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Seis opiniões rápidas sobre as eleições espanholas /premium

Helena Matos, João Marques de Almeida, Alexandre Homem Cristo, Diana Soller, Filomena Martins e Sara Antunes de Oliveira escrevem sobre o que estes resultados significam sobre o futuro governo.

Guia para entendermos Espanha nos próximos meses

Helena Matos

Espanha vai entrar numa daquelas fases histriónicas em que dilui as suas tensões internas falando cada vez menos de Espanha e mais de Ibéria. 

Portugal, recomenda-se sentido de Estado.
Desculpem que comece por Portugal mas o resultados das eleições espanholas confirma que a Espanha vai entrar numa daquelas fases histriónicas em que dilui as suas tensões internas falando cada vez menos de Espanha e mais de Ibéria. Em que coloca cada vez mais a tónica nas regiões e menos nos Estados. Ou seja vamos ter o habitual exercício em que a Espanha esconjura o seu risco de desagregação centrifugando nesses seus dilemas o que está à sua volta. Poucas vezes a expressão “sentido de Estado” fez tanto sentido como neste momento em Portugal no que a Espanha respeita.

Sanchéz “y ahora qué?
Ou mais propriamente Sanchéz vai governar com os Ciudadanos ou com o Podemos e a ERC? Digamos que o dilema é mais ou menos este: ou Sanchéz que virou o PSOE à esquerda se alia aos liberais dos Ciudadanos e irrita boa parte do seu eleitorado ou estende a mão ao Podemos e aos independentistas, o que equivale mais ou menos a perder o pulso aos acontecimentos.

Albert Rivera, pactar ou não pactar eis a questão.
O Líder dos Ciudadanos declarou em campanha que jamais governaria com Sanchéz mas acontece que acabou a ter na mão o pacto que pode dar a Espanha um governo sem os independentistas. A questão já não é se Rivera vai voltar atrás ou não com a sua palavra mas sim se tem margem para dizer que não a um pacto que agradaria ao poder económico, a Felipe VI (e à rainha Letizia o que para o caso não é irrelevante) e a muitos daqueles que já estão cansados de tanta polarização.

Pablo Iglesias vai deixar o chalet?
Feitas as contas às eleições (não ao chalet que Pablo Iglesias agora habita) quantos votos custaram ao Podemos as notícias sobre o estilo de vida do seu líder? Talvez os que agora lhe faltam para conseguir formar governo com o PSOE sem ter de contar com os independentistas.

As casas estão a tornar-se em Espanha uma maldição: por causa de um palacete acabou preso o marido da infanta Cristina. Por causa de um chalet Pablo Iglesias pode ter feito o pior negócio da sua vida.

Pablo Casado vai manter a tradição?
Os líderes dos populares não se demitem necessariamente após perderem eleições – Rajoy foi derrotado em 2004 e em 2008 e continuou à frente do partido – mas a questão que se coloca neste momento é se o PP pode continuar a fraccionar-se, alimentando novas formações, à semelhança do que já aconteceu com os Ciudadanos e o Vox. Vai ou não a direita espanhola sofrer um processo de refundação semelhante ao que Aznar liderou nos anos 80?

E se tal acontecer quem vai liderar esse processo: Cayetana Álvarez de Toledo que nesta campanha do PP confirmou o carisma que falta a Casado?

Santiago Abascal, nas próximas eleições logo se vê.
Havia quem esperasse mais votos para o Vox mas a verdade é que em 2015, Santiago Abascal fazia campanha em cima de um caixote e de megafone na mão tentava chamar a atenção de quem passava. Em 2019, não só entra nas cortes como se tornou numa incontornável figura política da direita. A hora da verdade de Santiago Abascal acontecerá nas próximas eleições, aquelas em que já participará nos debates e em que se confirmará ou não que a mensagem do Vox passa o teste do escrutínio mediático e continua a mobilizar os tradicionais eleitores do PP e os jovens que muitas vezes nem sequer tinham votado antes.

Por fim e muito simbólico do estado de insanidade a que a Espanha chegou: o general Franco vai ou não ser desenterrado?

Uma derrota da direita espanhola

João Marques de Almeida

Ou seja, a direita espanhola arrisca-se a regressar a uma situação semelhante à do período entre as lideranças de Suarez e de Aznar, a década de 1980.

A esperança da direita espanhola chamava-se Andaluzia. Mesmo com as últimas sondagens negativas, o PP, o Cidadanos e o Vox sonharam até ao fim com uma repetição do resultado andaluz, o que lhes daria uma maioria parlamentar. Não o conseguiram e a direita espanhola está mais dividida do que nunca.

O PP sofreu o pior resultado desde a sua fundação em 1989. Neste momento, com 66 deputados (uma miséria), tem apenas mais nove deputados do que o Cidadanos. O PP foi o grande derrotado das eleições de ontem. O Cidadanos continua a crescer. Ultrapassou o Podemos e aproximou-se do PP, mas cresce a uma velocidade menor do que muitos esperavam e não é claro que consiga transformar-se no principal partido da área do centro-direita em Espanha. O Vox conseguiu uma grande vitória, na primeira vez que elegeu deputados nacionais, ultrapassando as previsões das sondagens.

Estas divisões estão a enfraquecer a direita espanhola. O PP perde votos, o Cidadanos não cresce o suficiente, e o Vox divide sem acrescentar. Os três partidos têm menos deputados do que o PSOE e o Podemos juntos. Ou seja, a direita espanhola arrisca-se a regressar a uma situação semelhante à do período entre as lideranças de Suarez e de Aznar, a década de 1980, em que estava dividida, fraca e era incapaz de impedir as vitórias eleitorais do PSOE de Gonzalez.

A direita espanhola continuará agora na oposição a uma “geringonça à espanhola”, a qual desta vez muito provavelmente levará o Podemos para o governo, com o apoio dos nacionalistas e independentistas bascos e catalães. Será a primeira vez que a extrema esquerda, de inspiração Chavista, estará no poder em Espanha desde o fim do regime de Franco. Estas eleições mostraram que a questão Catalã não é suficiente para dar uma maioria à direita espanhola. A capacidade de Sanchez para resistir às propostas económicas mais radicais do Podemos determinará se a Espanha terá novas eleições a curto prazo e se a direita conseguirá então alcançar uma maioria.

A eleição das quatro derrotas

Alexandre Homem Cristo

Com cinco forças partidárias a dividir entre si quase toda a representação parlamentar, tudo na política espanhola ficará ainda mais instável e complexo – e não há nada a fazer a não ser adaptar-se.

Primeira derrota: o próximo governo terá extensões em partidos radicais. O PSOE de Sanchez conseguiu cortou a meta em primeiro, embora não se possa dizer que tenha saído vencedor claro destas eleições. Afinal, não conseguiu melhorar significativamente a sua situação: continua sem força eleitoral suficiente para facilidades na formação de uma coligação que suporte um governo seu. No campo das hipóteses, para além de incluir o Podemos (esquerda radical) teria ainda de obter apoio junto de partidos separatistas (por exemplo, da Catalunha e do País Basco) – o que, para além da instabilidade, contaminará o governo nacional de ideologias e radicalismos contraditórios.

Segunda derrota: a fragmentação da direita prejudicou a direita e castigou o PP, que foi arrasado com o pior resultado desde a década de 1970. Os números são péssimos, mas a explicação é simples: o PP perdeu votos para o Vox (direita radical, possivelmente o único vencedor destas eleições), que nasce de uma dissidência interna do PP e que fragmentou a base de apoio da direita. Ou seja, a base eleitoral da direita espanhola não teve oscilações muito significativas, basicamente fragmentou-se em dois partidos. Como se vê, essa fragmentação serve os interesses do PSOE. Recorde-se que, nos últimos anos, o surgimento do Podemos abanou os alicerces do PSOE e estilhaçou as bases eleitorais da esquerda. E que o primeiro beneficiário foi o PP que, coeso, se apresentou como força maioritária e garante da estabilidade governativa. Ora, neste momento, observa-se o efeito contrário: a direita fragmentou os seus votos (PP, Vox e até Ciudadanos) e, entretanto, o PSOE ganhou força com a não-afirmação do Podemos, podendo apelar ao voto útil e surgindo como única força partidária com capacidade de garantir estabilidade governativa. Muito possivelmente, a manter-se esta fragmentação, o PSOE terá acesso facilitado à governação nos próximos anos.

Terceira derrota: o Podemos falhou o seu destino de controlo da esquerda espanhola. Quem alertava para o risco de o Podemos vir a tomar o lugar do PSOE como partido dominante da esquerda espanhola já deve ter percebido que isso nunca acontecerá. Os resultados eleitorais são claros: Sanchez e o seu governo têm acumulado erros em questões-chave e, apesar disso, o eleitorado à esquerda não se mobilizou para o Podemos. Em grande medida, por culpa própria – com o passar dos anos, Pablo Iglesias e o seu Podemos têm perdido autoridade moral e a sua diferenciação num contexto partidário envolto em corrupção. Mas, sobretudo, porque o PSOE se provou muito mais resistente do que tantos julgaram. A lição é esta: os partidos ditos tradicionais perderam espaço na representação política, mas estão enraizados no território espanhol e são resistentes a estas oscilações do eleitorado. O caso serve de aviso para quem se atrever a lançar prognósticos sobre a possibilidade de o Vox vir a ultrapassar o PP – tudo indica que isso nunca acontecerá.

Quarta derrota: o bipartidarismo espanhol colapsou (mesmo). O acesso ao poder e a estabilidade governativa em Espanha sempre estiveram alicerçados num bipartidarismo informal: só quando a esquerda se uniu à volta do PSOE ou, mais tarde, quando a direita se juntou no PP foi possível formar maiorias claras e governos estáveis. Ora, nos últimos anos, esse bipartidarismo havia sido posto em causa à esquerda (Podemos) e ao centro (Ciudadanos), originando uma sequência de eleições sem maiorias claras. Agora, foi também posto em causa à direita (Vox), aprofundando essa tendência. Com cinco forças partidárias a dividir entre si quase toda a representação parlamentar, tudo na política espanhola ficará ainda mais instável e complexo – e não há nada a fazer a não ser adaptar-se. E, claro, não excluir a possibilidade de novas eleições legislativas num curto prazo.

Mais uma vez, a ferida catalã

Diana Soller

De todas estas mudanças abruptas sobram umas quantas conclusões: o chamado “bloco da direita” foi o que mais sofreu com o nacionalismo e a fragmentação.

A menos de uma semana das eleições, os jornais espanhóis e internacionais sublinhavam um elemento novo: havia cerca de 40 por cento de indecisos. Não abstencionistas; pessoas que queriam votar e não sabiam em quem. Não admira: as eleições gerais espanholas transformaram-se numa espécie de contenda entre nacionalismos. Os nacionalistas independentistas e os nacionalistas unionistas. Mas com variadas nuances.

O mal já estava feito: o movimento independentista da Catalunha, e os erráticos acontecimentos que se sucedem desde o referendo não vinculativo, abanou de uma forma definitiva a política espanhola. É que ser integracionista ou independentista já não é uma questão política, é uma questão de preservação de identidade. E quando a identidade (que é como quem diz, o medo de deixar de ser o que somos na terra onde nascemos) esmaga a política, abre-se um mundo de mudanças e imprevisibilidades. E se não fosse tudo isto suficiente caso de preocupação, a Espanha sofreu uma alteração sistémica profunda que começou em 2015, as tais nuances do parágrafo acima: a fragmentação do sistema político-partidário. Primeiro com o Podemos (UP), depois com os Ciudadanos, e agora com o Vox, o sistema de bipartidarismo que dominava Madrid há quarenta anos colapsou. Desde aí, a Espanha não voltou a ter um governo estável. E não é previsível que este problema se resolva a curto prazo.

De todas estas mudanças abruptas sobram umas quantas conclusões: o chamado “bloco da direita” foi o que mais sofreu com o nacionalismo e a fragmentação. Eram três partidos e apesar do PP ser conservador, o Ciudadanos ser liberal e o Vox ultranacionalista, todos adotaram uma retórica duríssima, que os colocou a todos numa posição extremada aos olhos da população. Mais, quem foi às urnas sabia que Pablo Casado tinha estendido a mão a Santiago Abascal e que poderia vir aí a reedição nacional da coligação da Andaluzia. Apesar do crescimento impressionante da extrema direita, os espanhóis rejeitaram essa solução.

Pedro Sanchez conseguiu gerir uma certa imagem de estabilidade (porque está a meio caminho entre os dois nacionalismos) que, juntamente com os erros dos outros, lhe deu a vitória. Votos contados tem a possibilidade de formar governo de maioria absoluta com o Podemos (pouco dado a moderações) e pequenos partidos regionais – sem precisar dos independentistas catalães – o que não deixa de ser irónico. Resta saber se terá mestria para conciliar as posições dos dois partidos quanto às autonomias regionais. Mais uma vez, a Espanha está refém de ferida catalã.

Mais um aviso extremista e um governo Tetris

Filomena Martins

Os escândalos de corrupção, o discurso catavento, a politiquice barata, a banha da cobra e uma clara inadequação e atenção aos problemas e aos medos reais das pessoas, em especial dos mais jovens, tem feito com que cada vez mais eleitores optem pelos extremos.

Os resultados das eleições espanholas confirmam uma tendência/alerta que se está a tornar global, do Brasil à Hungria: há uma grande fatia de eleitores a escolher partidos extremistas (e nacionalistas). O Vox entra de rompante no parlamento espanhol com mais de 10%, mais de 2,6 milhões de votantes, e 24 deputados, quando em 2016 tinha tido apenas 0,2% e 47 mil votos. Uma subida alucinante em três anos, que confirma o que já acontecera na Andaluzia, ainda que aquém do esperado e que o deixa apenas como o quinto partido espanhol.

E é este sinal que deveria obrigar a uma enorme reflexão nos partidos tradicionais, agora que o bipartidarismo está definitivamente enterrado em Espanha e caminha para o mesmo em muitos outros países europeus: o que leva os cidadãos a fazer escolhas extremistas e a deixar o que até aqui era tradicional? O que é que os velhos partidos estão a fazer mal para isso acontecer? No que é que estão a errar? Porque é que deixaram de merecer a confiança de tão grande parte do eleitorado?

É verdade que é preciso não esquecer que agora foi o Vox, mas em em 2015 já tinha sido o Podemos. Foi o partido de Iglesias que acabou com a divisão habitual de votos entre PSOE e PP e, nessa altura, apostando claramente em ideias radicais de esquerda, chegou aos 69 lugares no parlamento espanhol (e aos 71 em 2016), mesmo conhecidas as ligações e os financiamentos vindos da Venezuela e da Líbia. O Podemos só começou a cair quando moderou o discurso e, também, quando apoiou os independentistas catalães (que estão muito mais perto da direita do que da esquerda diga-se de passagem para quem não está tão a par da política catalã).

Os escândalos de corrupção, o discurso catavento, a politiquice barata, a banha da cobra e uma clara inadequação e atenção aos problemas e aos medos reais das pessoas, em especial dos mais jovens, tem feito com que cada vez mais eleitores optem pelos extremos. Por discursos mais populistas e radicais. Espero, e acho, que não tanto pelos ideais que estes partidos defendem, mas muito mais pela forma como rompem com a percepção sobre os interesses instalados nos blocos centrais. Nos políticos nascidos das juventudes partidárias e sem qualquer contacto com o que verdadeiramente se passa no mundo fora do seu círculo de relações e jogo de contrapartidas.

Pablo Casado tem de ser o primeiro a pensar nisso. O PP, apesar de continuar a ser o maior partido à direita, caiu para metade e obteve os piores resultados desde os anos 70. Perdeu votos quer para o Vox quer para o Ciudadanos, os dois partidos que se podem considerar (também) vencedores destas eleições: Albert Rivera, perante os resultados dos populares, passa a ser o líder do centro-direita. Viu o PSOE ter quase o dobro dos seus deputados.

Mas Sánchez também não o poderá esquecer. Por mais que festeje a clara vitória que fugia há onze anos ao PSOE, os verdadeiros problemas começarão logo esta segunda-feira de manhã. Sem maioria, tem de saber o que pode e deve dar aos extremistas do Podemos, cujo caderno de exigências (mesmo perdendo 1,5 milhões de votos) vai do lugar da vice presidência ao apoio aos independentistas catalães. E tem de perceber se o primeiro governo de coligação em Espanha é mesmo o que abrirá de novo a discussão do processo catalão ou se Iglesias aceitará uma união com os bascos. É claro que o seu poder de negociação à esquerda é maior, porque pode usar o trunfo de que uma união PSOE e Ciudadanos também é suficiente. Mas Rivera teria de dar uma cambalhota e os gritos “com Ciudadanos no!” que se ouviram dos militantes enquanto discursava não lhe darão grande margem.

Ou seja, estamos perante um puzzle muito complicado. Uma geringonçazinha muito mais difícil  que a de António Costa. E cuja resistência parece demasiado frágil com negociações constantes, provavelmente alargada a ideias muito diferentes. Um governo Tetris, como lhe chamam os espanhóis: de difíceis encaixes e cheio de armadilhas.

Bienvenidos a 2015

Sara Antunes de Oliveira

Qualquer maioria que seja alcançada não terá grande vantagem em relação à minoria — será, na melhor das hipóteses, de apenas 10 deputados. Mais que isso, será, provavelmente, um daqueles rendilhados delicados, que rasgam ao primeiro puxão.

A comparação será sempre injusta — não são as mesmas circunstâncias, as mesmas pessoas e nem sequer os mesmos partidos —, mas serve um propósito: quase quatro anos depois do início de um ciclo que já leva três tentativas de governo, três governos falhados e três eleições, Espanha parece voltar a fazer o mesmo — ou, pelo menos, a criar condições para que o ciclo politicamente instável não se feche. Em 2015, incapaz de formar governo e isolado nos consensos políticos, Mariano Rajoy não teve alternativa senão deixar-se cair e tentar outra vez. Em fevereiro deste ano, incapaz de aprovar o Orçamento para 2019 e isolado nos consensos políticos, Pedro Sánchez não teve alternativa senão deixar-se cair e tentar outra vez.

Tal como Rajoy, em 2016, Sánchez também ganhou. Mas, tal como Rajoy, é difícil ter a certeza de que consiga cumprir o mandato até ao fim.

Não me entendam mal, não estou a dizer que o líder do PSOE não vai conseguir formar governo. De uma maneira ou de outra, com mais ou menos jogo de cintura político, passos atrás, traições ou alianças, alguma maioria sairá das negociações que começam já esta segunda-feira — ainda para mais tendo em conta que Pedro Sánchez tem, pelo menos, três opções para o conseguir, à esquerda ou à direita (e disse que não excluía nenhuma).

O meu ponto está no depois. Aquele depois chato em que, feitos os acordos, permitidas as contrapartidas, firmados todos os apertos de mão e palmadinhas nas costas é preciso, efetivamente, começar a governar o país. Não é só pessimismo: qualquer maioria que seja alcançada não terá grande vantagem em relação à minoria — será, na melhor das hipóteses, de apenas 10 deputados. Mais que isso, será, provavelmente, um daqueles rendilhados delicados, que rasgam ao primeiro puxão. Para ficar à esquerda, não basta ao PSOE de Sánchez o Unidas Podemos de Pablo Iglesias. São precisos também os separatistas bascos e os independentistas catalães. Ou todos os outros pequenos partidos juntos — que ninguém sabe ainda se estão disponíveis para isso.

Qualquer um deles representa um apoio absolutamente decisivo. Qualquer um deles representa um apoio demasiadamente instável — e que pode, simplesmente, esfumar-se, como aconteceu com o Orçamento.

O que pode esperar-se de um governo feito de remendos e que só existe por uma vantagem tão curta? Que viva amarrado aos compromissos que assumiu com os que o apoiaram, para se manter em funções? Ou que — como, em abono da verdade, Pedro Sánchez fez nos seus 9 meses de governação, em relação aos partidos que o ajudaram a derrubar Rajoy — sorria para a fotografia, diga que sim a tudo e depois faça apenas aquilo que lhe apetecer? E, a ser assim, durante quanto tempo? Nove meses?

Com os resultados deste domingo, o PSOE fechou um ciclo de derrotas. Espanha nem por isso.

[P.S. Ouviu Pedro Sánchez falar no “cordão sanitário”, durante o discurso de vitória, dizendo que não o iria impôr a ninguém, certo? Era para Albert Rivera. Ninguém me tira da cabeça que o “creio que ficou claro” que Sánchez, maquinal, responde à multidão — que grita, repetidamente, “Com Rivera não!” — foi uma espécie de “está bem, está bem, eu logo vos convenço”. Não é porque adore o cenário — teria de vender quase toda a fortuna política para convencer o líder do Ciudadanos —, mas porque sabe que, com apenas um aliado, talvez chegasse ao final dos próximos quatro anos, e com menos turbulência. Bastaria Rivera querer.]

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