O que é a psicoeducação?
É o nome dado à estratégia para informar e capacitar a pessoa sobre a sua saúde mental e emocional. É frequentemente utilizada pelos profissionais de saúde mental (como os psiquiatras e psicólogos), em contextos terapêuticos ou preventivos.
Em termos práticos, explica a psicólogaSara Ferreira, “é o acto de explicar ao paciente, e eventualmente à família, o que está por trás dos sintomas e como a mente, as emoções e o corpo interagem. É como um mapa mental: ajuda a pessoa a entender o ‘porquê’ e o ‘como’ dos seus desafios.”
E qual é a diferença entre psicoeducação e literacia em saúde mental?
A literacia é informação teórica e geral, a psicoeducação é informação mais prática e ajustada a cada um. “Enquanto a literacia procura aumentar o conhecimento da população sobre temas como ansiedade ou depressão, a psicoeducação é individualizada”. Acontece habitualmente em consulta, adaptada às necessidades e vivências da pessoa.
É como se fosse um “manual de instruções” personalizado, que permite à pessoa compreender e gerir melhor o seu contexto de saúde mental.
Mas como é que a psicoeducação ajuda ?
A psicoeducação ajuda a pessoa a compreender o problema e, assim, a aceitá-lo melhor, serve para conhecer ferramentas práticas para lidar com os desafios e ainda para informar e apoiar os familiares e cuidadores, para que compreendam melhor as dificuldades do paciente e saibam como ajudar.
Segundo Sara Ferreira, tudo isto tem um “impacto tangível: tanto pela diminuição do estigma, como pelo aumento da adesão ao tratamento e uma maior sensação de controlo. Em suma, a psicoeducação transforma o paciente de espetador passivo a participante ativo na sua recuperação.”
Em que situações ou perturbações a psicoeducação é mais útil?
De acordo com a psicóloga clínica e psicoterapeuta, a psicoeducação é especialmente eficaz em perturbações como ansiedade, depressão, perturbação obsessivo-compulsiva (POC) e perturbação bipolar.
No entanto, também na doença mental grave, nomeadamente em perturbações psicóticas, como a esquizofrenia, é um recurso crucial, já que ajuda o paciente e a família a reconhecer sinais de recaída e a aderir ao tratamento.
“Quanto mais desinformação houver em torno do problema, maior será o benefício da psicoeducação”, resume.
Mas, em termos práticos, como é que isso funciona?
A psicoterapeuta Sara Ferreira deixa vários exemplos de como a psicoeducação alivia o sofrimento, diminui o estigma, capacita o paciente para quebrar padrões e ajuda-o a explorar novos caminhos e comprometer-se com o tratamento:
- Em casos de ansiedade, ajuda a desmistificar os sintomas físicos, como palpitações ou falta de ar, explicando que são respostas naturais ao stress. Isso reduz, por exemplo, o medo de morrer ou ficar a sentir-se sempre assim que a pessoa sente durante os ataques de pânico;
- No caso de depressão, a psicoeducação sobre a ligação entre isolamento e agravamento dos sintomas pode motivar o paciente a sair de casa e estar com outras pessoas, mesmo que não tenha vontade.
- Para alguém com perturbação obsessivo-compulsiva, explicar o conceito de “pensamentos intrusivos” como pensamentos normais que são amplificados pela doença, alivia a culpa e a vergonha, logo, o sofrimento emocional.
- Em pessoas com insónia crónica, a psicoeducação sobre o “paradoxo do sono” – quanto mais tentamos dormir, mais despertos ficamos – pode ser transformadora, permitindo ao paciente adoptar práticas como a restrição do tempo de cama para regular o ciclo sono-vigília.
- Para as mães em pós-parto, compreender a tempestade hormonal e os efeitos do cortisol e da oxitocina no funcionamento físico e mental ajuda a normalizar a culpa e a sobrecarga emocional que muitas vezes sentem.
Que limitações tem a psicoeducação?
A principal, defende Sara Ferreira, é que “saber não é o mesmo que sentir, muito menos que mudar.”
Ou seja, compreender a doença, saber de onde vêm os sintomas e conhecer as estratégias para melhorar é uma boa base, mas não significa que a pessoa se vá sentir melhor ou mudar comportamentos. “A psicoeducação oferece uma base de entendimento, mas não substitui o trabalho emocional e comportamental necessário para a mudança.” Além disso, há o risco daquilo a que a psicoterapeuta chama “a ilusão do saber”: ao perceber o porquê dos seus sintomas, o paciente julga que isso é suficiente e, não se sentir melhor ou piorando, desanima.