“In his more than 25 years in power, Putin has instilled in theRussian collective the idea of Russia as a “besieged fortress”—pundits on television have pushed this message for years. People in villages and smalltowns, living paycheck to paycheck, can draw inspiration from belonging to the great nation that stands up to Western pressure. Wielding the Great Patriotic War slogan “Victory will be ours,” Putin justifies to this public the losses and cruelties they suffer along the way.” – Nina Khrushcheva. (2025, December 30). Russia’s DescentIntoTyranny. ForeignAffairs.
Autores de orientação realista, como John Mearsheimer ou Stephen M. Walt, entre outros, têm recorrentemente argumentado que a Rússia iniciou a ofensiva contra a Ucrânia em resposta a uma perceção de ameaça à sua segurança, nomeadamente devido à expansão da NATO e à crescente influência ocidental na região. Contudo, uma análise dos eventos mostra que esta explicação é insuficiente para sustentar a narrativa realista. A Rússia já demonstrava interesses estratégicos e ambições de projeção de poder antes de qualquer avanço significativo da NATO ou da União Europeia, e o início do conflito não foi precedido por ações militares ou políticas ocidentais que configurassem uma ameaça existencial direta. Assim, a agressão deve ser compreendida sobretudo como resultado de objetivos de hegemonia regional e afirmação internacional, e não como uma reação defensiva inevitável a pressões externas.
O fim da União Soviética constituiu um momento de rutura profunda na história política e identitária da Rússia, colocando em causa não apenas as suas estruturas de poder, mas também a sua autoimagem enquanto ator central no sistema internacional. A Federação Russa emergiu desse processo confrontada com a necessidade de redefinir a sua identidade nacional num contexto marcado pela perda de estatuto, pela incerteza estratégica e pela hegemonia ocidental no pós-Guerra Fria.
Durante a década de 1990, sob a liderança de Boris Yeltsin, esta redefinição assumiu contornos essencialmente negativos, refletindo a perceção de declínio e marginalização internacional. A chegada de Vladimir Putin ao poder inaugurou uma tentativa de reconstrução identitária assente numa narrativa de estabilidade interna, recuperação económica e aproximação pragmática ao Ocidente. Todavia, essa aproximação revelou-se limitada e, em última análise, falhada, na medida em que a Rússia procurava não apenas integração, mas reconhecimento explícito do seu estatuto de grande potência e de uma esfera de interesses próprios. A incapacidade, ou mesmo recusa, do Ocidente em acomodar essas pretensões contribuiu para o aprofundamento das clivagens políticas e estratégicas, reforçando uma postura externa mais assertiva e contestatória por parte de Moscovo. Neste processo, a Segunda Guerra Mundial foi progressivamente elevada a elemento central da identidade nacional russa, funcionando como narrativa unificadora, fonte de legitimidade política e símbolo duradouro da relevância histórica e geopolítica da Rússia.
O presente conflito na Ucrânia pode ser compreendido como um processo de construção intersubjetiva de ameaça. Numa fase inicial, a sociedade russa reagiu com surpresa e incerteza, evidenciando a ausência de quadros interpretativos consolidados relativamente à natureza e aos objetivos da intervenção. Contudo, através de um controlo sistemático do espaço informacional e da produção discursiva estatal, as autoridades russas procederam à securitização do conflito, enquadrando-o como uma resposta defensiva a ameaças externas de carácter existencial. Este ato securitário assentou na mobilização seletiva da memória histórica, em particular da Grande Guerra Patriótica, enquanto recurso simbólico central na legitimação da ação estatal. A progressiva internalização desta narrativa contribuiu para a consolidação de uma identidade coletiva assente na defesa da pátria, promovendo elevados níveis de coesão social, patriotismo e lealdade ao Estado.
Esta dinâmica manifestou-se, designadamente, na aceitação social do serviço militar, no envolvimento de civis em iniciativas de apoio às Forças Armadas e na progressiva marginalização discursiva da dissidência, enquadrada como uma ameaça à unidade nacional. Neste quadro analítico, o conflito passou a ser amplamente percecionado como inevitável e de natureza defensiva, reforçando uma identidade nacional estruturada pela perceção de cerco externo e pela centralidade do antiocidentalismo, em consonância com os padrões identitários e narrativos previamente identificados. O consequente reforço do patriotismo traduziu-se na disponibilidade dos recrutas para o serviço militar, no envolvimento da sociedade civil em movimentos de apoio ao Exército e no aumento da pressão social sobre posições dissidentes, consolidando o sentimento de ameaça externa como elemento estruturante da identidade nacional.
Economicamente e culturalmente, a Rússia conseguiu reforçar a sua resiliência e coesão interna face às pressões externas, em estreita relação com a construção de uma identidade nacional securitizada através do conflito prolongado com a Ucrânia. No plano económico, o modelo estatal, sustentado por investimento público, provisão de serviços acessíveis e carga fiscal relativamente baixa, permitiu manter crescimento e confiança na autossuficiência do país, mesmo sob sanções internacionais, enquanto as dinâmicas de guerra contribuíram para estímulos à inovação tecnológica e ao desenvolvimento industrial, fortalecendo o orgulho nacional e a perceção de capacidade interna. Culturalmente, assistiu‑se a um renascimento identitário: o êxodo de artistas críticos abriu espaço para a promoção de ícones patrióticos, enquanto a valorização das tradições russas e a rejeição de influências ocidentais contemporâneas consolidaram uma narrativa cultural autónoma. Em termos militares, a progressão das forças russas no terreno tem sido caracterizada por avanços incrementais e limitados em profundidade operacional, com ganhos territoriais marginais em sectores específicos da linha de frente, sem ruturas estratégicas amplas apesar da ocupação de mais de 100 000 km² de território ucraniano desde 2022 — cerca de 19 % da área total — e conquistas pontuais ao longo de 2025 e início de 2026.
Estes processos, económicos, culturais e militares, reforçaram não só o patriotismo e a lealdade ao Estado, como também contribuíram para a securitização da identidade nacional, ao apresentar a Rússia como um actor cercado de ameaças externas e, simultaneamente, capaz de resistência e autossuficiência, numa narrativa que remete à memória histórica da Segunda Guerra Mundial e à persistente perceção de cerco externo.
Mesmo entre analistas críticos da guerra, há consenso de que nem a NATO nem a União Europeia constituíram causas determinantes do conflito; a Rússia já demonstrava, historicamente, interesse em projetar poder e afirmar hegemonia regional. A ofensiva na Ucrânia deve ser compreendida como expressão de objetivos estratégicos russos de controlo regional e afirmação internacional, inseridos numa narrativa identitária que remete à memória histórica da Segunda Guerra Mundial e ao papel central do país como defensor contra ameaças externas.
Em síntese, o conflito reflete a ambição russa e a busca contínua por hegemonia, reforçada por um discurso de resistência e patriotismo que recupera elementos simbólicos do passado bélico, consolidando uma identidade nacional marcada pela perceção de cerco externo. A Rússia não demonstra interesse em encerrar o conflito, beneficiando de ganhos estratégicos externos e do fortalecimento interno da posição política de Putin. Nesse contexto, os incentivos para a cessação da guerra são limitados, sugerindo que eventuais concessões recairão mais sobre a Ucrânia do que sobre a Rússia, que interpreta a continuidade do conflito como instrumento de reafirmação identitária e de reconstrução da sua narrativa histórica de poder e resiliência.