarta-feira o alarmismo tornou-se mais claro na rua 1.º de Maio. Mas há poucos dias as pessoas já tinham saído à pressa de casa e com pouco tempo para organizar uma mala com roupa ou bens essenciais. Longe do calor e dos dias de sol, a roupa continua estendida à porta das casas dos habitantes que foram alertados pelas autoridades. “A Proteção Civil disse ‘vamos ter que sair agora’ e nós saímos só com a roupa que temos no corpo”, explica Ailton, enquanto aponta para o fato de treino que vestia há quatro dias e com que continua hoje.
“A área e o perímetro em risco tem vindo a aumentar porque o problema está na parte superior, na Azinhaga dos Formozinhos. Temos vindo a avaliar paulatinamente a área que está em risco e a parte de baixo de Porto Brandão precisa, por uma questão de segurança e prevenção, de ser evacuada”, explicou esta quarta-feira aos jornalistas Francisca Parreira, vereadora responsável pela Proteção Civil na autarquia de Almada.
Uma carrinha branca da câmara é o único movimento no troço de 500 metros que separa a primeira barreira de segurança da GNR (numa bifurcação) e a zona da derrocada, onde se juntam funcionários municipais e dois militares que não se terão apercebido que não condicionaram um outro acesso ao mesmo local, através de uma rua perpendicular. A 5 de fevereiro já se tinha verificado uma primeira derrocada, mas a que se notou na tarde desta quarta-feira, apesar de pequena, veio complicar os trabalhos de evacuação, ao tapar a única rua que liga a localidade costeira à Caparica.
Identifica-se ao longe a farda dos GNR e os casacos refletores dos trabalhadores municipais. Junto a eles, está Lenise, preocupada. “Não pode passar, aquilo vai cair mais. Se não for hoje é noutro dia”, ouve de um GNR. Responde que precisa de passar pela derrocada para chegar a casa e saber como está um familiar, porque ainda não conseguiu falar com ele.
O tempo passa com Lenise agarrada ao telemóvel a tentar falar com o familiar. Alguns minutos depois, ganha forças e sobe a rua, deixando a casa para trás. Mas vai mais aliviada. “Já foi retirado de barco”, explica, depois de passar a barreira de dois GNR que evita a passagem a vários carros que tentam descer a rua. O familiar de Lenise foi apenas um dos 48 moradores que já não conseguiram usar a estrada para escapar à possível derrocada.
“Fizemos esse transbordo às três e meia da tarde e continuamos disponíveis para o que for necessário fazer”, assumiu Rui Ribeiro Rei, presidente da Transtejo-Soflusa em declarações à agência Lusa. O transporte foi solicitado pela Proteção Civil ao princípio da tarde. A operação, articulada entre a Proteção Civil municipal e a GNR decorreu entre as 15h15 e as 16h15, e foi assegurada com o ferry “Lisbonense”.
“Nunca vi uma coisa assim”. Frederico teme que a casa sofra com novas derrocadas
Lenise cruza-se com Frederico. A jovem vai a subir, depois de saber que o familiar tinha solução. O homem que nasceu em Porto Brandão há mais de meia década quer descer para tentar evitar uma desgraça maior. A derrocada “é mesmo em frente à minha casa, é mesmo aqui”, assume, enquanto aponta para a casa visível na imagem captada pelo Observador da derrocada. “Estão lá uns postes que estão sempre inclinados, aquilo é mesmo muito perigoso”.
Apesar do risco, a GNR deixa passar o morador que está desde terça-feira fora de casa. “Agora vou descer, porque tenho que desligar o gás”. Além disso, quer ir buscar roupas para a mãe, que está a dormir na casa do irmão e por isso, tal como o filho, não precisou de ser realojada pela câmara. Olha para o cigarro que tem na mão e posiciona-o melhor na mão para aproveitá-lo até ao fim. Olha para a rua que conhece como ninguém (e que não costuma ter muito movimento) e diz que está ainda mais vazia. “Porto Brandão está sem ninguém”.
“Nunca vi uma coisa assim… está tudo a cair. Se aquela parte cai, enterra tudo, fica tudo desgraçado, eu não sei como é que isto vai ficar”. Vai apontando e descrevendo os contornos das arribas, como quem fala das linhas na palma da mão. Mas não previu esta derrocada (ou outras, eventuais, mais destrutivas). A Proteção Civil avisou-o na terça-feira. “Vieram do nada. Foram a casa e avisaram. A presidente da Câmara também veio e viram que isto não estava em condições e evacuaram tudo, tudo, tudo”.
O orgulho com que descreve a terra que o viu nascer e crescer, não se traduz em otimismo. “Isto foi tudo de repente. Fizeram obras lá e aquilo caiu tudo, aquela parte toda. Agora as pessoas estão com medo, se aquelas rochas vêm por aí abaixo, Porto Brandão acaba”.
▲ Derrocada impediu acesso a Porto Brandão. Moradores tiveram que ser retirados de barco
Carmen ainda não tem onde ficar. Ailton, já realojado, teme o futuro: “O meu psicológico não dá para trabalhar”
Tudo se passa a poucos metros da barreira da GNR. Lenise mostra-se aliviada. Frederico receoso. E Ariadne perdida, com o carro estacionado, carregado de malas e pronto a arrancar. Está ali há cerca de três horas, desde o meio-dia, à espera de saber onde vai passar a noite. Recusou, inicialmente, o apoio da câmara, porque um conhecido tinha-lhe garantido estadia — aceitou e agradeceu, por ter um local mais familiar para passar a noite (que deverão tornar-se em noites) com o filho, ainda criança.
Passado pouco tempo, já com tudo preparado, esse conhecido recusou-lhe a estadia. “Não se brinca assim com a vida das pessoas”, lamenta. Diz que não é como cancelar um jantar ou um almoço. Ficou sem chão e agora está à chuva à espera de uma resposta, sem poder regressar a casa e enquanto aguarda a ajuda definitiva da câmara. Alheio à preocupação da mãe, o filho sorri enquanto brinca com um GNR fardado.
Além do filho, tem a companhia de um casal amigo. A amiga Carmen diz que a sua principal preocupação é Ariadne. “Eu estou vou para qualquer lugar, ela tem um filho pequeno, precisa mais de ajuda. Eu vou para qualquer lugar, durmo aqui no carro se precisar”. Apesar de assumir um ligeiro arrependimento por ter emigrado — nunca pensou que ao trocar o Brasil por Portugal iria conviver com situações destas — Carmen mantém algum otimismo.
Ao mesmo tempo, relata uma dificuldade, também confirmada ao Observador por trabalhadores municipais no terreno. “É um lugar muito calmo, nunca se veem muitas pessoas na rua, não dá para bater à porta dos vizinhos e perguntar se está tudo bem”. O município reitera que tem sido complicado avisar todos os moradores, uma vez que às vezes os avisos de evacuação são realizados quando os moradores estão a trabalhar e, por isso, quando regressam a casa, já de noite, não têm conhecimento das ordens.
“Ligaram-me a dizer que ia acontecer [a derrocada]. Quando saí [de casa] ainda não tinha acontecido. Passei lá de bicicleta, estava a tirar tudo o que podia tirar: higiene pessoal, alguma comida, algumas roupas”.
▲ Hotel onde está alojado Ailton é um dos vários que recebeu moradores deslocados de Porto Brandão
Oportunidade distinta teve Ailton, que vive em Porto Brandão com a mulher, o filho e duas sobrinhas. “Há quatro dias”, a Proteção Civil bateu-lhe à porta a pedir uma retirada imediata, conta o próprio, à porta de um dos vários hotéis onde, agora, estão realojados os moradores deslocados. “Estávamos em casa e um muro caiu lá perto, de uma casa vizinha”. Só esta quarta-feira conseguiu regressar a casa e ver a destruição.
Levava consigo a ideia de ir buscar mais roupa ou mantimentos. “Nós saímos de casa sem nada, não apanhamos nada”. Mas quando regressou ao hotel, vindo de casa, estava de mãos a abanar. “Não consegui entrar, porque eles não deixaram. Hoje estava pior, estive lá pelas 9h e não consegui trazer nada”. Em casa deixou o uniforme, essencial para poder trabalhar ao volante dos autocarros da Carris. “Fui à empresa pedir um uniforme e eles deram. Mas o meu psicológico não dá para trabalhar”.
Esta quarta-feira, 118 pessoas e 46 animais foram acolhidos pela câmara (as pessoas foram distribuídas por vários locais onde estão agora realojadas). Outras 132 também saíram de casa, mas arranjaram solução particular. A 4 de fevereiro já tinham sido retiradas 42. Esta quarta-feira também ocorreu uma derrocada em São João da Caparica, mas as 31 pessoas afetadas já regressaram a casa.
Ailton vai acenando a cabeça com ar de desilusão. “Para já não [a câmara] não tem previsão de quando vamos regressar. Nós estamos aqui, estamos bem tratados, mas não temos previsão de sair daqui. Não temos informação, o que vão fazer connosco?” A conversa acaba quando o homem retoma o caminho. Aproveita os poucos momentos sem chuva para esticar as pernas e sair do hotel, onde o filho e as sobrinhas passam menos tempo, porque têm conseguido ir à escola. Tal como eles, os restantes moradores de Porto Brandão anseiam pelo regresso a casa. Querem trocar o olhar apreensivo nas arribas pelo desfrutar da vista sobre o Tejo.
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