1229,5kWh poupados 1229,5 kWh poupados com a
i

A opção Dark Mode permite-lhe poupar até 30% de bateria.

Reduza a sua pegada ecológica.
Saiba mais

i

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Sombras, riscos e pouca margem para falhar. O que Carneiro tem pela frente no PS

Novo líder do PS será eleito sábado, numa candidatura sem oposição, mas que já sabe contar com críticos internos. José Luís Carneiro chega ao seu lugar de sonho quando o PS vive um pesadelo político.

    Índice

    Índice

Como candidato único, José Luís Carneiro tem eleição garantida nas diretas do PS. O socialista já tinha tentado a liderança na situação limite e inesperada da saída de António Costa, em 2023, e volta agora à carga em mais um momento imprevisto. Não teve oposição nesta luta, mas já ficou a saber que a terá no percurso como líder. Herda um partido em cacos. E, por tudo isto, tem margem zero para falhar.

Quando o ciclo eleitoral atual (que encerrará com presidenciais) terminar, o país poderá ter quatro anos sem eleições nacionais. Haverá menos motivos para eventuais sobressaltos e leituras políticas, mas isso pode valer pouco para um partido que está habituado ao poder e que está agora em vias de ter uma longa travessia pela oposição. Carneiro tem dois anos de mandato pela frente e um terreno agreste que se estende ao interior do partido.

No Parlamento, tem o PS humilhado e um Chega que é hoje uma sombra efetiva como alternativa ao Governo. No poder, está uma AD relegitimada e com quem terá de gerir relações, sem se anular como alternativa. O caminho lá fora é espinhoso e internamente não é melhor. Já sabe que conta com alguns adversários internos — que tenta agora integrar — mas também com a necessidade de uma reflexão sobre os caminhos a seguir para reconstruir o partido. Será um percurso com mais riscos do que oportunidades.

Uma delegação do Partido Socialista, composta pelo presidente do partido, Carlos César (E) e pelo deputado José Luis Carneiro, fala à imprensa após ser recebida pelo primeiro-ministro, Luis Montenegro (ausente na fotografia), tendo em vista a preparação da participação de Portugal na Cimeira da NATO, que se realiza em Haia nos dias 24 e 25 de junho, e a decisão de reforço do investimento nacional em Defesa, na residência oficial de São Bento em Lisboa, 18 de junho de 2025. TIAGO PETINGA/LUSA

Carlos César, que é presidente do PS, tem desempenhado também as funções de líder interino até à eleição deste sábado. E esta quinta-feira declarou apoio ao candidato único.

TIAGO PETINGA/LUSA

Autárquicas: tentar recuperar moral num terreno de alta sensibilidade

É a prioridade das prioridades para um partido que sai sovado de legislativas e que tem no poder local o seu ativo mais importante. O trauma eleitoral está tão fresco que o partido está a tratar as autárquicas como se de uma relíquia sensível se tratasse: afastou disputas internas nesta fase e até a discussão das presidenciais para evitar divisões que pudessem comprometer o resultado dessas eleições. “Não ganhar nada em capitais de distrito, perder a ANMP e perder a ANAFRE” seria uma “hecatombe“, dizia ainda em dezembro um socialista ao Observador, noutro tempo para o país político e para o partido.

A hecatombe chegou mesmo, mas nas legislativas antecipadas, e o PS de José Luís Carneiro está agora a pôr nas autárquicas todas as fichas para tentar recuperar alguma moral e sobretudo mostrar que é o PS e não o Chega a alternativa ao PSD. Ainda esta quinta-feira, na declaração de apoio que fez ao candidato único no PS, Carlos César sublinhava que “o desafio” próximo do partido “será o de confirmar nas eleições autárquicas que é a alternativa real e construtiva“.

A ideia de “reconquistar o estatuto que ficou fragilizado”, como lhe chama um alto quadro do partido, está a centrar o partido numa altura em que é, pela primeira vez, a terceira força política na Assembleia da República — ainda que ainda tenha sido o segundo em votos. Existe a perceção de que apontar para a previsível diferença eleitoral em relação ao Chega, nas autárquicas, pode ser importante do “ponto de vista psicológico“.

“Até podemos perder autárquicas, o que vai interessar é ter nove vezes mais do que o Chega”, exemplifica o mesmo socialista em conversa com o Observador para sustentar esta tese. Não parece uma fasquia propriamente elevada, tendo em conta que o ponto de partida é o que é: o PS tem cerca de 150 câmaras, o Chega nem uma. Manter um diferencial de relevo, não será propriamente difícil.

Nesta altura, o risco, para o PS, não parece estar em poder perder apenas a hegemonia autárquica. Carneiro terá de ter obrigatoriamente capitais de distrito e, aqui, o foco do partido tem estado, sobretudo, em Lisboa, Porto, Braga e Coimbra. Mas também em manter Sintra, por exemplo. E os problemas podem vir de todos os lados para um partido que é o que tem mais autarcas de saída (por limitação de mandatos), o que está mais traumatizado com as legislativas e que sabe poder voltar a sofrer como nenhum outro com o crescimento do Chega. Este medo é agora ainda maior do que já era há uns meses.

Seguro já oficializou a candidatura, mas Carneiro empurrou para a frente qualquer decisão do PS.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Presidenciais: a divisão inevitável

As presidenciais são o outro tema eleitoral bicudo para José Luís Carneiro que, na moção que apresentou, tentou sacudir não só para longe no calendário, como também pareceu querer empurrar para longe de uma decisão do PS. No primeiro texto que apresenta ao partido com a sua estratégia, desgradua as presidenciais onde o anterior líder, Pedro Nuno Santos, tinha colocado especial peso, determinando a necessidade de o partido apoiar um candidato da área política do PS.

Entre esse capítulo e o atual, António José Seguro colocou-se em campo e, com isso, uma parte do PS pôs-se de lado. Há um histórico de tensões que foi cravando fossos entre determinadas alas do PS e o segurismo e que veio à tona nos últimos meses, criando mais um foco de potenciais divisões. Enquanto parte do PS ainda aguarda por uma alternativa, muitos socialistas já assinaram por baixo da candidatura presidencial de Seguro.

Já José Luís Carneiro — que foi muito próximo de Seguro — preferiu manter-se o mais longe possível de decisões, até porque sabe que entre os seus principais apoiantes tem nomes que não toleram Seguro, sendo o mais vincado Augusto Santos Silva — que tem repetido que o antigo líder não reúne “os requisitos mínimos” para ser candidato presidencial.

É neste quadro adverso que Carneiro vai ter de decidir o que fazer: atravessar-se por um candidato presidencial que foi líder do partido, mas que tem muitos anticorpos em algum PS, ou deixar cada socialista decidir por si, sem meter nisso o partido (que neste momento também vive um quadro financeiro delicado e — já se sabe — apoio eleitoral tem esse custo também). Certo é que a eleição presidencial está longe de galvanizar o PS que arrisca ficar mais uma temporada (já vai em 20 anos) fora do Palácio de Belém e agora num quadro político com uma maioria esmagadora de direita: a influência do próximo PS no círculo do poder será muito reduzida.

O candidato a secretário-geral do Partido Socialista, José Luís Carneiro à chegada para participar na reunião extraordinária da Comissão Nacional do PS, para análise da situação política face aos resultados eleitorais do passado dia 18 de maio e aprovação de calendários e regulamentos eleitorais, no Hotel Altis, em Lisboa, 24 de maio de 2025. JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

PS só reuniu a Comissão Nacional para se despedir de Pedro Nuno e analisar resultados eleitorais.

JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Gerir a relação com a AD, ser muleta ou oposição

O Orçamento será o primeiro momento de teste para a relação que José Luís Carneiro já sinalizou querer distender, em comparação com a liderança anterior. Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro incompatibilizaram-se e o ex-líder do PS saiu mesmo a dizer que não viabilizaria um Governo da AD, liderado por Montenegro. Carneiro ainda não entrou, mas o PS já sabe que vai estar disponível para “consensos democráticos” em cinco áreas de soberania: política externa e europeia, defesa, segurança, justiça e organização do Estado.

Também já disse estar disponível para viabilizar o Orçamento do Estado, sem precisar sequer de o negociar. Apenas quer ver primeiro, mas a disponibilidade para fazer passar este instrumento central para a governação, num quadro parlamentar em que isso é decisivo, já está manifestada há muito. No fim de maio, numa entrevista à RTP3, Carneiro abriu mesmo uma autoestrada, ao colocar condições muito genéricas para essa viabilização. “Se pretender manter atitude de respeito com o PS deve evitar colocar no Orçamento dimensões que sabe que colidem com a identidade e valores fundamentais do PS”, disse o socialista ao Governo, definindo como esses “valores” o SNS, o sistema de pensões, a segurança social e a escola pública.

Já disse tudo isto mas ainda não discutiu internamente — e isso já está a ser criticado. “O PS teve o resultado eleitoral que teve e ainda não reuniu a Comissão Política Nacional desde as eleições. Nunca se viu”, comenta um destacado quadro do partido. Houve uma reunião da Comissão Nacional, mas esse não é o órgão da direção alargada.

Essa ausência é notada sobretudo por ter acontecido numa altura em que havia decisões importantes a debater — para lá da reflexão interna sobre o resultado –, como por exemplo o posicionamento do partido na viabilização do Governo. “A viabilização poder ter consenso, mas tem de ser discutida“, reforça o mesmo socialista que questiona: “O que vamos fazer para além de viabilizar o Governo e Orçamento?”

Outro socialista diz ao Observador que José Luís Carneiro vai ter de “confrontar o Governo com uma alternativa. Não pode fazer o debate sem uma alternativa”, diz defendendo iniciativas imediatas em áreas decisivas como a habitação. O caminho que Carneiro fizer agora, diz, será decisivo: “O PS tem quatro anos de oposição pela frente, se calhar até oito. Se fizer asneira, passa a residual“.

Vão ser tempos do equilíbrio difícil entre ser oposição e ao mesmo tempo muleta do Governo em matérias onde essa maioria é necessária. Uma das poucas vantagens identificadas internamente no PS nesta altura é que “só há eleições quando o PS quiser, por isso o PS manda no seu tempo“. Não é coisa pouca numa altura em que o PS precisa de tempo. Mas a partir deste sábado, Carneiro será julgado a cada esquina (do partido também) sobretudo pelo que estiver a ser capaz de fazer com esse mesmo tempo.

Medina e Vieira da Silva foram dois socialistas que ponderaram uma alternativa a Carneiro.

LUSA

Oposição interna em espera

A tolerância com um líder na oposição é baixa e no PS, como se vê, já há até críticas à falta de debate interno quando o novo líder ainda nem foi eleito. Aliás, o avanço rápido da candidatura de José Luís Carneiro foi logo criticado por um grupo relevante de socialistas, que preferiam refletir primeiro sobre que caminho devia o partido seguir e com que perfil de liderança.

Fernando Medina foi um deles e, quando anunciou que não estava disponível para entrar na corrida, lamentou que o avanço rápido de Carneiro para o processo interno de “contagem de espingardas” tenha “inviabilizado que o debate profundo se fizesse antes de uma eleição direta”. Mariana Vieira da Silva e Duarte Cordeiro também fizeram declarações no mesmo sentido. Nas semanas anteriores, juntamente com Ana Catarina Mendes, este grupo tinha tentado procurar uma alternativa à candidatura de Carneiro.

A reflexão deste núcleo não deu frutos, Carneiro acabou candidato único. Mas as posições tomadas acabaram por fazer com que estes mesmos elementos ficassem já sinalizados como alternativas à nova liderança. Todos estão atualmente ativos no espaço público — seja em espaços de comentário televisivo, seja no Parlamento ou no Parlamento Europeu — e assim vão manter-se, o que pode tornar-se um pesadelo a médio prazo para Carneiro.

O futuro líder sabe o que passa um secretário-geral do partido quando está na oposição e é, por isso mesmo, muitas vezes apontado como um líder a prazo. Na composição das equipas para a sua era, há juras de tentar a unidade, através da integração das várias alas do partido nas direções políticas (tenciona fazer isso na direção nacional e já deu os primeiros sinais nesse sentido na direção parlamentar).

Vai esperar pelo congresso — que marcará para depois das autárquicas — para ter o partido à sua medida, com uma Comissão Política Nacional também da sua responsabilidade (na atual tinha cerca de 35% dos representantes, fruto do acordo com Pedro Nuno). Quando o atual ciclo se fechar, com as eleições presidenciais, pela frente poderão vir quatro anos sem eleições (se tudo corresse dentro dos calendários, as próximas que existiriam seriam as Europeias de 2029). Isso implica menos momentos de sobressalto, com eventuais leituras políticas de resultados eleitorais e tumultos internos. Mas isso não dá especiais garantias a líderes na oposição.

Carneiro desconfia que tanto Medina como Cordeiro estão a fazer contas ao tempo — querem manter influência interna, mas sem estarem demasiado colados à direção — e sabe que a alternativa pode estar à espreita, à espera da melhor oportunidade. Prova disso foi a frase que deixou, por entre vários avisos, na apresentação da sua candidatura, dirigindo-se muito diretamente “a quem sobreponha aspirações individuais próximas ou longínquas à defesa do interesse superior do grande partido do socialismo democrático que somos”.

[A polícia é chamada a uma casa após uma queixa por ruído. Quando chegam, os agentes encontram uma festa de aniversário de arromba. Mas o aniversariante, José Valbom, desapareceu. “O Zé faz 25” é o primeiro podcast de ficção do Observador, coproduzido pela Coyote Vadio e com as vozes de Tiago Teotónio Pereira, Sara Matos, Madalena Almeida, Cristovão Campos, Vicente Wallenstein, Beatriz Godinho, José Raposo e Carla Maciel. Pode ouvir o 6.º episódio no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music. E o primeiro episódio aqui, o segundo aqui, o terceiro aqui, o quarto aqui e o quinto aqui]

Reconstruir o partido, mas a olhar por cima do ombro

O futuro líder balizou para algures entre as autárquicas e o congresso do partido — cuja data ainda vai escolher — a reflexão interna que o partido concordou que as últimas legislativas exigem. Mas a carga de avisos que associou a esse momento mostra bem como sabe o caminho de pedras que terá pela frente, também ao nível interno.

Logo na apresentação da sua candidatura à liderança, avisou várias vezes que ninguém “perdoará” o PS se ficar “agora a olhar para o umbigo ou se se entretiver a golpear reciprocamente a nossa credibilidade e as nossas qualidades”. Defendeu “reflexão”, mas avisou que ela não pode ser confundida “com tentações de ajustes de contas internos ou com cedência a tentativas de aproveitamento por parte dos nossos principais opositores”.

Esta discussão vai ser quente, com temas decisivos para o futuro imediato, como a gestão da relação com a AD, mas outros não menos intensos e atuais, sobre o posicionamento que o partido deve ter em temas divisivos como a imigração. E, neste caso concreto, a divisão não é para lá das paredes do Largo do Rato, começa logo dentro de casa, como saltou à vista ainda na última semana, com vozes dissonantes (Pedro Delgado Alves, Isabel Moreira, Ascenso Simões) sobre as propostas do Governo para a imigração. E de forma mais vincada no início do ano, quando Pedro Nuno Santos tentou um alinhamento novo, com críticas à governação costista nesta matéria, e foi criticado pelo próprio José Luís Carneiro.

O debate da reconstrução e reposicionamento do PS é visto como necessário, mas Carneiro já deu sinal que também o vê como arriscado para a sua liderança, com socialistas a aproveitarem para cavar trincheiras internas com o futuro a médio prazo em vista. Sempre a espreitar por cima do ombro.

Duarte Cordeiro é outro socialistas que queria reflexão interna e se demarcou d Carneiro. Quer manter um espaço no partido para o futuro.

DIOGO VENTURA/OBSERVADOR

Ofereça este artigo a um amigo

Enquanto assinante, tem para partilhar este mês.

A enviar artigo...

Artigo oferecido com sucesso

Ainda tem para partilhar este mês.

O seu amigo vai receber, nos próximos minutos, um e-mail com uma ligação para ler este artigo gratuitamente.

O seu plano não inclui a oferta de artigos

Para poder oferecer artigos aos seus amigos, faça upgrade para um plano de subscrição superior.

Ofereça até artigos por mês ao ser assinante do Observador

Partilhe os seus artigos preferidos com os seus amigos.
Quem recebe só precisa de iniciar a sessão na conta Observador e poderá ler o artigo, mesmo que não seja assinante.

Este artigo foi-lhe oferecido pelo nosso assinante . Assine o Observador hoje, e tenha acesso ilimitado a todo o nosso conteúdo. Veja aqui as suas opções.

Atingiu o limite de artigos que pode oferecer

Já ofereceu artigos este mês.
A partir de 1 de poderá oferecer mais artigos aos seus amigos.

Aconteceu um erro

Por favor tente mais tarde.

Atenção

Para ler este artigo grátis, registe-se gratuitamente no Observador com o mesmo email com o qual recebeu esta oferta.

Caso já tenha uma conta, faça login aqui.