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Com a chuva que se abateu em Portugal no início deste ano, conte com uma coisa: sentirá o aumento dos mosquitos no verão devido à maior quantidade de água parada. Afinal, água e calor são o “caldo perfeito” para o aumento do número destes insetos, apontam os peritos ouvidos pelo Observador, e a situação leva a que determinadas regiões do território nacional, como o Algarve, se tornem autênticos “hotspots” para o crescimento destes insectos. Se quanto às melgas a maior preocupação são as picadas, o mesmo não acontece com os mosquitos Aedes aegypti ou Aedes albopictus, possíveis portadores de doenças como a dengue e a malária. Os especialistas não conseguem prever como será a evolução em 2025, mas garantem que o “importante é haver vigilância, conhecimento e responder atempadamente”.
“Mosquito suscetível, população suscetível e o agente patogénico” é a receita para um surto causado por mosquitos. Foi o que aconteceu na Madeira, em 2012, com uma larga população de Aedes aegypti que causou mais de 2 mil infeções no espaço de um ano. O surto, que começou com um caso importado, foi mitigado e desde então as infeções caíram, todas sem gravidade. No início deste ano, no entanto, foram encontrados mosquitos desta espécie com dengue e chegaram a ser confirmados dois casos na região, mas o acompanhamento constante das autoridades permitiu confirmar que mais nenhum mosquito na ilha apresentava perigo de contágio deste vírus — além dos capturados — e que não existiam mais casos de infeção.
Em 2024, foram identificados 38.522 mosquitos de 18 espécies em território nacional, assim como 65.802 ovos de espécies invasoras, de acordo com o mais recente relatório da Rede de Vigilância de Vetores (REVIVE), do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge (INSA). “O problema não é haver mosquitos, é haver mosquitos em abundância e haver introdução de casos de doença”, afirma ao Observador a coordenadora do programa, Maria João Alves, que lembra que a espécie Aedes albopictus, vetor de vírus como o dengue, febre amarela e Zika, foi encontrada em 20 concelhos portugueses.
Contudo, não foram identificados vírus de doenças em nenhum dos milhares de mosquitos a que também se chama “tigre asiático” apanhados pelas dezenas de armadilhas colocadas pelo REVIVE ao longo do país. Esta espécie, “uma das 100 mais invasoras do mundo”, entrou em Portugal em 2017 depois de se ter estabelecido rapidamente por toda a Europa. É da mesma família da Aedes aegypti, que por sua vez foi erradicada de Portugal Continental há cerca de 80 anos depois de uma campanha extensa de combate ao vetor da malária com utilização intensa de DDT, um inseticida agora proibido devido às preocupações ambientais e riscos para a saúde humana que apresenta.
Estes esforços de erradicação com inseticida são impossíveis com o mosquito “tigre asiático” dado o seu caráter de rápida dispersão. Não obstante, os especialistas ouvidos pelo Observador acreditam que é possível mitigar o risco de propagação de vírus através dos mosquitos, fazendo um acompanhamento constante das várias espécies que habitam o nosso país. Este método não se vai traduzir numa diminuição destes insetos em Portugal, mas permitirá aprofundar o conhecimento sobre os seus padrões e locais de concentração para poder começar a introduzir técnicas experimentais e inovadoras para o controlo da transmissão viral.
A dieta de sangue humano e as armadilhas nos pontos de entrada no país
O Aedes aegypti chegou à Madeira em 2005, mais de 50 anos depois de ter sido erradicado em todo o Continente. Por terem sido apanhadas de surpresa com a introdução desta espécie, as autoridades não conseguiram impedir o seu crescimento em território madeirense e, cerca de sete anos mais tarde, os mosquitos provocaram o surto de dengue que afetou perto de duas mil pessoas na ilha, além de alguns casos que chegaram até Portugal Continental.
É uma espécie “muito antropofílica”, ou seja, “gosta muito de humanos”, enquanto outros mosquitos não são tão seletivos com o seu alimento — “é animais, é pessoas, é tudo”, descreve Maria João Alves. Voa de uma forma mais rasteira e a população começou a aperceber-se do problema desta espécie invasora quando se observaram as primeiras “babas” nas pernas dos madeirenses. “O alerta para a introdução deste mosquito foi a resposta exuberante que as pessoas estavam a ter com as picadas. Estavam a ter uma resposta local muito forte dos joelhos para baixo, onde o mosquito gosta de voar”, explica a coordenadora do REVIVE, notando que estas “babas” se devem à saliva injetada pelos mosquitos no momento de se alimentarem e à subsequente reação alérgica.
Na sua generalidade, os mosquitos são atraídos pelo calor e por certos odores como o do ácido lático ou o suor. Os mosquitos da altamente invasora espécie Aedes albopictus não são tão “agressivos” como os Aedes aegypti na sua perseguição ao sangue humano, mas continuam a ser uma ameaça à saúde pública, especialmente devido à “plasticidade” na adaptação ao clima português. “O mosquito que está habituado ao clima tropical e temperado das florestas do sudeste asiático adaptou-se às condições da Europa, onde os ovos resistem a -10 ºC”, explica a coordenadora do REVIVE.
Tal como os mosquitos Aedes aegypti, o “tigre asiático” é um vetor de dengue, febre amarela e chikungunya, mas para chegar ao passo de infeção, é preciso os mosquitos encontrarem o “agente patogénico”. Quando uma pessoa é diagnosticada com dengue, por exemplo, durante os primeiros cinco dias tem o vírus a circular no sangue. Desta forma, se estiver num local onde estão presentes muitos mosquitos e for picada, o inseto tem a capacidade de transportar o vírus e, quando se for alimentar novamente num período de três a sete dias, vai acabar por infetar uma nova pessoa. Assim, é muito importante que as pessoas diagnosticadas com estes albovírus — vírus transmitidos por artrópodes (como os mosquitos) — não sejam picadas novamente para quebrar a cadeia de transmissão. O problema do dengue, por exemplo, é que nem sempre se manifestam sintomas claros. E mesmo nestes casos, a carga viral continua a ser suficiente para dar continuidade à propagação deste vírus.
Por isso, em todos os pontos de entrada no país, sob recomendação do Centro Europeu de Controlo e Prevenção de Doenças (ECDC) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), como portos, aeroportos e “tudo por onde passam cargas e pessoas”, existem armadilhas de mosquitos para identificar as diferentes espécies que existem, mas também para perceber se carregam algum tipo de carga viral.
A REVIVE tem dois tipos de armadilhas que estão espalhadas de norte a sul do país e também nos Açores — apesar de nenhuma destas espécies invasoras ter chegado ao arquipélago — e Madeira. As mais utilizadas são as “ovitraps”, as armadilhas de oviposição. São pequenos vasos pretos com água no interior que prendem os ovos, diariamente coletados e enviados para os laboratórios nacionais, onde são contados e identificados.
Para apanhar mosquitos adultos, o mecanismo também é relativamente simples: utiliza-se uma ventoinha com um isco e que atrai o mosquito, vivo, para dentro de um compartimento onde fica preso. Deste modo, é possível perceber se os insetos estão ou não infetados com algum tipo de vírus: e atualmente, é esta a única forma de fazer o estudo de atividade viral.
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A aposta na ciência cidadã e as campanhas de sensibilização
“Vasos com água, contentores, às vezes até pequenas tampas e garrafas abandonadas, são criadouros de mosquitos”. Todas as superfícies que tenham a capacidade de acumular águas paradas vão servir de casa para as fêmeas — as responsáveis pelas picadas e pela transmissão dos vírus — colocarem os seus ovos e darem à luz uma nova geração de mosquitos. Gonçalo Seixas, entomologista do Gulbenkian Institute for Molecular Medicine (GIMM), acredita que o mais importante neste combate à crescente população de mosquitos é a gestão dos criadouros e a sensibilização da população.
“É preciso educar a população para não ter criadouros em casa, porque por muito que as autoridades de saúde façam a sua parte, fazem, é preciso educar, fazer aquelas campanhas de educação comunitária, para remover os criadouros, porque isso é o principal”, admite o investigador. Afinal, na sua maioria estes mosquitos acabam por ser criados nas residências privadas, e não em espaços públicos. Em 2017, o mosquito “tigre asiático” foi descoberto pela primeira vez em Portugal numa fábrica de recauchutagem de pneus importados em Penafiel: o pneu era um local favorável ao armazenamento de água e subsequente criação de ovos.
Os especialistas recomendam ainda um envolvimento mais direto das pessoas na identificação destas espécies. “As pessoas têm que saber, para além de estarem informadas, que podem elas próprias fazer o alerta, podem eles próprios notificar um mosquito que viram em sua casa ou no seu jardim”, diz Maria João Alves. O Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT) criou uma aplicação em que é possível as pessoas tirarem fotografias aos mosquitos que encontram, tanto em casa como em qualquer espaço, que são posteriormente analisadas pelos especialistas para proceder à identificação da espécie e facilitar depois a recolha do inseto para análises adicionais.
Carla Sousa, coordenadora da plataforma MosquitoWeb, refere ao Observador que este projeto português tem três objetivos. “O primeiro foca-se na deteção precoce da presença de Aedes aegypti [na Madeira] e Aedes albopictus [no Continente] em novas regiões”: trata-se das duas espécies com maior risco de propagação de vírus perigosos e cuja densidade tem vindo a aumentar. As espécies invasoras, quando chegam a um local, têm duas fases: quando chegam e são detetadas pela primeira vez em números extremamente reduzidos, e quando se instalam. O objetivo inicial passa por “prevenir que se instalem” e, desta forma, reduzir radicalmente o risco de “colonizarem” outra região.
Em segundo lugar, esta plataforma também permite fazer uma atualização do mapa de distribuição das espécies autóctones, as nativas de Portugal, que acabam por não passar integralmente pelas armadilhas colocadas pelo programa REVIVE. Por fim, tem o objetivo de “contribuir para o aumento da literacia das comunidades” relativamente ao assunto dos mosquitos através da disponibilização de feedback após cada submissão na plataforma, indicando o tipo de espécie e o que se deve fazer. Caso se trate de outro inseto, a plataforma dá uma espécie de “aconselhamento personalizado” sobre a situação reportada pelo utilizador.
Quando é submetida uma imagem de um mosquito de interesse, uma das espécies invasoras, por exemplo, a MosquitoWeb transmite essa informação à Direção-Geral da Saúde (DGS), que fica responsável por enviar uma equipa de especialistas para analisar o inseto e a região possivelmente afetada. Em Espanha, onde existe um problema sério todos os anos com os mosquitos, também foi criada uma aplicação, a Mosquito Alert, com um propósito semelhante à opção portuguesa, mas sem o acompanhamento personalizado.
É com recurso a modelos automáticos de identificação dos mosquitos, através de inteligência artificial, que a Mosquito Alert deteta a presença das diferentes espécies no território europeu, não se limitando às fronteiras espanholas. Os utilizadores aderem mais a esta opção, tendo registado mais de 10 mil mosquitos nos últimos 11 anos. Parte deste “sucesso”, revela a empresa ao Observador, passa pelo apoio e ação de sensibilização promovidos pelo Ministério da Saúde de Espanha e várias administrações regionais, que terão emitido comunicados a incentivar a utilização desta plataforma enquanto “sistema de vigilância eficaz para detetar a introdução e a propagação de mosquitos invasores”.
“Essa participação cidadã é muito importante na gestão destes mosquitos invasores”, reforça Maria João Alves. “É preciso publicitá-la bastante e informar as pessoas que podem fazer isso, e que é fácil”, continua a entomologista, acrescentando que a primeira identificação do mosquito “tigre asiático” na região centro de Portugal, em Pombal, no verão passado, surgiu após uma identificação feita no Mosquito Alert.
Crise endémica em Espanha e as dezenas de cavalos em Portugal. A ameaça desconhecida do vírus do Nilo Ocidental
Apesar de a maior ameaça surgir com espécies invasoras como o Aedes aegypti ou o albopictus, até o mosquito mais comum pode transportar vírus letais. Culex pipiens é o “mosquito-comum” e tem uma grande afinidade por animais, e igualmente por humanos. Existe em grande número em Portugal e na Península Ibérica, de uma forma geral, e é o principal responsável pela transmissão do vírus do Nilo Ocidental (West Nile).
Os efeitos do vírus do Nilo Ocidental são sentidos principalmente pelos cavalos e pelas aves. “2024 foi registado como sendo o pior ano para surtos de Nilo Ocidental em cavalos, com uma elevada taxa de mortalidade associada“, lê-se num estudo feito pelo Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária (INIAV). Segundo uma das autoras, a investigadora Sílvia Santos Barros, o vírus manifesta-se através de problemas nervosos, muitas vezes afetando a coordenação motora do animal, provocando meningite ou uma encefalite.
Considerando que circula nestas populações animais e existe uma grande interação com os humanos, porque não existem mais diagnósticos de vírus do Nilo Ocidental em Portugal? Na verdade, só houve quatro casos confirmados em território português. O primeiro foi em 2004, quando dois turistas irlandeses, diagnosticados já na Irlanda, viajaram até ao Algarve e arriscaram começar um surto. Felizmente o vírus ficou contido nestas duas pessoas, tendo só voltado a surgir mais dois casos em 2015.
Há cerca de dez anos que não há um diagnóstico de vírus do Nilo Ocidental em Portugal e, segundo a especialista contactada pelo Observador, deve-se ao facto da grande maioria dos casos se manifestar ou assintomaticamente, ou com sintomas ligeiros que podem facilmente ser confundidos com uma virose comum: febre e mau estar geral durante dois a três dias. Em Espanha, especialmente na região da Andaluzia, no sul do país, o caso é mais dramático.
Nove pessoas morreram no verão passado, perto de Sevilha, devido à infeção de Nilo Ocidental. Eram todas imunocomprometidas, o que aumenta a probabilidade de os sintomas se agravarem. Do outro lado da Península, no entanto, existe uma grande rede de vigilância e de acompanhamento deste vírus, que cá em Portugal não é muito conhecido pelos profissionais de saúde, acredita Sílvia Santos Barros.