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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Seguro sobre Mendes revelar clientes: "Quem não deve, não teme"

Seguro diz que caso Spinumviva está esclarecido na justiça, mas que Montenegro podia ter poupado o País ao revelar logo tudo. Considera "gravíssimo" os 75 mil encontrados no gabinete de Escária.

António José Seguro considera que “a justiça concluiu o seu trabalho” no caso Spinumviva, mas diz que se teria “poupado imenso tempo” se Luís Montenegro tivesse revelado “todas as informações” logo no início do processo. E garante que teria sido proativo como Presidente da República: “Teria tido uma conversa com o primeiro-ministro em Belém”.

Em entrevista ao Observador, no programa “Sob Escuta Especial Presidenciais”, o antigo líder do PS nunca nomeia diretamente Marques Mendes, mas diz que “não é ético” que alguém com intervenção na vida política “vá bater à porta de um gabinete de ministério” em representação de “um homem de negócios”. E chegou a utilizar a expressão “quem não deve não teve”.

Após as suspeições deixadas por Gouveia e Melo sobre outros candidatos presidenciais, Seguro garante que não é maçon, embora admita já ter participado em encontros mistos (de maçons e não-maçons) organizados por obediências maçónicas. E devolve a pergunta ao almirante, dizendo que “quem acusa, no Estado de Direito, tem de provar”.

António José Seguro diz ainda que é “gravíssimo” terem sido encontrados 75 mil euros no escritório do chefe de gabinete do então primeiro-ministro António Costa. No entanto, evitou várias vezes comentar os oito anos de governação do socialista, alegando sucessivamente que não queria “falar do passado”. Chegou, a este propósito, a atirar: “Não estou num museu”.

“Teríamos poupado imenso tempo se logo no início o primeiro-ministro tivesse prestado todos os esclarecimentos”

O Ministério Público decidiu arquivar a averiguação preventiva que tinha como alvo a Spinumviva, a empresa familiar do primeiro-ministro. Para si, o assunto está completamente encerrado, não lhe oferece mais dúvidas?
Em função das informações que estão disponíveis, parece que a Justiça concluiu o seu trabalho. Mas a questão deve ser colocada também do ponto de vista da transparência pública que todos estes atos devem ter. E acho que devíamos ter poupado imenso tempo se, logo no início, o primeiro-ministro tivesse prestado todos os esclarecimentos e todas as informações ao país.

Como Presidente teria exigido isso?
Teria tido uma conversa com o primeiro-ministro em Belém.

A uma quinta-feira, em privado?
Não, nesse caso não esperaria por quinta-feira.

Mas o poder da palavra do Presidente publicamente também não seria importante?
Dependeria da gravidade da situação. Há uma coisa que nós temos que nos habituar: uma coisa é o papel da Justiça, que deve funcionar, deve ser competente e deve ser esclarecedora. Outra coisa é o papel da transparência na vida pública. Um Presidente da República, um primeiro-ministro, um deputado, devem esclarecimentos públicos. E devem fazê-lo com total clareza. Não pode haver suspeições, nem dúvidas sobre nenhum responsável político no nosso país. São esses dois campos que eu distingo.

O Procurador-Geral da República pediu escusa neste caso por considerar estar em causa a sua “imparcialidade”. Amadeu Guerra tem condições para se manter como PGR quando fez aqui uma declaração direta que a sua autonomia pode estar em causa numa questão concreta sobre o poder político?
Não seria tão dramático desse ponto de vista. Ele entendeu que deveria, sobre esse assunto, pedir escusa. Presumo que tenha a ver com o facto de ter sido indicado por este Governo. Mas não conheço o fundamento dessa decisão. Não considero que deva dizer absolutamente nada sobre esse assunto. Sou candidato a Presidente da República.

Pode ter que ser chamado a falar sobre a recondução deste Procurador daqui a algum tempo.
Sim, mas também já disse publicamente que uma das minhas primeiras reuniões vai ser com o Procurador.

Continua a querer fazer essa reunião?
Quero.

E essa reunião é para quê?
Não será sobre casos ou processos. Aliás, o Presidente da República não deve, do meu ponto de vista, ter essa intromissão. Mas tem a ver com o funcionamento da própria Justiça. Tem a ver com a celeridade, tem a ver com a competência, tem a ver com as decisões e também tem a ver com os esclarecimentos e as posições públicas.

Defende que o PGR deve deve ter mandato único?
Não me vou meter nisso. É uma matéria do Parlamento.

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“O nosso papel é responder a todas as perguntas que nos fazem”

Luís Marques Mendes fez grande parte da sua vida profissional na advocacia — e num grande escritório de advogados. Deveria revelar os clientes com quem trabalhou?
É uma matéria que compete a cada candidato. Sempre defendi total transparência na vida pública. Portanto, se me pedirem informação sobre a minha vida, sobre a minha atividade profissional, e se considerar que ela é indispensável para que se faça um escrutínio ético sobre o meu percurso, prestarei essas declarações e essas informações. Tornarei isso público. Numa fase em que há tanta desconfiança sobre o sistema político e dos políticos, o nosso papel não é esconder; o nosso papel é prestar esclarecimentos, é responder a todas as perguntas que nos fazem.

Num debate com António Costa para a liderança do Partido Socialista, disse-lhe que entre os apoiantes dele “havia uma promiscuidade total entre o sistema financeiro, os negócios e a política”. Nos governos de António Costa existiu esta promiscuidade, ou estava enganado quando fez essa avaliação?
Não sou comentador e muito menos me candidato a líder de um partido. Sou candidato da Presidente da República. Não vou fazer comentários sobre coisas do passado.

Isto é uma citação sua. Viu essa promiscuidade nos governos que se seguiram?
Não vou fazer comentários sobre o passado.

Mas está a candidatar-se a Presidente da República. Um dos papéis do Presidente da República é articular-se, avaliar, vigiar o governo. Seria interessante perceber que avaliação faz dos governos de António Costa e também do atual.
Não me estou a candidatar para o período 2016-2026. Há aí um equívoco. Estou-me a candidatar para 2026-2031.

Seria importante para os eleitores perceber qual a sua grelha de avaliação.
A minha grelha de avaliação tem a ver com o futuro. Falem-me do futuro ou sobre a atualidade e tenho muito gosto em responder.

Também nesse debate disse que há “um partido invisível na sociedade portuguesa que corresponde a poderes fáticos que tem diversas expressões nos partidos de poder e noutras organizações”. Esse “partido invisível” ainda existe hoje?
Há zonas na nossa vida pública e política que, do ponto de vista ético, muitas das vezes levantam questões e suspeitas. Por isso é que todos os agentes políticos devem esclarecer e responder a todas as perguntas. Aquilo a que vulgarmente se chama de portas giratórias. Há pessoas que agem do lado do mundo dos negócios e não é muito clara a forma como se relacionam com os poderes públicos e gabinetes ministeriáveis. Tem de haver uma clareza total. Sempre defendi uma separação entre os negócios e a política. Mantenho e pratico-a.

Para ser absolutamente claro: está a falar de Luís Marques Mendes?
Não. Estou a falar do que me perguntaram sobre o partido invisível.

Luís Marques Mendes faz parte desse partido invisível?
Essa clareza tem que existir e tem que haver uma separação. Se eu estiver na vida política ou se tiver alguma intervenção na vida política e agir como representante de um homem de negócios ou de um investimento ou de um projeto e for bater à porta de um Ministério ou de um gabinete ou de um serviço público fazendo valer uma rede de contactos, do meu ponto de vista, isso pode ser legal, mas não é ético. Não é ético. É esta ética que sempre apliquei na minha vida e que trago para a vida pública.

A descrição que está a fazer encaixa como uma luva nas suspeitas que existem em relação a Luís Marques Mendes. Outra vez: está a falar de Luís Marques Mendes?
Estou a falar é de princípios.

E está a falar do Partido Socialista? Porque na altura da declaração que citámos estava a candidatar-se à liderança do Partido Socialista e falava, evidentemente, de uma parte também do Partido Socialista. É o partido que hoje o apoia. É esse partido invisível que o está a apoiar?
Sou candidato para os próximos cinco anos. Não vim dar aqui uma entrevista sobre o meu passado.

Mas isto não é o passado. Isto é sobre um partido invisível que diz que ainda existe.
Essa declaração é de há 11 anos. Não estou num museu. Quero falar do futuro.

Portanto, pode encaixar em Luís Marques Mendes, mas no PS não quer encaixar. É seletivo.
Percebo as vossas perguntas, mas sou candidato a Presidente da República. Afirmo princípios. Princípios que sempre afirmei ao longo da minha vida. Separação completa entre a política e os negócios. E uma dimensão ética que todos aqueles que se candidatam, sobretudo a Presidente da República, têm que trazer. Eu trago essa marca. E essa marca não é só discursiva. Trago um trajeto de vida.

"Todos os agentes políticos devem esclarecer e responder a todas as perguntas. Aquilo a que vulgarmente se chama de portas giratórias. Há pessoas que agem do lado do mundo dos negócios e não é muito clara a forma como se relacionam com os poderes públicos e gabinetes ministeriáveis. Tem de haver uma clareza total. Sempre defendi uma separação entre os negócios e a política. Mantenho e pratico-a"

“Não sou maçom. Gouveia e Melo é que tem de dizer que candidatos são”

Por falar em poderes invisíveis, o candidato Henrique Gouveia e Melo disse que há maçons candidatos às eleições presidenciais. António José Seguro é maçom?
Não. Mas a pergunta deve ser recolocada a Gouveia Melo. Em democracia, no Estado de Direito, quem acusa, tem que dizer. Tem que provar.

Portanto, aquele almoço organizado por série de obediências maçónicas era só um almoço.
Não participei em nenhum almoço. Não sou maçon.

Nunca participou em nenhum evento?
Se participei em reuniões, em conversas que possam ter existido? Não pergunto às pessoas se são da maçonaria.

Mas organizados pelas próprias obediências. Nunca participou em nenhum?
Posso ter participado em reuniões, com certeza participei em colóquios de outras organizações. Sou uma pessoa livre.

Participou como profano e não como maçom. É isso que está a dizer?
Eu não sou maçom.

Nem nunca foi?
Não.

Nunca foi iniciado?
Nunca fui iniciado, não sou maçom, não sou absolutamente nada. O que acho é que a inversão do ónus da prova é uma coisa que o Estado de Direito não aceita. No Estado de Direito Democrático, o candidato Gouveia e Melo fez uma acusação e devia ter a coragem de provar.

Acha que se dirige a si?
Não sei.

“Não sei sequer se tenho donativos de 30 mil euros”

Tivemos alguns dos seus adversários neste espaço e nenhum deles quis revelar quais são os grandes financiadores da campanha. Quer aproveitar esta oportunidade para revelar os seus?
Grandes financiadores significa o quê?

Os mais expressivos.
Há um limite máximo para que uma pessoa possa contribuir.

Não é um limite assim tão curto: são 30 mil euros.
Com a minha concordância, criámos uma associação, a ASAP — Associação Seguro a Presidente, onde há um IBAN, uma conta específica, onde cada pessoa pode depositar dinheiro, dizendo o nome, porque tem que ficar tudo registado. Mas não giro isso, não faço parte dessa associação e não sei se há sequer esses valores de 30 mil euros. Sei que tem havido valores de 5 mil, 10 mil, mil, 500 euros.

Proativamente poderia ter procurado saber quem são.
Esse IBAN foi divulgado nas redes sociais, qualquer pessoa pode contribuir.

Por exemplo, Mário Ferreira disse que iria apoiar Henrique Gouveia e Melo com 30 mil euros. Não tem nenhum apoio desse género?
Não, não. Devo ter muitos contributos, mais pequenos do que esse. Mas daremos todos esses esclarecimentos e essas contas à Entidade de Contas, como é óbvio.

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Mendes. “Não é indireta, mas quem não deve, não teme”

Numa entrevista recente afirmou, a propósito da escolha dos membros do Governo, que há uma dimensão ética que de alguma forma tem estado afastada da vida pública. Luís Montenegro não se tem preocupado com essa dimensão ética quando, por exemplo, escolhe ministro e secretário de Estado?
Não vou agora lançar aqui suspeições sobre absolutamente nada.

Mas quando diz que há uma dimensão ética que tem estado afastada da vida pública é, no fundo, uma crítica. Queremos saber a quem é que se refere exatamente.
Há notícias públicas. Não me compete a mim estar a dizer que é o Manel, o Joaquim ou a Teresa. Mas houve membros de vários governos que tiveram de sair. Julgo que entendem muito bem quando digo que é necessário reforçar essa dimensão ética. Naquele período entre a indigitação e a nomeação de um primeiro-ministro, como Presidente da República, é muito importante saber quais são os membros do Governo que o primeiro-ministro está a pensar propo e que esse critério da dimensão ética seja avaliado.

Também prometeu ser um “Presidente vigilante”, a começar logo pela formação da equipa executiva. E que “os problemas dessas equipas devem ser resolvidos antes” como, aliás, acabou de repetir. Como é que o faria? Já existe um questionário que é exigido aos membros do Governo. Não lhe é suficiente?
Imagine que é o líder de um partido que ganha eleições e que está em condições de ser nomeado primeiro-ministro. Como Presidente da República, nas nossas reuniões, digo: “Olhe, estou a pensar nomeá-lo e gostava que me pudesse dar indicação de quem são os seus ministros”. Temos uma conversa construtiva para não haver surpresas negativas.

Este questionário das 36 perguntas não lhe parece suficiente?
Este é um questionário que o Governo faz. O Presidente não deve escrutinar — esse papel pertence ao Parlamento. Mas deve assegurar-se de que não há nenhuma dúvida sobre qualquer situação. Há uma dimensão ética que temos que reforçar na vida pública, que baixou em termos de fasquia. É esse o sentido da minha declaração. Temos tantas coisas para mudar no nosso país e uma delas é que quem se disponibiliza para servir o nosso país ao mais alto nível tem que ter uma dimensão ética, para depois poder exercer as suas funções sem percalços. Porque quando há percalços, as pessoas criam mais desilusão, mais desafetação. Hoje, as pessoas já têm a política num nível de consideração muito baixo. Já acreditam pouco. Quando há um caso de alguém que teve uma atitude menos ética ou até ilegal, e que está no Governo, isso ajuda a reforçar a desconfiança e a afastar as pessoas da vida política. Quero o contrário.

‘Vetaria’ um ministro ou um secretário de Estado?
Depende do que estiver em cima da mesa. Volto a dizer: há a dimensão da Justiça e a dimensão da transparência e da ética que um servidor público deve ter. Se houver alguma dúvida, falarei com o primeiro-ministro. Mas o meu papel é ajudar; não é criar conflitos. Sempre que surgirem dúvidas dessa natureza, o primeiro a ser confrontado com elas será o primeiro-ministro.

Mas vetaria?
Não daria posse.

Em 2014, António Costa sugeriu que nunca tinha feito nada pelo combate à corrupção. Oito anos depois, foi feito o suficiente?
Não vou responder diretamente à sua pergunta. Segundo os dados do Índice de Corrupção, o nosso país desceu posições. De facto, temos leis, em alguns casos até boas leis, mas depois não as executamos e não as cumprirmos. Veja por exemplo o caso da Entidade da Transparência, que não tem os recurso e os funcionários que seriam necessários. No combate à corrupção, precisamos de ser menos legislativos e sermos mais executivos e eficientes. Temos que reforçar os meios para que o combate à corrupção seja efetivo. Mas o mais importante é também a prevenção. Se prevenirmos, haverá menos condições para a corrupção. Por exemplo: é necessário haver planos anticorrupção e de acompanhamento para as grandes obras públicas. Vamos ter grandes investimentos na Defesa na ferrovia, é importante que existam mecanismos de prevenção para não termos dsurpresas negativas. Recordo que, em matéria de Defesa, o Governo anunciou um investimento de 5.8 mil milhões de euros. É muito dinheiro. Devido às circunstâncias, não vai haver concursos públicos, vai haver negociação direta. Tem que haver condições claras de transparência, de neutralidade, de concorrência.

Em matéria de combate corrupção, as coisas não mudaram muito nos últimos dez anos?
Mudaram. Houve leis que foram alteradas e instituições criadas. É preciso é dar-lhe os recursos para que as coisas aconteçam. Mas quero recordar que, em 2007, graças a uma proposta minha, os deputados passaram a ter que colocar para acesso público a sua declaração de interesses. Se estavam em exclusividade, se não estavam, para quem é que trabalhavam, de onde é que recebiam dinheiro, quem é que eram os seus clientes. Nessa altura, houve uma discussão porque alguns deputados que eram advogados diziam o estatuto de advogado não permitia divulgação dos clientes. E eu dizia: “Pois, mas o estatuto titular de um órgão de soberania deve exigir”. Nenhum advogado é obrigado a ser deputado; mas todos os deputados têm que ter uma folha limpa e transparente, dizer para quem trabalham e de quem é que recebem dinheiro.

Novamente: o que está a dizer aplica-se a Luís Marques Mendes?
Não. Estou a falar de um princípio.

Mas acabou de defender que quem tem clientes numa sociedade de advogados e se candidata a um cargo político está obrigado a uma necessidade de transparência e que o argumento do sigilo profissional não é suficiente. Percebe a associação.
Percebo, mas não foi uma indireta. Volto a dizer o que já respondi há pouco: quem não deve, não teme.

No debate com Luís Marques Mendes criticou muito a então PGR e disse o seguinte: “O país perdeu um Governo. O país foi a votos. O país tinha uma situação de estabilidade política e passou a ter uma situação de instabilidade política”. Então não teria dissolvido a Assembleia da República?
Percebo o vosso desejo de me pôr a falar sobre o passado, mas sou um candidato para os próximos cinco anos.

Pede escusa, é isso?
Sou candidato a Presidente da República, não sou candidato a historiador.

Que balanço é que faz do presidente do Conselho Europeu?
Está há um ano e meio em funções. Se me falassem sobre a Europa, diria que a Europa anda a correr atrás do prejuízo. É lenta, tem uma fragilidade política enorme, não consegue decidir em tempo útil. Há um ano, assinámos um acordo entre a Europa e o Mercosul, estão há um ano para o aprovar e agora estão a adiá-lo mais uma vez, pondo em causa trocas comerciais que são importantes para as nossas exportações.

E isso acontece porquê? Porque as lideranças europeias são fracas?
Não, estou a falar dos líderes dos Estados-membros. Mas há uma fragilidade de fundo: a Europa decide ter um modelo de governação que é mais centrado em impedir as decisões do que propriamente em as adotar. A Europa tem vindo a perder competitividade económica, pediu ao Sr. Draghi para fazer um relatório, ele fez, bateram todos as palmas, estão lá as propostas concretas. E o foi feito? Zero. Portanto, a Europa perdeu competitividade, perdeu relevância mundial, é frágil do ponto de vista político. Está à espera de quê? Deviam reunir todos os líderes durante uma série de dias e chegar a acordo sobre duas coisas: o que é que queremos fazer juntos e que papel é que queremos ter no mundo? Espero dar um contributo nesse sentido, na medida do possível, através do Grupo de Arraiolos, que é um grupo informal, mas que reúne chefes de Estado que não têm funções executivas, para começar a criar uma consciência europeia para que a Europa não recue. Os nacionalismos não são a resposta.

O papel do Presidente do Conselho Europeu é precisamente promover, entre os líderes dos vários governos europeus, uma resposta europeia.
O Presidente do Conselho Europeu não é propriamente o líder da Europa. Nem sequer tem funções executivas. Tem essa função de juntar os líderes dos vários governos. E, na medida do possível, julgo que ele tem estado a fazer isso. Agora, mais do que liderar, ele tem que coordenar. Porque basta a senhora Meloni dizer “eu não quero assinar o acordo com o Mercosul” e o que é que vai fazer o Presidente do Conselho Europeu? Bater-lhe?

"Qual é o papel do Presidente da República? É garantir o regular funcionamento das instituições e ter sempre como prioridade a defesa do interesse nacional. Portanto, se no futuro houver um primeiro-ministro que se demita, olharei para o contexto e para as soluções e agirei em função destas duas prioridades"

“75 mil euros em São Bento? É gravíssimo”

Quando o governo de António Costa caiu, disse o seguinte: “Estou fora da vida pública e da vida política, mas quando olho para o país fico perplexo com o que vejo, acho que os portugueses merecem melhor”. O que é que o deixou perplexo?
Não, isso teve a ver com uma outra situação, que não foi essa. Foi uma situação que envolvia o ministro das Infraestruturas na altura. Não, esta é de novembro, e é especificamente sobre esse caso.

É verdade que usou também esse termo sobre essa situação. Mas a nossa questão é, neste caso concreto, o que é que o deixou perplexo neste segundo episódio?
Disse, antes disso, que estava perplexo com aquilo que via. Sinto o Estado a abrir muitas fendas. O Estado tem vindo a recuar, quer na prestação de serviços às nossas empresas. Tornou-se um burocrata, limitativo da atividade empresarial. Os serviços essenciais não respondem às pessoas. Há pessoas que querem ter uma consulta, esperam semanas ou meses. Há pessoas que querem ter uma intervenção cirúrgica e esperam meses ou anos. Uma grávida que, quando chega o momento do parto devia ter tranquilidade, vive momentos de ansiedade. Sinto uma sociedade a deslaçar. Há muita fragmentação e sinto uma democracia com uma espessura muito, muito fina. Vejo uma cultura política baseada em trincheiras, quando o diálogo é essencial para se construir consensos. E depois, como temos um sistema partidário com três grandes partidos, isso torna mais difícil a cooperação. Se repararem, tivemos um período de ouro até 2019, com ciclos legislativos de quatro em quatro anos. A partir de 2019 e até hoje, temos ciclos curtos de ano e meio, de ano e meio. Ora, isso é impossível para um país que tem que responder a tantos problemas. Um país com governos a prazo é um país a prazo.

No debate com Luís Marques Mendes, criticou muito a então Procuradora-Geral da República e disse o seguinte: “O país perdeu um Governo. O país foi a votos. O país tinha uma situação de estabilidade política e passou a ter uma situação de instabilidade política”. Não teria dissolvido a Assembleia da República?
A Procuradoria-Geral da República fez um comunicado e diz: “O primeiro-ministro está sob investigação”. Em sequência, o primeiro-ministro diz: “Não tenho condições para continuar”. O Presidente dissolve. E passaram dois anos sob esta situação. E não se conhece nada do resultado disto. Não há conclusões. O Ministério Público podia dizer: “Olhe, a situação é demasiado complexa, estamos ainda a analisar, estamos a ver”. E depois saem notícias de escutas, que é uma coisa que não devia ser permitido e o Ministério Público não vem dizer nada? Quanto à outra questão que levantam, se no caso da demissão de um primeiro-ministro isso deve conduzir necessariamente à dissolução do Parlamento, a minha resposta é muito simples: não deve conduzir automaticamente a essa situação. E eu falo para o futuro. Qual é o papel do Presidente da República? É garantir o regular funcionamento das instituições e ter sempre como prioridade a defesa do interesse nacional. Portanto, se no futuro houver um primeiro-ministro que se demita, olharei para o contexto e para as soluções e agirei em função destas duas prioridades.

Teria dado posse a Mário Centeno?
Não falo sobre o passado. Falei sobre um princípio de enunciação. Aquilo que é importante para o futuro é a minha regra: a demissão de um primeiro-ministro não conduz automaticamente à dissolução do Parlamento. Não me vou autolimitar nas minhas opções. Durão Barroso, quando foi presidente da Comissão Europeia, apresentaram um novo líder, que foi eleito presidente do PSD, Pedro Santana Lopes. Jorge Sampaio entendeu que era assim que devia proceder.

Situação essa que o líder do PS na altura contestou.
Sim, e eu também. Agora, como Presidente da República, devo olhar para as diversas situações. Porque imagine que é sugerido pela maioria parlamentar um primeiro-ministro que não pode ser líder desse partido? Não será determinante, mas é um elemento informativo para a minha decisão.

Mas então mudou a sua posição face a 2004.
Não. Em 2004, considerei que deveria haver eleições porque não estavam reunidas as condições para que o Governo tivesse condições de prosseguir. Como aliás aconteceu.

Voltando à queda de António Costa. Não lhe parece grave que tenham sido encontrados 75 mil euros no gabinete do chefe de gabinete do Primeiro-Ministro?
Parece.

Causa-lhe perplexidade?
Não, é grave mesmo. Não é perplexidade; é grave.

Portanto, mesmo sem o parágrafo, António Costa não teria condições para continuar no cargo?
Lá estão vocês sempre a falar de há 10 anos, de há 14 e de há 15 anos…

Tem usado muito o argumento da ética republicana…
Não é como argumento; é como património. No meu caso, é património.

Precisamente. Queremos perceber as suas balizas.
Mas já lhes disse que é grave. Então, se se encontra dinheiro no gabinete de um primeiro-ministro, essa quantidade de valor, não é grave? Claro que é grave, é gravíssimo.

Então, o primeiro-ministro teria ou não condições para continuar?
Estão-me a pedir um comentário sobre uma situação que aconteceu. Essa é uma matéria que está na Justiça e que a Justiça deve, naturalmente, funcionar.

O Ministério Público tem-se empenhado suficientemente no caso? Acha que seria importante haver uma maior celeridade, por exemplo?
Primeiro, a lei aplica-se a toda a gente. A todos. Do mais anónimo do trabalhador ao Presidente da República. Ninguém está acima da lei. Mais: a exigência ética que preconizo também se deve aplicar a toda a gente, em particular, aos responsáveis políticos do nosso país. E a Justiça tem que ser mais célebre, sobretudo em situações que tenham um impacto público muito grande, como foi esta.

Se for Presidente da República, admite que o Procurador-Geral da República possa ser alguém de fora do Ministério Público?
É uma questão que não se põe neste momento. Não me vou pronunciar fazendo especulação.

"Sinto o Estado a abrir muitas fendas. O Estado tem vindo a recuar, quer na prestação de serviços às nossas empresas. Tornou-se um burocrata, limitativo da atividade empresarial. Os serviços essenciais não respondem às pessoas. Sinto uma sociedade a deslaçar. Há muita fragmentação e sinto uma democracia com uma espessura muito, muito fina"

“É uma coisa normal Sócrates não me apoiar”

José Sócrates disse que não o apoia, nem nunca o apoiou. Para si é bom não ter esse apoio?
Para mim, é uma coisa normal. As pessoas ficariam surpreendidas se fosse ao contrário.

Pedro Nuno Santos escreveu um artigo no Público sobre os dez anos da geringonça e reconheceu que, nas políticas migratórias, o PS “não esteve bem” porque “o país não estava preparado, nem se preparou, para receber mais de um milhão de pessoas em cerca de meia dúzia de anos”. Concorda? O governo de António Costa cometeu um erro?
Agora, põe-me a comentar artigos de ex-líderes do PS. Quer a minha posição sobre a imigração? Precisamos de imigrantes. Mas temos que controlar a entrada desses imigrantes. Temos que organizar. Segundo, temos que fazer um bom acolhimento. E temos que fazer uma boa integração. Isso é essencial.

É muito difícil falar sobre o futuro se não houver um diagnóstico. Portanto, muito concretamente, o Governo de António Costa cometeu ou não um erro na política de imigração?
Os senhores não querem um diagnóstico. O que os senhores querem é pôr-me em discussão com os governos anteriores.

É uma discussão que é atual.
Não vos faço a vontade, lamento muito.

Defende que a atual proposta da reforma laboral tem de ser retirada e sugere que a vetaria nos moldes em que está hoje. Esta reforma laboral é pior do que a de 2012?
O Governo recuou e veio dizer à UGT que estava, afinal, tudo em aberto. Perderam-se cinco meses e houve uma greve geral. Esta humildade democrática e esta disponibilidade  já podiam ter existido. Segundo, se esta era uma reforma urgente, porque é que o Governo, através dos partidos que o compõem, não apresentou na proposta eleitoral antes das eleições legislativas? Feriu um princípio democrático. Terceiro, a concertação social falhou. O Governo quis unilateralmente fazer estas mudanças. Quarto, que para mim ainda é o mais relevante, no estado de urgência em que o país está, com uma economia pouco competitiva, com uma desigualdade salarial gritante entre homens e mulheres, com baixa natalidade… Há alguma alteração que esteja associada a esse objetivo? O que é que eu faria e aconselho o Governo a fazer: vão à concertação social, definam os objetivos, e, a partir daí, empresários e trabalhadores apresentam propostas. E mais: porque é que o Governo tem que estar sempre a liderar este processo de negociações? Porque é que o Governo não deixa os empresários e os representantes dos trabalhadores dialogar? E serem eles a chegar a um entendimento e a uma convergência, como acontece em outros países? Estamos a ter uma discussão do século passado. Temos de ter uma discussão do futuro. Há aqui necessidade de voltarmos a sintonizar as propostas políticas com aquilo que o país necessita. Precisamos de paz social. Neste momento, tivemos instabilidade e temos instabilidade social. Porquê? A quem é que isto serviu?

Tem sido um tema recorrente nesta pré-campanha presidencial. Gostava de ter o apoio de Pedro Passos Coelho?
Porquê?

Esse apoio tem sido disputado pelos seus adversários.
Tenho o apoio, e sinto-me muito feliz, da minha mandatária nacional, Maria do Carmo Fonseca, uma das melhores cientistas que o nosso país tem.

Sabe que nos estamos a referir àquela notícia do Expresso, que associava alguns elementos do alegado passismo à sua candidatura.
Estão-se a referir a um encontro em que tiveram 20 pessoas e havia três que apoiaram Pedro Passos Coelho.

Estamos a perguntar se gostaria de ter ou não. É muito simples.
Quando as pessoas me apoiam, não lhes pergunto se eles são do partido A, do partido B, do partido C. Felizmente tenho todos. Pergunto-lhes se estão de acordo com as minhas características de integridade, de seriedade, de agregador, que vem do centro-esquerda, que sabe dialogar com todo o espaço político e que vem para unir.

Há muitos anos, quando era líder da Juventude Socialista, disse a um jornal que o charro “é um prazer”. Ainda é?
Não, não. Aliás, gravei já com o Geirinhas e vamos falar sobre isso. Fumei uma vez um charro para experimentar e não fiquei fã. Confesso que bebo um copo de vinho ou dois. Sobretudo quando é do meu. Mas não vou dizer qual é a marca.

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