Será que já é tarde? Casais no limite da fertilidade

24 Fevereiro 20181.288

O adiamento da maternidade até ao limite nem sempre é uma opção, mas tem influência no número de filhos, nas relações conjugais e na saúde da mulher. E, por vezes, é mesmo tarde demais.

Sempre quis ser mãe mas não queria fazê-lo sozinha. A idade foi passando e acabou por conhecer o companheiro aos 38 anos. “Queria muito ter um filho mas sempre disse que, primeiro, tinha de encontrar um pai”, explica Ana Teresa Costa, hoje com 43.

O adiamento da maternidade foi sendo imposto pela ausência de uma pessoa que a fizesse concretizar o sonho. Não foi fácil, mas conseguiu. A Maria, filha de Ana Teresa e de Nuno Madeira [também com 43 anos] nasceu em setembro passado.

O caminho, porém, foi penoso. Se engravidar era até relativamente fácil e rápido, ter uma gravidez de termo passou a ser um enorme desafio. Maria nasceu da terceira gravidez de Ana Teresa. As duas primeiras não evoluíram. “Nunca estive muito assustada com a questão da idade, mas como as primeiras vezes não correram bem, comecei a convencer-me dessa ideia, que o problema era meu e que a idade poderia estar a condicionar o processo”, explica. Nuno vai mais longe. A vida não fazia qualquer sentido se não fosse pai. “Sempre foi um objetivo. Acho que é uma experiência quase obrigatória”, confessa.

“Nunca estive muito assustada com a questão da idade, mas como as primeiras vezes não correram bem, comecei a convencer-me dessa ideia, que o problema era meu e que a idade poderia estar a condicionar o processo”
Ana Teresa, 43 anos

Foi precisamente a vida que o fez adiar o desejo da paternidade: entre a aposta na vida profissional, o facto de ter trabalhado em Angola e de não ter encontrado alguém que considerasse ter o perfil indicado para ser a mãe de um filho seu, a idade foi passando, e o desejo, adiado. Apesar de a pressão ser menor nos homens do que nas mulheres, a demora já pesava. “Acho que, de qualquer forma, quereria ter filhos independentemente da idade. Mas quanto mais tarde, menos ‘costas’ vamos ter para os segurar e para os ter no colo… Tudo isso conta”, partilha.

Nascida às 41 semanas, a filha de ambos deixava para trás emoções negativas associadas a tentativas falhadas. Pelo meio, Ana Teresa teve de interromper a gravidez, mas também de se submeter a uma cirurgia ao ser detetada uma massa no útero, que o procedimento viria a descobrir serem restos de embrião [não se sabendo se seriam da primeira ou da segunda gravidez não evolutiva]. Em todo o percurso, houve a necessidade de mudança de médico ginecologista e de dar espaço a novas sensações.

Estávamos em dezembro de 2016, quando Ana Teresa se começou a sentir muito mais fraca. Para a professora de dança, este era o mês de trabalho acrescido devido à Festa de Natal, e acabou por coincidir também com um internamento da mãe no hospital. Tudo apontava para cansaço. Afinal, o que sentia era natural e resultava da terceira gravidez.

Após escolher nova médica, decidiu começar tudo de novo. “Gostei muito de falar com ela, e ao passar para a ecografia, pela primeira vez, deitei-me numa marquesa e ouvi bater um coração. Foi uma emoção única”, relembra. A médica disse ao casal que ia correr tudo bem, e acabou por ser mesmo assim. Ana Teresa continuou a sua atividade profissional até aos sete meses, e após um trabalho de parto por indução, que demorou dois dias e culminou numa cesariana, o obstetra disse-lhe: “Correu lindamente, está pronta para outra”. Ter outro é uma vontade e não é uma hipótese descartada. “Vamos ver”, diz a recém mãe.

Também Sara [nome fictício] adiou o sonho da maternidade até aos 38 anos. Tal como Ana Teresa, foi essa a idade que lhe levaria a conhecer o atual companheiro. “Tive sempre a expectativa de um dia estar com alguém com quem sentisse que fazia sentido avançar para esse projeto”, explica. Conforme os anos passavam, acentuava-se a ansiedade. Foi assim desde os 25 anos. “Quando cheguei aos 30, pensava: ‘ok, eu tenho mesmo de resolver isto até aos 35’. Sentia imenso a pressão do tempo e dos anos a passarem”, confessa.

Hoje tem 40 e está a iniciar o seu segundo tratamento de Procriação Medicamente Assistida (PMA) no Serviço Nacional de Saúde (SNS), no Porto [por se tratar de uma inseminação artificial, tratamento de primeira linha, pode fazer no SNS até aos 41 anos +364 dias, ao contrário da Fertilização in Vitro (FIV), tratamento de segunda linha, possível até aos 39 anos + 364 dias]. Depois de começar a tentar, passou também por uma gravidez não evolutiva, às seis semanas, e uma gravidez bioquímica [no último caso, houve fecundação e um aumento das hormonas da gravidez, nomeadamente da beta-hcg, originando um teste de gravidez positivo. Depois, por diversas razões, a gravidez não evolui. Muitas mulheres acabam por menstruar e nem se apercebem que passaram por uma gravidez bioquímica].

“Quando cheguei aos 30, pensava: ‘ok, eu tenho mesmo de resolver isto até aos 35’. Sentia imenso a pressão do tempo e dos anos a passarem”
Sara, 40 anos

Da primeira inseminação artificial que fez, em novembro passado, percebeu que a idade pode ter tido peso no que correu mal. “Nunca saberei se aos 20 anos teria sido diferente, mas tudo indica, no nosso caso, que o fator de infertilidade está ligado à idade”, explica.

Curiosamente, foi o avançar da idade que a fez mudar um pouco a sua postura perante a possibilidade de vir a ser mãe. “Sinto que a maturidade me fez olhar para as coisas de outra forma. Decidi que vou ser feliz na mesma, com as circunstâncias que a vida me proporcionar, quer tenha filhos, quer não tenha. Já não quero ser mãe a todo o custo. Estou a aproveitar a oportunidade que o SNS me está a dar de tentar através de recurso à ciência, mas se com as hipóteses previstas na lei, não conseguir, tudo bem. Sigo em frente”, diz, determinada. O companheiro apoia e tem sido fundamental nesta nova forma de pensar. “Foi também ele que me motivou a tentar mais uma vez. Quando nos ligaram do hospital, ele disse-me ‘vamos lá, vamos ver’”.

Relativamente à pressão social, Sara não a sente a nível familiar, nem no grupo de amigos. Não esconde o problema, e tem uma opinião muito própria sobre “o apelo à maternidade de forma errada”. “As redes sociais vieram agudizar de tal forma essa pressão que chego ao ponto de afirmar que há pessoas que querem ter filhos porque se sentem pressionadas pelo Facebook ou Instagram dos outros, é a maternidade das redes sociais.”

O adiamento até ao limite da fertilidade é uma característica dos tempos. Seja por motivos pessoais ou profissionais, seja porque não se encontrou a pessoal ideal para concretizar um projeto que, habitualmente [mas não necessariamente, como se perceberá ao longo deste artigo] é vivido a dois, os motivos são variados e conhecidos dos médicos ginecologistas ou ligados à área da reprodução.

"As redes sociais vieram agudizar de tal forma essa pressão que chego ao ponto de afirmar que há pessoas que querem ter filhos porque se sentem pressionadas pelo Facebook ou Instagram dos outros, é a maternidade das redes sociais"
Sara, 40 anos

“Por um lado, tende a valorizar-se a carreira privilegiando a educação superior de modo a alcançar estabilidade financeira. Por outro lado, o casamento ocorre mais tarde, e tem-se vindo a verificar um aumento do número de divórcios e segundos casamentos, pelo que a estabilidade emocional também só é conseguida mais tarde. A maternidade é preterida em função de melhores condições de vida. Deveriam ser criadas condições que permitissem à mulher a possibilidade de progressão na carreira, e simultaneamente, a concretização da maternidade”, defende Daniela Sobral, médica especialista em Medicina da Reprodução do Hospital Lusíadas.

Em Portugal adiam-se os nascimentos duas vezes

De acordo com dados da Pordata, em 1960 a taxa bruta de natalidade situava-se nos 24,1% por cada 1000 habitantes, e em 2016, nos 8.4%. Esta percentagem colocou Portugal, em 2016, como o país que registou a segunda taxa de natalidade mais baixa, entre os restantes países da União Europeia, segundo estimativas do Eurostat.

O Instituto Nacional de Estatística (INE) faz notar que a evolução da idade média à fecundidade — a idade em que, em média, as mulheres residentes em Portugal tiveram filhos (independentemente de serem primeiros, segundos, terceiros, …) — tem vindo a alterar-se nos últimos anos. E se em 1980, a idade média com que as mulheres tinham o primeiro filho se situava nos 24 anos, os dados relativos a 2016 apontam para os 29,6 anos. “Se a idade em que, em média, se tem o primeiro é aos 29,6 anos e a idade em que, em média, se têm todos os filhos é igual a 31,1 anos, podemos depreender que uma grande parte das mulheres tem apenas um filho, logo, que a maioria dos nascimentos são primeiros filhos”, explica Maria Filomena Mendes, coordenadora do Laboratório de Demografia do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades (CIDEHUS), professora associada da Universidade de Évora e presidente da direção da Associação Portuguesa de Demografia (APD).

A responsável lidera o projeto “Determinantes da Fecundidade em Portugal”, que conta com financiamento da Fundação Francisco Manuel dos Santos, e integra ainda o estudo “Duplo Adiamento: as intenções reprodutivas de homens e mulheres depois dos 35 anos”, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, coordenado por Vanessa Costa. Ambos os estudos permitem caracterizar a evolução da fecundidade no nosso país e o seu impacto naquilo a que os investigadores intitulam de duplo adiamento. “Frequentemente, as mulheres adiam novamente o nascimento do segundo filho, após terem tido o primeiro, verificando-se um grande espaçamento entre ambos os nascimentos”, explica Maria Filomena Mendes.

No primeiro estudo, chegou-se à conclusão de que o adiamento condiciona o número de filhos tidos, a intenção de vir a ter mais bebés no futuro, e a dimensão familiar que se espera vir a ter no final da vida reprodutiva. Por outro lado, o impacto nas taxas de natalidade é facilmente correlacionado. “Muitas vezes, os nascimentos adiados transformam-se em nascimentos ‘renunciados’, por razões várias, entre elas, devido ao facto da infertilidade poder impedir a concretização da intenção de ter mais filhos. Existe uma ‘janela de oportunidade’, pelo menos, para a mulher, tendo em consideração a limitação dos seus anos férteis. A decisão de ter mais um filho, se for sendo sucessivamente adiada, pode terminar por ser abandonada… Esta situação é, de certa forma, semelhante no caso dos homens, uma vez que, na sua maioria, são casados ou coabitam com uma mulher com uma idade próxima da sua”, adianta a professora.

A realidade portuguesa acaba por ser semelhante à tendência generalizada no espaço europeu, explica Maria Filomena Mendes. “Em Portugal, para além das dificuldades de inserção dos jovens no mercado de trabalho, os baixos salários, a precariedade laboral, a dificuldade em conjugar estudo e trabalho, também as dificuldades de arrendamento, contrariam as possibilidades de sair de casa dos pais mais cedo, viver de forma autónoma, constituir família e ter filhos na ‘casa’ dos 20 anos. Neste caso particular, as medidas de política devem tender a apoiar os jovens e não a ‘família’ dos pais”, defende.

"Existe uma ‘janela de oportunidade’, pelo menos, para a mulher, tendo em consideração a limitação dos seus anos férteis. A decisão de ter mais um filho, se for sendo sucessivamente adiada, pode terminar por ser abandonada... Esta situação é, de certa forma, semelhante no caso dos homens, uma vez que, na sua maioria, são casados ou coabitam com uma mulher com uma idade próxima da sua”
Maria Filomena Mendes, coordenadora do Laboratório de Demografia do Centro Interdisciplinar de História, Culturas e Sociedades

É que esta realidade nem sempre se coaduna com o que os portugueses desejam. “Com o nosso estudo, concluímos que os portugueses têm, em média, um filho, mas desejam ter dois a três, tencionando a vir a ter, até ao final da sua vida fértil, em média, 1.8 filhos.”

Daniel Pereira da Silva é médico ginecologista e presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia (FSPOG), e lida com esta realidade na sua prática clínica. “Noutras gerações, a gravidez era, muitas vezes, uma fuga para um desejo de maior liberdade. Neste sentido, o país fez uma evolução absolutamente fantástica, porque coloca nas mãos da mulher a sua autonomia no que respeita aos direitos fundamentais, o que, até então, estava condicionado, até porque nem tinham acesso ao planeamento familiar, incorrendo noutro tipo de riscos”, defende.

O estudo “International Research of Western European Womens’s well-being”, realizado pela Kantar, em que foram inquiridas 7000 mulheres dos 16 aos 59 anos, em sete países europeus [Alemanha, Suécia, Espanha, Reino Unido, Portugal, França e Itália], revela que as mulheres portuguesas são as que, juntamente com as espanholas, se mostram mais satisfeitas com os seus estilos de vida, em comparação com as restantes, não se notando uma grande diferença nas várias faixas etárias. “Existem muito mais mulheres portuguesas a trabalhar comparativamente à média europeia, sendo que o número de trabalhadoras em part-time ou domésticas é muito menor.” O estudo revela ainda que as portuguesas têm “um caráter mais individualista, e levam a saúde muito a sério, quando comparadas com as inquiridas de outros países.

Por cada ano que passa, as possibilidades de um indivíduo se manter sem filhos aumentam 24%, indica o estudo “Determinantes de Fecundidade e Infecundidade Tardia em Portugal e nos países do Sul da Europa”, publicado em 2014.

Quanto ao que mais privilegiam nas suas vidas, as escolhas recaem na segurança financeira, estilos de vida saudáveis, bem como o equilíbrio entre a vida familiar e privada.

Daniel Pereira da Silva comenta estas conclusões e considera que “o contexto social atual leva a que o mundo do trabalho e a carreira ocupem as mulheres, em termos de tempo e de prioridades, relativamente a outros aspetos que também são importantes para si, mas que tem de secundarizar. Não é menos verdade que, num certo estrato social, algumas necessidades se sobreponham ao projeto familiar, como por exemplo, fazer viagens de sonho antes de se ser mãe ou pai”.

A medicina não resolve sempre

Maternidade, paternidade, fecundidade, natalidade, fertilidade, infertilidade. Todos estes termos têm em comum o facto de terminarem em “idade”. E é precisamente com o passar da mesma, que as taxas de nascimentos ficam comprometidas, e que os casais se tornam menos férteis.

Por cada ano que passa, as possibilidades de um indivíduo se manter sem filhos aumentam 24%, indica o estudo “Determinantes de Fecundidade e Infecundidade Tardia em Portugal e nos países do Sul da Europa”, publicado em 2014. “Estes valores, realmente, são quase dramáticos, ou seja, as implicações do adiamento e da não recuperação do adiamento são devastadoras, em termos não só da natalidade – traduzida no número de nascimentos que iremos ter – mas  também da fecundidade final das diferentes gerações”, defende a professora da Universidade de Évora.

Segundo o Inquérito Português de Fecundidade, de 2013, concluiu-se que “para os indivíduos com 30 ou mais anos, também a idade em que tiveram o primeiro filho é determinante para que se tenha apenas um único filho. Quanto mais velhos, maior a tendência para permanecerem com este primeiro filho, e quanto mais tempo adiarem o primeiro nascimento, menor a probabilidade de terem conseguido ter um segundo ou terceiro filhos”, sublinha a presidente da APD.

“A mulher, de uma maneira geral, tem uma noção que a idade e o tempo não jogam a seu favor, mas não tem a perceção do impacto real dessa realidade. Muitas vezes, ela julga que os meios tecnológicos atuais são capazes de suprir com relativa facilidade esse desejo e essa realidade biológica, mas não é bem assim.”
Daniel Pereira da Silva, médico ginecologista e presidente da Federação das Sociedades Portuguesas de Obstetrícia e Ginecologia

Como forma de alertar para a questão da idade como uma das causas da infertilidade, a Sociedade Portuguesa de Medicina da Reprodução (SPMR) lançou a campanha “Cuida da tua fertilidade” no início do ano passado, para chamar à atenção para a importância da idade, bem como de outros fatores de risco, como o tabagismo, o álcool e o excesso de peso. “A ideia surgiu como resposta a uma lacuna que tínhamos identificado previamente no respeitante à informação das pessoas em idade reprodutiva, em Portugal, relativamente à prevalência e ao risco da infertilidade no nosso país”, explica Teresa Almeida Santos, presidente da direção da SPMR e professora auxiliar da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra.

O estudo porta a porta contou com a resposta de 2400 indivíduos entre 18 e os 40 anos e concluiu que se sabia muito pouco sobre “a fisiologia da reprodução”. Por outro lado, percebeu-se que os próprios médicos não abordam espontaneamente este assunto, fazendo-o apenas em 18% dos casos. “Quando as pessoas respondiam que tinham informação por parte dos médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) ou ginecologistas era porque o solicitavam, e não por iniciativa dos mesmos”, sublinha.

Face a estes resultados e à constatação de que as pessoas estão a engravidar cada vez mais tarde, e não têm conhecimento de que a fertilidade da mulher é muito influenciada pela idade, a SPMR entendeu que tinha de dar uma resposta. “Tínhamos os meios e entendemos que era responsabilidade da SPMR divulgar esta mensagem.”

A campanha está disponível online, mas foi divulgada em prime-time, na RTP e na RTP3, bem como noutros meios de comunicação e nas redes sociais. Foram ainda realizadas ações de rua, sessões em algumas escolas e na Universidade de Coimbra, em festivais de verão, bem como iniciativas que consistiram no envio de postais de correio com mensagens da campanha para os médicos de MGF.

“A população em geral não tem noção das dificuldades em engravidar e como há cada vez mais mulheres famosas a fazerem-no mais tarde, a realidade ainda fica mais distorcida. Por vezes, nem mesmo os profissionais de saúde dão a devida importância a este problema”
Daniela Sobral, médica especialista em Medicina da Reprodução do Hospital Lusíadas

Daniel Pereira da Silva corrobora a ideia da campanha. “A mulher, de uma maneira geral, tem uma noção que a idade e o tempo não jogam a seu favor, mas não tem a perceção do impacto real dessa realidade. Muitas vezes, ela julga que os meios tecnológicos atuais são capazes de suprir com relativa facilidade esse desejo e essa realidade biológica, mas não é bem assim.”

É cada vez mais recorrente surgirem mulheres na consulta de Daniela Sobral, “desesperadas porque nunca lhes foi transmitida a ideia de que a idade é uma grande condicionante da fertilidade, e quando se apercebem disso, é tarde demais”. E o desconhecimento sobre os riscos do avançar da idade também é notório. “A população em geral não tem noção das dificuldades em engravidar e como há cada vez mais mulheres famosas a fazerem-no mais tarde, a realidade ainda fica mais distorcida. Por vezes, nem mesmo os profissionais de saúde dão a devida importância a este problema.”

Às mulheres próximas dos 35 anos de idade que surgem na consulta, Daniel Pereira da Silva alerta para a questão da idade, ainda que sinta que não lhe cabe o direito de fazer qualquer pressão. “Como costumo afirmar, uma gravidez não se receita nem prescreve. O que lhes explico é que é legítimo ter outras prioridades, até porque a maternidade pode nem sequer fazer parte do seu projeto de vida. Mas não deixo de alertar para os riscos.”

Apesar de aproveitar a oportunidade da consulta para chamar à atenção para a passagem do tempo, tenta fazê-lo sempre com cuidado. “A pressão da própria mulher pôr-se em causa a si própria pelo facto de eventualmente querer ser mãe e não ter muito tempo, pelas suas condições biológicas, já é um sofrimento e uma agressão, de alguma forma”, afirma.

A divulgação de casos de sucesso por parte de alguns meios de comunicação social é algo que preocupa a presidente da SPMR. “Há alguma responsabilidade de alguns órgãos de comunicação, porque ao transmitirem a mensagem de que a gravidez é possível aos 47, 48 anos, está a transmitir-se esperança, mas esta é infundada ou não é completamente explicada. Os pressupostos para que isto aconteça não são suficientemente explanados”, defende.

Quando o relógio biológico começa a funcionar mal

Com o passar da idade, não é apenas a pele que envelhece. Também a qualidade de ovócitos diminui progressivamente com o passar dos anos. “A mulher nasce com um número finito de ovócitos que vai sendo consumido ao longo da sua vida sem haver reposição. A diminuição dessa reserva ovárica dá-se, tanto a nível qualitativo, como quantitativo”, esclarece a médica dos Lusíadas.

Daniel Pereira da Silva explica-nos também o impacto da passagem do tempo na capacidade de reprodução. “A mulher, na adolescência, tem aquilo que se chama capital folicular (células não se reproduzem), e todos os meses, em cada ciclo, vai consumir um determinado número de folículos. Logo, a capacidade que tinha quando começou a menstruar, vai diminuindo progressivamente. Claro que este ritmo não é igual para todas as mulheres.” E neste retrocesso, os homens ganham a luta contra o tempo. “Em cada ciclo reprodutivo feminino, temos um ovócito reprodutivo. De 18, que são escolhidos biologicamente, apenas um vai ter potencial de ser fertilizado. Nos homens, são milhões de espermatozoides. O processo de andropausa é bastante mais lento do que a menopausa nas mulheres, daí que os homens tenham capacidade de procriar em idades mais avançadas”, explica.

Por outro lado, o adiamento da maternidade pode ter consequências específicas na saúde, dando espaço ao aparecimento de algumas doenças ginecológicas que podem também vir a comprometer a fertilidade. “O útero perde capacidade com a idade, mas de uma forma indireta, pois passa a ser mais sede de doenças que podem afetar a capacidade de vir a gerar uma gravidez ou uma gestação a termo, como por exemplo, as infeções pelo papiloma vírus humano e o aparecimento dos miomas. É relativamente frequente encontrar miomas em mulheres com 40 anos que querem engravidar e a quem vamos fazer exames e um check up para saber se estão em condições para tal. Alguns não têm potencial de interferir na fertilidade, mas outros sim, e alguns deles são completamente assintomáticos. É uma condição inerente da idade e uma causa de infertilidade”, alerta Daniel Pereira da Silva.

“O fator isolado que mais diminui a probabilidade de ocorrer uma gravidez, quer espontaneamente, quer através de tratamento, é sem dúvida, a idade da mulher”
Daniela Sobral, médica especialista em Medicina da Reprodução dos Hospital Lusíadas

Outra consequência da gravidez tardia é a diferença de idades entre os pais e os filhos, o que leva ao “aumento do risco do ‘generation gap’, comprometendo a possibilidade de convívio com os avós e aumentando a tendência para o envelhecimento da população”, acrescenta.

Ainda que não existam estudos portugueses que correlacionem diretamente o adiamento da decisão de engravidar com as taxas de infertilidade, a ligação entre ambas as situações é visível nos consultórios e facilmente percebida pelos médicos ginecologistas e especialistas em reprodução. “O fator isolado que mais diminui a probabilidade de ocorrer uma gravidez, quer espontaneamente, quer através de tratamento, é sem dúvida, a idade da mulher”, assegura Daniela Sobral.

Preconceito, insensibilidade e pressão social

Clara [nome fictício] tem 42 anos e o marido 41. O adiamento da maternidade deveu-se ao facto de terem casado tarde e de ambos considerarem que era preciso criar rotinas de casal para que os filhos viessem para dar “um acréscimo à felicidade, e não constituírem um motivo de rutura, como tantas vezes se vê”.

Quando decidiram ter filhos, após três anos de casados, tentaram pelo método natural. “A médica de família, que nos acompanhava desde sempre, desvalorizou os meses a passarem atribuindo culpas à ansiedade própria do momento. Com o passar do tempo começámos a ficar desconfortáveis com esta situação, e decidimos procurar outras alternativas no privado, e mudámos de ginecologista obstetra mas já com uma vertente de infertilidade para prever o futuro”, explica.

Foram diagnosticados alguns miomas a Clara, sendo a mesma submetida a uma miomectomia [cirurgia que consiste em extrair o(s) mioma(s)], tendo procurado nova ajuda numa clínica especializada em infertilidade, em Lisboa. “O nosso sonho começou a construir-se a partir daí. Encontrámos um médico que respeitava a nossa fé, as nossas dúvidas, que as esclarecia como ninguém e que tinha as palavras de esperança que precisávamos de ouvir. Já não o largámos. Fizemos os exames para saber se estava tudo bem. Havia uns pequeninos problemas, mas que não deveriam ser impeditivos de uma gravidez, mas havia uma coisa que jogava contra nós — o tempo”, conta. Acabou por ser o tempo a precipitar a decisão: esperar que a natureza fizesse o seu trabalho ou avançar para um tratamento mais “agressivo”? O casal optou pela segunda hipótese.

Após a realização de duas FIV, a gravidez desejada aconteceu. “Entre o início do primeiro tratamento, que correu menos bem, e a nossa gravidez passaram cerca de 3/4 meses. Em todo este processo, a componente financeira não foi uma limitação para nós, o que facilitou sempre as nossas opções.”

“Cheguei a ouvir perguntas como: ‘então, não chega de boa vida?’, ‘Não chega desse egoísmo?’. Eram perguntas que se deixavam escapar com maldade e escárnio, mas ditas em tom de brincadeira. Apesar de terem sido episódios pontuais, deixaram a sua mágoa”
Clara, 41 anos

Foram anos a lidar com “a inevitável tristeza e ansiedade e um medo atroz de que fosse tarde demais”, confessa Clara. Mas não foi. O casal acabou por ter gémeos e os seus “milagres”, como lhes chamam, têm sete meses. “A fé, no nosso caso, foi importante pois na nossa peregrinação a pé a Fátima, eu pedia que me fosse possível aceitar sem rancor e sem mágoa, o que estivesse guardado para mim, para nós”, confessa.

Para trás, ficou um processo duro e composto por algumas provações, como a consulta com a psicóloga da clínica privada que confrontou o casal com questões nunca antes colocadas. “Foram perguntas feitas com uma delicadeza que nunca esqueceremos, mas que nos provocaram reações que até ali nunca tínhamos vivido. E se um de nós tivesse esse objetivo, e o outro, não? Conseguiríamos ser felizes sem cobranças nem rancores depois de tomarmos uma decisão? Foi de facto uma consulta marcante para ambos, mas que apenas veio confirmar o que ambos desejávamos: iríamos tentar até que fosse clinicamente impossível ou inviável”, partilha.

Aos outros casais que estejam a passar pelo mesmo, a recém mãe sugere que se afastem os tabus ou as palavras escolhidas entre os casais. “Não falar pode criar uma fronteira entre os dois. Depois, sem dúvida, ter uma equipa médica em quem se confie. Para nós, foi absolutamente determinante quando nos sentimos protegidos por médicos que nos acolheram, nos esclareceram, e acima de tudo, nos aceitaram com todas as nossas dúvidas”, explica Clara.

“Embora ache que as pessoas não têm consciência disso, muitas vezes, gostava que tivessem noção que podem estar a fazer perguntas indiscretas. Apesar de achar que não o fazem por mal, considero que a sociedade está pouco sensibilizada para o facto de existirem muitos casais a passar por este problema. Ainda há muita vergonha, ainda se esconde, não se fala muito sobre isso”
Sara, 40 anos

O casal confessa que sentiu alguma discriminação, sendo que o que mais lhes custou veio em forma de comentários: “Cheguei a ouvir perguntas como: ‘então, não chega de boa vida?’, ‘Não chega desse egoísmo?’. Eram perguntas que se deixavam escapar com maldade e escárnio, mas ditas em tom de brincadeira. Apesar de terem sido episódios pontuais, deixaram a sua mágoa”, conta Clara. A resposta, no entanto, não tardava. “Respondíamos que o problema era dos dois, que ambos queríamos ter filhos e não estávamos a conseguir.”

Sara sente também esta pressão social e o tabu ao redor. Responde às perguntas sobre a maternidade consoante o estado de espírito. “Embora ache que as pessoas não têm consciência disso, muitas vezes, gostava que tivessem noção que podem estar a fazer perguntas indiscretas. Apesar de achar que não o fazem por mal, considero que a sociedade está pouco sensibilizada para o facto de existirem muitos casais a passar por este problema. Ainda há muita vergonha, ainda se esconde, não se fala muito sobre isso”, defende.

E é porque ainda existe esse tabu que a maioria dos testemunhos para este artigo está devidamente resguardada com nomes fictícios, a pedido dos entrevistados. Ana Teresa Costa e Nuno Madeira foram os únicos a aceitar assumir a sua identidade verdadeira.

Apesar da pressão social e das consequências do panorama atual, a decisão pode não estar nas mãos dos casais. “O adiar a gravidez, por vezes, não é uma opção. Acho que é injusto dizer-se que as mulheres estão a ter filhos mais tarde porque querem viajar ou porque querem progredir na carreira. É na fase da maior fertilidade que as mulheres têm de apostar na sua profissão porque tem mesmo de ser assim, e porque estão a lutar para terem alguma estabilidade de vida, pois caso contrário, podem perder boas oportunidades. A realidade social do país é esta”, defende Ana Oliveira Pereira, psicóloga clínica da Ava Clinic, com mestrado em Psicologia da Saúde.

“O desconhecimento também ajuda um pouco a perceber o adiamento da gravidez. Nem sempre foram alertadas pelos seus médicos ginecologistas para a questão do tempo”
Ana Oliveira Pereira, psicóloga clínica

Sara concorda, e tem uma opinião muito própria relativamente às vozes críticas da maternidade. “Quando oiço que as mulheres não devem adiar, não acho que seja essa a questão. Às vezes, não há hipótese! O meu caso é um exemplo disso, em que não tinha uma relação estável que me desse um sentimento de segurança para um projeto destes. Nos casos em que as pessoas adiam por não terem condições económicas, talvez seja um pouco mais criticável, no sentido em que nunca existem condições económicas e laborais perfeitas para ter filhos. Vai ser sempre difícil, mas é sempre possível dar a volta”, afirma.

Nas consultas de psicoterapia, Ana Oliveira Pereira tenta trabalhar as questões da culpabilização com as mulheres. “O desconhecimento também ajuda um pouco a perceber o adiamento da gravidez. Nem sempre foram alertadas pelos seus médicos ginecologistas para a questão do tempo.”

Não esperar mais e ter filhos sozinha

Quando o problema de encontrar o pai ideal se perpetua, há quem não adie mais o sonho. “Companheiros há muitos, mas filhos não”, diz-nos Sónia [nome fictício], de 43 anos. O apelo da maternidade intensificou-se aos 36, a mesma idade com que terminou um relacionamento e começou a pesquisar como poderia ter filhos, sozinha.

Aos 39 anos, começou a tratar dos tratamentos de fertilidade que lhe permitissem recorrer a dador de esperma, em Espanha, uma vez que a lei que dá esta possibilidade em Portugal só foi aprovada em 2017. “Acho ótima a mudança da lei e a oportunidade de fazermos tratamento no nosso país. Os tratamentos faziam-se à mesma, lá fora, pelo que a lei veio melhorar essa possibilidade”, conta.

Absolutamente decidida, não mais se desviou do caminho. “Não quis adiar mais este projeto por ninguém. A idade começava a pesar”, partilha. Depois de oito tentativas, apenas o último tratamento foi realizado em Portugal, numa clínica privada de fertilidade, em Lisboa, e conseguiu engravidar. Já tinha conseguido uma gravidez numa das tentativas mas sofreu um aborto espontâneo. “Foi o que me custou mais em todo este processo: ter conseguido e ter perdido.” Não quis, no entanto, que o sonho esmorecesse, e voltou a tentar.

“Como estes são processos complicados e de sucessivas tentativas, senti sempre um grande apoio das pessoas ao redor, desde a família e amigos, aos médicos que me acompanham. Os familiares ajudaram muito, até a nível financeiro, porque é ainda mais complicado gerir isto, estando sozinha”
Sónia, 43 anos

À data de fecho deste artigo, a gravidez de Sónia tinha acabado de chegar às 18 semanas. O Diogo está previsto nascer em julho deste ano, e esta gestação resultou de doação de esperma mas também de doação de óvulos. “Percebi que a possibilidade de ter sucesso era maior com esta hipótese.”

Até ao momento, Sónia gastou perto de 30 mil euros, e confessa que não tem sido um processo fácil. “Como estes são processos complicados e de sucessivas tentativas, senti sempre um grande apoio das pessoas ao redor, desde a família e amigos, aos médicos que me acompanham. Os familiares ajudaram muito, até a nível financeiro, porque é ainda mais complicado gerir isto, estando sozinha”, diz. E os mais próximos sabem que a decisão de ser mãe solteira é inabalável.

Desvaloriza os sintomas de gravidez e não antecipa muito o futuro. “É como se o Diogo estivesse a dizer-me: ‘olá, estou aqui’. De resto, vou vivendo cada dia e cada conquista, a gravidez é ultrapassada passo a passo”. E quando lhe perguntamos se está preparada para as perguntas e para o desafio de assumir uma maternidade sozinha, confessa que não é algo que lhe traga ansiedade. A minha única preocupação é ir explicando a verdade ao meu filho, adaptada à idade. Toda a gente sabe a minha verdade, pelo que não há que esconder. Quem não aceitar, paciência. O que acho fundamental é passar-lhe os princípios e os valores que defendo. Quero educar o meu filho no sentido de lidar bem com aquilo que a sociedade considera tabu”, defende.

Não se assusta com o facto de não ter uma pessoa ao lado para ajudar com os desafios da maternidade. Contará com o apoio da mãe. E também não lhe faz confusão ter recorrido a uma dadora de óvulos. “Se me perguntar se gostava que fosse parecido comigo, claro que gostava, mas não é essencial. A idade é um fator muito importante, pelo que recorrendo a dadora, acho que estou a dar mais hipóteses de qualidade de vida ao meu filho, do que se tentasse com os meus óvulos.”

De forma a preparar o corpo e a mente para os tratamentos e uma possível gravidez, Sónia teve sempre cuidado com o peso, a atividade física e a alimentação, tendo encontrado na acupuntura a tranquilidade que precisava para estar à altura das exigências. “Prefiro preparar-me do caminho para a frente do que ficar a alimentar-me do que ficou para trás. Na verdade, quem se mete nestes processos tem de se mentalizar que não é chegar e vencer, e que isto é uma sucessão de várias etapas, em que algumas falham, e outras não”, defende.

Ainda lhe restou um embrião que está criopreservado para o caso de voltar a querer ter filhos. “Não sei se vou tentar novamente. Para já, estou muito focada nesta gravidez”, conclui.

Fertilidade para sempre?

Daniel Pereira da Silva assume que é cada vez mais frequente na prática clínica a gravidez obtida por doação de óvulos. Por outro lado, o médico ginecologista defende a possibilidade que as mulheres têm, em idade jovem, de recolher ovócitos para utilizarem mais tarde. “É algo que tem muitas implicações éticas, sobretudo no que respeita ao investimento público, mas é uma situação relativamente nova, à semelhança do que já se faz em doentes oncológicos.” Teresa Almeida Santos concorda que o tema é polémico, e que a possibilidade só existe no privado, mas que esta é uma técnica que permite “preservar a fertilidade por razões ditas sociais, e não por motivos de doença”.

Por outro lado, para a líder da SPMR, existe escassez de dadoras. “Mesmo os centros privados são limitados na sua capacidade de resposta, e apenas acessíveis a quem tem muito dinheiro”.

Ana Oliveira Pereira já entrevistou cerca de 2500 dadoras de óvulos e desde o ano 2000 que lida com mulheres que querem ser mães mesmo sem companheiro. A psicóloga define a infertilidade “como uma crise”, considerando que a psicoterapia pode ajudar os casais ou mulheres solteiras que lidam mal com esta situação. “É duro e penoso lidar com esta realidade. No entanto, um casal que sobrevive à doença de um filho, a uma doença crónica grave, ao desemprego, e não se separa, também não o faz devido à infertilidade”, defende.

A Associação Portuguesa de Fertilidade (APF) recebe casais com diagnóstico de fertilidade ou pessoas que já estão a tentar engravidar há algum tempo, sem sucesso. “Temos cerca de 9000 associados e nestes 12 anos de existência, calculamos que já tenhamos ajudado mais de 30 mil casais”, explica a vice presidente, Filomena Gonçalves.

Há quem procure saber mais sobre o seu problema, quem precise de apoio jurídico, mas também quem sinta necessidade de conhecer e falar com outros casais a passar pela mesma situação.

“Julgo que as pessoas estão cada vez mais conscientes de que a fertilidade tem um prazo de validade, sobretudo na mulher. Cada vez mais se fala nisso. Mas, por outro lado, as pessoas estão muito convencidas de que a Medicina é milagrosa. Com toda a campanha que existe para a congelação de óvulos, é frequente achar-se que tudo vai correr bem e que a Medicina vai resolver, acabando por colocar a carreira e outros aspetos à frente. Às vezes, não é bem assim, porque os métodos têm os seus riscos e podem não funcionar”
Filomena Gonçalves, vice presidente da Associação Portuguesa de Fertilidade

A associação aposta no alerta para o adiamento da maternidade, sobretudo por receber casos variados de quem está a tentar há muitos anos e não consegue. “Julgo que as pessoas estão cada vez mais conscientes de que a fertilidade tem um prazo de validade, sobretudo na mulher. Cada vez mais se fala nisso. Mas, por outro lado, as pessoas estão muito convencidas de que a Medicina é milagrosa. Com toda a campanha que existe para a congelação de óvulos, é frequente achar-se que tudo vai correr bem e que a Medicina vai resolver, acabando por colocar a carreira e outros aspetos à frente. Às vezes, não é bem assim, porque os métodos têm os seus riscos e podem não funcionar”, explica a representante da APF.

O ano de 2017 foi marcante para quem trabalha diariamente com o tema da infertilidade. “Foi finalmente aprovada a gestação de substituição, algo que temos vindo a debater deste a nossa existência, e foi um avanço brutal que era necessário. Por outro lado, consideramos que a legislação se tornou mais inclusiva e permite que as mulheres solteiras e casais homossexuais possam recorrer a técnicas de PMA, que até então, estavam apenas destinadas a casais heterossexuais. Faço um balanço muito positivo do ano que passou, muito devido a esta legislação, mas também no que se refere ao apoio que demos aos casais que acompanhamos”, diz.

Apesar das boas notícias e de o facto de a legislação ter sido pioneira no que a estes temas diz respeito, a associação tem divulgado o desagrado relativamente ao chumbo no Parlamento, do projeto que visava o alargamento no SNS, do número de ciclos por casal, de três para cinco. “A proposta estava bastante equilibrada nesse sentido, e sentimos que este chumbo é um retrocesso. Temos vindo a reivindicar o aumento do número de ciclos porque, muitos destes casais, não conseguem engravidar ao fim de três ciclos, e não têm forma de ir para o privado”, explica Filomena Gonçalves.

Outra das reivindicações da APF faz diz respeito aos seguros de saúde que “recusam considerar a infertilidade como uma doença. Seria muito importante que houvesse vontade política para mudar os seguros de saúde, obrigando-os a incluir a PMA”, sugere.

Um dos projetos da APF para este ano é a sensibilização de profissionais de saúde e doentes para a criopreservação da fertilidade em doentes oncológicos, que é algo que nem todos fazem. “Conhecemos casos de homens e mulheres que são enviados para tratamentos oncológicos sem ser preservada a sua fertilidade. Continua a ser um assunto que nos preocupa muito”, conclui.

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