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Gene Grossman, professor da universidade de Princeton com mais de 45 anos de experiência em matérias ligadas ao comércio internacional.
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▲Gene Grossman, professor da universidade de Princeton com mais de 45 anos de experiência em matérias ligadas ao comércio internacional.

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

▲Gene Grossman, professor da universidade de Princeton com mais de 45 anos de experiência em matérias ligadas ao comércio internacional.

FOTOILUSTRAÇÃO RODRIGO MENDES/OBSERVADOR

Tarifas. "Europa é o alvo mais fácil" para Donald Trump "passar a imagem de durão", diz especialista em comércio internacional de Princeton

Presidente dos EUA "só pensa em passar imagem de durão" e, aí, "a Europa é o alvo mais fácil – porque as consequências das tarifas para os americanos não serão tão graves como as do Canadá e México.

A Europa não é propriamente um “alvo fácil” para as tarifas prometidas por Donald Trump – mas “é, sem dúvida, o alvo mais fácil”, afirma Gene Grossman, professor da universidade de Princeton com mais de 45 anos de experiência em matérias ligadas ao comércio internacional. Em entrevista ao Observador, o especialista salienta que, além de penalizador para a economia mundial, também a economia norte-americana vai sofrer, a prazo, por ter Trump mais quatro anos na Casa Branca: “Seria impossível imaginar alguém mais criador de incerteza [do que Trump]”, afirma, assumindo que a incerteza é a maior inimiga do investimento.

Gene Grossman, que deu uma entrevista por videoconferência ao Observador na última quinta-feira, antes de Trump assinar a ordem de agravamento das tarifas ao aço e alumínio que afeta a Europa, diz que Trump – cujo nome, claramente, não gosta sequer de entoar muitas vezes – “só quer saber de parecer que é um durão” e, além de prejudicar a economia dos EUA (e a economia global), irá deixar feridas nas relações diplomáticas entre os países que poderão demorar muito tempo a cicatrizar.

E o que deve fazer a Europa? “Esquecer” os EUA durante um tempo, embora mantendo o contacto, e dedicar-se a fortalecer as relações económicas com outros blocos, com quem deve tentar formar uma “frente unida“, defende Gene Grossman, acrescentando que a última coisa que a Europa deve fazer, perante alguém como o atual Presidente dos EUA, é ter uma atitude “vingativa“.

Mas o académico, que participou em inúmeros processos negociais junto da Organização Mundial do Comércio (OMC), também critica Joe Biden por não ter combatido o “desmantelamento” desse organismo, que começou no primeiro mandato de Trump. E, também, lamenta que Biden não tenha tido a “coragem” de retirar as tarifas que Trump tinha aplicado à China da primeira vez que foi Presidente – o que fez com que “as tarifas de Trump” tenham passado a ser também “as tarifas de Biden“.

Em que é que Trump 2.0 é diferente do Trump 1.0 no que diz respeito ao uso de tarifas no comércio externo? É um Trump mais motivado por ganhos políticos do que vantagens económicas, mais do que no primeiro mandato?
Como tudo em Trump, é difícil perceber quais são as suas motivações. Penso que ele é intencionalmente vago sobre os seus objetivos porque dessa forma, aconteça o que acontecer, pode declarar que foi uma vitória. A minha intuição diz que é tudo uma questão de ganhos políticos. Mas nem se trata de levar os países estrangeiros a curvarem-se à sua vontade – é mais uma questão de satisfazer a sua base local de apoio político interno. Ele só quer saber de parecer que é forte, que consegue que as coisas sejam feitas à maneira dele e que quem manda é ele. Quanto às tarifas, ele parece gostar muito delas, por alguma razão, talvez porque seja um mercantilista na sua forma mais básica. No outro dia até falou sobre como, todos os anos, damos grandes quantias de dinheiro ao Canadá. Não, não lhes damos isso, nós compramos-lhes coisas. Mas não é assim que ele vê o comércio internacional.

Acredita que as tarifas ao México e ao Canadá irão mesmo avançar no próximo mês, após os 30 dias de suspensão?
Se eu fosse um homem que gosta de apostas, apostaria que não – mas não apostaria um valor muito elevado. As tarifas sobre o Canadá e o México terão um impacto muito grande na indústria automóvel dos EUA, que se concentra numa parte do país que é importante para ele. Vão ter grandes impactos no preço da comida no supermercado, que é um dos fatores pelos quais ele foi eleito – porque conseguiu atribuir a Biden a responsabilidade disso [do custo de vida mais elevado]. Por outro lado, os mercados bolsistas também não ficarão muito contentes se as tarifas forem em diante. Eu acho que todos estes ventos contrários irão levar Trump a pensar duas ou três vezes sobre se deve mesmo avançar. Não só ele deve pensar duas ou três vezes sobre isso como, também, os seus conselheiros, embora não saibamos bem até que ponto é que ele dá ouvidos aos seus conselheiros.

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Foi estimado que praticamente tudo aquilo que foi recebido em receitas tarifárias em 2018-2019 teve de ser dado aos agricultores que foram prejudicados pelas tarifas à China e pela retaliação que se seguiu. Essa experiência, de alguma forma, azedou a opinião pública sobre as tarifas?
Esses agricultores sofreram porque na guerra comercial com a China os chineses, em retaliação, penalizaram as importações de soja e outros produtos, sobretudo a soja. E sim, depois foram dados grandes apoios para apaziguar esses agricultores. Quando me pergunta sobre como se sentem os americanos sobre isso… Bem, nos estudos de opinião que se fizeram percebeu-se que muito depende da forma como se coloca a questão. As pessoas parecem ser tolerantes em relação ao conceito de tarifas, pelo menos uma ligeira maioria da população. Mas, depois, quando se pergunta sobre detalhes, quando se pergunta se “estariam dispostos a pagar mais 10 dólares pelos seus jeans?” aí a resposta é esmagadoramente negativa. Portanto, depende. Penso que as tarifas não são um conceito bem compreendido pela generalidade dos americanos. Não percebem que as tarifas podem ser transmitidas aos preços que pagam, nem percebem, em muitos casos, que quando as tarifas estão em vigor os produtores nacionais têm menos concorrência e podem aumentar os seus preços… Penso que as pessoas não desgostam do conceito de tarifas, acreditando que vão salvar empregos – embora eu ache que não irão salvar empregos nenhuns, na indústria, por exemplo.

"As tarifas não são um conceito bem compreendido pela generalidade dos americanos. Não percebem que as tarifas podem ser transmitidas aos preços que pagam, nem percebem, em muitos casos, que quando as tarifas estão em vigor os produtores nacionais têm menos concorrência e podem aumentar os seus preços..."

Porque é que Joe Biden não retirou as tarifas que Trump tinha aplicado?
Essa é uma ótima pergunta. Na verdade, nas minhas aulas sempre fiz questão de me referir às “tarifas de Biden” em vez de “tarifas de Trump”. Porque se ao fim de dois anos o novo Presidente não as retira, elas passam a ser dele. Penso que não houve capacidade política para fazer algo que pudesse parecer um favorecimento à China. Penso que [Biden] achou que poderia parecer fraco em relação à China se tivesse removido as tarifas. Também não acho que seja verdadeiramente um grande defensor do comércio livre, no seu âmago. Pelo menos não era tanto quanto Bill Clinton ou Barack Obama.

Foi um Presidente democrata menos adepto dos mercados livres?
Penso que sim, mas o que me surpreendeu mais em Biden foi não ter tomado medidas para contrariar o desmantelamento da OMC e, em particular, a sua plataforma de resolução de conflitos. Não sei se os seus leitores conhecem este caso mas o que se passa é que a OMC tem um órgão de recurso de sete quase-juízes que deliberam sobre as disputas comerciais – com um quorum mínimo de três, em qualquer caso. Durante a [primeira] administração Trump, eles recusaram-se a nomear novos juízes para substituir os que foram saindo ou que se foram aposentando. O que fez com que, a dada altura, o corpo de juízes descesse para menos de três pessoas. Porque é que isso aconteceu? Bem, foi porque o representante para o comércio [nomeado pela administração Trump, Robert] Lighthizer tinha uma vingança pessoal contra a OMC – desde a altura em que ele representava a indústria siderúrgica e a OMC deliberou contra ele em alguns casos. Isto realmente desintegrou todo o sistema de resolução de litígios da OMC. Eu pensei que esta seria uma situação em que, com a entrada de Biden [em 2020], ele podia dizer que o sistema de comércio mundial nos tinha servido bem, a nós americanos. Afinal de contas, fomos nós que o construímos nos anos do pós-guerra. Mas Biden, no final, não fez nada para contrariar o colapso da OMC.

Quem é Gene Grossman?

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Depois de se formar em Yale e no MIT, Gene Grossman terminou o doutoramento em 1980 e foi trabalhar para a universidade de Princeton, onde passou toda a carreira. “Já não há muitos cá, entre aqueles que cá estavam quando eu cheguei”, afirma o académico.

Foi diretor do departamento de economia de Princeton duas vezes, por um total de oito anos, e ao longo de 22 anos liderou o centro de investigação em economia internacional daquela universidade.

Também colaborou com vários representantes do comércio dos EUA em negociações no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Nesta fase, além do trabalho em Princeton, está envolvido num projeto liderado pela OMC em que se discutem possíveis alterações às práticas de subsidiação.

O CBO (Congressional Budget Office, semelhante à UTAO em Portugal) disse recentemente que estas tarifas, se forem implementadas, irão aumentar os preços ao consumidor e tornarão as empresas menos dispostas a investir e, no futuro, menos competitivas. Este relatório teve alguma repercussão?
Não creio que 90% dos americanos saibam o que é o CBO, pelo que não creio que tenha tido qualquer efeito na opinião pública. Creio que a análise deles está absolutamente correta. Isto irá aumentar os preços ao consumidor. Haverá algum amortecimento porque o dólar deverá ser fortalecido, mas não será tanto assim se outros países retaliarem – e eu respeito totalmente o seu direito de retaliar. Acredito que os preços ao consumidor vão, certamente, subir; as cadeias de abastecimento irão ser afetadas, especialmente na indústria automóvel, um setor onde os EUA, o México e o Canadá estão totalmente integrados. Li algures que, em média, o motor de um automóvel atravessa a fronteira sete vezes antes de finalmente se transformar num automóvel acabado. Estas tarifas, que Trump anunciou e entretanto suspendeu, implicar que se pague uma tarifa cada vez que esse motor automóvel passe a fronteira, o que irá fazer com que deixem de ser competitivas várias indústrias que trabalham com componentes importados. Por outro lado, os preços do petróleo também já estão a começar a subir, mesmo tendo Trump aplicado uma tarifa menor contra o petróleo canadiano, de 10%. Não sei se o público vai perceber que as tarifas são a razão pela qual os preços estão a subir, penso que eventualmente irão acabar por perceber isso.

A popularidade de Trump pode sofrer com essa possível inflação, como aconteceu com Biden?
Não sei. Nada parece afetar a sua popularidade. Coisas muito mais flagrantes e piores do que isto não afetaram a sua popularidade. Estamos a falar do Presidente que disse que “podia dar um tiro a alguém, na Quinta Avenida [de Nova Iorque] e não perderia quaisquer votos”. Também não terá afetado a sua popularidade o que se passou no 6 de janeiro [de 2021, a invasão do Capitólio], e essas coisas parecem-me ainda mais graves do que eu ter de pagar mais alguns dólares quando vou às compras à mercearia.

epa11865072 US President Donald Trump signs two executive orders in the Oval Office of the White House in Washington, DC, USA, 30 January 2025. The first order formally commissioned Christopher Rocheleau as deputy administrator of the FAA white the second ordered an immediate assessment of aviation safety.  EPA/BONNIE CASH / POOL

▲ Impacto das tarifas, se forem em frente, será inflacionista. Popularidade de Trump pode ser afetada? "Não sei... Nada parece afetar a sua popularidade"

BONNIE CASH / POOL/EPA

Acha provável que, com estas novas tarifas, se vierem mesmo a ser aplicadas, algumas empresas relocalizem a produção para os EUA – algo que, supostamente, é um dos objetivos de Trump? Por exemplo na indústria automóvel que referiu — acha que pode acontecer?
Isso aconteceu muito pouco quando foram lançadas as tarifas contra a China. As pessoas [investigadores académicos e economistas] procuraram arduamente por evidências de que esse repatriamento estava a acontecer. Mas nunca encontraram evidências convincentes. Portanto, penso que a resposta é que depende de quão amplas e abrangentes serão estas tarifas. Acredito que a primeira coisa que as empresas irão avaliar é a possibilidade de se mudarem para outros países com salários semelhantes aos do México e da China, que possam desempenhar o mesmo papel que eles desempenham na economia mundial. E se não houver nenhuns locais disponíveis então, sim, acredito que irá haver algum repatriamento. O que é interessante sobre isso, na minha opinião, é que parte da motivação de Trump (se acreditarmos que é mesmo essa) é recuperar os empregos na indústria que se perderam. Mas o que vimos é que nos poucos casos em que essa repatriação ocorreu as empresas aproveitaram a mudança para investir mais na automação – e não se contratou muitos trabalhadores. Portanto, eu apostaria que o efeito sobre os empregos na indústria será pequeno.

“Não é bluff”. Trump tem economia para suportar a “dor” de “ir até ao fim” nas tarifas

Recentemente publicou um trabalho de pesquisa, em colaboração com outros académicos de Princeton, sobre como as tarifas podem perturbar as cadeias de abastecimento globais. Além das cadeias de abastecimento, até que ponto é que as tarifas prejudicam a relação entre os diferentes países, incluindo países que são aliados?
Sim, os vários artigos científicos em que participei recentemente tiram a conclusão pouco surpreendente de que as tarifas aumentam o custo de fazer negócios com a China e lá ter operações. Agora, poderá acontecer o mesmo com o México [e o Canadá]. As empresas norte-americanas, como acabámos de referir, vão tentar reorganizar-se, o que implica encontrar novos fornecedores de componentes. Isso é uma coisa que não lhes sai barato, pelo contrário, é um esforço muito oneroso para as empresas, a todos os níveis. Acredito que as empresas serão prejudicadas na sua competitividade e na sua capacidade de gerar lucros, pelo menos até que as cadeias de abastecimento se reorganizem.

E em termos diplomáticos, quais são as consequências?
Bem, já tenho conversado com vários diplomatas e governantes de alguns dos nossos parceiros comerciais. Não quero mencionar nomes ou países, mas a minha perceção é que o mindset agora, perante o que está a acontecer com Trump, é que passámos a ter o “G7 menos 1”. O resto do mundo tem de avançar com os seus negócios, especialmente em questões importantes que não podem esperar, como as alterações climáticas. E se os EUA não é um interveniente, então eles têm de cooperar. Estou a falar, naturalmente, dos países da UE, do Japão, do Canadá, e por aí em diante, que têm de seguir em frente sem os EUA. Portanto, obviamente que isto vai afetar o lugar que os EUA ocupam no mundo. Mas Trump vive bem com isso. Não é propriamente um jogador de equipa. Acredito que, mesmo no longo prazo, as relações externas serão certamente prejudicadas por estas decisões.

Sobretudo porque alguns destes países a quem Trump está a aplicar tarifas são países com quem os EUA celebraram acordos comerciais recentemente… Significa que, para Trump, os acordos comerciais assinados não valem nada?
É o que parece, não é? O acordo USMCA [entre EUA, Canadá e México, substituto do NAFTA] foi renegociado pelo próprio Trump, no primeiro mandato. Em brincadeira, alguns de nós [académicos] chamávamos ao USMCA o NAFTA 0.8, porque foi um passo atrás em relação ao que existia, em vez de ser uma nova versão melhorada. Em todo o caso, o USMCA é um acordo comercial robusto que estipulava de forma claríssima que o comércio entre os três países não seria sujeito a tarifas.

E, no entanto, aqui estamos…
Pois, aqui estamos. O que nos leva a pensar se alguém, no futuro, vai querer fazer acordos de comércio com este tipo… Eu sei que não o faria. E o que a investigação académica sobre estes temas demonstrou é que, mais do que esta ou aquela barreira que possa existir ao comércio, o pior é a incerteza sobre aquilo que vai existir no futuro. Essa é a circunstância que mais penaliza o investimento e a tomada de decisões por parte das empresas. E, infelizmente, seria impossível imaginar alguém mais criador de incerteza [do que Trump]. Alguém vai investir numa fábrica integrada sem saber aquilo com que pode contar no futuro? Penso que isto também será algo muito danoso para a economia dos EUA.

"Obviamente que isto vai afetar o lugar que os EUA ocupam no mundo. Mas Trump vive bem com isso. Não é propriamente um jogador de equipa. Acredito que, mesmo no longo prazo, as relações externas serão certamente prejudicadas por estas decisões."

E no que diz respeito à Europa? Acha provável que Trump vá mesmo avançar com tarifas universais [sobre todos os produtos] contra a Europa?
Ninguém pode ter a certeza, mas eu não ficaria minimamente surpreendido se isso se confirmasse. Ele parece ter a opinião de que a Europa está a ser injusta e a fazer algo – não sei exatamente o quê – que, aparentemente, é muito prejudicial para os EUA. Nem sequer consigo conceber o que possa ser. O que sei é que os custos políticos diretos associados à aplicação de tarifas contra a Europa – ao nível da inflação, das cadeias de abastecimento – serão muito menos óbvios e menos imediatos do que as tarifas ao Canadá e ao México. Ou seja, se o objetivo é mostrar que se é um durão, com o menor risco possível para a sua popularidade, então é natural que se vá contra a Europa.

É um alvo fácil?
Diria que é o alvo mais fácil. A Europa é muito grande, importamos muito da Europa, também temos outro tipo de relações com a Europa. Portanto não seria algo sem custos. Só que acho que os custos de aplicar tarifas à Europa seriam menos óbvios e flagrantes do que noutros casos, como o México e o Canadá.

Há alguma coisa que a Europa pode fazer para que Trump recue?
Talvez os países europeus aceitem gastar mais em defesa ou seja lá o que for que o satisfaria… talvez aí ele recue. É muito difícil prever, porque quando estamos perante uma governação racional – mesmo que não concordemos com essa governação – consegue-se pensar sobre os contornos e as consequências que uma determinada política pode ter. Neste caso, não percebo qual é o objetivo dele… Penso que a Europa tem de focar-se em colaborar com outros países, como o Japão, o Canadá, o Mercosul… É muito importante que a Europa contribua para que os aliados, sem os EUA, se apresentem como uma frente unida contra estas políticas de chantagem [de Trump]. Quando se fala em comércio, nos próximos tempos o que a Europa tem de fazer é esquecer os EUA e tentar fortalecer os laços com outros países e outros blocos. Porém, continuando, é claro, a manter o contacto e a colaboração, onde possível, com os EUA – a última coisa que a Europa deve fazer, caso as tarifas sejam aplicadas, é ter uma reação vingativa.

Até porque daqui a quatro anos há novas eleições e pode ser necessário, nessa altura, voltar a ter relações mais reforçadas…
Pois, depende de quem é que ganha as próximas eleições…

A justificação de Trump, a julgar por aquilo que diz publicamente, é que são necessárias tarifas contra a Europa porque a Europa exporta mais para os EUA do que compra. Isso é uma justificação que faz sentido?
Claro que não. Em primeiro lugar, o comércio tem um desequilíbrio porque nós [norte-americanos] gastamos mais do que poupamos e outros países poupam mais do que gastam. Isto é uma análise a nível global. Já ao nível bilateral, entre EUA e Europa, tem tudo a ver com quem tem uma vantagem comparativa em quê: e nós exportamos bens para a Ásia, incluindo os nossos produtos agrícolas – exportamos menos dessas coisas para a Europa. Na minha opinião, os desequilíbrios da balança comercial não são importantes quando vistos numa perspetiva bilateral, embora os desequilíbrios a nível global possam ser importantes. Mas a teoria económica ensina-nos que esses desequilíbrios a nível global têm mais a ver com a política macroeconómica – ou seja, aplicar tarifas sem reduzir o défice das contas públicas não vai ter qualquer impacto. Aliás, sem ser demasiado técnico, o que digo é que as consequências das tarifas vão repercutir-se na taxa de câmbio e não vão ter qualquer impacto na balança comercial.

"Quando se fala em comércio, nos próximos tempos o que a Europa tem de fazer é esquecer os EUA e tentar fortalecer os laços com outros países e outros blocos. Porém, continuando, claro, a manter o contacto e a colaboração, onde possível, com EUA – a última coisa que a Europa deve fazer, caso as tarifas sejam aplicadas, é depois ser vingativa."

Não falámos ainda muito sobre a China, que também foi alvo de novas tarifas. Ao contrário do México e do Canadá, a China abriu logo uma queixa junto da Organização Mundial do Comércio. Pode ajudar-nos a perceber em que é que esse processo pode resultar e que tipo de consequências pode ter?
Pelas razões que referi há pouco, penso que não terá grandes consequências. A queixa da China na OMC é que os EUA tomaram uma decisão de subir as tarifas contra a China que não tem base legal à luz das regras da OMC. Basicamente dizem que os EUA não seguiram os mecanismos normais que estão previstos para quando alguém aplica tarifas a outro.

Que mecanismos são esses?
Em termos simples, as regras da OMC dizem que é possível um país aplicar tarifas mas, além de terem de ser tarifas aplicadas de forma temporária, tem de se demonstrar que uma dada indústria está a ser prejudicada, ou que está por exemplo a haver dumping ou subsidiação abusiva… A China está carregada de subsídios mas, com estas novas tarifas, os EUA não seguiram esse caminho. Foi só uma decisão por ordem executiva e com uma justificação de que havia injustiça.

A China tem, então, razões sólidas para fazer valer essa queixa?
Tem, mas o problema é que o processo agora deverá demorar uns dois anos a ser apreciado. Eventualmente, poderá haver algum tipo de determinação da OMC de que ‘sim, senhor, a China tinha razão’. Depois os EUA vão recorrer dessa deliberação, mas falta o tal painel de recursos… Portanto, a resposta curta à sua pergunta é que não, esta queixa não vai ter qualquer consequência. O máximo que poderia acontecer é a OMC avaliar o caso e dizer que a China, neste caso, tinha razão e, por isso, teria direito de retaliar na medida ‘x’. Mas a China já indicou que não vai esperar por essa decisão e vai já avançar com alguma retaliação contra as tarifas de Trump.

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