É um dos mais antigos mitos urbanos desde que se começaram a instalar lojas de chineses em Portugal. As histórias vão tendo contornos diferentes, mas seguem todas a mesma narrativa: sequestros de portugueses nestes estabelecimentos para fins de tráfico de órgãos.

Uma publicação partilhada recentemente no Facebook expõe dois alegados casos de sequestro deste género — um em Águeda, outro em Aveiro. Mais uma vez, não passa de um típico mito urbano sem fundamento algum. Fontes da GNR, PSP e PJ confirmaram ao Observador não ter registo de casos semelhantes.

O autor da publicação de 2 de outubro replica um texto sem data e da autoria de outra pessoa, onde são descritos dois episódios que lhe terão relatado. O primeiro teria acontecido numa loja de chineses, na cidade de Águeda, onde um pai deixou a sua filha para fazer uma compra enquanto este aguardava no parque de estacionamento. A história continua: depois de esperar “bastante tempo”, entrou na loja à sua procura, “mas não a conseguiu encontrar” e os funcionários da loja garantiam não a ter visto — o que levou o pai a chamar a polícia.

Os polícias entraram e também não encontravam a jovem até que por fim chamaram reforço de colegas com cães-polícia que, através do seu faro, conseguiram detetar a presença da jovem numa zona mais retirada da loja dentro de um alçapão. A jovem já tinha o corpo marcado perto de alguns órgãos vitais e o destino dela seria ser MORTA PARA TRÁFICO DE ÓRGÃOS“, lê-se na publicação.

O segundo caso relatado teria acontecido numa loja dos chineses no Retail Park, em Aveiro. Também aqui a história é semelhante, mas as personagens são diferentes. Desta vez, trata-se de um casal.

O marido ficou a fumar um cigarro à porta da loja enquanto que a esposa entrou. Quando o marido após alguns minutos entrou à procura da esposa também já não a viu. Após procurar por ela, esta também já estava amarrada nas traseiras da loja e o destino dela provavelmente seria o mesmo“, lê-se na mesma publicação.

O texto termina com um alerta para todas as pessoas que frequentam lojas deste género. “Agora se entrarem numa loja dessas, tenham o cuidado de não irem sozinhos pois facilita-lhes o trabalho. Isto não é brincadeira”, avisa o autor do texto, pedindo: “Por favor, divulguem ao maior número de pessoas possível”. A publicação já ultrapassou as duas mil partilhas.

No texto, é feita referência a uma polícia — que teria sido mobilizada para o local do alegado crime —, mas não é especificada qual. No caso de Águeda, o mais provável era ter sido chamada a GNR, uma vez que tem competência nesta cidade. Contactada pelo Observador, fonte desta força militar disse não ter “qualquer registo” de um caso semelhante. No segundo caso, Aveiro é uma zona da competência da PSP pelo que seria este órgão a ser chamado ao local. A resposta foi idêntica: não há registo de um caso semelhante.

Independentemente da força de segurança a ser chamada ao local e a ter o primeiro contacto com os casos, estes acabariam sempre por chegar às mãos da Polícia Judiciária, uma vez que os crimes em causa são da sua competência. Também aqui a resposta foi igual: não têm registo de nenhum caso semelhante.

Ambos os casos não passam de uma reprodução de um mito urbano antigo e sem fundamento algum. Já em 2006, o Diário de Notícias tinha escrito um texto sobre a proliferação de histórias falsas de sequestros de portugueses em lojas de chineses. À data, questionado por este jornal, Y Ping Chow, representante da comunidade chinesa em Portugal da altura, considerava que estes boatos eram “uma tentativa de prejudicar o comércio” da comunidade chinesa — que, sublinhava, se sentia “intimidada e discriminada”.

Além disso, os casos de tráfico de órgãos em Portugal são raros ou mesmo inexistentes. Em 2015, a propósito da assinatura da Convenção contra o Tráfico de Órgãos Humanos por Portugal, o jornal Público noticiava que nem a Polícia Judiciária, nem o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras, nem o Observatório de Tráfico de Seres Humanos tinham registos de casos deste crime.

Numa entrevista ao mesmo jornal, mais tarde nesse ano, o presidente da Sociedade Portuguesa de Transplantação, Fernando Macário, estimava que pudesse haver apenas um caso por ano. Mais recentemente, já este ano, o bastonário da Ordem dos Médicos, Miguel Guimarães, confirmou também que são raros os casos de tráfico de órgãos em Portugal.

Conclusão

Uma publicação no Facebook expõe dois alegados casos de sequestros de portugueses em lojas de chineses, para fins de tráfico de órgãos: um em Águeda, outro em Aveiro. Ambos os casos — com contornos diferentes, mas iguais na sua essência — não passam de uma reprodução de um mito urbano antigo e sem fundamento algum. Fontes da GNR, PSP e PJ confirmaram ao Observador não ter registo de casos semelhantes.

Assim, segundo a classificação do Observador, este conteúdo é:

Errado

No sistema de classificação do Facebook este conteúdo é:

FALSO: as principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

Nota: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

IFCN Badge