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Sanções, submarinos nucleares e ameaças nas redes sociais. Nos últimos dias, a tensão tinha escalado entre Moscovo e Washington. O Presidente norte-americano enfatizou a ideia de que estava “desiludido” com o homólogo russo e fez-lhe um ultimato que expira esta sexta-feira: ou a Rússia aceita acabar com a guerra na Ucrânia ou aplica mais sanções contra o país. No que parece ter sido uma derradeira oportunidade para o Kremlin, o enviado especial da presidência dos Estados Unidos, Steve Witkoff, encontrou-se com o chefe de Estado russo esta quarta-feira. O encontro foi “muito produtivo” — e resultou pelo menos na marcação de uma cimeira ao mais alto nível entre Donald Trump e Vladimir Putin.
Esse encontro poderá acontecer já na próxima semana e cumpre um dos objetivos que Putin tinha delineado desde que Trump venceu as eleições em novembro de 2024: encontrar-se apenas e a sós com o líder norte-americano, sem os ucranianos e os europeus sentados na mesa de negociações. Mantendo os objetivos intactos desde o início da invasão, o líder russo espera ceder o mínimo possível e conversar apenas com o homólogo norte-americano, não se comprometendo com uma reunião com o Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, nem com qualquer representante europeu.
Por agora, Donald Trump ainda não chama aos últimos desenvolvimentos “importantes”, mantém sanções em cima da mesa e as perspetivas de um cessar-fogo são pequenas. Na verdade, o Kremlin continua a colocar entraves a uma reunião que conte com o lado ucraniano. Vladimir Putin assegurou, esta quinta-feira, que “não tem nada contra” encontrar-se com Volodymyr Zelensky, mas ressalvou que ainda não foram criadas as condições para que tal se concretize. “Infelizmente, ainda temos de criar essas condições.”
▲ Vladimir Putin não abriu o jogo e apenas disse que não tinha "nada contra" encontrar-se com Volodymyr Zelensky
MKHAIL METZEL / SPUTNIK / KREMLIN POOL/EPA
A Europa está a tentar acompanhar os desenvolvimentos entre Kiev, Moscovo e Washington. Donald Trump informou o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, o Presidente da Finlândia, Alexander Stubb, o chanceler alemão, Friedrich Merz e o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, do que foi discutido por Steve Witkoff em Moscovo. Em simultâneo, o Presidente ucraniano tem também contactado outros líderes europeus à procura de aliados e de influência diplomática em Washington, nomeadamente o Presidente francês, Emmanuel Macron (que Donald Trump Trump deixou de fora).
Donald Trump e Vladimir Putin deverão, assim, encontrar-se nos próximos dias. O Presidente russo sugeriu que se poderiam reunir nos Emirados Árabes Unidos, uma sede considerada neutra e um país com o qual os dois mantêm uma boa relação. Ao longo das últimas semanas, a administração Trump parece ter-se afastado ligeiramente da Rússia e tem-se inclinado a favorecer o lado ucraniano nas negociações de paz (ouvindo os aliados da NATO), mesmo que as pontes com Moscovo nunca tenham sido cortadas. Do encontro pode surgir uma qualquer nova inclinação.
Ciente de que até ao momento ainda não houve grandes desenvolvimentos, Donald Trump reconheceu que ainda não sabe se está a ser “enrolado” pelo homólogo russo. “Eu ainda não posso responder a essa questão. Poderei fazê-lo numa questão de semanas, talvez menos. Fizemos grandes progressos”, admitiu. A administração norte-americana parece adotar uma posição menos ingénua quanto às intenções de Vladimir Putin na Ucrânia — mas conseguirá lidar e terá interesse em responder às táticas das negociações russas?
Cedências territoriais e um ultimato. O que se sabe das negociações em que Trump tem feito exigências a Putin?
Há poucos detalhes sobre o que Steve Witkoff e Vladimir Putin discutiram em Moscovo. O encontro entre os líderes dos Estados Unidos e da Rússia — com a possibilidade de se juntar a Ucrânia noutra reunião —, parece confirmado. Mas o que terão discutido antes? Do lado norte-americano, o secretário de Estado, Marco Rubio, deixou algumas pistas.
O chefe da diplomacia norte-americano disse, numa entrevista à Fox Business, que terá de haver um cessar-fogo, mais que não seja “temporário”, para “perceber como acabar a guerra”. Marco Rubio reconheceu também que alguns “elementos chave” para alcançar o cessar de hostilidades terão a ver com questões “territoriais”. “Há áreas que a Rússia controla e isso inclui a Crimeia e outras áreas em que fizeram avanços”, prosseguiu o secretário de Estado, admitindo que terá de haver “concessões dos russos e concessões dos ucranianos”.
Que concessões serão essas? Marco Rubio não especificou. “Não serão fáceis”, apenas definiu, lembrando que os ucranianos já “pagaram um grande preço pela guerra”. Em concreto, o líder da diplomacia explicou que os Estados Unidos já perceberam quais serão os passos “concretos” para terminar com a guerra — e quais são as exigências da Rússia para que tal se concretize. “Poderão não ser aceites pela Ucrânia, mas dão-nos um esboço para trabalhar. Temos de ver agora como é que conciliamos os dois lados.”
▲ Secretário de Estado norte-americano adiantou que as questões territoriais terão grande peso nas negociações
AARON SCHWARTZ / POOL/EPA
Durante o início do mandato, a administração Trump sugeriu que teriam de ser feitas várias concessões territoriais por parte da Ucrânia nas zonas já ocupadas pela Rússia, mantendo-se ambígua sobre que cedências teria de fazer o Kremlin. O tom aparenta ter mudado e a presidência dos Estados Unidos já favorece uma solução que não satisfaça plenamente nenhum dos lados.
Já para Yuri Ushakov, conselheiro presidencial na Rússia, o encontro decorreu numa “atmosfera profissional e foi bastante construtivo”. “Os dois lados podem estar satisfeitos com os desfechos desta conversa”, afirmou. Contrariamente a muitos nomes na administração Trump, o nome de Steve Witkoff é bem-visto em Moscovo. Os dirigentes admiram o estilo do enviado especial, que é definido como sendo pragmático e não dando grande importância às suscetibilidades geopolíticas.
O conselheiro russo não deu detalhes sobre o encontro. Mas salientou o que se tornou um “motivo de especulação em Washington”: o encontro entre Volodymyr Zelensky, Vladimir Putin e Donald Trump. “O representante dos EUA apenas mencionou isso no encontro no Kremlin. Não houve qualquer discussão específica neste tópico. A Rússia não comentou esta opção de qualquer forma”, esclareceu Yuri Ushakov.
▲ Steve Witkoff e Vladimir Putin no Kremlin esta quarta-feira
Anadolu via Getty Images
O objetivo é pintar esta ida de Steve Witkoff a Moscovo como um grande sucesso para Vladimir Putin. Após a “desilusão” que Donald Trump disse por várias vezes com as ações russas na Ucrânia — até adjetivou os bombardeamentos a Kiev como “repugnantes” —, o Presidente da Rússia está a tentar reconquistar a confiança do seu homólogo norte-americano e mostrar à sociedade russa que ainda tem uma posição dominante durante as negociações. Tirar a Ucrânia da equação seria uma boa forma de provar precisamente isso.
Porém, esta posição de desvalorizar um encontro entre o líder russo e ucraniano inicialmente foi mal recebida pela Casa Branca. Aos meios de comunicação social norte-americanos, várias fontes da presidência garantiram que apenas haverá um encontro entre Vladimir Putin e Donald Trump se o Presidente russo aceitar encontrar-se com Volodymyr Zelensky depois.
Mas esse ultimato foi desfeito por Donald Trump. O Presidente norte-americano esclareceu que “não” é preciso uma reunião entre Volodymyr Zelensky e Vladimir Putin para se encontrar com o homólogo russo. “Farei tudo ao meu alcance para parar a guerra”, garantiu aos jornalistas, aproveitando para lembrar o número de baixas durante o conflito.
Trump says his sit-down with Putin is not conditioned on Putin also meeting with Zelensky. pic.twitter.com/DwvXreZ2i1
— Kaitlan Collins (@kaitlancollins) August 7, 2025
Rússia quer excluir Ucrânia de mesa de negociações, mas Kiev insiste
A Rússia nunca escondeu que deseja excluir a Ucrânia da mesa das negociações. Yuri Ushakov deixou bem claro que a reunião bilateral entre Vladimir Putin e Donald Trump pode ser o caminho para o “sucesso” diplomático, de forma a atingir “resultados tangíveis”. Durante anos, o chefe de Estado russo tem destratado Volodymyr Zelensky. Considera-o “ilegítimo”, “corrupto” e disse várias vezes que não negociaria com o Presidente ucraniano.
▲ Durante vários anos, Vladimir Putin tem menosprezado o homólogo ucraniano
Mikhail Metzel/TASS
Sem Volodymyr Zelensky nas negociações, seria mais fácil para a Rússia conseguir anexar formalmente as cinco regiões ucranianas que considera como suas: Donetsk, Kherson, Lugansk, Zaporíjia e a Crimeia. Como sugeriu Marco Rubio, o país deseja absorver essas províncias, na sequência dos referendos (organizados ilegalmente) em setembro de 2022. O Kremlin parece não abrir mão deste objetivo e tê-lo-á comunicado a Steve Witkoff.
Atualmente, no campo de batalha, a Rússia tem feito alguns avanços nas províncias de Donetsk e Zaporíjia. Contudo, ainda está longe de as conquistar totalmente, tal como em Kherson, enquanto a Crimeia e Lugansk estão totalmente sob controlo russo. Ao mesmo tempo que lança ataques aéreos, o Kremlin continua na ofensiva na Ucrânia, podendo usar essa posição de superioridade no terreno como um trunfo nas negociações.
Do lado ucraniano, com base na conversa com Donald Trump, Volodymyr Zelensky assinalou que a Rússia “parece estar mais inclinada a aceitar um cessar-fogo”, saudando que a pressão norte-americana e europeia “está a funcionar”. O líder ucraniano estará mais satisfeito com o desenrolar das negociações, mas advertiu que o Kremlin pode ter a tentação de “iludir” a Ucrânia e os Estados Unidos — como na questão do encontro tripartido.
O Presidente da Ucrânia voltou a desafiar Vladimir Putin para um encontro cara a cara, o que seria já uma cedência do homólogo russo. “Nós, na Ucrânia, temos dito repetidamente que as soluções reais são encontradas em reuniões entre líderes. A Ucrânia não tem medo de reuniões e espera a mesma abordagem corajosa do lado russo”, atirou, desejando que a Europa “também participe” em “processos relevantes”.
Estando numa mesa das negociações, os dirigentes ucranianos conseguem controlar as eventuais exigências russas e apresentar um contraditório — daí insistirem tanto numa reunião com os russos e os norte-americanos. A Europa também é uma importante aliada da Ucrânia e a presença de países como o Reino Unido ou a Alemanha, mesmo nos bastidores, pode ser um importante fator para suavizar o lado russo, que continua a ver as capitais europeias como as principais inimigas.
As sanções. A forma que Trump pode pressionar a Rússia (mas não confrontar diretamente)
A par das exigências que tem feito ao Kremlin para ouvir o lado ucraniano, a Casa Branca deverá manter as sanções que tinha programado aplicar à economia da Rússia esta sexta-feira. À imprensa internacional, várias fontes da Casa Branca sublinharam que esse continua a ser intuito, mas assinalaram que a decisão ainda não está completamente fechada.
O foco da presidência norte-americana consiste atualmente nas sanções secundárias. Os Estados Unidos pretendem sancionar os países que compram petróleo à Rússia. Esta quarta-feira, pouco depois de Steve Witkoff ter saído de Moscovo, Donald Trump assinava uma ordem executiva que prevê o aumento de 25% — dentro de 21 dias — às tarifas aplicadas aos produtos indianos, com a justificação de que a Índia está a financiar a máquina de guerra da Rússia na Ucrânia.
▲ Donald Trump poderá determinar novas sanções contra a Rússia esta sexta-feira
SHAWN THEW/EPA
Para além da Índia, os Estados Unidos têm outro país na mira: a China. Donald Trump antecipou, na quarta-feira, que se “verá muito mais” sanções a países que financiam a máquina de guerra da Rússia. “Vai ver-se mais sanções secundárias” além da Índia. Num clima de competição geopolítica com Pequim, o Presidente norte-americano assumiu que a China “pode ser” assim um dos próximos países afetados.
As sanções são uma maneira de continuar a pressionar o regime de Vladimir Putin a aceitar negociar um acordo de paz na Ucrânia. Em paralelo, ao pressionar outros países, Donald Trump não confronta diretamente o lado russo, mantendo-se como um mediador credível nas negociações. Porém, ainda não são completamente claras que sanções é que os Estados Unidos vão mesmo aplicar no fim do ultimato. E ainda há uma possibilidade que a presidência norte-americana recue.
A Europa: ignorada nas negociações de paz?
Aparentemente, os países europeus ficarão de fora dos encontros que vão decidir o rumo do conflito, embora Volodymyr Zelensky quisesse contar com alguns aliados na mesa das negociações. O Presidente norte-americano não os ignora por completo. Depois de receber as informações de Steve Witkoff, Donald Trump falou ao telefone com vários líderes europeus. Da lista, foram excluídos o Presidente francês, Emmanuel Macron, que tem tido uma relação tensa com o homólogo norte-americano, assim como a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni.
▲ Donald Trump não falou com Emmanuel Macron sobre as negociações de Steve Witkoff
BONNIE CASH / POOL/EPA
De acordo com o que apurou o New York Times, os líderes europeus ficaram surpreendidos com o plano de Donald Trump em encontrar-se diretamente com Vladimir Putin, expressando várias reservas de que vá ser eficaz para acabar com o conflito. Apesar do ceticismo, terão aceitado o plano, ainda que, ao Washington Post, um dirigente europeu tenha criticado o Presidente dos Estados Unidos por não “colocar qualquer pressão em Vladimir Putin”.
Para esclarecer várias questões, o jornal Axios noticiou que Steve Witkoff fez uma videochamada com os líderes da Ucrânia, Finlândia, França, Alemanha, Itália e Reino Unido. Mesmo não desempenhando um papel ativo nas negociações, as capitais europeias parecem a ser ouvidas. Para a Europa, a prioridade continua a ser uma paz justa e duradoura, que contenha as intenções expansionistas de Vladimir Puitn.
O Presidente da Ucrânia também tem contactado vários líderes europeus ao longo desta quinta-feira. Falou com o chanceler alemão, destacando que esta guerra vai “determinar o panorama securitário da Europa nas próximas décadas”. Com o líder francês, Volodymyr Zelensky considera que a segurança do continente europeu depende da “prudência e eficácia de todos os passos” da Europa e da América contra a Rússia. À presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, o chefe de Estado ucraniano garantiu que a “voz da Europa será ouvida na diplomacia”.
I have spoken with @ZelenskyyUa on the developments of the last days.
We discussed the next steps on the way towards a negotiated peace agreement and Ukraine’s future membership in the European Union as well as its reconstruction.
Europe’s position is clear. We fully support…
— Ursula von der Leyen (@vonderleyen) August 7, 2025
Tudo indica que Donald Trump está a ouvir os europeus, principalmente aqueles de que é mais próximo, como o Presidente da Finlândia ou o primeiro-ministro britânico. Numa luta de influência para garantir que os norte-americanos continuam a favorecer a Ucrânia, os europeus terão de competir com os russos, empenhados em reconquistar a confiança perdida e chegar apenas a acordo com o líder dos Estados Unidos.