Na última segunda-feira, antes da reunião da comissão política do PS Lisboa, para aprovar a lista do círculo, Pedro Nuno Santos falou com Sérgio Sousa Pinto, ainda sem lugares atribuídos, para aferir disponibilidade. A resposta foi positiva. Mas entre esse dia e a manhã desta quinta-feira, Sousa Pinto decidiu sair, 20 anos depois de ter entrado pela primeira vez no Parlamento. Aliviou algum PS, mas preocupa outros, já que é também a primeira baixa assumida na ala moderada que, há dois anos, deu um empurrão à candidatura do agora líder.

A decisão de Sousa Pinto vem em contramão com a linha que o partido estava a seguir, de tentativa de desradicalização da imagem do líder. Pedro Nuno Santos tem feito os possíveis por negar essa marca que lhe está colada desde os tempos da “geringonça” — e até anterior, quando pugnava ao lado de proeminentes figuras da esquerda, como Francisco Louçã, pela reestruturação da dívida pública. Essa linha é vista como um problema na caça ao centro.

Foi a mesma marca que fez com que o agora líder tivesse procurado, nas diretas de há dois anos, o apoio de figuras da ala mais moderada do PS, alguns deles opositores da “geringonça”, como Francisco Assis, Sérgio Sousa Pinto ou Álvaro Beleza — que jantaram juntos, em Amarante, no último sábado (ler mais adiante neste artigo). Também se juntaram a Pedro Nuno contra José Luís Carneiro outros socialistas, como Ascenso Simões. Nessa altura, o apoio levava como expectativa — manifestada a Pedro Nuno — que fossem ouvidos do ponto de vista ideológico e programático.

Dois anos passados, entre os moderados há queixas de pouco ou nada contarem, nomeadamente para a elaboração do programa do Governo. Nas duas últimas semanas, o líder do PS promoveu sessões com socialistas e independentes, para rever a proposta eleitoral de há dois anos, onde apareceram nomes da esquerda, como Ana Drago ou Ricardo Paes Mamede — o que agravou as queixas que já existiam de um Pedro Nuno afinal sempre encostado à esquerda. No PS moderado, não há, no entanto, intenção de verbalizar em público estas críticas, por o partido estar a viver um momento eleitoral — o próprio Sérgio Sousa Pinto, que tem um programa semanal na CNN Portugal, não deverá fazer desse um espaço de oposição interna durante a campanha para 18 de maio.

Mas no último sábado, alguns dos elementos desta ala moderada do PS que apoiaram o avanço de Pedro Nuno Santos à liderança do partido jantaram em Amarante e a imagem desse momento foi partilhada precisamente esta quinta-feira nas redes sociais, nela é possível ver Beleza, Assis, Sousa Pinto e Ricardo Gonçalves.

O antigo deputado socialista Ricardo Gonçalves descreveu-o como um “jantar dos grandes pensadores e estrategas da área moderada, seguidores de Mário Soares e do Socialismo Democrático, do centro esquerda, da verdadeira Social Democracia e do Socialismo Possibilista”.

Na publicação anterior na mesma rede social, o mesmo Ricardo Gonçalves contava que, já esta quinta-feira, tinha tentado convencer Sousa Pinto a não sair das listas de candidatos a deputados e também que o deputado “tem demonstrado há bastante tempo grande desilusão com o rumo da política e, não estar de acordo com muitas das decisões das últimas direções do PS, que também não tem dado valor às suas ideias e posições políticas”.

“Para o Sérgio na política não contam só os lugares que se ocupa, como agora demonstrou, para ele contam principalmente as ideias diferentes e boas, a estratégia de alianças e a ética na sua dimensão pessoal e política, são para ele pilares fundamentais da sua participação na vida política”, escreveu ainda contrariando a tese de que o lugar na lista de Lisboa estaria na origem da decisão.

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Sousa Pinto foi colocado no quinto lugar da lista de deputados por Lisboa — subiu para quarto, depois da saída, à última hora, de Pedro Delgado Alves para cabeça de lista por Coimbra. A lista foi aprovada na comissão política da federação do PS de Lisboa na segunda-feira à noite e, dois dias depois, na Comissão Política Nacional do partido. Sousa Pinto não foi à reunião. Na manhã seguinte ligou a Pedro Nuno Santos para lhe comunicar a sua decisão.

De acordo com fonte do partido, o motivo invocado foi o facto de ter ficado atrás de nomes como Mariana Vieira da Silva, Edite Estrela, Miguel Cabrita, na lista de candidatos. Na direção do PS depressa surgiram argumentos contra uma decisão tardia e com um motivo que se procurava menorizar, uma vez que Sousa Pinto concorria, desta vez, pelo melhor lugar que já tinha tido por Lisboa. Em 2024 foi no sexto lugar da lista também liderada por Vieira da Silva. Mas, na era Costa, por exemplo, o melhor que tinha conseguido tinha sido o sétimo lugar, em 2015. E depois de ter rompido com a direção do então líder, Sousa Pinto foi mesmo no 11.º e 13.º lugares, nas legislativas de 2009 e 2022.

Num programa de entretenimento na SIC, esta quinta-feira, o líder do PS tentou dedicar o mínimo tempo possível ao caso que resumiu a “aceitou integrar as listas, conhece a composição desde segunda-feira e hoje de manhã decidiu que afinal não gostava e que queria sair. Temos de respeitar.” Quanto às listas que o PS aprovou com 92% dos votos a favor, Pedro Nuno garantiu que têm “muita gente qualificada”, sem querer alongar-se sobre as razões que lhe foram comunicadas por Sousa Pinto.

“Já havia muita gente no PS que achava que ele não devia ir na lista”, comenta um dirigente ao Observador e o assunto chegou a ser falado na cúpula, com Pedro Nuno (e não só) a opor-se ao afastamento de Sousa Pinto da bancada. Acabou por acontecer. “Foi melhor assim, temos mais em que pensar”, sentenciava ao Observador um alto dirigente.

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A razão para a ponderação, segundo um outro dirigente do partido, é que Sousa Pinto “não tem utilidade no grupo parlamentar”, embora a mesma fonte acrescente logo a seguir que “no partido tem, porque é uma cabeça rara, com pensamento”. Na rádio Observador, Eurico Brilhante Dias lamentou a saída de um socialista por quem tem “respeito intelectual” e que o “o Parlamento sentirá a falta dele”, “um espírito livre”.

Quanto ao impacto que poderá ter nas contas eleitorais, um dirigente ouvido pelo Observador minimiza. “Sousa Pinto está para o PS como Pacheco Pereira para o PSD. Quantos votos PSD perdeu com Pacheco Pereira a criticá-lo?”. Mas nota-se um certo receio, não tanto interno, mas ao nível da opinião pública, nomeadamente ao centro. “Internamente não vai fazer falta, certamente. No comentário acentuará o seu azedume“, acredita um alto dirigente. E a projeção mediática de Sousa Pinto é significativa, bem como o aproveitamento que o centro direita faz de algumas das suas intervenções mais críticas dos socialistas.

Outra fonte do partido acredita que a saída do socialista nas listas, “no deve e no haver, não tem nenhum” impacto, embora também assinale a imagem que este episódio dá de um partido pouco sereno e numa fase delicada. Outro socialista reconhece que Sousa Pinto é “um dos socialistas mais populares ao centro e Pedro Nuno Santos precisa disso”, ao mesmo tempo que aponta um erro ao líder ao não segurar Fernando Medina nas listas do PS, pela mesma razão.

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No partido havia algumas críticas ao que alguns socialistas, “aliviados” com esta saída, chamam de “jactância”, “arrogância” ou atitude de “imensa superioridade” do deputado. Características que na última legislatura se revelaram em episódios como o da reunião do grupo parlamentar, em plena decisão sobre o Orçamento, onde Sousa Pinto defendia a viabilização contra o círculo mais próximo do líder. Os termos usados irritaram o líder do partido e as vozes, dentro da reunião que decorria à porta fechada, subiram de tal forma que chegaram a ouvir-se cá fora. O PS acabou por viabilizar a proposta da AD.

Não foi a primeira vez que irritou um líder do partido. Em 2015, numa reunião do secretariado nacional do partido com António Costa ao comando e a procurar apoio para o avanço em “geringonça”, Sousa Pinto bateu com a porta e saiu depois de uma troca de berros. Na altura não poupava nas críticas à solução governativa que o então líder procurava, chamando-lhe “barafunda suicidária sem programa ou destino certo” que conduziria o país a “um penoso caos que entregaria Portugal à direita por muitos anos” e “talvez permitisse o BE suplantar o PS”. Sousa Pinto queria que Costa assumisse a derrota e fizesse oposição e, em plenas negociações, chegou a publicar nas redes sociais a fotografia do comício da Fonte Luminosa, na Alameda em junho de 1975, contra as forças comunistas no pós-Revolução.

Nesta altura, a relação próxima e de amizade entre Sousa Pinto e Costa rompeu-se e o deputado socialista passou a ocupar as últimas filas da bancada parlamentar do PS durante os oito anos do costismo. Não que tenha saltado para a primeira fila neste ano de pedronunismo, mas o seu apoio à candidatura do agora líder foi um importante sinal interno, quando do outro lado se alinhava um socialista a reclamar a ala moderada, José Luís Carneiro.