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Um ex-líder do PS colocou-se no tabuleiro presidencial, mas o partido está longe de estar rendido. O avanço de António José Seguro para as eleições presidenciais trouxe muitas memórias à tona entre socialistas que dirigiram o PS nos últimos anos — incluindo os apoiantes do antigo líder. E tem também colocado parte do partido a desejar que ainda surja qualquer alternativa. Mesmo que venha de fora.
António Vitorino continua sem dar sinais e António Sampaio da Nóvoa (que não é do partido) mantém-se em espera. São duas vias preferidas por todos aqueles que não querem apoiar Seguro. Mas o antigo líder não quis aguardar por clarificações ou acordos prévios e posicionou-se, “sem amarras” — que é como quem diz que não faz questão de ter nem o passado socialista às costas, nem ir pela mão do partido na corrida a Belém.
A sua aparição condicionou o tabuleiro de forma decisiva, num momento especialmente sensível para o partido para onde entrou aos 18 anos e que liderou durante três. De tal forma que existe até a convicção, nos apoiantes do futuro líder, de que a própria investida para uma candidatura alternativa à liderança teve neste tema um impulso. O “núcleo de Lisboa” (Mariana Vieira da Silva, Fernando Medina e Duarte Cordeiro) estaria convencido de que, com José Luís Carneiro, Seguro teria o apoio certo do PS.
No PS, António José Seguro teve um caminho sempre muito pautado pela medição de forças com os adversários no percurso para a liderança, António Costa e José Sócrates. O primeiro é um rival antigo e essa competição deixou marcas que duram até hoje através de várias “ramificações” numa frente que aponta Seguro como o socialista “que a direita adora”. O Observador foi tentar perceber as razões de alguma da rejeição que se ouve no PS quando o assunto é Seguro — e que tem sido audível desde o dia em que o antigo líder deu sinais de estar de volta.
A clivagem que começou na JS. E se mantém viva nas “ramificações”
A rivalidade entre Seguro e Costa começou cedo, logo na JS, no início dos anos 80. No congresso de Vila do Conde, Costa estava nas listas de Luís Patrão, e Seguro estaria do lado da candidata que venceu a eleição para a liderança da jota, Margarida Marques. O jovem socialista era do mesmo distrito de Patrão, mas de zonas diferentes (o primeiro era de Penamacor, o outro da Covilhã) e logo aí havia uma concorrência que contagiava os relacionamentos à partida — Costa era muito próximo de Patrão.
Ainda assim, Seguro prestou apoio a Costa quando este, depois da derrota da lista que integrava, quis dirigir o jornal da jota, o “Jovem Socialista”. Porém, a relação entre os dois — política e pessoal — não se desenvolveu para além disto, até porque Costa acabou por se afastar da JS por essa altura, ainda que mantendo a influência.
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Era visto como um natural futuro líder, mas estava ligado ao grupo do ex-secretariado (a oposição interna a Soares que se reunia no famoso sótão de Guterres), o que desagradava à direção nacional do PS. Em troca de financiamento para o Congresso, Costa sai de cena, mas antes cozinha uma sucessão — com José Apolinário a candidato à liderança (contra Porfírio Silva) — uma solução que conseguiria agradar à direção do partido e ao ex-secretariado. Seguro faz parte da direção, mas também elementos mais próximos de Costa.
Era um grupo que, conta fonte socialista, Seguro apelidava, em tom depreciativo, de “meninos da faculdade de Direito”, onde estavam Vitalino Canas ou Eduardo Cabrita, por exemplo. Hoje são duas das vozes que dizem publicamente que preferiam que o PS viesse a apoiar outro candidato presidencial, que não Seguro, mas na altura apenas representavam a manutenção de uma certa influência de Costa sobre a JS, que Apolinário e Seguro pretendiam sacudir.
“A rivalidade começou na JS”, conta um socialista que assistiu a alguns dos momentos dessa fase. E, ao longo dos anos, foi-se fixando algures entre a tendência de Costa para manter a sua influência mesmo quando se afasta e a ambição de Seguro chegar ao topo. “Costa sempre teve esta dimensão de querer preservar a herança e influência, deixar sempre alguém a seguir”, aponta um elemento próximo de Seguro. Já entre costistas, assinala-se a “sempre forte aspiração de Seguro à liderança” e “uma obsessão com a existência” de Costa nesse caminho.
Mas há leituras mais prosaicas para esta divisão que marca gerações dentro do PS. “A guerra é de cidade contra o campo“, resume um experiente socialista que fala em “incompatibilidade pessoal e também de leitura da vida” entre António Costa e António José Seguro. Outro socialista diz que “o choque” entre os dois “sempre se sentiu, fosse por via direta ou indireta”. “A rivalidade é centrada nos dois, mas com várias ramificações ao longo do tempo”, descreve. Outro destacado membro do partido também alinha pela ideia de que o que se ouve ainda hoje sobre Seguro “são resquícios do confronto com Costa”.
Um dos pontos sempre mais criticados é, no entanto, a proximidade que muitos socialistas acreditam que Seguro tem com a direita. O antigo secretário-geral do PS evidenciou-se na JS (que lideraria entre 1990 e 1994) como presidente do Conselho Nacional da Juventude. E é nesse tempo que os socialistas contactados pelo Observador dizem estar a origem dessa proximidade, tendo em conta a intimidade que ganhou com figuras da então JSD, como Pedro Passos Coelho ou Carlos Coelho. Relações que, anos mais tarde (em 2012), seriam apontadas como prova, pelos seus críticos internos, da intimidade de Seguro com a direita. Tanto que na contenda interna de 2014, haveria de ficar famosa a frase que o rival Costa lhe atirou, a esse propósito: “Se pensarmos como a direita pensa, acabamos a governar como a direita governou.”
A sustentar esta tese de um Seguro com esta inclinação natural para a direita, conta-se mesmo no PS um episódio dos tempos da jota. Quando frequentava o ISCTE, teria ficado de apresentar listas pela JS para uma candidatura à associação de estudantes, mas não as entregou e a JSD acabou por ganhar a eleição. Ficou sempre a dúvida, em alguns membros da JS da altura, se a falha não teria sido propositada.
As teses sobre a origem da contenda são várias, mas entre as críticas ao socialista direitista, uma certa rejeição da ruralidade pela elite lisboeta e as ambições concorrentes, a verdade é que a difícil relação Costa/Seguro foi sempre crescendo (até ao auge de 2014) e deixando um rasto.
Enquanto Seguro seguia na JS, Costa prosseguiu os estudos — também ele um “menino da Faculdade de Direito” — ao mesmo tempo que integrava direções nacionais do partido, sempre pela ala sampaísta. Estava no secretariado da Federação da Área Urbana de Lisboa (FAUL) quando via o líder da JS fazer campanha ao lado do seu mentor Jorge Sampaio, nas legislativas de 1991. De t-shirt amarela e suspensórios vermelhos, Seguro protagonizou o emblemático episódio de distribuição de 250 mil preservativos nessa campanha — recebendo elogios, mas também muitas críticas na altura. Desse período de pré-campanha há mesmo uma história, contada no círculo de Seguro, de um assalto à sede da jota, então no Intendente, que acreditam até hoje ter sido promovida pela JS na FAUL com o objetivo de desestabilizar. Um apoiante de Seguro fala mesmo em alguma “ciumeira” dos costistas com o protagonismo de Seguro na altura.
Avanço de Seguro traz receio de nova divisão presidencial no PS
Mais um delfim. E mais um adversário a complicar as contas
O empenho nessa campanha serviu de pouco. Sampaio perdeu as legislativas e a liderança do PS logo a seguir, depois de deixar António Guterres “chocado” com o resultado — Cavaco Silva tinha conquistado a segunda maioria absoluta. Seguro e Costa já tinham nome dentro do partido, estavam bem posicionados como promessas da geração futura e prosseguiram naturalmente para a era guterrista, que procurou integrar as várias frentes do partido.
Os dois delfins entraram, assim, no primeiro Governo de Guterres, em 1995, Costa como secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares e Seguro como secretário de Estado do Desporto. Havia outro elemento promissor no partido que entrou também nesse Governo e, por isso mesmo, direto para a pole position de futuros líderes. Era José Sócrates, que foi escolhido para secretário de Estado, no caso o Adjunto do ministro do Ambiente.
Em pouco tempo, Sócrates e Costa foram promovidos a ministros. Seguro permaneceu como secretário de Estado (chegou a Adjunto do primeiro-ministro) e no círculo de Costa ficou sempre a ideia de aí ter ficado uma “mágoa”. Seguro só chegou a esse topo mais tarde, depois de ter estado no Parlamento Europeu de onde regressou para ser ministro Adjunto do primeiro-ministro. Foi apenas por uns meses, já que o Governo caiu nesse ano, em dezembro de 2001.
▲ Sócrates e Seguro, em 2005.
JOAO ABREU MIRANDA/LUSA
A rivalidade teve novo capítulo quando Ferro Rodrigues chega à liderança do PS, em 2002. O novo secretário-geral começa por escolher Costa para líder parlamentar mas, quando este é eleito eurodeputado (2004), substitui-o por Seguro. Nessa altura, Costa tinha feito pressão para que Ferro optasse antes por Sócrates — de quem entretanto se tinha aproximado politicamente. No círculo de Seguro esse é apontado como um momento que ficou atravessado tanto em Costa como em Sócrates. Nessa altura, um amigo comum ainda promoveu um almoço entre Costa e Seguro para tentar sanar anos de contendas, mas não deu frutos. Eram personalidades definitivamente distantes.
“Não há fundamento para uma coisa desta dimensão”, comenta com o Observador um segurista quando examina o passado em busca de razões que justifiquem que, tantos anos depois, a frente costista mantenha a animosidade em relação a Seguro, agora quando se posiciona para Belém — um cargo que, para mais, Costa sempre excluiu. Outro elemento do partido diz não ter memória de uma “desavença séria” entre os dois até 2011 e, depois, a grande rutura de 2014.
Uma socialista garante que “não há animosidade, há sim a consciência de que é uma personalidade fraca”. “As pessoas não veem nele inspiração“, comenta outro socialista. Outro elemento do partido — este próximo de Costa — descreve Seguro como um político que “faz as coisas todas redondas, é uma grande figura do PS que a direita adora“, ironiza.
O deserto da era Sócrates e as investidas na oposição interna
Quando, em 2004, Ferro Rodrigues se demite da liderança do partido, Costa estava acabado de aterrar em Bruxelas, para assumir o cargo de eurodeputado. Em Lisboa, Sócrates aquecia a máquina do partido. Seguro estava tentado, mas Jorge Coelho promoveu um almoço, no Hotel da Curia, e convenceu-o de que o tempo dele não era aquele. Começou aí uma longa travessia do deserto político na oposição semi-silenciosa a José Sócrates.
LUSA
Nesses sete anos, Seguro não foi mais do que cabeça de lista pelo partido por Braga, nas legislativas, e presidente de uma comissão parlamentar. “Não se revia no estilo de José Sócrates”, diz um dos seus apoiantes ao Observador a justificar porque nunca se juntou a essa direção ou governos. Também não teve convites nesse sentido. Sócrates nunca sentiu qualquer proximidade com Seguro, antes pelo contrário. Na verdade, a que manteve com Costa também foi sempre muito tática — e era de parte a parte — mas existia. Aliás, em 2006 Sócrates disse, em entrevista à Sábado, que com Costa existia uma espécie de pacto tácito de não agressão: “Ficou claro nas nossas cabeças que no dia em que a questão da liderança se pusesse para a nossa geração, o tema nunca poderia transformar-se em palco de confronto.” Com Seguro, nem isso. Foi sempre distante e mantém-se assim.
“Não votaria no Tó Zé Seguro” disse ainda esta semana Sócrates, em entrevista à CNN Portugal, tratando o líder que lhe sucedeu pelo diminutivo que vinha do passado e que o próprio tentou que ficasse para trás quando foi secretário-geral. “Votaria no António Vitorino”, declarou.
Seguro foi uma oposição interna a Sócrates com margem muito reduzida para fazer o seu trabalho, mas foi sempre alimentando as suas tropas, durante todo esse tempo, e mantendo tertúlias (entre o Martinho da Arcada e o Canas) com os seus mais próximos. “É normal que o fizesse, afinal tinham sido anos de ligação à JS e havia contactos naturais”, justifica-se no seu círculo mais próximo, para afastar qualquer ideia de corrida paralela desleal ao então líder. O PS obtivera a primeira maioria absoluta da sua história e tudo o que lhe restava era ocupar o seu lugar no Parlamento, como deputado. Pouco mais. A primeira vez que Seguro ousou discordar de forma clara do Governo do seu partido foi por causa da violação da promessa eleitoral sobre o IVA — foi aumentado de 19% para 21%. Só mais tarde, em 2008, teve um embate mais sério com Sócrates a propósito do referendo ao Tratado Europeu.
▲ Na campanha para as Europeias de 2014.
Leonardo Negrão / Global Imagens
Numa reunião da Comissão Política do partido, a discussão entre os dois foi tensa, mas no final Seguro não teve muitos a seguirem-no no voto contra a decisão de desistir do referendo ao tratado (Sócrates dizia que tinha proposto um referendo ao Tratado Constitucional e não ao Tratado de Lisboa, que saíra da Presidência portuguesa da UE). No pequeno grupo de opositores estavam Pedro Nuno Santos ou Duarte Cordeiro — que anos mais tarde estariam na oposição interna a Seguro. A investida não teve seguimento, não existia ambiente nem espaço no partido para a resistência e Seguro só começou a ser mais audível já no segundo Governo de Sócrates.
Em 2010, foi mais visível a sua presença em conferências em universidades, com considerações sobre a gestão de uma crise económica como a que então se vivia no mundo e até críticas aos argumentos de Sócrates, que responsabilizava o cenário internacional para justificar os maus resultados económicos: “Há quem diga que os nossos problemas são devidos à economia internacional e que, do ponto de vista interno, não há muito a fazer. Não me revejo neste posicionamento simplista”, dizia Seguro. E foi também deixando recados na coluna de opinião que mantinha no semanário Expresso — onde chegou a defender ser tempo para “uma nova cultura na política”. É por essa altura que critica, no Facebook, os valores remuneratórios recebidos pelo então presidente da EDP, António Mexia (à época o Estado era o acionista principal): “É uma imoralidade!” Chegou mesmo a fazer um requerimento ao ministro das Finanças Teixeira dos Santos sobre esta situação.
No terreno mantinha os contactos que fizera nos tempos da JS, tanto que mal Sócrates se demitiu da liderança, António José Seguro tinha tudo pronto para avançar. Tropas controladas, apoios com relevo. “Como Pedro Nuno Santos, desde cedo tinha o objetivo de ser secretário-geral e foi usando a tática do retângulo: cobrir todo o país” socialista, como descreve um membro do partido o trabalho de terreno que foi sendo feito por Seguro ao longo dos tempos para, na altura certa, conseguir virar o aparelho que, até ali, estava com Sócrates. Tinha também muitos anos de acertos de contas por fazer e impôs uma rutura com esse passado. “Ele próprio era o contrário de Sócrates”, comenta um dos mais próximos para justificar o corte com essa herança que Seguro fez — irritando quem tinha feito parte desses governos.
Na sua equipa mais próxima tinha Óscar Gaspar, António Galamba, Miguel Laranjeiro, Eurico Brilhante Dias, Álvaro Beleza, José Luís Carneiro e também nomes como Alberto Martins, Mota Andrade, José Junqueiro ou António Braga. E, na comunicação, o apoio do seu amigo de longa data Luís Bernardo, que hoje detém a agência WLP — da qual António Galamba é diretor-geral — e que está a fazer a campanha presidencial do Almirante Gouveia e Melo.
Os tempos de líder e como ainda pesam na insatisfação
Quando António José Seguro avançou para a liderança, em 2011, Costa ainda ponderou, mas era presidente da Câmara de Lisboa e não estava disponível para trocar esse posto pelo de líder da oposição (que poderia ser longa) a Pedro Passos Coelho. “Na altura havia uma certa ideia de que o Seguro representava um PS demasiado parecido com o PSD”, diz um socialista. Apoiado nisso mesmo, Costa incentivou Francisco Assis, que avançou mesmo contra Seguro. Hoje é um dos principais apoiantes do antigo líder na corrida presidencial. Aliás, foi o eurodeputado socialista o primeiro a falar de “uma campanha organizada no PS” para impedir que Seguro fosse candidato.
A declaração de Assis, em janeiro, veio em reação às críticas duras que, assim que Seguro se posicionou no terreno, surgiram de dentro do partido. Um dos socialistas mais audíveis foi Augusto Santos Silva que, numa entrevista à RTP2, em janeiro, disse que Seguro não cumpria “os requisitos mínimos de uma candidatura que possa ser apoiada pelo PS e por um vasto campo de forças democráticas”, considerando mesmo que o ex-líder socialista “se fica pelas banalidades“.
As suspeitas de orquestração recaíam novamente sobre o costismo. E isso foi sendo aprofundado à medida que outros elementos dessa era faziam declarações no mesmo sentido, como Mariana Vieira da Silva. “Não me parece que o trabalho político de António José Seguro nos últimos anos e aquilo que representa possa servir para agregar todo o centro-esquerda. Não podemos olhar para as qualidades políticas para ser Presidente da República como algo que é banal”, disse, na quinta-feira passada, à Rádio Renascença, a socialista que foi o braço direito de Costa durante toda a governação.
Eduardo Cabrita, outro socialista que esteve na direção e governos de Costa, disse ainda este ano ao Observador que “Seguro terá muita dificuldade em mobilizar o próprio eleitorado socialista”. Na altura preferia Mário Centeno, que entretanto se afastou desse combate. “Espero que personalidades na área progressista se afirmem”, esperava então. Vieira da Silva ainda espera por António Vitorino, tal como Vitalino Canas e outros socialistas de renome que, em privado, têm estado a pressionar o antigo ministro que até esta quinta-feira continuava em reflexão e a ouvir opiniões, segundo apurou o Observador junto de fonte próxima.
Na verdade, esta ala crítica de Seguro quer tudo menos o ex-líder como hipótese única para as presidenciais e é por isso que mantém a busca. Se não for Vitorino, ainda há António Sampaio da Nóvoa (que não é do partido) ou o próprio Augusto Santos Silva como alternativas. Desta vez, Costa está afastado, na presidência do Conselho Europeu, mas as suspeitas desta maquinação continuam a levar ao ex-primeiro-ministro socialista. Certo é que, em janeiro, jantou com Vitorino em Bruxelas, aproveitando a participação deste num think tank sobre defesa europeia. As presidenciais foram, evidentemente, tema de conversa.
O problema da divisão presidencial do partido tem ganho dimensão e chega mesmo a José Luís Carneiro, o futuro líder do PS, que tem entre os seus apoiantes de peso vários nomes que muito provavelmente rejeitarão Seguro, como já fizeram no passado. É o caso de Jorge Lacão (que se demitiu da direção segurista, em 2012), Capoulas Santos (que nunca terá perdoado ao antigo líder ter saído das listas ao Parlamento Europeu e que ainda esta semana considerou um erro um apoio do PS “que a direita aplaudirá”), Sérgio Sousa Pinto (que na era Seguro exasperou até o partido “mudar a trajetória” e passar a votar contra os orçamentos do Estado de Passos), ou José António Vieira da Silva (que se posicionou ao lado de Costa contra a liderança de Seguro).
▲ Na campanha das Europeias, em Lisboa.
NUNO VEIGA/LUSA
Uma das ideias dominantes em alguma da frente anti-Seguro é de que a sua liderança deixou sobretudo más indicações sobre a capacidade política. À cabeça surgem dois momentos muito concretos dessa fase de oposição a Passos Coelho: quando a direção não acompanhou o grupo de deputados do PS que pediu a fiscalização sucessiva do Orçamento para 2012 — que mais tarde resultou na declaração de inconstitucionalidade dos cortes no subsídio de férias de pensionistas e funcionários públicos –; a tentação para aceitar o “compromisso de salvação nacional” com Cavaco e Passos.
Nessa altura, Seguro teve sempre ativo no Parlamento o grupo dos jovens turcos, que desafiavam o líder com propostas de reestruturação da dívida e também o voto contra o Tratado Orçamental da UE e as suas regras de disciplina orçamental impostas aos Estados-membros. Nesse grupo estava Pedro Nuno Santos, que até tinha apoiado Seguro na corrida à liderança em 2011, mas que naquela altura decidiu rasgar com a direção demitindo-se da vice-presidência da bancada parlamentar. Em causa estava também a ideia de o PS se abster na votação das alterações à legislação laboral.
Para António Costa, o “primeiro grande erro” daquela direção tinha sido logo a “abstenção violenta” decretada por Seguro ao Orçamento para 2012, aquele que consagrava as medidas do Memorando da troika, aplicado depois do pedido de ajuda externa feito pelo Governo Sócrates.
“É uma personalidade fraca, deu uma imagem de um PS muito submisso ao PSD da troika e tudo aquilo que o Governo de Passos fez em relação à troika“, diz uma socialista sobre esse tempo. Um antigo deputado lembra a oposição da direção de Seguro à fiscalização sucessiva e como a sua direção conseguiu esvaziar o grupo de deputados do partido que inicialmente estavam dispostos para avançar (eram precisos 23). No final só 17 alinharam e o PS teve de ir buscar os restantes que faltavam ao Bloco de Esquerda.
Outro momento é o da negociação que se seguiu à “demissão irrevogável” de Portas e a investida do Presidente Cavaco Silva para tentar um acordo de estabilidade que permitisse ao Governo continuar sem sobressaltos. Em troca, as legislativas seriam antecipadas. No PS conta-se que Seguro esteve à beira de aceitar, mas a pressão interna era imensa (até Mário Soares interveio). “É demasiado amigo do Pedro Passos Coelho e isso ficou muito evidente naquela altura. Quem tem essa memória não perdoa“, diz um elemento do partido. “Não é uma figura muito mobilizadora”, conclui um socialista que recusa colocar a questão nos problemas entre Costa e Seguro, mas na “capacidade de estratégia política”, que acredita ser ausente no agora candidato a Belém.
Ao fim de um ano, a deterioração da liderança era grande, mas os resultados eleitorais, nas autárquicas e europeias, não eram negativos. Pelo menos na ótica de Seguro, porque na de Costa as Europeias de 2014 foram a gota de água para saltar da Câmara de Lisboa, pegar nos jovens turcos, e apear Seguro da liderança. O partido seguiu-o: “Existia a perceção de que, com Seguro, teria de esperar meia hora para chegar ao poder e com Costa seriam precisos apenas cinco minutos”, diz um dirigente da altura para justificar a mudança de agulha rápida no PS. “Nessa altura foi uma pura questão de poder. Costa, estava convencido de que o PS iria ganhar as legislativas, e decidiu apear o Seguro”, resume outro membro do partido.
Um ano antes tinha havido uma falsa partida, quando Costa preparou tudo para desafiar Seguro, mas à última hora temeu não ter apoios no terreno e prejudicar o partido, quando as autárquicas se aproximavam no calendário. Em troca de sossego, a ala costista exigiu, nessa altura, que Seguro se comprometesse em defender o legado de Sócrates. “O PS fingiu que não havia passado. E ficou numa posição embaraçada”, diria Costa a dada altura. Chegou mesmo a ser convocada uma reunião da Comissão Nacional, em Coimbra, de onde surgiu um documento com um compromisso mínimo, mas que serviu de balão de oxigénio para o partido até aos combates eleitorais seguintes.
▲ Debate televisivo durante as campanha para as primárias do PS em 2014
JOS
Um socialista que apoiava Seguro nesses tempos diz que esse foi “um erro”. E também que, nessa altura, o então líder foi alertado para o risco de fazer “acordos momentâneos” com Costa que, como lhe diziam, “estava só à procura da oportunidade”. Quando o avanço de Costa se concretizou, Seguro ainda tirou do bolso a realização de primárias, abertas a simpatizantes, para tentar ganhar tempo. “Não falou com ninguém”, critica agora um elemento próximo: “Caiu na armadilha de Costa.” O adversário já tinha o partido consigo e uma imagem com mais capacidade de entrar nos não militantes, numa altura de especial desgaste com a troika.
A derrota foi pesada, Seguro conseguiu apenas um terço dos votos. Saiu e “nunca mais ligou a ninguém”, comenta com o Observador um elemento que foi próximo, dizendo que isso deixou até hoje “mágoa” na equipa que “deixou derrotada”. “Teve o pássaro na mão e deixou-o voar. Foi muito inseguro durante o seu mandato e não conseguiu fazer vingar as características de honestidade e transparência”, lamenta o mesmo socialista.
▲ Em 2014, quando perdeu as primárias e se demitiu da liderança do PS.
Pedro Nunes/LUSA
O regresso que só aconteceu porque Costa saiu
Foram dez anos de ausência e o regresso só aconteceu depois de António Costa sair de cena. “Se Costa continuasse provavelmente Seguro não estaria aqui hoje a candidatar-se“, admite ao Observador um dos seus próximos. Se não tivesse sido o processo Influencer e a demissão de Costa, a maioria absoluta conquistada provavelmente só terminaria em outubro de 2026, muito depois das presidenciais.
Quando nada disso estava ainda em equação e Costa era ainda líder, Seguro recusou o convite para estar na festa dos 50 anos do partido, a 19 de abril de 2023. Recebeu o convite, mas não quis comparecer no jantar comemorativo que decorreu durante a liderança de António Costa.
▲ Seguro declinou o convite para estar no jantar dos 50 anos do PS, mas apareceu no vídeo dos ex-líderes
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
No partido, o avanço presidencial de Seguro é ainda visto como “um acerto de contas” com o passado recente — sobretudo quando sabe que há uma divisão interna sobre o apoio presidencial e outros candidatos que podem conseguir um consenso mais alargado, como Vitorino. Nada disso deteve António José Seguro que aproveitou mesmo uma declaração do então líder Pedro Nuno Santos para sinalizar a sua disponibilidade para Belém. Foi Pedro Nuno o primeiro a falar no seu nome, mas depois apareceu arrependido. Já era tarde.
Numa tentativa de serenar o partido, que logo entrou em ebulição presidencial (afinal arrisca ficar mais de 20 anos sem ocupar o Palácio de Belém), Pedro Nuno Santos acabou por fazer uma ronda pelos protocandidatos socialistas e definiu que o partido ia esperar que clarificassem posições e só depois decidiria um apoio. Nessa ronda falou com Seguro, mas agora o antigo líder do PS nem sequer avisou o candidato único à liderança, o seu amigo José Luís Carneiro, sobre o anúncio que fez esta semana, de repente, num vídeo divulgado na TVI, a oficializar o seu avanço.
Seguro anuncia candidatura a Belém e defende que país “não coloque os ovos no mesmo cesto”
Os seguristas têm aparecido pouco, mas em privado vão começando a deitar críticas à situação atual do partido — o resultado das últimas legislativas — apontando o dedo à governação de António Costa. “Foi um erro fechar o partido no eixo ISCTE-Rato-Bruxelas“, diz um antigo apoiante de Seguro. Os argumentos fazem prever o tal acerto de contas, recuperando a antiga ideia de uma elite de Lisboa que, nos últimos anos, ignorou o resto do país — socialista e não só. António José Seguro pode não querer ficar acantonado no partido onde esteve desde os 18 anos (e do qual só se afastou nos últimos dez), mas sabe que esse apoio — mesmo que (agora) frágil — será decisivo para tentar pôr um pé no barco do almirante.