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O antigo embaixador em Washington e um banqueiro com ligações à família. São os dois homens que o Presidente Vladimir Putin escolheu para o representarem no primeiro encontro entre Moscovo e Washington desde que começou a ofensiva russa na Ucrânia, há quase três anos. A eles pode juntar-se ainda um antigo colega de Putin no KGB — a presença do homem de confiança do Presidente russo chegou a ser avançada, mas ainda não se confirmou.
O encontro desta terça-feira, em Riade, na Arábia Saudita, serve para “restaurar a complexidade das relações russo-americanas”, afirmou o porta-voz do Kremlin na segunda-feira. Mas em cima da mesa está sobretudo a guerra na Ucrânia: esta reunião é o primeiro passo das negociações de paz lideradas pelo Presidente norte-americano, Donald Trump. Encontros bilaterais que não incluíram representantes de Kiev, apesar de Volodymyr Zelensky também estar na região. O Presidente ucraniano chegou mesmo a ter uma passagem pela Arábia Saudita planeada, que acabou por ser adiada já depois do encontro entre EUA e Rússia.
Enquanto Zelensky levava a cabo as suas próprias negociações, particulares, as equipas norte-americana e russa reuniram-se oficialmente, avançou o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo. Na fotografia partilhada nas redes sociais estão os dois homens que tinham sido confirmados por Dmitry Peskov como negociadores: Sergey Lavrov, ministro com esta pasta, e Yuri Ushakov, conselheiro de política externa do Kremlin.
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— MFA Russia ???????? (@mfa_russia) February 18, 2025
A presença do ministro russo já era esperada: Lavrov é o responsável pela diplomacia russa desde 2004 e a comitiva norte-americana é liderada pelo seu homólogo, Marco Rubio (ao meio do lado esquerdo da fotografia). Mas o terceiro homem que os acompanha comprova a atenção que o Kremlin dispensou para este primeiro encontro: trata-se de Kirill Dmitriev, diretor do Fundo de Investimentos Diretos da Rússia. O seu nome já tinha sido avançado por fontes anónimas à Bloomberg.
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As mesmas fontes tinham avançado que a comitiva ficaria completa com Sergei Naryshkin, chefe dos Serviços Secretos Externos da Rússia (SVR). Porém, o Institute for the Study of War (ISW) avança que Naryshkin não se encontra em Riade e que Putin poderá estar a guardar este membro do seu círculo mais próximo para uma fase mais avançada das negociações.
▲ Sergey Lavrov lidera o Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia desde 2004
RUSSIAN FOREIGN MINISTRY PRESS SERVICE / HANDOUT/EPA
Ao contrário de Lavrov, estes nomes podem não despertar reconhecimento imediato, mas os três já estiveram envolvidos em negociações recentes com Kiev e com Washington. Além disso, todos têm décadas de experiência e grande proximidade com Vladimir Putin, o que lhes confere autoridade para negociar em seu nome. Quem são Yuri Ushakov, Kirill Dmitriev e Sergei Naryshkin?
Yuri Ushakov. Da embaixada em Washington para a mesa das negociações com Kiev
Yuri Ushakov é o único dos três nomes que também foi confirmado por Peskov como fazendo parte da comitiva russa. Aos 77 anos, Ushakov ocupa o cargo de conselheiro de política externa do Kremlin há mais de uma década — foi nomeado pela primeira vez em maio de 2012 e novamente em junho de 2018. Foi neste papel que fez parte das primeiras negociações entre Kiev e Moscovo, logo após a invasão em fevereiro de 2022.
Em março desse mesmo ano, delegações ucranianas e russas reuniram-se em Istambul. Moscovo apresentava um plano de paz que contemplava a permanência nos territórios ocupados até aí no Donbass e na Crimeia e o impedimento de a Ucrânia se juntar à NATO, ainda que aceitasse a adesão à União Europeia. Kiev não aceitou. À data, Ushakov apontou o dedo pelo falhanço das negociações à Ucrânia e à sua falta de resposta a esta proposta.
Meses depois, o conselheiro considerou que as condições para as negociações se tinham alterado e que não podiam ser retomadas nos mesmo termos. Mas voltou a responsabilizar a Ucrânia por não existir um acordo de paz. “Não há interesse visível de Kiev nem dos países ocidentais [em retomar as negociações]”, declarou. Em agosto de 2024, a sua posição tinha endurecido. Apesar de garantir que as propostas de Putin “não tinham sido canceladas”, afirmou que não iriam dialogar com Zelensky.
“Não sei em que medida é que as eleições presidenciais norte-americanas podem influenciar a situação”, disse na mesma ocasião. Seis meses depois, é possível dizer que as eleições nos Estados Unidos tiveram impacto na situação. A sua larga experiência torna-o uma peça importante para Putin. “Ele é a melhor pessoa para ‘grandes negociações’ no sentido clássico”, argumentou Andrey Sushentsov, diretor da faculdade de Relações Internacionais na Universidade MGIMO em Moscovo, à Bloomberg.
▲ Yuri Ushakov, conselheiro de política externa de Vladimir Putin
MAXIM SHEMETOV/REUTERS/POOL / POOL/EPA
À experiência de Ushakov, somam-se os seus vastos conhecimentos sobre “o sistema norte-americano”, acrescenta Sushentsov. Isto porque, antes de chegar a conselheiro, Ushakov foi diplomata, carreira em que o seu cargo de maior destaque foi o de embaixador nos Estados Unidos, entre 1998 e 2008.
Antes disso, nasceu e cresceu em Moscovo, onde frequentou o Instituto Estatal de Relações Internacionais (hoje, a Universidade MGIMO) e depois a Academia Diplomática, ambas instituições do Ministério dos Negócios Estrangeiros da União Soviética. A sua dissertação foi sobre o impacto da détente europeia durante a Guerra Fria na política externa da Europa do Norte.
A sua proximidade a estes países levou-o a ocupar cargos no Departamento da Escandinávia do Ministério soviético e na embaixada na Dinamarca. Depois do fim da URSS foi o primeiro diplomata russo a ocupar um cargo na Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) e trabalhou ainda como ministro adjunto dos Negócios Estrangeiros, antes de rumar a Washington. O longo currículo e experiência no terreno explicam a sua preponderância na elite política de Moscovo, especialmente no que toca a política externa.
Kirill Dmitriev. Alumni de Stanford e Harvard, mas alvo de sanções norte-americanas
Se Ushakov é um nome habitual das equipas diplomáticas de Vladimir Putin, a presença de Kirill Dmitriev em Riade é mais surpreendente. Com apenas 49 anos, é significativamente mais novo que os seus pares, não tem currículo no aparelho político do Kremlin, nasceu em Kiev, na Ucrânia, e estudou nos Estados Unidos. Kirill Dmitriev entrou no círculo de Putin devido a uma proximidade entre a sua mulher e a filha mais velha do Presidente russo, que trabalharam juntas num centro de inovação, segundo a Bloomberg.
No entanto, esta não é a estreia de Dmitriev numa negociação. Na semana passada, um professor norte-americano foi libertado de uma prisão russa e regressou aos Estados Unidos com o enviado de Donald Trump para o Médio Oriente — que também se senta ao lado de Rubio nestas negociações. “Há um cavalheiro na Rússia, o seu nome é Kirill e teve muito a ver com isto. Ele foi um interlocutor importante para aproximar as duas partes”, afirmou Steve Witkoff, já em Washington. A declaração de Witkoff foi interpretada como uma referência a Kirill Dmitriev, diretor do Fundo de Investimentos Diretos da Rússia.
O Fundo foi criado em 2011 pelo então Presidente Dmitry Medvedev com o objetivo de desenvolver relações com investidores internacionais. Kirill Dmitriev foi o primeiro nomeado para o cargo de diretor, que ocupa até hoje, sem interrupções. O seu currículo justifica a sua escolha, já que se formou nas universidades norte-americanas de Stanford e Harvard e, ainda nos Estados Unidos, trabalhou nas multinacionais McKinsey e Goldman Sachs. Chegou à Rússia para presidir ao fundo de investimento russo ICON.
A sua proximidade aos Estados Unidos — e mais especificamente à administração de Donald Trump — foi noticiada em 2017, no âmbito da investigação do procurador norte-americano Robert Mueller à alegada interferência russa nas eleições presidenciais de 2016. Segundo o relatório de Mueller, Dmitriev terá sido o ponto de ligação entre os apoiantes de Donald Trump envolvidos no caso e o Kremlin.
▲ Kirill Dmitriev, diretor do Fundo de Investimentos Diretos da Rússia
Instagram/kirilldmitrievofficial
Somados aos contactos nos Estados Unidos, o banqueiro também tem ligações no Médio Oriente, especialmente na Arábia Saudita, onde as equipas de Lavrov e Rubio se vão encontrar. Em 2023, já fez parte da comitiva russa durante uma visita de Vladimir Putin a Adu Dhabi e Riade. Recentemente, Dmitriev ainda fez manchetes internacionais por ser o promotor da vacina russa contra a Covid-19.
Para além dos laços pessoais, a aproximação do líder russo ao banqueiro pode ser um sinal de que algo mudou na abordagem do Kremlin, argumentou Emily Ferris, analista de Estudos de Segurança no Royal United Services Institute em Londres à Bloomberg. “A Rússia está a jogar um jogo mais pragmático e a tentar ter alguém na sua equipa que possa ‘falar de negócios’ com a equipa de Trump”, considera a especialista.
A apreciação que membros da equipa de Trump — como Steve Witkoff — possam ter por Dmitriev não é uma linha fixa da política externa norte-americana. Quatro dias depois de o exército russo ter invadido a Ucrânia em 2022, o Departamento do Tesouro norte-americano aplicou sanções ao banqueiro, por ser um “aliado próximo de Putin”, parte do seu “círculo interno de comparsas“. “O Fundo é amplamente considerado como um fundo de caridade para o Presidente Vladimir Putin e é emblemático da cleptocracia russa em geral”, pode ainda ler-se no comunicado do Departamento norte-americano.
A mudança de estratégia da administração Biden para a administração Trump fica patente no mero facto de a reunião desta terça-feira se realizar — o executivo democrata nunca se quis sentar à mesa com Putin. A posição do Kremlin em relação ao novo Presidente norte-americano é igualmente positiva, segundo afirmou o próprio Dmitriev na manhã desta terça-feira, em que classificou Trump como “um solucionador de problemas“.
Sergei Naryshkin. Os saltos de paraquedas com Putin e homem de mil ofícios
1980. Direção do KGB em Leningrado, atual São Petersburgo. Sergei Evgenievich Naryshkin é o recruta mais recente do Comité de Segurança Estatal na sua terra natal. Chegado ao novo posto de trabalho, conhece um colega apenas dois anos mais velho que já trabalhava aí: Vladimir Vladimirovich Putin. Acabam a estudar juntos na atual Academia de Informação Externa (à data, Instituto Bandeira Vermelha). O relato foi feito pelo próprio Naryshkin em 2018, ao programa “Personalidades” do canal Russia-1.
Naryshkin recordou um episódio específico, antes de se terem inscrito na Academia, em que saltaram de paraquedas juntos. “O salto de paraquedas deixou-me com uma impressão muito boa”, lembrou na entrevista. Ao fim de 45 anos, os dois antigos agentes do KGB ainda mantém contacto diário. Putin é Presidente, Naryshkin é diretor dos SVR, que fazem relatórios de segurança ao Chefe de Estado todos os dias, incluindo sábados, domingos e feriados.
▲ Sergei Naryshkin na reunião do conselho de segurança em 2021
Alexei Nikolsky/TASS
A biografia oficial de Naryshkin no site dos SVR não menciona a sua passagem pelo KGB, mas elenca todos os cargos que ocupou desde que se licenciou em engenharia mecânica em 1978 até que foi nomeado por Putin para diretor dos SVR em setembro de 2016. Depois de ter obtido um segundo curso, em economia, foi conselheiro de economia, finanças e tecnologia na embaixada soviética na Bélgica e na câmara municipal de São Petersburgo.
No pós União Soviética, o seu currículo continuou a crescer até chegar a Moscovo: passou por departamentos regionais, chegou a chefe de gabinete do governo russo no segundo mandato de Putin, em 2004, depois foi promovido a primeiro-ministro adjunto e, em 2011, chegou a presidente da Duma, o parlamento russo. Daí, saltou para os SVR, onde permanece até hoje. Além disso, Naryshkin lidera a Sociedade Histórica Russa, um instrumento chave para ajudar Vladimir Putin justificar a sua narrativa de supremacia cultural russa, assente na História, escreve a BBC.
Apesar de o seu nome ter sido avançado como parte da equipa de negociação em Riade, Naryshkin não marcou presença no encontro desta terça-feira. Isto quer dizer que nenhum membro do círculo interno, de confiança, do Presidente está presente nestes diálogos. Porém a BBC nota que a proximidade com Putin não impede que Naryshkin seja alvo de reprimendas públicas por parte do Presidente. “Putin adora jogar jogos com o seu círculo interno e fazê-lo passar por tolo”, avalia Andrei Soldatov, especialista em segurança russa.
A análise é feita com base em imagens de um conselho de segurança em 2021, transmitidas e editadas pelo Kremlin. O círculo interno discutia a situação das regiões ucranianas no Donbass, especificamente Donetsk e Lugansk, um ano antes da invasão. Depois da intervenção do chefe das secretas, Putin questionou-o: “Estás a sugerir que comecemos negociações?“. Naryshkin respondeu entre hesitações que apoiava a anexação russa destas regiões. Entre sorrisos, Putin desvalorizou a sua opinião e garantiu que isso não estava “a ser discutido” e que só querem reconhecer a independência das mesmas.
Independente das suas aparentes hesitações ou posições incertas sobre a Ucrânia, o espião chefe do Kremlin (para os assuntos externos) manteve-se no círculo interno de Putin ao longo de toda a guerra na Ucrânia e também fez parte da equipa de negociações da primavera de 2022.
Tendo em conta este contexto, o ISW apresenta duas possíveis explicações para a sua ausência: Putin pode estar a guardar os seus aliados mais próximos para uma fase mais avançada das negociações. Ou então, “pode ter mais confiança nestas pessoas [Lavrov, Ushakov e Dmitriev] para estes diálogos particulares”. A análise da especialista Emily Ferris corrobora esta segunda visão. “A equipa russa pode estar em desvantagem quando lida com um interlocutor mais imprevisível como Trump, cujas ideias mais arrojadas e a beligerância ocasional são um forte desvio da linha da administração anterior”, analisa.
A equipa reunida poderá ser, portanto, uma estratégia de adaptação do Kremlin ao novo enquadramento internacional e ao estilo negocial de Trump. Isso ajuda a perceber a possível troca do seu espião chefe por um banqueiro com mais ligações internacionais.