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Ano Novo

2019 é quando, e se, um homem quiser /premium

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O importante é rompermos com as representações que o “sistema” nos atribui e assumirmos a essência do que realmente nos representa. E eu, ao invés do que o Estado presume, não me sinto contribuinte.

Perguntaram-me a razão de não ter feito uma crónica sobre o ano que passou, ou sobre o ano que agora começa. A resposta é simples: não mudei de ano no dia 1 de Janeiro de 2019, e pressupor o contrário é uma prepotência que colide com as minhas convicções e, francamente, me ofende. O calendário gregoriano é apenas um instrumento opressor da Igreja Católica Romana, para cúmulo imposto por um Papa que não era sorridente e socialista como o actual. Há resmas de calendários, religiosos ou civis. Os judeus já vão em 5779, os muçulmanos ainda estão em 1440, os persas em 1397, os budistas em 2563, os hindus em 5197, os coptas em 1735, os franceses saudosos da fraternidade e da guilhotina em 227, os chineses em porco (ou galo, ou centopeia – não percebi bem) e por aí fora.

Pessoalmente, considero-me ofendido por todas as imposições acima, pelo que invoco o direito de seguir um calendário próprio. Não é um calendário numérico, nem sequer zoológico. Para simplificar, digamos que me encontro a meio do ano ∂ (lê-se “di-di”, porque decidi assim e eu é que sei da minha vida), e que, daqui a 127 meses dos meus, ou aproximadamente duas horas no sistema métrico, entrarei com festa rija, embora um tanto solitária, no ano ¥ (lê-se “ioiô”). Chega de obedecer a decretos cujos fundamentos me escapam e cujos efeitos desprezam as minhas necessidades e carências, aptidões e valências. É muito bonito garantir o respeito pela identidade sexual e tal, mas falta respeitar as dezenas, talvez centenas, de identidades que nos definem enquanto indivíduos e indivíduas.

Em 2018 e na meia dúzia de anos anteriores (convenção vossa), vimos pessoas recusarem o “binarismo” de género para adoptar a fluidez do mesmo ou uma cena que lhes apeteceu. Vimos pessoas recusarem as restrições do casamento enquanto união de dois, ou cinco, ou quarenta e um, seres humanos para desposarem o cão, o periquito, a namorada do Mickey ou um processador da Intel. Vimos pessoas recusarem a etnia que Deus lhes deu para encarnar a que melhor se adaptava à sua emotividade. Vimos pessoas recusarem a idade cronológica para reivindicar o reconhecimento da sua idade espiritual. Vimos pessoas recusarem a História escrita por caucasianos perversos para acolher as histórias orais de tribos perdidas em gabinetes de sociologia. Vimos pessoas recusarem as fronteiras para trespassar a tirânica “legalidade” e desaguar na casa do eng. Guterres. Vimos pessoas recusarem ser pessoas para viver a existência de pássaros, riachos ou torradeiras. Espera-se que, em 2019 (convenção vossa), estas heróicas excepções constituam a regra.

No processo de emancipação das grilhetas dos “factos” e da “verdade”, da “natureza” e da “realidade”, conceitos inventados pelo heteropatriarcado branco, cristão e ocidental, somos aquilo que quisermos e não somos o que não quisermos. O importante é rompermos com as representações que o “sistema” nos atribui e assumirmos a essência do que realmente nos representa.

A recusa do ano é só um exemplo: já que falamos no assunto, e ao invés do que o Estado vem presumindo, eu também não me sinto contribuinte. Aliás, sinto – e sinto imenso – que pagar impostos é uma violência que choca com a entidade não pagante que, no fundo, sou. Exijo por isso que o fisco respeite a minha percepção e deixe de me retirar mensalmente uma parcela dos rendimentos. Em suma, ou o fisco deixa de me ofender, ou denunciarei o abuso ao Tribunal dos Direitos do Homem, da Mulher e do Género que Calhar. Se a liberdade dos outros acaba onde começa a nossa mariquice, vamos tratar de coisas sérias.

Nota de rodapé:

Um indivíduo, condenado em tempos por envolvimento num homicídio com motivações raciais e admirador confesso de Salazar, foi a um programa televisivo de variedades. Os censores saltaram com previsível indignação. Infelizmente, no meio da gritaria não se percebeu bem o que os indignou, se a jovialidade com que se entrevistou um criminoso, se o tempo de antena dado a entusiastas de ditaduras.

No primeiro caso, concordo que o tratamento “mediático” (bela palavra) de criaturas responsáveis pela morte de inocentes não deve ignorar o pormenor de as criaturas serem responsáveis pela morte de inocentes. Ou seja, a referida conversa justifica-se em programas de temática criminal ou psiquiátrica, e não em programas “light”, cujos convidados podem incluir, suponho, cançonetistas, cozinheiros, actrizes de telenovela, nutricionistas chamadas Isabel do Carmo, Otelo, o sr. Mortágua e artistas similares.

No segundo caso, não vejo razão para o chinfrim. O tal indivíduo gosta de Salazar? É lá com ele. Em quase todos os canais, quase todas as horas, há apóstolos descarados de genocidas mil vezes piores a dissertar livremente, sem que daí venha mal ao mundo, comichões à ERC ou chiliques a um ministro qualquer. Se se silenciasse a propaganda de déspotas, não seriam apenas as televisões a calar-se: com larga probabilidade, o país ficaria mudo.

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