Uma publicação viral nas redes sociais sugere que a Organização Mundial de Saúde (OMS), pela voz do diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, teria aprovado uma vacina contra a Covid-19 desenvolvida pela China, e vendida a 10 mil dólares a dose, depois de ter descartado outras soluções de prevenção apresentadas pelos Estados Unidos e pelo Brasil.

Mas a publicação é falsa. Até 21 de julho, data da última atualização da OMS a propósito deste tema, havia 24 vacinas em desenvolvimentos e nenhuma fora ainda aprovada, como se pode ler neste documento preparado pela instituição e publicado na página oficial.

A imagem em causa cita afirmações que teriam sido proferidas pelo presidente norte-americano Donald Trump, pelo chefe de Estado brasileiro Jair Bolsonaro, pelo líder chinês Xi Jinping e por Tedros Ghebreyesus, diretor-geral da OMS.

A primeira afirma que o presidente dos Estados Unidos anunciou publicamente que os americanos estavam “trabalhando numa vacina que seja barata ao ponto de distribuir ao mundo sem custo algum no combate ao Covid-19”.  A estas declarações, o diretor-geral da OMS teria respondido: “Não funciona. Suspendam a produção. Não tem provas científicas que funciona”.

Mas esta interação nunca aconteceu. Donald Trump tem anunciado que os Estados Unidos estão a trabalhar para desenvolver uma vacina contra a Covid-19 até ao final do ano e que, mal ela esteja disponível, usará “todos os aviões, camiões e soldados” para a distribuir pelos cidadãos do país. Mas nunca se pronunciou sobre o preço de venda ou de distribuição da vacina.

Também não é verdade que a OMS tenha dito que essa vacina “não funciona” e que se devia suspender a sua produção. Há três instituições norte-americanas envolvidas na busca por uma vacina contra a Covid-19 — Moderna, Inovio e Novavax — e o governo investiu ainda na vacina da AstraZeneca com a Universidade de Oxford, mas todas elas ainda estão em desenvolvimento, não havendo ainda resultados de testes clínicos; nenhuma foi ainda produzida, nem descartada pela OMS.

Segue-se uma citação atribuída a Jair Bolsonaro: “Estou distribuindo gratuitamente comprimidos de hidroxicloroquina para a população se tratar contra o Covid-19”. Embora o presidente brasileiro tenha defendido fervorosamente a utilização da hidroxicloroquina no combate à Covid-19, Bolsonaro nunca declarou publicamente que distribuiria gratuitamente este medicamento para o tratamento da doença provocada pelo novo coronavírus.

A hidroxicloroquina é um fármaco que já está no mercado para tratar doenças como as artrites, lúpus, malária, entre outros. No entanto, os estudos sobre a administração desse medicamento em doentes de Covid-19 demonstram que a hidroxicloroquina não é eficaz neste contexto. Foi essa a justificação que a OMS deu, para descontinuar os estudos em torno da hidroxicloroquina no programa Solidarity Trial.

Numa atualização publicada a 06 de julho, a OMS explica que os resultados das experiências feitas até aí “mostram que a hidroxicloroquina e o lopinavir/ritonavir produzem pouca ou nenhuma redução na mortalidade de pacientes com Covid-19 hospitalizados quando comparados ao padrão de atendimento”.

Antes, a 27 de maio, o diretor executivo do programa de emergência da OMS, Mike Ryan (e não Tedros Ghebreyesus, como sugere a publicação) confirmou que a instituição “não aconselha o uso de hidroxicloroquina ou cloroquina para o tratamento da Covid-19 fora de ensaios clínicos randomizados, ou sob supervisão clínica apropriada”.

O texto termina com um suposto anúncio do presidente chinês: “A minha vacina está pronta. Dez mil dólares cada uma”, teria dito Xi Jinping, de acordo com a publicação em causa. A estas declarações, e segundo a publicação viral, a OMS teria respondido: “Finalmente achamos uma vacina que funciona! Parabéns à China pelo exemplo de combate ao Covid-19! Todos devem comprar a vacina chinesa agora!”

Não há, no entanto, qualquer registo de que a China tenha anunciado ter uma vacina contra a Covid-19, pronta para ser administrada, nem que venderia cada dose a 10 mil dólares. Logo, também não é possível que a OMS tenha dado o aval a uma vacina que não existe. Ou seja, nem a China anunciou ter uma vacina pronta, nem a OMS poderia incentivar a sua compra.

Conclusão

Não é verdade que a OMS, ou o próprio diretor-geral, Tedros Ghebreyesus, tenha incentivado à compra de uma alegada vacina chinesa anunciada por Xi Jinping. A China nunca afirmou ter produzido uma vacina eficaz contra a Covid-19 — até porque, de resto, as 24 vacinas em estudo ainda estão a ser desenvolvidas e testadas. A OMS também já veio explicar, publicamente, que ainda não foi encontrada nenhuma solução, seja uma vacina ou outro tipo de medicamento, para a Covid-19.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota 1: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

Nota 2: O Observador faz parte da Aliança CoronaVirusFacts / DatosCoronaVirus, um grupo que junta mais de 100 fact-checkers que combatem a desinformação relacionada com a pandemia da COVID-19. Leia mais sobre esta aliança aqui.

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