A 10 de abril de abril, o CEO da Siemens, Agustín Escobar, e a sua família morreram num acidente de helicóptero em Nova Iorque. Nas redes sociais foi difundida a ideia de que a Siemens AG assinou um contrato com uma empresa turca, que deveria fornecer comboios de alta velocidade. E no contrato constava ainda outra cláusula: estes comboios não podiam ser construídos com recurso a materiais israelitas.

“A condição para o negócio era que a Siemens assinasse uma declaração de boicote a Israel, caso contrário a venda não se concretizava”, adiantou a rádio alemã Südwestrundfunk, que citava documentos internos da empresa aos quais tinha tido acesso.

Segundo os utilizadores de Facebook, terá sido a assinatura deste acordo que levou à morte de Agustín Escobar, uma vez que este era o CEO de Infra-Estrutura Ferroviária (o departamento de soluções de transporte) da Siemens AG.

Mas será que a informação partilhada na rede social é verdade? Efetivamente, foi assinado um contrato entre a Siemens e a companhia ferroviária estatal turca — e isto aconteceu não uma, mas duas vezes (em 2013 e 2018). O primeiro contrato tinha como objetivo a compra de seis comboios de alta velocidade e o segundo foi assinado porque a Siemens pretendia adquirir mais 12 composições.

No entanto, de acordo com uma investigação do canal alemão Das Erste, estes contratos foram assinados antes de Agustín Escobar estar à frente da Infra-Estrutura Ferroviária da Siemens.

Em 2013, na data do primeiro contrato, Escobar era diretor-executivo do setor de Infraestruturas e Cidades da unidade da América Latina, escreve a agência espanhola EFE. E em 2018 era CEO da Siemens Mobility de Espanha e do sudoeste europeu. Segundo a EFE, só em novembro de 2024 é que Agustín Escobar foi nomeado diretor-executivo da Infraestruturas Ferroviárias da Siemens.

Além disto, a investigação que tem sido feita pelo Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA (NTSB, na sigla inglesa) não aponta para um cenário em que o acidente tenha sido orquestrado por mãos israelitas. Após o acidente que provocou a morte do CEO da Siemens e da sua família, foi criada uma equipa da NTSB para investigar o caso e, num relatório preliminar divulgado a 7 de maio, lê-se que os “dados obtidos junto da Administração Federal da Aviação (FAA) revelam que o helicóptero partiu da baixa de Manhattan/Wall Street Heliport (JRB), Nova Iorque, Nova Iorque, cerca das 14h58”. No trajeto, após se aproximar “das torres do Holland Tunnel, perto de Jersey City, Nova Jersey”, “a altitude aumentou para 205 metros antes de iniciar numa queda rápida”.

Segundo o documento, o aparelho — que “não estava equipado com qualquer dispositivo de registo de vídeo ou dados” — separou-se “subitamente em três secções: fuselagem (incluindo o motor), sistema de rotor principal (incluindo as duas pás do rotor principal, a transmissão e a estrutura da viga do tejadilho) e o braço da cauda (incluindo o rotor da cauda).”

Além disto, a NTSB acrescenta que “o piloto era titular de um certificado de piloto comercial com qualificações para helicóptero, era titular de um certificado médico, (…) a 29 de março de 2025 tinha registado um total de 790.2 horas de experiência de voo (…) e o voo do acidente foi o seu primeiro voo [do piloto] após regressar de 10 dias de folga”.

A par do relatório preliminar da NTSB — que não menciona mão criminosa por detrás do acidente — as autoridades norte-americanas também não se pronunciaram, em momento algum, sobre a hipótese de se tratar de um crime (e menos ainda de um crime feito por israelitas).

Conclusão

Em suma, apesar de a Siemens assinar dois contratos com a Turquia que previam que os comboios comprados não fossem fabricados com recursos israelitas, quando estes dois contratos foram assinados, Agustín Escobar ainda não era o CEO das Infra-Estruturas Ferroviárias desta empresa, tendo chegado a esta posição apenas em novembro de 2024.

Além disto, o relatório preliminar da investigação não aponta, até ao momento, para a hipótese de estar em causa um crime — e muito menos que este crime tenha sido cometido por israelitas.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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