1 A página em branco
Nas últimas décadas do século XX o pensamento académico anglo-americano foi dominado por uma ideia legada por John Locke: a de que o homem nasce como uma página em branco (blank slate). Todo o conhecimento adviria da experiência (Locke é um dos principais representantes do empirismo), o que significaria que todas as nossas crenças, comportamentos e valores seriam socialmente adquiridos. Essas são as décadas do sucesso da antropologia cultural, das teorias sociológicas e do relativismo. São também as décadas do triunfo do género, conceito que permitiu inicialmente distinguir entre “fator natural” e “fator social” – o que resulta da natureza e o que resulta de convenção social – mas que acabou por se absolutizar, considerando que tudo é social.
(A confusão em torno deste conceito, por tendermos a aplicá-lo a partir da língua inglesa, é rapidamente identificada quando no relatório de aprendizagem das crianças do pré-escolar se assinala como competência: “Conhecer o género (feminino ou masculino)”. Como é óbvio, as crianças pequenas reconhecem o sexo, e não o género.)
É esta absolutização que está no cerne das teorias do género, que se manifestam em diversos domínios partindo da mesma premissa: o “natural” não existe senão como uma ferramenta intelectual daqueles que querem manter as estruturas sociais de opressão. Para aqueles que defendem a absolutização do género, não existem limites (naturais) ao tipo de sociedade que podemos criar e seria possível gerar uma sociedade absolutamente igualitária, o mesmo é dizer, progressista.
Não é por isso surpreendente que um dos alvos preferenciais de ataque das teorias do género sejam as áreas de estudo que procuram compreender o homem na sua dimensão animal como resultado de um processo adaptativo, quer em termos biológicos (biologia evolutiva), quer em termos psicológicos (psicologia evolutiva). A lógica aplicada a esta recusa pode ser expressa do seguinte modo: se os estudos evolutivos podem ser usados para justificar as estruturas sociais entendidas como opressoras, então esses estudos estão errados. Trata-se, naturalmente, de uma falácia mas que é comum quando pretendemos que a realidade se adeque à nossa teoria, ao invés de adaptar a teoria à realidade.
Steven Pinker designa como exibicionistas morais os académicos que avaliam as ideias não pela sua verdade, mas pela sua coerência em relação aos ideais progressistas. Mas o problema maior resulta da influência desta forma de pensar no processo de formulação de políticas públicas: pois se estas são formuladas a partir da premissa do género, é certo que não só não obterão os resultados pretendidos, como os efeitos poderão ser particularmente perversos.
2 Páginas rascunhadas
Os efeitos podem ser perversos na medida em que aquela premissa incentiva a perseverança no erro: ao adotarmos uma perspetiva reducionista como a de afirmar que tudo é socialização, quando os resultados não se coadunam com as expectativas a resposta impulsiva é a de considerar que o problema está no facto de a medida política (de socialização ou re-educação) não ter ido suficientemente longe – pelo que é necessário “socializar mais” ou “socializar melhor”.
Este aspeto é particularmente evidente nos planos para a “igualdade de género” que marcam as políticas na Europa: quando, depois de décadas de aplicação desse tipo de medidas, os resultados não são os pretendidos, conclui-se que é necessário arranjar mais e novas estratégias de educação, criar mais disciplinas, forçar mais temas de cidadania, colocar as crianças mais cedo na escola, etc. etc.
É particularmente difícil para os humanos abdicar das suas crenças iniciais e aceitar que provavelmente estão errados. Na verdade, somos condicionados por várias dissonâncias cognitivas e uma delas é descrita por Paul Watzlawick, no maravilhoso A realidade é real?, da seguinte forma:
“[Quando pensamos ter encontrado] uma solução – e quando, enquanto a tentamos encontrar, pagamos um preço relativamente alto em ansiedade e expectativa – o nosso investimento nessa solução torna-se tão grande que podemos preferir distorcer a realidade de forma a acomodarmos a realidade à nossa solução do que sacrificar esta última.”
Este é um traço universal – da nossa natureza humana – e, nessa medida, não é exclusivo dos progressistas radicais. Todos nós, em algum momento da nossa vida, nos deparamos com a frustração de ter de abdicar da solução que considerávamos adequada para a resolução de um problema pelo facto de a realidade não responder aos nossos desejos. Não é fácil fazê-lo, mas é necessário.
No caso daqueles que acreditam na absolutização do género, é-lhes difícil admitir que o facto de o mundo resistir aos seus objetivos significa que eles é que estão errados – e não o mundo. E, em particular, que deviam rever as suas convicções para aceitar que nem tudo é socialização: a biologia existe, a natureza existe, o corpo existe e o sexo existe. Mais uma vez, isso não significa adotar o outro extremo: de que tudo é natureza e nada pode ser alterado. Mas significa que todos aqueles fatores devem ser tidos em consideração: somos, afinal, páginas rascunhadas.
3 Reintroduzir o sexo
Nas últimas duas décadas, o silêncio lançado sobre os estudos evolutivos tem diminuído e multiplicaram-se os contributos destas áreas para a compreensão da natureza humana. O meu autor preferido continua a ser o psicólogo Jonathan Haidt, que, com o seu trabalho a partir da metáfora da mente como um elefante e o seu cornaca, nos estimula a compreender melhor porque agimos como agimos e o que podemos melhorar atendendo a essas circunstâncias.
Mas o trabalho de Haidt tem sido particularmente reconhecido pelo seu último livro sobre os impactos das novas tecnologias nas gerações mais novas. E também aí o reconhecimento da questão biológica é essencial. A ideia muitas vezes repetida de que os telemóveis são objetos que podem ser usados para o bem ou para o mal (e, portanto, seria tudo uma questão de educação) é simplesmente ingénua: na verdade, os telemóveis foram feitos propositadamente para ativar botões específicos nas nossas cabeças e estimulam os mesmos neurotransmissores que as drogas. Eles não são meras ferramentas, são desenhados para gerar dependência. Assim, se recusarmos a perspetiva de que “tudo é socialização” e reconhecermos o corpo e a natureza, então as políticas públicas devem ser pensadas para a proteção dos menores que são os mais afetados por esta “ferramenta”.
Em particular, as meninas. Sim, porque até na questão dos telemóveis os impactos são diferentes: não já por razões biológicas, mas por razões psicológicas que se prendem com o modo como as mulheres socializam e que têm impactos particularmente graves no domínio digital.
Uma outra questão em que importa reintroduzir o sexo é na questão da violência sexual. Em The case against the sexual revolution, Louise Perry começa o seu livro precisamente com este argumento: a violência sexual não é apenas uma questão de poder (caso em que a re-educação resolveria de forma definitiva o problema); ela é, acima de tudo, uma questão de sexo, podendo ser explicada com recurso a uma compreensão adaptativa de homens e mulheres. Em termos de políticas públicas, isto significa que campanhas de sensibilização ou re-educação para diminuir a violência sexual são muito menos eficazes do que estabelecer penas muito longas para os culpados e promover a adoção de comportamentos mais seguros por parte das mulheres. Tendo trabalhado muitos anos com mulheres vítimas de violência sexual, Perry diz que isto pode parecer “culpar a vítima”, mas a sua preocupação é com a eficácia e não com “exibicionismo moral”.
Um último exemplo em que vale a pena “reintroduzir o sexo” é para compreender a frustração de certas políticas públicas que procuram aumentar a participação feminina na política, como vimos a propósito das muitas, repetitivas e cansativas mensagens no Dia da Mulher. Estas medidas procuram forçar a participação das mulheres nas instituições políticas existentes, mas muitos estudos apoiam a ideia de que as mulheres tendem a não ter interesse neste tipo de participação política. Por um lado, elas tendem a ser mais agreeable do que os homens e, nessa medida, um sistema baseado numa lógica de permanente disputa verbal afasta o interesse de muitas mulheres. Não é por acaso que, no domínio da democracia deliberativa, um dos argumentos apresentados a favor das assembleias de cidadãos (que procuram consensos a partir de diálogos construtivos) é o de serem mais favoráveis à participação feminina. Este fator também permitiria compreender por que razão as mulheres que triunfam na política são vistas como particularmente duras: muito provavelmente estão na margem da distribuição “de simpatia” e, por isso, sentem mais predisposição do que a maioria das mulheres para a participação política tradicional.
Por outro lado, existem outras formas de participação política – como o ativismo político, a participação em organizações civis ou não governamentais ou o voluntariado –, e nesses domínios a presença das mulheres é quase sempre maioritária. Podemos continuar a insistir em leis de paridade, quotas e outras medidas para forçar a realidade, mas se reintroduzirmos o sexo na nossa reflexão, provavelmente compreenderemos melhor a origem dos nossos erros.