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Juiz diz que a vida de Amandine se resume a pouco mais de "dez anos de castigo e de violência"
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▲Juiz diz que a vida de Amandine se resume a pouco mais de "dez anos de castigo e de violência"

▲Juiz diz que a vida de Amandine se resume a pouco mais de "dez anos de castigo e de violência"

Trancada pela mãe, nua, numa cave, quatro meses, Amandine morreu à fome. Luso-francesa condenada a perpétua culpava-a pelo abandono do pai

Menina de 13 anos vivia com a família na aldeia de Montblanc, no sul de França. No início do confinamento, em 2020, foi mantida numa cave completamente nua. Morreu de fome, com apenas 28 quilos.

“Amanhã, a partir do meio-dia, e durante pelo menos quinze dias, os nossos movimentos serão fortemente reduzidos. As únicas deslocações que restarão são as que temos de fazer para ir às compras ou para receber tratamento médico”. Emmanuel Macron falava ao país às 20h00 em ponto do dia 16 de março de 2020. Eram anunciadas as primeiras medidas de confinamento geral do país para evitar a propagação da Covid-19.

Amandine recebeu a notícia do confinamento obrigatório com preocupação. Chegou mesmo a desabafar com um funcionário da escola que frequentava, em Hérault, no sul de França. “Vou morrer, não vou aguentar“, afirmou. A consciência do que a esperava fechada dentro de quatro paredes denunciava o tratamento habitual que recebia na própria casa, onde vivia com a mãe — Sandrine Pissarra, luso-francesa, e o padrasto, o francês Jean-Michel Cros.

Nos quatro meses seguintes, até ao dia em que morreu, a 6 de agosto de 2020, Amandine foi privada de comer por aqueles que deviam cuidar dela. Trancada numa cave e na maioria dos dias nua, “para não poder esconder comida nos bolsos”, como foi descrito em tribunal. O médico legista que efetuou a autópsia da jovem de 13 anos determinou a causa da morte por “desnutrição imposta por terceiros“.

Esta sexta-feira, Sandrine Pissarra foi condenada a prisão perpétua com um período de segurança de 20 anos no Tribunal de Hérault, em Montpellier, França. O padrasto também foi considerado culpado. Terá de cumprir uma pena de prisão de 20 anos, que vai além dos 18 pedidos pelo Ministério Público francês.

Amandine foi mantida nua numa cave sem janelas durante quatro meses. Morreu à fome e de septicemia

Apenas 28 quilos, um rosto esquelético, feridas no corpo, um hematoma no olho, cabelos e dentes em falta. Amandine foi encontrada num estado deplorável pelos serviços de emergência acionados pela família no dia em que teve uma paragem cardiorespiratória na casa em que vivia na aldeia de Montblanc, na região de Hérault. Morreu nesse dia — a 6 de agosto de 2020 —, depois de ter passado fome e frio por mais de quatro meses.

Desde o início do confinamento que tinha sido trancada numa cave sem janelas, na maioria das vezes completamente nua, com câmaras a vigiá-la. Não era alimentada ou cuidada, apenas torturada. No andar de cima, a sua mãe e o padrasto viviam com a sua irmã de 15 anos e seu irmão de 11 anos. Sandrine Pissarra, que atualmente tem 54 anos, administrava um salão de beleza até ao momento em que foi presa, em 2021. Tem oito filhos de três relações diferentes.

Sandrine Pissarra foi a "carrasca" de Amandine através da "tirania doméstica" que lhe impôs
Ministério Público francês

O médico legista que efetuou a autópsia a Amandine disse em tribunal, na quarta-feira, que a adolescente tinha estado subnutrida “durante três ou quatro meses”. “Desnutrição imposta por terceiros” e septicemia foram as causas da morte.

No primeiro interrogatório a que foi sujeita, logo após a morte da filha, Sandrine Pissarra ainda falou de uma “anorexia severa”. Descreveu a jovem como uma “ladra e indisciplinada, propensa a distúrbios alimentares”, como citou a France 24. Mas as marcas no corpo de Amandine mostravam provas irrefutáveis dos maus tratos reiterados a que tinha sido sujeita.

Luso-francesa que torturou e matou a filha de 13 anos à fome condenada a prisão perpétua. Padastro cúmplice recebe pena de 20 anos

Em tribunal também ficou provado que, desde muito cedo, era vítima de abusos físicos. Agredida com socos, pontapés e puxões de cabelo, além violência verbal: sujeita diariamente a gritos repetidos e muitos insultos.

Os procuradores do Ministério Público francês que investigaram o caso de tortura e violência extrema disseram que Sandrine Pissarra foi a “carrasca” de Amandine através da “tirania doméstica” que lhe impôs. A única pena que consideravam justa, perante os factos provados, era mesmo a de prisão perpétua para a luso-francesa, que se aconteceu esta sexta-feira.

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Sandrine via na filha a “representação diabólica do pai dela”, por quem estava obcecada

Sandrine e Frédéric iniciaram uma relação amorosa em 2o03. Juntos, tiveram três filhos, incluindo Amandine, descrita pela própria mãe, em perícias forenses, como uma “bebé difícil”, que queria “roubar os brinquedos da irmã”.

Em 2009, o casal separou-se e, segundo Sandrine, a filha que começou a rejeitar por essa altura “estava perdidamente apaixonada pelo pai“. Segundo o Le Fígaro, que cita as entrevistas da agressora a psicólogos enquanto esteve sob custódia, a menina tinha uma semelhança física inegável com o seu ex-companheiro, com quem a mulher passou a viver obcecada, depois de este a ter abandonado quando a relação amorosa acabou.

"Não me vejo como uma má mãe"
Sandrine Pissarra durante a investigação do caso

Foi a partir dessa “hostilidade romântica”, que a mãe terá então transposto o ódio que tinha pelo ex-companheiro para a filha. “A filha tornou-se diariamente a representação diabólica do pai“, revelou-se em tribunal, a partir dos relatórios forenses. Aos olhos dos especialistas, que fizeram a avaliação, o vínculo mãe-filha não se formou como deveria, afetado por este “poder materno sem ambivalência” e pelo comportamento da mãe guiada por uma “raiva narcísica”.

Em tribunal, Sandrine Pissarra, acusada também pelos outros sete filhos de ser violenta, afirmou: “Não me vejo como uma má mãe.” O seu advogado, Jean -Marc Darrigade, negou que ela seja uma “fera desumana”, como chegou a ser caracterizada pela acusação. Defendeu-a como uma mulher com “continuadas desilusões” e “repetidos fracassos” com os homens abusivos com os quais se relacionava romanticamente e que nunca cumpriram os seus deveres de pais dos vários filhos.

Depois de negar abusos físicos durante anos, luso-francesa admitiu ser “uma mãe monstruosa”

Durante anos e anos, Sandrine Pissarra negou que a filha tivesse sido vítima de maus tratos às suas mãos, escudava-se nos supostos distúrbios alimentares. Esta quinta-feira, numa reviravolta da sua postura em relação ao caso, admitiu a violência que cometeu contra a filha “entre 2014 e 2020” e “os atos de tortura e de barbárie cometidos entre 17 de março e agosto”.

Perante a insistência do juiz, que a relembrava de ter negado comida e bebida a Sandrine mesmo já estando quase morta, admitiu ser uma “mãe monstruosa”, voltando a reconhecer que agrediu Amandine “porque ela era parecida com o pai“.

“Fiz vista grossa ao estado dela”, respondeu Sandrine Pissarra ao juiz quando questionada sobre os factos de que é acusada, afirmando, no entanto, que não sabe o que aconteceu nem como a agrediu”. “Nunca quis que ela morresse”, assegurou ainda.

É à infância em Portugal que a mulher de 54 anos atribui o trauma que a levou a agir de forma “errada” em relação aos filhos. Disse em tribunal que foi vítima de violência e de subnutrição. “Éramos três e a minha mãe queixava-se de que não tinha dinheiro suficiente. Eu era espancada. Bofetadas, murros, humilhações. Tinha vergonha de falar sobre isso”, afirmou.

Durante o resto do interrogatório, Sandrine Pissarra foi lacónica e silenciosa, afirmando repetidamente que não guarda memórias de quando a sua filha foi torturada.

Perante o silêncio da principal agressora de Amandine — também o padrasto contribuiu para a morte por não ter agido — o juiz resumiu a vida da jovem numa frase: “Dez anos de castigo e de violência”. E acrescentou: “Espero que ela esteja melhor lá em cima.”

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